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Clube Ténis de Mesa de Mirandela é vice-campeão nacional feminino

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Ter, 28/05/2019 - 15:21


Depois da derrota por 3-1 em Alvalade, a formação feminina do CTM Mirandela depositou todas as esperanças no factor casa para igualar a final do play-off e levar a decisão do título para um terceiro jogo e apoio não faltou.

Hipertensão arterial - O que precisa saber

O QUE É?

Hipertensão arterial é uma doença crónica caracterizada por níveis elevados de pressão sanguínea nas artérias. A pressão arterial envolve duas medidas, a sistólica (“máxima”) e a diastólica (“mínima”).

 

COMO DIAGNOSTICAR?

Na maioria das vezes a hipertensão arterial não provoca sintomas, embora raramente se possa associar a cefaleias (dores de cabeça), vertigens, entre outros.

De uma forma geral, define-se hipertensão arterial como um valor superior a 140 mmHg (sistólica)/ 90 mmHg (diastólica), em mais do que uma determinação.

 

102 anos de vida com muita energia

Ter, 28/05/2019 - 10:07


Olá gentinha boa e amiga!

A tia Helena Madureira, de Alfaião (Bragança), festejou os seus 102 anos de vida no dia 22 de Maio, quarta-feira, dia de Santa Rita de Cássia, advogada das causas impossíveis, e por isso com a sua bênção, pois tem tornado possível esta idade tão bonita à tia Helena, com muita energia e grandes memórias. Foi no programa deste dia que o nosso tio Acácio, de Alfaião, mas a viver no Barreiro, nos informou deste aniversário, dedicando em directo e a pedido da aniversariante a música “A Saia da Carolina”, que ela tanto canta e gosta. Resolvi deslocar-me a Alfaião desse dia, para falar pessoalmente com tal monumento vivo e fiquei deveras impressionado com a lucidez e memória que a tia Helena ainda tem, pois quando me viu, a primeira coisa que disse foi “agora sim, está muito mais bonito! Já não está gordo!!!...”. Acrescentando ainda que “a única vez que o vi, foi há vinte e tal anos, na Taberna Benfica, a beber uns copos”. Além de recordar claramente este episódio, também se lembra de que o meu avô era o barbeiro do seu pai e que eram muito amigos, acrescentando “você foi criado naquela casinha, da esquina da Caixa Geral de Depósitos”. Como fiel ouvinte do nosso programa, recordou muitos acontecimentos da nossa família, como por exemplo a poesia do tio Carlos Vaz, de Serapicos (Bragança), a expressão característica do tio Firmino Ginja, de Carção (Vimioso), “até no cemitério já há vaidade, tio João!”, e muitos outros ouvintes que Deus já chamou.

Arado, um adágio peculiar na sinfonia poética de A. M. Pires Cabral

É extensa, reconhecida e apreciada a obra do nordestino A. M. Pires Cabral, em vários géneros. Hoje, cingindo-me à sua poética, enalteço a limpidez, a concisão e a austeridade dos impolutos versos da obra Arado (2009), vencedora do prémio de Poesia do PEN Clube (2010).

A obra abre com a composição poética que dá título ao livro «Arado», poema estruturado em três andamentos. O utensílio agrícola personifica o poeta, pois ambos «enterram» sementes na esperança de que «o deflagrar da vida / que vai dentro das sementes» desabroche e se transforme em frutos. A dicotomia presente/passado, acentua o desencanto atual do poeta perante o arado imóvel e sem serventia, esperando «a hora da corrosão». A simbiose entre o objeto e o poeta atesta-se: «Mas o arado perpetua-se em mim. / De facto, em horas de arriscada exaltação, / gosto de pensar nestes versos como sendo / um arado com que rasgo outras terras / mais voláteis e menos aráveis, / e nelas julgo deixar alguma semente (2009: 13, sublinhado meu). Saliente-se que, nesta opção poética do autor, o arado é associado à escrita, ou melhor ao objeto com que escreve, ou, lato senso, à poesia, como a entendia o poeta Carlos de Oliveira: «Escrever é lavrar, penso comigo, olhando esta Ereira onde se fecha hoje o círculo que o seu cantor traçou com a própria vida. E lavrar, numa terra de camponeses e escritores abandonados, quer dizer sacrifício, penitência, alma de ferro» (Oliveira, 1992: 421). Este esboço adequa-se ao perfil literário de Pires Cabral. As terras são as mentes dos leitores que não «se deixam rasgar / assim facilmente» (13). Em resumo, a composição termina de forma denotativa, regressando o poeta ao arado físico, embora com sentimentos humanos, cuja serventia está reduzida a «poleiro improvisado // pasto de ferrugem e carcoma, // lenha em breve» (13). Numa leitura alegorizante, o arado simboliza o envelhecimento das pessoas e das aldeias transmontanas de que Grijó é sinédoque.

