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Tremoços: o marisco dos pobres

Ter, 16/10/2018 - 10:08


Adoro fazer rádio que mexa com as pessoas. Todo o mundo estava à espera da tão desejada chuva. Na madrugada da passada quinta-feira ela apareceu e eu consegui que muita gente se levantasse da cama para a ir ver à janela, abrindo o programa desta forma: “Família vai à janela / e o que vais lá ver / dá lá uma espreitadela / e vê se está a chover.”

Em 29 das 30 localidades das pessoas que falaram comigo nesse dia estava realmente a chover. Só em

S. Martinho (Miranda do Douro) é que ainda não chovia àquela hora, segundo nos disse a tia Corina. Era com muita satisfação que todas as pessoas me diziam “é ouro, Tio João!”, pois para os castanheiros e para as oliveiras é uma bênção a rega automática vinda do céu. Também nestes últimos dias tivemos essa grande dádiva que é a chuva para a agricultura.

No dia 13 estivemos, pelo segundo ano consecutivo, a promover a Feira dos Gorazes com o nosso programa, das 6 às 10 horas da manhã, em directo de Mogadouro. Levámos a feira a milhares de lares da nossa região e de todo o mundo através da rádio e da internet. É sempre agradável contar com a participação em directo dos nossos ouvintes no programa da família e também conhecer caras novas daqueles que nos vão ver ao vivo nestes eventos.

A tia Fernandinha, de Tabuaço (Viseu), disse-me

que já tem figos secos. Este ano teve muitos e secou-os

ao sol, congelando-so a seguir, porque ficam como antes.

Atenção minha boa gente! É já no próximo Domingo, dia 21, que faremos, pelo sexto ano consecutivo, o Magustão da Família do Tio João em directo da Rural Castanea, em Vinhais. É aí que vamos saborear as primeiras castanhas do ano, apesar de a produção estar muito atrasada este ano em várias localidades da nossa região. Este evento serve, como sempre, para engrandecermos a nossa amizade e fazermos novos amigos. Por isso, se quiserem ter uma tarde recreativa bem passada e saborear as castanhas assadas no maior assador de castanhas do mundo, estão todos convidados e eu conto convosco.

Na última semana estiveram de parabéns a Fernanda Topete (58), de Souto da Velha (Torre de Moncorvo); Irene Cubo (71) e Ermesinda Romão (64), ambas de Caravela (Bragança); Moisés (70), de Uva (Vimioso) e Casimiro (89), de Parada. Para todos muita saúde, coza o forno e que o pão seja nosso.

 

Ainda me lembro de, na minha infância, a tia Laurinda Tremoceira instalar a sua banca em frente à Caixa Geral de Depósitos de Bragança. Trazia os tremoços dentro de um alguidar e vendia-os ao copo, a 5 coroas, em cones feitos com as folhas das Páginas Amarelas.

Com o tempo associei os tremoços à cerveja, especialmente no Verão. Os tremoços são um alimento muito nutritivo e com poucas calorias. Segundo me contou recentemente a tia Julieta, de Suçães, que já ouvia esta lenda dos seus pais e avós, quando Nossa Senhora e S. José fugiram para o Egipto para salvar o Menino Jesus das garras dos soldados de Herodes, perderam-se num campo de tremoços e o barulho que faziam ao caminhar era de tal ordem que pensavam estar a ser perseguidos pelos soldados. Quando Maria descobriu o verdadeiro motivo de tanto barulho, exclamou: “Eu vos amaldiçoo, tremoços, para que nunca farteis quem quer que vos coma!” A verdade é uma, enganam a fome, mas nunca nos sentimos fartos com eles.

Antigamente os tremoços também faziam parte dos casamentos, onde eram comidos em grandes quantidades nas despedidas de solteiro e no dia a seguir ao casamento. No meu casamento os tremoços também marcaram presença na festa.

A tia Maria José Chanqueira, de Sendim (Miranda do Douro), disse-nos que na sua vila ainda há quem semeie tremoços para vender e que antigamente, no Domingo antes do casamento, se juntavam rapazes e raparigas para irem levar os tremoços numas sacas a um poço ou ribeiro para se curarem e cozê-los depois numas caldeiras, para dar “o patente” no Domingo a seguir à boda, numa ronda animada com concertinas e guitarras e os rapazes a cantar o fado, tudo bem regado com vinho, transportado em cântaros. Na praça da sua localidade punham-se os cântaros de vinho e os açafates (cestos de verga) cheios de tremoços para toda a gente comer. Também nos disse que ainda no passado dia 22 de Setembro houve um casamento na sua terra e a noiva fez questão de cumprir a tradição dos tremoços de antigamente.

A nossa espanhola, casada em Sacoias (Bragança), Afonsa (Fonsi), disse-nos que tem na sua horta tremoços semeados porque são um bom “abono” (adubo) vegetal e natural e que “desinfectam” a terra. Os tremoços são muito ricos em azoto e já mais tios nos contaram que quando querem renovar as terras, semeiam tremoços antes de semearem outra cultura.

Antigamente muita gente ganhava a vida com tremoços, mas agora já quase não se veem tremoceiras em Bragança, a não ser a tia Celeste, das Moreirinhas, que ainda vai ao estádio municipal, em Domingo de jogo, vender tremoços curados ao copo.