Parte IV - A construção da variante ferroviária à cidade de Bragança (Anos de 1953 a 1968)

A via-férrea, na chegada à estação de Bragança, envolveu a cidade por poente/nascente, separando-a da área com melhor aptidão de expansão urbana, a área em direção ao Forte de S. João de Deus. Com o tempo, a linha férrea passou a ser um obstáculo às necessidades de crescimento da cidade. No ano de 1947 a Câmara Municipal passou a dispor do anteplano de urbanização da cidade, elaborado pelo arquiteto Januário Godinho que previa, a expansão da cidade para a encosta do Forte de S. João de Deus, a construção de uma rua aproveitando o traçado da linha ferroviária desde a Praça Cavaleiro de Ferreira até à passagem de nível das Beatas, lugar onde estava previsto que a linha viesse a terminar e aí fosse construída uma nova estação ferroviária, em substituição da existente. A cidade precisava expandir-se, construir novos equipamentos públicos, novas áreas de edificações, novas vias. Em primeiro plano na foto, observa-se a contiguidade da linha com o espaço urbano.
Por proposta do vereador Adriano Augusto Rodrigues, no mandato de 16 de janeiro de 1953 a 25 de novembro de 1954, a Câmara Municipal deliberou, por unanimidade, que a Estação Ferroviária se mantivesse e em alternativa se construísse um desvio da linha, uma vez que seria mais económico e servia melhor a cidade dado que o local onde se encontrava estava próximo do centro cívico onde se encontravam os mais importantes edifícios públicos e onde a lavoura, o comércio e a indústria tinham a sua principal atividade e por ser próximo do campo da feira. Na foto, com vista de nascente, vê-se o percurso da linha e ligação à estação ferroviária, ao fundo o antigo quartel BC3 e caminhos de acesso.
Para concretização da proposta aprovada pela Câmara Municipal, após uma visita a Bragança de um técnico da Direcção Geral de Transportes Terrestres (DGTT), ficou resolvido que seria conveniente a Câmara Municipal elaborar um anteprojeto a fim de ser avaliada a proposta de desvio da linha, o que foi feito e comunicado à DGTT. Adriano Pires tomou posse como Presidente da Câmara Municipal a 26 de novembro de 1954, e por ofício de 22 de dezembro de 1954, dirigido ao Diretor Geral dos Transportes Terrestres referia “... não pode esta cidade ter qualquer desenvolvimento sem o desvio da linha de ferro, porque esta se opõe à abertura dos arruamentos previstos... o desvio da linha de ferro, deve considerar-se, sem favor, a obra de maior valia para o progresso da cidade.”
A 20 de abril de 1955 a DGTT comunicou à Câmara Municipal as exigências técnicas de projeto que deveriam ser seguidas (raios; inclinações; não tocar em qualquer ponto do Aeródromo; que a linha ficasse em trincheira para não prejudicar o tráfego aéreo e construir uma passagem superior ou inferior no cruzamento com a EN 103.
A 8 novembro de 1955, o Diretor Geral da CP, dirigiu-se ao Diretor da DGTT, informando que, analisado o anteprojeto da variante o consideravam tecnicamente realizável, no entanto, a construção dessa variante só poderia aceitar-se como último recurso, face à hipótese de prolongamento da linha até Guadramil para servir os jazigos mineiros conforme previsto no Plano da Rede Ferroviária de 1929. Na mesma data, dirigindo-se ao Diretor Geral dos Serviços de Urbanização, referia que da construção não deveria resultar qualquer encargo financeiro para a Companhia, uma vez que o interesse da variante resultava apenas de uma necessidade de urbanização da cidade de Bragança.
A Câmara Municipal decidiu assumir os encargos da elaboração definitiva do projeto da variante e informou que, quanto ao financiamento da construção dificilmente poderia ir além dos 500 contos fixados por despacho do Ministro das Obras Públicas.
A 18 de novembro de 1955, o Diretor Geral dos Serviços de Urbanização transmitiu ao Diretor Geral dos Transportes Terrestres, que o despacho de autorização de substituição do último troço da linha do Tua por uma variante tinha sido dado pelo Ministro das Comunicações e que a construção seria efectuada sem encargos para a Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses.
Para elaboração do projeto, a Câmara Municipal tentou junto da DGTT, obter a disponibilidade de um engenheiro experiente, sob responsabilidade financeira da Câmara Municipal, não o tendo conseguido, o mesmo tendo ocorrido junto da CP. Adjudicou o projeto no final do ano de 1955, tendo-o entregue a título particular aos engenheiros Francisco Vargas Morgado e Manuel Maria Sampaio, adjuntos da Direção de Estradas do Distrito. O projeto da variante foi enviado a 17 de abril de 1956 ao Ministro das Obras Públicas para aprovação e solicitação de comparticipação do Estado para a sua construção, parecendo-lhe justo que a JAE também viesse a comparticipar os trabalhos uma vez que se previa que a EN 103 viesse a ocupar a plataforma da via-férrea, partindo da Praça Cavaleiro de Ferreira ao Loreto, beneficiando assim de investimentos anteriores e do valor dos terrenos.
Seguiu-se troca de correspondência relacionada com custos previstos, reutilização de materiais da linha a desativar, transbordo de pessoas e mercadorias, nas proximidades da estação, caso esta hipótese fosse adoptada, foram elaborados estudos economicos associadas a esta perspetiva.