Se o poema que abre o livro referencia o canto e a escrita do poeta, o segundo nomeia a «Terra mater» agora assumida denotativamente, como o terceiro poema nomeará de forma inequívoca. Saliente-se que «Terra mater» é o incipit do primeiro livro do autor Algures a Nordeste que apresenta o sugestivo subtítulo «Catálogo de Feios, Simples e Humildes». O programa poético do autor é enunciado logo na segunda estrofe, «Terra mater, ânsia dolorida de criar / radioso segredo de parir, / ó terra, eu quero-te cantar!» (2006: 9, sublinhado meu). Note-se que a propensão para a tripartição dos poemas cedo se enraizou no labor poético do escritor. A terra, o Nordeste, continua a interpelar o poeta com a sua voz irresistível e com renovada emoção a cada nova contemplação. Na segunda parte do poema é audível a voz nostálgica e desalentada do poeta, tecendo considerações metapoéticas ao considerar a época de formação como «tempos imaturos» e os seus versos de então «de má qualidade». O poeta reconhece que a palavra, qualificada ironicamente como «balburdia oca» é derrogada e que, no presente, a chave para entrar no templo imaculado da Terra mater é o silêncio, que, como assegura Heidegger, é o modo autêntico da palavra.

O processo poético é aprofundado no terceiro poema «Algures a Nordeste parte dois» (15), podendo ser lido como um manifesto poético do autor. O poeta derroga a sua primeva produção poética ao nomeá-la como «um estridente livro verde / relato tão afetuoso quanto imprudente» (15). Contudo continua a cantar a alma do Nordeste, embora reconheça, no encalço de Camões: «mudam-se os tempos, mudam-se as vontades» e de Sá de Miranda: «tudo o mais renova: isto é sem cura!» (último verso do soneto «O sol é grande»), que «tudo está mudado do que foi». Ato contínuo, elencam-se as maldades feitas ao Nordeste deixando-o irreconhecível, um lugar «em ruínas, infestado de plantas ruins», onde já não resta «a mínima memória do Nordeste» (16). Mas o poeta resiste sempre, mantendo-se fiel como um cão (talvez o Argos da Odisseia, símbolo da fidelidade) dormindo no seu ninho e respirando o pouco ar que lhe resta. Aqui a desilusão é total, o trovador por mais intrépido que se afirme, reconhece que a palavra poética já não tem o poder, como no passado, de nomear o real e ao nomeá-lo o transformar, pois, segundo Aguiar e Silva, «o escritor, ao emitir o seu texto, não só transfigura o real nomeado ou aludido, mas reinventa e instaura o próprio real, o real absoluto» (1988: 334).

