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Editorial

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Este ano calha que o jornal sai oficialmente no dia de consoada, 24 de Dezembro, que toda a gente entende como o Natal verdadeiro, do bacalhau, do polvo, do azeite gostoso e, por cá, das rabas que trazem um toque da terra mãe, lembrando o abandono em que a fomos deixando, pecado sem remissão, por mais lágrimas que nos turvem o olhar, que a grande farra do consumo secará, qual lencinho de papel quimicamente perfumado, com insuspeitadas virtudes de iludir o cheiro incomodativo a morte, que espreita, gulosa, na próxima esquina da história.

No estado actual do nosso conhecimento, construído à custa da razão, não é possível conceber o mundo e a humanidade sem os integrar nessa estrutura radical, cósmica, essencial, a matéria, secularmente demonizada, pretendida refugo incómodo, dispensável na eternidade, notável fantasia de desiludidos, empenhados em sacudir as escórias da vida.

A oliveira, o seu fruto e o azeite que dele se extrai são referências fundamentais das civilizações mediterrânicas, associadas a confortos de divindades e às aspirações humanas na partilha das essências do que consideram as delícias da imortalidade.

A essência da política é a liberdade de pensar, que orienta a acção na res publica, a comunidade, polis ou civitas, como diriam os nosso maiores, gregos e romanos.

No sábado, em Bragança, um espanhol de barba branca e farta, de seu nome Javier Andrés, disse a quem o quis ouvir que a cooperação transfronteiriça não tem ido além de cerimónias enfatuadas e festarolas, quando deveria ser encarada como esperança derradeira para comunidades que estão à boca do abismo sem retorno.

É penoso, a raiar o ridículo, sentir a obrigação de retomar, a cada passo, um problema que devia estar resolvido há décadas, mas promete arrastar-se sem solução até que deixe de o ser, quando já ninguém tiver consciência dos seus efeitos trágicos para o país inteiro e para as gerações que lutaram para retorcer um destino que não mereceram.

Abascal surgiu do nada para liderar um grupo parlamentar de cinquenta e dois deputados nas cortes do reino vizinho, com arreganho e discurso cortante, a anunciar tempos de guerra política a sério, também nesta península que, num engano de alma ledo e cego, alguns quiseram ver a deslado da tempestade perfeita que avança, arrasadora, capaz de nos deixar de alma encharcada, enregelada, a pingar amarguras, com lágrimas e tudo.

Os dias vão de chuva, bem precisa era, que a água estará a tornar-se preciosidade capaz de fazer correr sangue nesta Europa do sul, adoradora do sol que a há-de secar, dizem alguns visionários sobre próximos futuros. Mas também há quem diga que um dia destes haverá gente a rezar para que não chova, que a invernia mexe-nos com os ossos velhos e acinzenta-nos a alma.

Já estávamos a habituar-nos a rever com bonomia os registos de discursos histéricos de Hitler, das estridências de Mussolini, dos tropeções de Trotsky ou das encenações que suportavam o orgulho de Estaline.  Não dávamos muita importância às multidões que os aplaudiam, vibrantes.

Num tempo em que as aparências invadem o espaço público, servindo para nos distrair da essência dos processos políticos, viveu-se verdadeiro frenesim com a divulgação, às pinguinhas, dos membros do novo governo.

O regime democrático português adoptou o método de representação proporcional de Hondt para apurar os mandatos de deputados. Percebia-se que assim se garantia mais autenticidade na expressão institucional das opções realmente existentes na comunidade e a consequente pluralidade na Assembleia da República, mas também nos órgãos deliberativos e executivos dos municípios.

Parece que já lá vai o tempo dos sistemas democráticos quase tranquilos, marcados por decisões pragmáticas dos eleitores, que não esperavam consumar na sua participação cívica as mudanças deleitosas para o seu ego, mas aceitavam que o mundo, com todas as agruras e desilusões, ali estava, para além da ponta do nariz de cada um.