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Editorial

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Já tínhamos ouvido, mas até ao entardecer da passada sexta-feira, dia 13, ainda se vivia uma aparente normalidade, com mais atenção às proximidades, à higiene das mãos, aos juntouros numerosos, enquanto as prateleiras dos supermercados deixavam perceber comportamentos marcados pela ansiedade, pela angústia contida, mas também pelo egoísmo gebo, que se rebola aos ritmos da matraca diabólica.
Pelos vistos, estamos a passar pela verdadeira quaresma, que nos habituámos a suavizar, porque tínhamos a certeza que todas as primaveras floririam, num tranquilo processo de renovação, seguindo o curso natural da vida.

O medo nunca foi bom conselheiro e continua a demonstrar capacidade de instalar o caos nas comunidades humanas, trazendo à superfície muito do que nos mantém na condição mais instintiva do que racional, apesar de todas as aparências.

Quando menos se espera a natureza arremete com crueldade sobre o nosso quotidinano, que gostaríamos de encarar como um tempo de prodígios nunca vistos, nas proximidades da terra prometida, onde todas as delícias da vida que nos permitimos desejar estariam ali à mão.

Estamos a viver uma semana que promete ser agitada, com um verdadeiro carrocel de governantes a rodopiar pelos doze concelhos do distrito, antes e depois da reunião do Conselho de Ministros, em Bragança, na quinta-feira, para quando se anuncia a tomada de decisões importantes para o futuro do interior em geral e do Nordeste Transmontano em particular.

A vida também pode ser um fardo e a vontade de morrer não é uma novidade destas gerações que vivem tempos propícios a delírios sobre prenúncios de novíssimo apocalipse, definitiva tragédia, sempre esperada, prometida e reiterada, onde seria possível vislumbrar possibilidades de nos calhar um lugar entre os eleitos para a eternidade.

A democracia representativa, sistema de organização política que se consolidou nos últimos dois séculos e meio, já deu provas inequívocas de constituir cimento fundamental para garantir um presente e um futuro de dignidade para as comunidades neste mundo de esperanças, mas também de desilusões demolidoras.

Brumosa chegou a manhã, neste Fevereiro quente e vaporoso, ilusória Primavera a meio do Inverno natural, nesta terra semeada de cabeças encanecidas, rostos sulcados por rugas profundas, olhares indiferentes e sorrisos indefinidos.

Terá havido festa em Alcanices, nesse longínquo dia de Setembro de 1297 da era de Cristo, 1335 depois de César, quando Dinis, rei de Portugal e Fernando, rei de Leão e Castela assinaram o tratado que definiu a raia que separa os dois países.

O pior que pode acontecer à democracia é prestar-se ao ridículo, justificando as diatribes dos seus inimigos, que infestam a história política dos milénios que já levamos à face da terra.

A nossa relação com a realidade é um processo dialéctico, que nos permite abordagens progressivamente mais próximas da compreensão dos fenómenos, na medida em que nos vamos construindo como observadores racionais, capazes de reconhecer o erro e de encontrar métodos adequados ao esclarecimento, sempre provisório, da complexidade que nos rodeia.

Bragança voltou às manchetes por razões estranhas, desta vez com tons de morte, na sequência de um episódio absurdo, em que, aparentemente, a vítima maior foi o mais bem intencionado dos intervenientes numa altercação, quando se respirava instinto, uma característica de que a humanidade não se libertou, nem se libertará nunca, a não ser que ascendamos à condição divina.

Quando passarem umas horas estaremos a assistir à sequência de foguetório que tem início na Nova Zelândia e se arrasta até ao Leste do Pacífico, sempre imagens empolgantes de luz, som e transes de uma alegria efémera.