O poema «Sabedoria», da página 18, pode ser lido como o programa de vida do poeta. Este não aspira senão à aurea mediocritas. No presente, só esta moderação sensata poderá trazer alguma felicidade, em tempos de grande desagregação ética e moral. A composição desenvolve-se em torno de três verbos de ação: reconhecer, sentar e proclamar. Reconhecer a força da vida na paisagem nordestina e dar-se por satisfeito. Depois sentar-se «à sombra / de algum freixo» (18) a comtemplar a natureza filtrada pela memória, esperando com tranquilidade, numa atitude estoica, a hora derradeira. Por fim, proclamar, a plenos pulmões, que a terra é a única resposta para a fome eterna, isto é, para a sede de conhecimento que atormenta o homem. Este carme postula os três estádios do processo criativo. O primeiro reconhecer, isto é, estudar, documentar-se, recolher fontes; o segundo sentar-se a analisar a informação recolhida com serenidade e memória e, por fim, proclamar, ou seja, escrever para levar ao leitor as suas ideias, ou o resultado do seu estudo. Este processo é autofágico e cíclico, porque o poeta alimenta-se dos restos de um poema para escrever outro, como sustentou Carlos de Oliveira ao grafar: «cada poema, / no seu perfil / incerto / e caligráfico, / já sonha / outra forma» (1992: 223). 

O poema «Casa em ruínas» (19) pode ler-se em dois andamentos. Nas primeiras quatro estrofes, o poeta descreve a situação atual da casa, marcada pela ruína. A casa é a metáfora do homem, visto que ambos têm um prazo de validade, vão envelhecendo e chegam ao fim do ciclo. A segunda parte é marcada pelas cogitações do poeta que sente mágoa ao olhar para a casa e ao lembrar-se de todos os sonhos que ali floresceram e se tornaram inconsequentes. O poeta conclui, amargamente, que as casas, ou seja, as obras do homem não têm «a mesma estouvada vocação / de eternidade / que atormenta os seus donos» (20). Nestes versos finais, pode ler-se uma crítica ao modus vivendi do homem hodierno que resiste azafamado num desejo insano de abarcar tudo, acabando por perder o que é essencial à sua felicidade terrena, ou, recuperando as palavras de Horácio, à aurea mediocritas. O poema seguinte, «De volta a casa ou infância revisitada» (21), amplifica a mesma temática. A casa, em termos semânticos, já não é uma realidade exterior ou física, recuperada a qualquer momento. A situação é mais trágica, porque irrecuperável. A casa para o regressado está transformada numa ideia sentimental escorada nas emoções nela vivenciadas, tendo a paisagem humana desaparecido, a casa fica vazia. A referência bíblica acentua a impossibilidade de o filho pródigo harmonizar o conceito de casa que trazia arreigado.

Terminada a escalpelização das seis composições poéticas matriciais desta obra, o leitor depara-se com um conjunto de poema subordinados a um denominador comum, o reino animal. Esta novena de carmes, de cariz narrativo, reenvia a memória literária do ledor para as fábulas de Esopo, visto que todos encerram uma lição de moral.

O protagonista é o «Melro em gaiola» (23), sendo a ave um alter ego do poeta. O melro apresenta um traço distintivo relativamente às outras aves, o facto de rir e não cantar. Esta distinção é deveras significativa, continuando a encarar a ave com metáfora do poeta, pois o riso está um patamar acima do canto, uma vez que rir implica a difícil tarefa de compreender e inferir o intento do enunciador, ao contrário do canto. Assim, o escopo do poeta passa por provocar o riso no leitor. Este argumento corrobora a faceta reflexiva da poesia de A. M. Pires Cabral. A narrativa prossegue, afirmando-se que alguém, que odeia o riso, meteu o melro na gaiola, colocando-a na varanda para atormentar os transeuntes. Este alguém, na minha ótica, pode ter correspondência real nas instituições e órgãos de poder que tudo fazem para sonegar o direito à informação das populações, com o rol de consequências que essa decisão acarreta. De seguida, o poeta assevera que esta atitude prepotente não produziu os efeitos desejados, uma vez que o melro, não suportando o peso do silêncio, começou a rir, manifestando, desta forma, a sua natureza indomável. Assim, poeta e ave correm riscos conscientes, mas jamais se sujeitam aos interesses instalados, defendendo a gaiola/Nordeste Transmontano. O impulso, a força, a vontade e o querer é mais forte do que as circunstâncias, que o confinam, por isso defende a gaiola às gargalhadas, ou seja, com poemas. Na conclusão, o riso dá lugar ao pranto, ou dito de outro modo, a euforia inicial verte-se em disforia, num espaço a que o poeta se vê confinado por interferência de terceiros que lhe foram coartando a liberdade, com condicionalismos de toda a espécie.

