Falando de… Combateremos a sombra, de Lídia Jorge

Conversa telefónica de ocasião, conduziu-nos a uma escritora que muito admiramos, mas para tanto livro e tão pouca vida, não nos temos dedicado à sua produção literária.
Lídia Jorge, nome maior das nossas letras, chegou às nossas mãos. Conhecíamos a sua escrita e com ela e por ela vimos representada no Teatro de Bragança, Adelaide Cabete, A Maçon, pelo grupo de teatro da Escola Abade de Baçal.
Como o tema da conversa era o livro epigrafado, não podíamos adiar a sua leitura. Com primeira edição em 2007, iniciámo-la por uma leitura preliminar e marginal. Já em Maio de 1994, em Cadernos de Lanzarote II, Saramago descrevendo uma ida a Praga, dá conta que Lídia Jorge estava a escrever um romance cujo título era O Homem do Poente. Saramago e comitiva, considerando o título fraco (sic) pediram outro título, ao que a autora, inicialmente, hesitante, pensou em Combateremos a Sombra, mas que o tinha posto de parte. Passados treze anos, surgiu ao público com todas as honras que merecem as grandes obras. Escritora bastamente premiada, viu este seu livro receber em 2008, o Prémio Charles Bisset, em Paris, da Associação Francesa de Psiquiatria.
Ao longo de três meses, percorridos através de cerca de 480 páginas, Osvaldo Campos, psicanalista, professor de Instituto, outrora oftalmologista, cidadão atípico, emotivo, solidário e experimental, algo instável, em luta constante contra o tempo, rico de palavras e silêncios, vai ultrapassando o mundo penumbroso onde gravitam os seus pacientes, ao mesmo tempo que vai enfrentando com êxito a sua vida em ruptura conjugal.
Com laivos de texto kafkiano, vamo-nos instalando e acomodando à medida que nos é percepcionado o universo dos pacientes de Osvaldo Campos, a braços com a solução para uma questão que lhe é posta “Quanto pesa uma alma”. Como se fosse um texto realista, o narrador vai fornecendo, de um modo disperso, argumentos que nos permitem retratar cada uma das personagens, bem como espaços por onde passam. A realidade contamina a ficção. À medida que a leitura se processa, menor a ambiguidade, melhor a legibilidade. O narrador atingiu o seu desiderato. O leitor não abdica dos seus propósitos e o texto vai ao seu encontro, conquanto a torrencialidade do léxico, simples, acessível e variado. A modernidade do tema capta-nos. Não abandonamos a leitura, feita entusiasmo. Apetece dizer, venceremos as dificuldades de interpretação, se acaso nos aparecerem.
No consultório, também local de habitação, coopera uma secretária: Ana Fausta. Pacientes muitos. Cada um com as suas mazelas. Elísio Passos, jornalista, o general Ortiz, o jardineiro Lázaro Catembe, Maria London, a sua paciente magnífica, a que lhe permite pôr à prova toda a sua capacidade de clínico, e equilibrar o seu deve e haver, tão depauperado.
Num mundo em declínio, de muitos a viverem na sombra, carentes de meios, de desigualdades, tentando sarar feridas de há muito herdadas, buscam na psicanálise a ajuda de que necessitam.
Um texto retratando a contemporaneidade, onde a utopia é a marca de água de um médico que não regateando preços, ainda se serve da sua generosidade para colmatar diferenças numa sociedade composta por aqueles que pagam e pelos que não pagam porque não podem, tarefa que compete a Ana Fausta.
Maria London, a paciente preferida. A que lhe ocupa mais tempo e a que lhe traz mais preocupações. Ele ouve-a. A verbosidade de Maria London, o seu distúrbio discursivo, a incoerência da palavra, constituem o laboratório, onde o enigma se constrói e que urge decifrar. Decifrar, completando o que não é dito, descodificando o que fica por dizer e o que é feito, nem que para isso tente vislumbrar o que é feito, certificando-se do que é afirmado. E é no silêncio, na introspecção e na reflexão que o Professor Campos descodifica toda a existência da sua paciente. Maria London, confitente primorosa, transporta o fio de Ariadne que fará do psicanalista a alma-mater que uma teia que deseja desmaterializada
O mistério, o dinheiro que perverte e suja entram na vida de Osvaldo Campos que há muito deixou de ser um homem só. A literatura policial a compor um tecido textual que se adivinhava, unicamente, de costumes. A surpresa a enriquecer e a inovar o romance em língua portuguesa.
Rossiana de Jesus Inácio, a que aparece na escuridão, que fuma desalmadamente, de vida sofrida, mulher escondida em apartamento não muito distante do consultório, entra na sua existência, sustentáculo e luz de vida. A Casa da Praia em Mar de Salgados, a 300 km a sul de Lisboa, marcará o momento do encontro adiado. Vítima de uma teia que Osvaldo tenta captar, verá nele o refúgio e o alento de um homem que augura um futuro que dificilmente alcançará.
Combateremos a Sombra é um livro novo, do nosso tempo, com uma história do que acontece no nosso quotidiano. Começa por fazer apelo à memória, para depois ir desenvolvendo uma trama que nos vai preocupando e está dentro da nossa vivência.
Osvaldo Campos não pára. Quer ser ele o descodificador daquela teia que o envolve. Pertence-lhe o fio da meada. É preciso ir mais além. Levar a cabo uma tarefa a que se propôs. O inspector Toscano e a jornalista Marisa Octaviano acompanham-no. Não com a astúcia própria de um psicanalista. O país é mais forte. O embuste, a desonra, a impunidade campeiam e dominam.
Osvaldo Campos, personagem principal, é movido pelo seu talento de bem fazer, misturado de alguma ingenuidade e romantismo que tenta evitar, soçobra face ao desvendamento da existência difícil de Rossiana, numa relação onde o amor encurta a distância. Se á verdade que perde numa luta desigual, a mediocridade não é capa que o cubra.
Fortalecido pela sua capacidade de ouvir, de suspender a comunicação criando hiatos de silêncio, interpreta o paciente agindo através da palavra. Da sombra são os seus pacientes e é a partir da sombra que ele arquitecta a sua vida privada, a sua vida profissional e a vida de combatente, embora lute contra forças desiguais. A palavra a quem sabe e deve com ela saber lidar, mesmo que o silêncio não seja mais do que abdicar da palavra inapropriada.
A leitura deste livro que vivamente aconselhamos, pese embora o seu volume, suscita-nos o regresso a um passado que configura um período de turbulência que nos foi legado pelo grande historiador Heródoto que viveu no século V A.C.
Xerxes, imperador persa, comandante de um exército de cerca de 250 000 homens invadiu a Grécia por volta de 480 A.C., deparando-se nas Termópilas com um exército de 7 000 gregos e de 300 espartanos, comandados por Leónidas. Do alto do seu comando, mandou Xerxes um mensageiro a Leónidas, exigindo a sua rendição, dada a diferença de efectivos, além disso, as flechas dos persas eram tantas que ao dispararem tapariam o Sol deixando tudo na sombra. Leónidas respondeu que poderiam ir buscar as armas e que os espartanos combateriam à sombra.
A exiguidade de meios não demoveu Leónidas que hoje, perpetuado, tem uma estátua nas Termópilas, aí permanecendo umas fontes de água quente onde o viajante aproveita para se banhar,
Osvaldo Campos, figura singular, tal como Leónidas, mostrou o seu destemor, a sua audácia e a sua intrepidez. Assim sejamos nós.

Não foi adoptado o Novo Acordo Ortográfico.

Por João Cabrita