A 7 de março de 1957, o Diretor Geral dos Serviços de Urbanização comunicava ao Presidente da Câmara Municipal que por portaria publicada no Diário do Governo n.º 30, II série de 5 de fevereiro de 1957, a Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses, tinha decidido conceder, a solicitação do Ministro das Comunicações, um subsídio de 500 contos para a construção da variante.
No Diário do Governo II série de 27 de fevereiro de 1957, o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro das Obras Públicas concedia à Câmara Municipal de Bragança uma comparticipação de 500 contos pelo Fundo de Desemprego, situação que o jornal Mensageiro de Bragança noticiou na edição de 23 de fevereiro de 1957. A 9 de julho de 1957, a Direção de Urbanização de Bragança, informava a Câmara Municipal que lhe tinha sido concedido um reforço de comparticipação de 50 contos pelo Fundo de Desemprego. Logo de seguida, em reunião de Câmara de 22 de agosto de 1957 foi deliberado assumir o compromisso de contribuir com cento e vinte e cinco mil escudos, para conclusão das obras da variante. Esta foi a reunião em que a Câmara deliberou alterar o feriado municipal para o dia 22 de agosto, data da tradicional festa de Nossa Senhora das Graças.
Pelo Decreto-Lei n.º 41662 de 3 de junho de 1958, foi atribuída à Companhia dos Caminhos de Ferro Portuguese, a incumbência da execução da obra do desvio do troço do caminho-de-ferro da linha do Tua junto à cidade de Bragança, concedendo o prazo de dois anos a partir dessa data, ou seja a conclusão a 3 de junho de 1960. Autorizou a Câmara Municipal a contrair na Caixa Geral de Depósitos, Crédito e Previdência um empréstimo de 900 contos, destinado à sua comparticipação na referida obra, cujos encargos seriam cobertos pela receita da mais-valia que viesse a ser gerada com os terrenos a urbanizar. Fixou o valor das comparticipações nos seguintes montantes: Junta Autónoma de Estradas 500 contos; Fundo de Desemprego 500 contos; Câmara Municipal 932 contos e Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses 500 contos, valores que a Companhia recebeu logo no início dos trabalhos. 
O início das obras atrasou-se, o Jornal Mensageiro de Bragança, edição de 29 de janeiro de 1960 noticiava o seu início. A sete de março de 1962, o Presidente da Câmara Municipal dirigiu-se por ofício ao Ministro das Obras Públicas, solicitando a sua intervenção junto da Companhia, visto o prazo de execução ter mais do que duplicado e os trabalhos estavam parados e às várias insistências da Câmara Municipal, a Companhia nada dizia, causando os atrasos danos incalculáveis à expansão da cidade.
A inauguração da variante decorreu no dia 22 de agosto de 1968, dia de Nossa Senhora das Graças. Exercia as funções de Presidente da Câmara Municipal, o Prof. Alberto Eugénio Vaz Pires, que salientou dever-se esta obra aos seus antecessores, nomeadamente ao Comendador Adriano Augusto Pires. Do seu discurso destaca-se “ … É certo que se trata apenas de um troço de 3 Km, em substituição da linha existente que, atravessando a cidade, constituía fonte de perigos permanentes para a população vizinha, além de entravar, desde há muito, no seu desenvolvimento e expansão, a nossa cidade, que vive anseio de progredir, de caminhar, de igualar, no seu progresso, as cidades portuguesas suas congéneres.
Com a existência das novas automotoras e horários mais frequentes, a circulação na EN 103 era frequentemente interrompida, o mesmo acontecia, próximo da estação, no arruamento de acesso ao Forte de S. João de Deus. … De ora avante, a nossa cidade, livre da cintura que dificultava, e até impedia, em grande parte, o seu desenvolvimento, qual colete de forças que a oprimia e manietava, poderá entrar num período de expansão que a dignifique, que a eleve, que a engrandeça até ao nível da sua categoria de capital de distrito … é que esta cidade, geograficamente situada no extremo nordeste do país, é uma cidade desconhecida, pouco visitada, cidade de destino e não de passagem obrigatória, que sofre os resultados desse abandono e o consequente desconhecimento.
Desde o tempo do comboio único, que saia às 8 horas da manhã, para regressar às 8 horas da noite, desde o período da guerra, que por circunstâncias variadíssimas, os comboios não tinham horário de chegada, porque os atrasos eram de 5, 10 a às vezes 24 horas, até aos dias de hoje, até se chegar às comunicações ferroviárias frequentes, rápidas, com horários próprios”.
Nos discursos voltou a estar presente a antiga e persistente reivindicação de ligação a Espanha, pensando no escoamento do minério de Guadramil.
Assistiram à inauguração várias entidades, população e a Companhia Portuguesa de Caminhos de Ferro fez-se representar por uma delegação de responsáveis, representando o Conselho de Administração o Eng.º Brito e Cunha. Foi dito que o custo das obras da variante foi de cerca de 2500 contos.
Aos dezassete dias do mês de julho de 1969, em Auto de Vistoria geral, os trabalhos eram dados por concluídos pela Comissão constituída para o efeito. O Auto foi assinado pelo Eng.º Joaquim Duarte Carrilho, Diretor de Urbanização de Bragança e pelo Dr. Abílio Machado Leonardo, Presidente da Câmara Municipal de Bragança.