O poema «Pardal» (31), onde ecoa o conto «Ladino» de Torga, apresenta-nos um sujeito rufião e de génio exuberante, até ao dia em que o gato lhe tira a vida e reduz toda a sua história a penas, ou seja, à morte. Mas, como reza o anexim popular, enquanto há vida há esperança e, por isso, o pássaro vive-a com «intensa vitalidade».

O poema «Irmã cotovia» (33) sugere nova lição de vida. A ave vive no chão, em silêncio e meditação, mas, quando necessita, voa para cantar e aliviar as suas penas, regressando, depois, ao seu habitat natural, onde continua a viver medianamente como se nunca tivesse voado. É inevitável a comparação entre a ave e o poeta, pois ambos respondem afirmativamente ao apelo terreno e aéreo/divino, embora a cotovia tenha mais apetências/asas do que o poeta. No cotejo canoro, o poeta perde também, porque a voz da cotovia é expurgada dos artifícios retóricos, logo mais inteligível do que a escrita poética. Ecos do Sermão de Santo António aos peixes, do Padre António Vieira, ressoam no poema «Formiga de asa ou o Ícaro da Mirmecolândia» (35), onde se desenvolve o tópico da ambição e do deslumbramento, configurado nos voadores do sermão.

A estrutura tríade, marca indelével do autor, do poema «Mantis religiosa» (37), apresenta na primeira parte um pastiche do «pai-nosso» ao hiperbolizar a gula do inseto e, metaforicamente, a do homem. Na segunda, onde são audíveis, de novo, ecos do sermão de Vieira, o inseto come as presas sem as matar, continuando a presa a agitar-se do lado oposto, ou seja, a natureza mostra no inseto o seu lado cruel, mas verdadeiro, isto é, a morte. Este relato alegórico representa a exploração do homem pelo homem, como cristalizou Vieira ao pregar que os peixes/homens se comem uns aos outros (Cap. IV). Na derradeira parte, o poeta, numa atitude meditativa, discerne o «meticuloso jogo / de pinças e peças bucais // e também aquela sábia indiferença / da vida pela morte e vice-versa» (39) e rejubila pelo facto de a natureza lhe mostrar o ângulo mais edificante e menos fotogénico. Em suma, a vida, mais visível no campo, e a morte, mais anónima na cidade, são os dois eixos que sustentam o ciclo eterno, não deixando lugar a eufemismos.

No conjunto de poemas cujo denominador comum é o reino vegetal, a composição «Glicínias» (40) lembra-nos a beleza exterior, ou seja, as aparências que embelezam a vida, mas que se traduzem numa «perdulária floração». Na tríade que compõe o poema «Parábola da erva» (43), mostra-se, por meio da alegoria, a necessidade de ser resiliente e de lutar contra as adversidades da vida, não perdendo o sentido de oportunidade. Por fim, afirma-se que é possível matá-la, mas é impossível assassinar a sua vontade de se perpetuar, porque mesmo cortada, a erva é estrume/sangue de outra que nasce. O mesmo ocorre no processo de criação poética, onde um poema é o húmus do seguinte.

A sombra enegrecida do vocábulo morte paira, como presença contínua e indesejada, sobre os próximos poemas. A reflexão poética parte do passado, como é recorrente em vários poemas, certificando o facto de a poesia de Pires Cabral dar grande relevo à memória/passado, onde «tudo era possível», no dizer de Ruy Belo, para desaguar no presente disfórico, apático e abúlico, lembrando Pessoa, onde a seiva do passado dá lugar à morte presente. A vinha, no momento da escrita, «está morta e não está: / perdura viva em mim» (47). A vinha, agora, não passa de uma recordação afetiva e remota que persiste na memória e que perdurará, enquanto o ser biológico viver e se perpetuará na obra poética do autor.

