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Editorial

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O pior que pode acontecer à democracia é prestar-se ao ridículo, justificando as diatribes dos seus inimigos, que infestam a história política dos milénios que já levamos à face da terra.

A nossa relação com a realidade é um processo dialéctico, que nos permite abordagens progressivamente mais próximas da compreensão dos fenómenos, na medida em que nos vamos construindo como observadores racionais, capazes de reconhecer o erro e de encontrar métodos adequados ao esclarecimento, sempre provisório, da complexidade que nos rodeia.

Bragança voltou às manchetes por razões estranhas, desta vez com tons de morte, na sequência de um episódio absurdo, em que, aparentemente, a vítima maior foi o mais bem intencionado dos intervenientes numa altercação, quando se respirava instinto, uma característica de que a humanidade não se libertou, nem se libertará nunca, a não ser que ascendamos à condição divina.

Quando passarem umas horas estaremos a assistir à sequência de foguetório que tem início na Nova Zelândia e se arrasta até ao Leste do Pacífico, sempre imagens empolgantes de luz, som e transes de uma alegria efémera.

Este ano calha que o jornal sai oficialmente no dia de consoada, 24 de Dezembro, que toda a gente entende como o Natal verdadeiro, do bacalhau, do polvo, do azeite gostoso e, por cá, das rabas que trazem um toque da terra mãe, lembrando o abandono em que a fomos deixando, pecado sem remissão, por mais lágrimas que nos turvem o olhar, que a grande farra do consumo secará, qual lencinho de papel quimicamente perfumado, com insuspeitadas virtudes de iludir o cheiro incomodativo a morte, que espreita, gulosa, na próxima esquina da história.

No estado actual do nosso conhecimento, construído à custa da razão, não é possível conceber o mundo e a humanidade sem os integrar nessa estrutura radical, cósmica, essencial, a matéria, secularmente demonizada, pretendida refugo incómodo, dispensável na eternidade, notável fantasia de desiludidos, empenhados em sacudir as escórias da vida.

A oliveira, o seu fruto e o azeite que dele se extrai são referências fundamentais das civilizações mediterrânicas, associadas a confortos de divindades e às aspirações humanas na partilha das essências do que consideram as delícias da imortalidade.

A essência da política é a liberdade de pensar, que orienta a acção na res publica, a comunidade, polis ou civitas, como diriam os nosso maiores, gregos e romanos.

No sábado, em Bragança, um espanhol de barba branca e farta, de seu nome Javier Andrés, disse a quem o quis ouvir que a cooperação transfronteiriça não tem ido além de cerimónias enfatuadas e festarolas, quando deveria ser encarada como esperança derradeira para comunidades que estão à boca do abismo sem retorno.

É penoso, a raiar o ridículo, sentir a obrigação de retomar, a cada passo, um problema que devia estar resolvido há décadas, mas promete arrastar-se sem solução até que deixe de o ser, quando já ninguém tiver consciência dos seus efeitos trágicos para o país inteiro e para as gerações que lutaram para retorcer um destino que não mereceram.

Abascal surgiu do nada para liderar um grupo parlamentar de cinquenta e dois deputados nas cortes do reino vizinho, com arreganho e discurso cortante, a anunciar tempos de guerra política a sério, também nesta península que, num engano de alma ledo e cego, alguns quiseram ver a deslado da tempestade perfeita que avança, arrasadora, capaz de nos deixar de alma encharcada, enregelada, a pingar amarguras, com lágrimas e tudo.

Os dias vão de chuva, bem precisa era, que a água estará a tornar-se preciosidade capaz de fazer correr sangue nesta Europa do sul, adoradora do sol que a há-de secar, dizem alguns visionários sobre próximos futuros. Mas também há quem diga que um dia destes haverá gente a rezar para que não chova, que a invernia mexe-nos com os ossos velhos e acinzenta-nos a alma.