Férias da Família do Tio João

Ter, 19/07/2016 - 09:48


Olá família, depois das férias já estamos no novo ano lectivo da universidade da vida da Família do Tio João. Agora compartilho convosco o resumo das nossas férias, em Montegordo, pelo Tio Horácio de Rio Torto e também um testemunho de uma colega de infância que foi ter com os pais que estiveram de férias a conviver connosco.
Dia 25 de Junho de 2016, iniciámos mais uma aventura da família, à qual me orgulho de pertencer.
Tratou-se de mais uma organização bem concebida, em parceria com a agência de Viagens Emílio Martins.

NÓS TRASMONTANOS, SEFARDITAS E MARRANOS - Francisco Furtado Mendonça ( n. 22.10.1707)

Na sociedade brigantina de meados do século XVIII, o Dr. Francisco Furtado Mendonça é figura incontornável. O autor do Dicionário dos mais ilustres Transmontanos e Alto Durienses escreve que ele “chegou a presidente da autarquia”. Cremos que nisso há confusão, já que, em 1741, ele obteve da câmara o cargo de “médico do partido”, um emprego bem remunerado e de grande influência social e política. E esse concurso terá despertado algumas invejas e alimentado algum rancor, nomeadamente da parte de José Álvares da Silva, que era “escrivão dos mantimentos da gente militar” e pensaria na colocação de um médico seu parente e do seu nome, que fora companheiro de estudos de Furtado Mendonça em Coimbra. Aliás, poucos anos depois, com a morte do “médico do partido do hospital militar”, habilitando-se também o Dr. Furtado ao concurso, o mesmo Álvares da Silva conseguiu que ele fosse preterido e disso se vangloriava.
Furtado Mendonça era também médico assistente dos vários conventos da cidade: S. Francisco, S. Bento e Santa Clara, estes dois de freiras e damas da nobreza que neles se recolhiam, normalmente por decisão familiar, para evitar casamentos e dispersão dos bens da família. E, por estranho que pareça, estes espaços, muito especialmente o mosteiro de S. Bento, eram então espaços de animação cultural, sobretudo no que respeita a atividades teatrais. Com efeito, era nos seus palcos que nas épocas festivas (Natal, Páscoa, etc.) se representavam autos e comédias, geralmente de índole cristã e moralizadora mas também de sátira e crítica social.
Pois bem: o autor mais representado nesses palcos era exatamente o nosso médico que para o efeito escreveu autos e “obras métricas que se representaram e foram estimadas e aplaudidas por muitas pessoas que as viram” sobre o nascimento de Cristo, a degolação de João Baptista, o nascimento da Virgem, S. António, S. João… Alguns desses autos eram em prosa, se bem que Barbosa Machado o considere “inclinado à Poesia, sendo o seu genio para a Comica”. De seguida, o mesmo autor indica as suas obras cómicas escritas por Furtado e que eram as seguintes:
* Oriente del Sol màs claro – Auto Sacramental para o Nacimento de Cristo
* Suspirado Y divino Oriente del más hermozo Prodigio – Comedia para o nacimento de Nossa Senhora
* El Dezempeño Nymphatico – Comedia
* Triunfo del fiero amor, Bayle, e os seguintes
* La victoria de Venus
* La disgracia de Lyra
* Zelos aun del ayre abrazam
* El Robo del Vellocimo. (1)
Obviamente que o sucesso de Furtado Mendonça despertava animosidade em gente da nobreza e da governança da cidade, como era o caso de Francisco Bernardo de Figueiredo que era “prezado de poeta mas que com os seus versos não agradava e que os louros só se davam ao réu”. Por isso, aquele terá jurado vingança, “chegando a dizer que o desterraria e faria com que não tornasse a fazer versos nem ter das freiras os aplausos que lhe davam e ele não tinha”.
Animosidade também se notava em António Luís de Morais Madureira Feijó que não via com bons olhos as estreitas relações que sua irmã freira (D. Antónia Maria da Conceição) com o médico poeta.