O espaço geográfico do livro é nomeado pelo poema «Os velhos de Grijó» (48). Estes anciãos, que «têm o sorriso / triste e bom de quem foi paciente / a vida inteira» (48), tudo fazem para: «carimbar o passaporte / para a eternidade». Os idosos são um espelho que consome e atormenta o poeta e, por isso, o autor os guarda «na boca», isto é, os imortalizará, no sentido camoniano, através do seu canto/poesia, numa extrema tentativa de os resgatar da lei da morte pela literatura. A este propósito, escreve Eduardo Lourenço: «A morte não é mais que tempo paradoxalmente solidificado. Contra ambos existe e resiste a singular e, no fundo, incompreensível atividade que chamamos, perdendo-a com esse nome, Literatura» (Lourenço, 1994: 11).

Cito, por último, o poema «Miguel Torga»: «Um clamor severo / nomeia a mais lavada rebeldia. // Os contornos da fonte declarados / sob a luz da palavra. // Um deus pressentido – Dionísio, / presidindo ao suor. // O outro lado / da semente esclarecido. // Uma tesoura da poda /podando rama e raiz. // Tudo somado: / a terra feita voz. // Sem frio, sem fadiga / ou morte alguma» (51).

Registe-se o rasgado encómio ao autor de Orfeu Rebelde (1958). A sublevação, a luz das palavras, o Douro, nomeado pelo referente Dionísio, a semente, a resiliência, em suma, «a terra feita voz» são os predicados que A. M. Pires Cabral atribui ao nativo de São Martinho de Anta. O poema pode ler-se como um autorretrato do vate, pois as características que ele atribui a Torga, também, se encontram na sua poética. O emulador almeja fundir-se com o emulado a tal ponto que entre as duas vidas e obras há uma simbiose quase total. A idêntica conclusão chegou Pedro Mexia: «Outros poetas foram escrevendo sobre Trás-os-Montes, com perspectivas geracionais diferentes (casos de Rui Pires Cabral ou de Rui Lage em “Corvo”), mas ainda persiste o cliché “telúrico” associado a Torga, imagem que “Arado” não só não desmente como, a seu modo, homenageia» (Mexia, 2009: 12, sublinhado meu). Em resumo, na voz destes trovadores ficam cristalizados e eternizados o espírito e o pulsar do homem transmontano.

O aglomerado de poemas sobre os meses constitui, em meu juízo, o movimento mais dissonante da sinfonia literária que Arado constitui.

Os próximos onze poemas causam alguma estranheza ao leitor, sendo difícil encontrar um inequívoco fio condutor que os una, embora se possam descortinar ténues teias semânticas: a imperfeição do mundo e da obra humana, no poema «Da fábrica do mundo» (64), onde se retoma a questão do riso. Pois quem projetou o mundo está a rir-se ao observar a nossa dificuldade de contornar «as imperfeições da fábrica do mundo» (64). As complicações tornam-se sofrimento perante a consciência delas, como se afirma no poema «Angústia»: «Coisa alguma é perdurável, / salvo a angústia de o saber» (66). A ideia pessoana de que o saber «insistente comichão» acarreta sofrimento é desenvolvida no segundo dístico do poema.

Os dois poemas da sexta parte, para além do diálogo intertextual, recuperam a questão do riso como sinónimo de entendimento agudo. No primeiro, «Yorick ri de quê?» (73), constituído por seis capítulos, subordinado à epígrafe do Hamlet (Shakespeare), o bobo Yorick ri das «impertinentes / cócegas da eternidade». Mais do que remeter para a vaidade terrena, tema aflorado em outros poemas, e para o memento mori (lembrança da morte) que torna o homem consciente da sua transitoriedade, esta composição, segundo penso, pretende refletir sobre o valor da obra literária que, como se lê no poema, é de tudo o que o génio humano realiza a mais perdurável, uma vez que tudo o resto, a começar pelo corpo, se reduz a pó e a nada. Aqui, ressoam os versos da ode XXX, do livro III, de Horácio que desenvolvem o tópico da imortalidade alcançada pela obra literária. A. M. Pires Cabral está consciente do valor literário da sua obra, embora não viva deveras atormentado com isso, pois confessa que «as cócegas da eternidade» o «têm feito rir antes do tempo» (73). O dístico com que termina o poema, retoma o riso como uma forma superior de conhecimento, como já asseverei atrás, visto que aqueles que se riem da morte, aqueles que a encaram como natural, como defende o estoicismo, acabam por sorrir e viver inteiramente. Na hercúlea empresa de viver, explanada no poema «Judas em Haceldama» (78) – sombra bíblica –, onde se relembra que o homem deve arcar com as consequências dos seus atos (que anacrónicas soam estas palavras…), pois «tudo se oculta atrás / da memória do sangue» (79), ou seja, da vida, a poesia de A. M. Pires Cabral revela-se um auxiliar prestimoso.

