class="html not-front not-logged-in one-sidebar sidebar-second page-editorial">

            

Editorial

Aqui, no Nordeste Transmontano, o tempo não se mede apenas em datas, mede-se em rituais, em gestos repetidos, em máscaras que regressam ao rosto e devolvem sentido às comunidades.

O ano que agora se fecha ficará registado, no Nordeste Transmontano, como um tempo de acertos de contas com o passado e de interrogações sobre o futuro.

Às portas do Natal, quando a mesa se quer farta e o tempo parece suspender-se na liturgia dos gestos antigos, há números que irrompem pela tradição dentro. O preço dos ovos, esse ingrediente humilde, praticamente invisível, mas essencial, quase duplicou em três anos.
No distrito de Bragança, terra de gentes que sabem o peso da distância e o valor da palavra escrita, ameaça instalar-se uma sombra medonha, a da desinformação por abandono.

Há datas que chegam como um sino que dobra por todos, lembrando-nos que a violência que se oculta por trás de portas fechadas não é um sopro distante, mas um fenómeno que atravessa silenciosamente a nossa comunidade.

Há territórios onde o silêncio ganha peso de pedra e Bragança é hoje um desses lugares onde o tempo parece caminhar mais devagar, como se carregasse às costas a memória de quem partiu. Os números da GNR não surpreendem quem conhece estas terras.

Há lugares onde o tempo não passa, antes se debruça, comovido, sobre aquilo que a humanidade decidiu preservar.

Há decisões que, pela sua natureza, não reparam o tempo perdido, mas restituem dignidade à própria ideia de justiça.

Há em Bragança, nestes dias de outono, uma cidade que observa, atenta, as direções em que cada um se move.

Há números que falam mais do que longos discursos. Quatrocentos e vinte bebés nasceram em Bragança entre janeiro e setembro deste ano. Quatrocentas e vinte novas vidas num distrito inteiro. É o número mais baixo de Portugal. E, mais uma vez, o último lugar.

Há primaveras que trazem flores e promessas. Outras, como a de 2025, deixam apenas o rasto amargo de um compromisso por cumprir.

Há momentos em que a vontade de um povo marca um ponto de viragem na história de uma terra. As eleições autárquicas de domingo ficam inscritas na história de Bragança como uma dessas raras ocasiões em que a vontade popular rompeu com o hábito e com o peso do passado.