Relações ainda mais tensas haveria entre ele e a tríade de homens mais poderoso da terra que eram: o Comissário da inquisição, Roque de Sousa Pimentel, abade de Vinhas; o seu irmão, alcaide do castelo de Bragança, Lázaro Jorge Figueiredo Sarmento e o parente de ambos, brigadeiro Francisco Xavier da Veiga Cabral, governador de amas de Trás-os-Montes. As razões assentavam na questão do monopólio do sabão, então criado e que aqueles três homens tinham conseguido para si. Porém, o estabelecimento deste monopólio fazia subir o preço e prejudicava sobretudo os fabricantes de seda, que eram os principais consumidores do produto e o compravam em Espanha. A revolta dos fabricantes de seda alastrou a outros setores da população da cidade, a tal ponto que o povo todo saiu à rua em manifestação ruidosa como nunca se vira. Fantástico! A frente da manifestação seguiam centenas de freiras, que todas nesse dia abandonaram os conventos de S. Bento e Santa Clara e até dormiram fora. Chegados ao castelo, os manifestantes pegaram no sabão que ali estava para ser vendido e atiraram com ele das muralhas. Imagine-se o que terá sido aquele dia 4 de Maio de 1741! O maior da história da cidade, do ponto de vista da mobilização cívica.
Pois bem: o homem que liderou a revolta do povo contra o monopólio do sabão terá sido o avô materno do Dr. Furtado Mendonça e este carregaria a responsabilidade de fazer as freiras sair dos conventos e ir na cabeça da manifestação. Obviamente que, a partir de então, para alguns setores da nobreza e fidalguia da terra, o médico passou a ser o alvo a abater. E que melhor meio haveria do que metê-lo na inquisição?
Foi o que aconteceu. Em 22 de Março de 1747, o Dr. Francisco Furtado Mendonça foi preso por ordem do tribunal de Coimbra, acusado de guardar o sábado em vez do domingo, de fazer o jejum do Kipur, da rainha Ester e outras mais festas dos judeus. De contrário, ele organizou a sua defesa dizendo “que a acusação que se fez contra o réu e outras mais pessoas da nação que foram presas quando ele, foi toda maquinada e forjada pelo ódio e vingança de pessoas cristãs-velhas inimigas capitais do réu e mais cristãos-novos; querendo-se introduzir em bragança o estanque do sabão, por este ser muito prejudicial ao povo e principalmente aos homens da nação, por contratarem em sedas que gastam muito do dito género, impediram estes e muita parte do povo o dito ingresso e também dois conventos de religiosas…” (2)
Não caberá no âmbito deste artigo analisar o processo instaurado na inquisição de Coimbra e que depois transitou para Lisboa. Ele, como aliás, todos os outros processos são de particular interesse para o estudo da sociedade da época e da história da cidade. E um dos aspetos que ressalta é o da representação de óperas. E isto é tanto mais interessante se tivermos em conta que “o primeiro teatro público de ópera” apenas surgira em 1637, na cidade de Veneza, em Itália – o teatro San Cassiano. Pois em Bragança temos notícia de um espetáculo de ópera realizado no verão de 1743, para receber o novo bispo da diocese. E sabemos que num dos anos seguintes se apresentou outra na festa de Santo António, conforme se lê no processo de Jerónimo José Ramos, de Vinhais, preso em 1.7.1749:
- Indo o réu movido de sua curiosidade foi ver uma ópera que na festividade de S. António se fez na cidade de Bragança (…) se travaram de razões a respeito dos assentos…(3)
Quem seria o(s) autor(es) do texto e da música, bem como o ensaiador e os figurantes? Haveria ali o dedo do médico poeta Francisco Furtado Mendonça?
NOTAS:
1-MACHADO, Diogo Barbosa – Bibliotheca Lusitana, tomo II, Atlântida Editora, p. 156, Coimbra, 1966.
2-ANTT, inquisição de Lisboa, processo 10635, de Francisco furtado Mendonça.
3-ANTT, Inquisição de Lisboa, pº 2447, de Jerónimo José Ramos.

Por António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães

PERPLEXIDADES

Perante mais um bárbaro ataque terrorista, desta feita em Nice, são, tal como a muitos dos comuns cidadãos, várias as interrogações, angústias e sentimentos que me assolam. Alguns deles parecem-me normais, outros inquietam-me havendo ainda os que me deixam perplexo.
Há, desde logo, a paradoxal lógica do terror. Os seus atores, mais do que os seus mentores são, na maioria dos casos, pessoas com alguma “normalidade” de vida, gente que convive connosco e que connosco partilha, desde há muito, um modo de vida e uma coabitação, em muitos casos procurada e aceite livremente. Que facto, que acontecimento, que revelação fez alterar este estado de espírito? Que epifania, que movimento, que ato comum de uma sociedade pacífica e tolerante (como aquela a que pertencem a esmagadora maioria das vítimas) fez despertar tal revolta, tanto ódio, tamanha indignação?
Há, depois, a comoção, a angústia, a solidariedade explosiva que alguns destes miseráveis atos provocam. Uns, muito mais que outros. Há sempre quem questione (e eu sinto-me questionado, tal como questionados se sentem, estou certo, os leitores) por que razão se levanta tamanha onda de protestos perante este acontecimento dramático e outros idênticos ou piores, passam na imprensa e na consciência comum, com simples notas de rodapé. É certo que em Nice morreram pessoas inocentes, famílias inteiras, muitas crianças, numa palavra, pessoas comuns cujo único “erro” foi estarem a festejar uma data assinalável. Mas foram crianças e famílias e inocentes, em número que em nada é inferior, os que morreram, recentemente, em Bagdad, quando festejavam, não a data do início da revolução francesa, mas o final do mês do Ramadão! Com maior destaque é certo, mas longe da “importância” do ataque a Zaventem em Bruxelas foi ataque idêntico no aeroporto turco de Ataturk em Istambul. Não é possível descobrir nenhuma razão lógica e racional, mas antes uma “normalidade” emocional que todos sentimos e acatamos sem questionar. É assim, porque é assim que o sentimos. Uma bomba de carnaval que me rebente debaixo dos pés assusta-me a desperta todo o meu sistema inato de defesa, em grau muitíssimo superior ao de uma explosão de forte carga de dinamite a alguns quilómetros de distância. É esta proximidade que modela a intensidade da nossa perceção. Proximidade mais emocional que física. Em Paris, Bruxelas ou Nice, qualquer um de nós poderia, facilmente ser uma das vítimas. Em Instambul, em menor grau também. Em Bagdad dificilmente! E é por isso que é assim e é por isso que assim o entendemos.
O que não se entende, o que custa a justificar, o que nos deixa perplexos são as inúmeras gravações de telemóveis que aparecem, em número vário e frequente, dos diferentes cenários destes terríveis dramas. Quem é que, perante tamanha desgraça, a primeira coisa que lhe vem à cabeça é puxar do telemóvel e começar a gravar o que está a acontecer? E que perante a angústia dilacerante de tantos, perante o pânico generalizado, perante o massacre e o terror, nada mais fazem que gravar a ocorrência para sabe-se lá o quê? Eu até posso conceder que algumas dessas gravações possam ter alguma utilidade, para a polícia, para os investigadores, para os média. Terão. O que não consigo entender é como é que perante a barbárie, perante a agonia, perante o desespero alguém possa sequer pensar em gravar o acontecimento.
Não sei se, em vez disso, algo poderia ser feito de ajuda às vítimas ou de ataque aos agressores. Mas sei que não é, seguramente, natural e inato, fazer uma filmagem perante a agonia e o tormento de tantos.

Por José Mário Leite

A escola e a ordem social

A vida de um professor apaixonado pela sua profissão encontra muitos momentos de inteira satisfação, mas inúmeras frustrações vão inundando também os seus dias. Com efeito, recebemos cachos inteiros de alunos totalmente indiferentes entre outras disciplinas, à poesia dos textos e das artes em geral, ao discurso poético, aquele que se revela ser o único que não satura, aquele que indica movimentos interiores, algo de partilha latente (o triângulo de Pitágoras está recheado de poesia; quando um homem pensa, abre-se a eternidade). Uma turma de 12º ano completamente indiferente ao filme “O carteiro”, a um nocturno de Chopin por Maria João Pires, ou a uma pietá do museu Abade de Baçal é algo preocupante. Será possível com essas idades haver uma tal falta de ambição intelectual, de construção interior?
Recentemente, assistimos em Bragança às jornadas literárias na nossa cidade e estava bem patente esse “veredicto social”; um pequeno número de pessoas que num trabalho de arqueologia evoca a possibilidade de Camões ser oriundo duma aldeia perto de Montalegre ou o facto de Miguel Torga ser sempre actual, esqueço-me das “madalenas”. São estes discursos que, sem qualquer pretensão erudita ou pedante da minha parte, me inspiram estes comentários, uma simples tentativa de colocar em perspectiva algumas reflexões e correlações sociológicas.
Bourdieu referia que a consciência dos mecanismos reais de transmissão do património cultural é distribuída como o são as chances de ter sucesso no sistema escolar. Ou seja, refere o distinto sociólogo, que quanto mais o indivíduo é instruído, mais se torna claro que não é o dom que lhe permite ter sucesso. Ora isto coloca uma questão interessante do ponto de vista das relações entre a sociologia e a política (polis). Enquanto se torna claro que as desigualdades económicas florescem na consciência dos que são vítimas das mesmas, no caso das desigualdades culturais deparamo-nos com algo completamente paradoxal, a saber que a alienação exclui a consciência da alienação; as pessoas que se encontram privadas do mundo cultural vivem privadas também da consciência dessa privação. É recorrente um determinado discurso sobre os filhos; afinal quando não têm sucesso na escola é porque são pouco inteligentes e não porque emergem dum micromundo ou duma sociedade que talvez não lhes tenha transmitido o conjunto de saberes ou conhecimentos necessários; condição tácita para o sucesso na escola. Assim, esta inconsciência tem uma função política importantíssima na medida em que tende a fazer acreditar à maioria das pessoas que a hierarquia social, fundada sobre o sistema escolar, é uma hierarquia justa. É um aspeto extraordinário do sistema escolar, que este justifique a ordem social.  
O abandono escolar é efetivamente algo marcante, um barco com muitos passageiros, em que uma grande percentagem fica pelo rio. Mas o abandono pode ser também uma opção. Contudo, aquando das manifestações culturais, parece que só os académicos é que nos deixam a sensação de ser os únicos legitimados a intervir, a responder, a ter o direito à palavra, como se este sentimento dependesse do sistema escolar, do título escolar, da dignidade escolar.
A incorporação das estruturas sociais faz com que o mundo pareça evidente. Há uma inconsciência, é a ordem social incorporada, onde os eliminados não têm consciência dessa eliminação. Como foi referido mais acima, as pessoas que são destituídas do capital cultural não o vivem como uma privação, assim, aceitam-no naturalmente sem qualquer manifestação ou revolta.
Fica sugerido aqui um importante trabalho de investigação que possa analisar a estrutura social, que trabalhe sobre o sistema escolar e mostre como funciona o mesmo, na perspectiva duma máquina de legitimar a ordem social e a reprodução da divisão da sociedade em classes sociais, com possibilidades muito diferentes, com estatutos completamente diferentes. A privação ou despossessão de um lado, os privilégios do outro.
A ordem social é algo que não se vê, donde vimos e o que nós somos. Impõe-se deste modo um trabalho de escavação sobre a sociedade, sobre si mesmo, numa floração das estruturas históricas da dominação. 
Neste momento, até a escola parece também demitir-se das suas responsabilidades; quando não se ensina a História, quando não se ensina a Retórica, a Demonstração ou o uso da Razão e da Memória, todos os delírios podem funcionar. Vejamos à nossa volta, como os discursos que permitem ao instinto existir podem operar sobre as pessoas.      

Por Adriano Valadar  
 

A estação maluca

O Verão ganhou o apodo de estação maluca porque segundo críticos de olhar acerado, língua afiada, escrita tersa e acutilante, as pessoas ganham comportamentos esquisitos atribuídos às elevadas temperaturas alcançadas nos meses que lhe dão corpo.
Não vou maçar os leitores trazendo em meu auxílio bordões de vária natureza, tonalidades e sonoridades a justificarem o epíteto, o Estio é a estação maluca nos círculos bem pensantes (assim se julgam). Ponto final parágrafo.
Fragmentos de estrídula matricialidade o confirmam, ou pelo menos revestem de veracidade tal juízo relativo a sazão sem juízo. Sem obstáculos à observação a bebedeira desportiva iniciou-se há mais de um mês sendo o futebol o primacial motivo. A verdade manda escrever que desde a Primavera se sucediam as carraspanas clubísticas, o campeonato europeu alargou os efeitos, eufóricos glosamos a humilhação aos chauvinistas franceses, vingamos antigas humilhações, o feito assumiu a coloração de épico acontecimento análogo à batalha de Aljubarrota. Vale a pena ler o artigo de Eduardo Lourenço acerca do feito.
As senhoras do atletismo também ganharam medalhas e logo lacrimejaram a comenda de mérito igual à concedida aos futebolistas. Se estivessem mais serenas calavam-se ficando à espera da reacção do Presidente da República. A protestante após receber o penduricalho veio em forma de assim dizer não estar «chateada» com o Professor Marcelo, nem ele com ela. O efeito da caloraça às vezes frita as meninges sem necessidade de sertã e azeite. O eclético Presidente tomou boa nota, não é Lelé da cuca, possui memória de elefante.
As televisões esburgam os ossos de todas as modalidades até ao tutano, na estação maluca baixam as receitas publicitárias, adicionam-lhe o sangue de tragédias e desastres em quantidades a fazerem inveja aos filmes produzidos em Espanha nos idos de sessenta impregnados de sumo de tomate, raparigas carnudas, cobóis empoeirados e pistolas reluzentes. Até a Cláudia Cardinale surgia na pantalha a bambolear os generosos pómulos. No geral do Cine Camões batiam-se pés e soltavam-se alarvidades. Pudera!
A tonta estação no ano presente ao contrário dos passados tem o acicate político das palmatoadas, longe vão os tempos das férias repimpadas da classe mais criticada na sociedade portuguesa, também muito invejada pois potencia narcisismos, mesmo que inócuos. Empunhando a Santa Luzia, a dona Luzia sabia fazê-lo, os homens de Merkel representam mal no folhetim das sanções, expresso em milhentas declarações, algumas despudoradas, mesmo por cá cujo exemplo «maluco» são as de Maria Luís Albuquerque. Ninguém lhe coloca pedras de gelo nas «fontes» da cabeça?
Obviamente, a toleima não é exclusivo da Senhora que devia estar calada durante pelo menos dezoito meses, o período de nojo de Barroso, os já referidos burocratas de Bruxelas também gostam de se divertir período festivaleiro, sisudos recorrem às fábulas de Esopo, atacam Portugal imitando o lobo (não o ibérico) a lamber os beiços e a regougar ao cabrito: se não foste tu, foi o teu pai.
Se meditarmos sobre as declarações dos ditos senhores irritamo-nos, podemos ficar possuídos de loucura (Erasmo de Roterdão) mansa ou furiosa, de qualquer maneira, a maleita não pode tornarmo-nos iguais aos loucos imunes a todo o género de malfeitorias, sofrendo no corpo e no ânimo as consequências da insânia de políticos encerrados na torre do poder.
O filósofo Foucalt deixou-nos fuzilantes considerações relativamente aos doentes mentais e sua vivência durante Idade-Média, só que, felizmente, por um lado já não estamos em tempos medievais, por outro a consciência política evoluiu profundamente, a trilogia liberdade, igualdade e fraternidade o atesta.
A maluquice pode atacar-nos na época calmosa, não pode é privar-nos de senso, bom senso, no sentido de pensarmos nas motivações profundas dos decisores europeus comunitários.
Não podemos ter a sorte do cabrito. Como? Será que os partidos, todos, não conseguem aglutinar esforços no sentido de afugentarmos o predador? A oposição laranja tem de sair do seu labirinto. Se persistir na errância o custo eleitoral subirá desde logo nas autárquicas. Duvidam? No próximo ano também volta a estação doida.

PRENDA-ME, POR FAVOR…

Não, não é o piropo lançado pelo jovem adulto à polícia boazona que fardada vigia as ruas da cidade. É sim o apelo de J. quando, mais uma vez, o carro da patrulha lhe intercepta a marcha após uma denúncia do roubo de um telemóvel numa superfície comercial. Coisa pouca de facto. No entanto, a descrição da funcionária e as imagens de videovigilância apontam para ele. Abordam-no à entrada do bairro. Sem dramas, como se fossem conhecidos de longa data, conversam. Nada que desperte a curiosidade. A ideia do policiamento de proximidade vai entrando e, hoje em dia, é normal ver a “bófia” a conversar com civis em amena cavaqueira. Longe vão os tempos em que se aterrorizavam as crianças com o “vem aí o polícia” ou, entre adulto, se lembrava a cada instante: “Come com o guarda, mas guarda-te dele.” Miguel Torga plasmou esta desconfiança no conto Fronteira, quando Robalo, apaixonado por Isabel, garante que a prenderá se a apanhar a “passar o ribeiro” (a contrabandear). Promessa cumprida meses depois. A conversa com J. continua também. O caso muda de figura quando, como se recordado do seu dever, um dos polícias o encosta à parede do prédio e o outro o revista. Do telemóvel nem rasto. Sem prova não há crime. As únicas marcas que permanecem não se veem, essas ficam gravadas na alma.
Desde muito novo, J. esteve preso várias vezes. No início penas leves. Quando os roubos passaram a ser de maior monta, o tempo de reclusão aumentou, não sem duas ou três fugas conseguidas que o levaram a Espanha por iguais períodos de tempo. No entanto, fossem as saudades da terra ou porque a vida também não lhe corria bem, voltava sempre e com destino marcado. Passou a encarar o tempo de reclusão como momentos de felicidade. Lá dentro, como diz, tinha cama e roupa lavada. Cumpria horário, davam-lhe atenção e, por bom comportamento, podia trabalhar nas oficinas. O ciclo era o mesmo. Após a pena regressava ao bairro, do bairro ao crime e do crime à cadeia. “– Já sabemos como as coisas são. Não vale a pena investir nesta rapaziada.” – dizia um guarda com experiência, quando J ainda era jovem, na casa dos vinte, e o puseram a frequentar um curso de jardinagem, quando o que ele queria era mecânica.
A história de J. é semelhante à de tantos outros jovens. Nunca irá parar à primeira página do jornal nem sequer irá alimentar a letras gordas nenhuma manchete porque não interessa a ninguém, nem sequer aos técnicos de reabilitação habituados que estão ao fracasso das suas ações, porque sabem até onde podem ir e, sobretudo, de onde não devem passar. Para cumprir pena, os sentenciados da justiça são colocados em estabelecimentos a quilómetros de casa para “formação”; no entanto, cumprida a pena, regressam aos lugares de origem e do crime, sem ninguém perguntar se as causas subjacentes àquele comportamento transgressor já foram debeladas. A menos que haja uma mente distorcida, ninguém é criminoso opção. As autoridades conhecem perfeitamente casos em que crianças de oito, nove, dez, doze anos são obrigados a roubar porque se chegarem à barraca sem nada são castigados pelos próprios pais. Mais tarde replicarão este comportamento e assim se alimenta a cadeia do crime porque ninguém quer verdadeiramente cortar o fio que faz escola.
Enquanto que na cadeia há conforto e as necessidades básicas satisfeitas, “cá fora” não há pão, não há comida nem nada que faça sorrir. Deve a sociedade, por isso,  interrogar-se que rumo quer dar aos mais desfavorecidos entre os desfavorecidos. Urge criar verdadeiras políticas de prevenção da criminalidade que vão além das ações de formação para técnicos e, por vezes, para os chamados “grupos desfavorecidos”. É imperioso que se redefinam as estratégias de combate ao banditismo e se coloquem técnicos no terreno em vez de ser à secretária. A dignidade humana tem de ir mais além da ressocialização do prisioneiro. Não basta dar-lhe ações de formação durante, é necessário estar com ele depois, ajudá-lo de uma forma processual a readaptar-se ao meio e a conferir-lhe o direito a um tecto e ao básico para uma vida com dignidade, bastando para tal que, após o cumprimento da pena, se estendam para a sociedade civil os direitos que lhe são consignados enquanto recluso. De uma vez por todas que haja políticas sociais a sério e que o chavão dos “direitos, liberdades e garantias” se efetivem na vida de cada um.             

Por Raúl Gomes

A política e a arenga

Ter, 19/07/2016 - 09:36


Daqui a 50 anos, se for consultado um arquivo digital “super fancy”, da memória do meado de julho de 2016, quem estiver em frente ao écran, se é que ainda haverá écrans…, passará como cão por vinha vindimada (tentação retro, esta de falar em provérbios) por uma nota obscura sobre perspectivas de

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Qua, 13/07/2016 - 12:48


Na visita à região transmontana, designada como a segunda edição da iniciativa do “Portugal Próximo”, que decorreu entre os dias 4 e 6 de Julho, Marcelo Rebelo de Sousa começou por defender a criação de uma “Unidade de Missão para o Douro”, mas, no segundo dia da visita foi mais específico.