No derradeiro andamento de Arado, a primeira pessoa monopoliza a enunciação, refletindo sobre o homem e a sua circunstância. O poeta, no poema «Non sum dignus» (81), apresenta o material poético, ou seja, a força libertadora da palavra que dá vida e alimenta o homem, recuperando os vocábulos bíblicos lavrados no livro do Deuteronómio 8, 3. É, na verdade, a palavra, alimento do espírito, que entusiasma o poeta, como se infere da leitura da última estrofe do referido poema: «Mas diz uma só palavra / e a minha alma flutuará como cortiça / à flor do rio apertado entre falésias, / cheio de pegos e de turbilhões» (81).

À guisa de conclusão, refiro a vida - matéria-prima da poética de A. M. Pires Cabral – apresentada como um jogo, no derradeiro poema da obra «Lengalenga» (87), onde os contendores são o poeta, que aposta na sorte, e Deus, que joga pela certa. O entendimento entre ambos resulta difícil, porque «Tu, loquaz em demasia; / eu, ora mudo ora cheio / de indisciplina sonora» (87). O poema, na minha ótica, apresenta, ainda, um diálogo com o carme Desfecho onde é audível a revolta de Torga contra a omnipresença de Deus, nomeando-a de «A divina presença impertinente».

 

Bibliografia:

AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel de. Teoria da Literatura. 8.ª ed. Coimbra: Almedina, 1988.

LOURENÇO, Eduardo. O Canto do Signo. Existência e Literatura. Lisboa: Presença, 1994.

MEXIA, Pedro. “público ípsilon.” Nordeste parte dois. 01 de abril de 2009. https://www.publico.pt/2009/04/01/culturaipsilon/critica/nordeste – parte-dois – 1655072 (acedido em 17 de maio de 2018).

OLIVEIRA, Carlos de. Obras de Carlos de Oliveira. Sd: Editorial Caminho, 1992.

PIRES CABRAL, A. M. Antes que o rio seque. Lisboa: Assírio & Alvim, 2006.

— Arado. Lisboa: Edições Cotovia, 2009.

Corin Tellado, Policiais, Plano Nacional de Leitura e o grau zero da Pedagogia

No fim dos anos noventa, a OCDE fez um estudo sobre literacia em vários países. Entende-se por literacia, a capacidade de compreender e processar informação escrita nas actividades do quotidiano quer seja em casa, no trabalho ou em sociedade. Ficaram praticamente todos mal na fotografia. Mas Portugal foi dos piores, com 77% da população a não atingir o nível 3 de literacia que é o mesmo que dizer que 77% não conseguem analisar um simples texto de jornal ou interpretar um folheto médico. Face a este descalabro, entendeu-se, por bem, implementar um Plano Nacional de Leitura como panaceia para este défice funcional.

Não é de estranhar pois, em Portugal, para responder a um problema meio insolúvel, cria-se um Plano Nacional. Foi assim com o Plano Nacional para a igualdade de género, cidadania e não discriminação, com o Plano Nacional para a prevenção e combate à violência doméstica e de género, com o Plano Nacional de prevenção e combate ao tráfico de seres humanos, com o Plano Nacional de defesa das florestas e contra incêndios, com Plano Nacional da saúde, com o Plano Nacional para a inclusão e outros, todos eles com uma eficácia só comparável à das “comissões de inquérito”.

Afinal o que é o Plano Nacional de Leitura? É um conjunto de actividades promovidas por uma estrutura de âmbito nacional, cheia de espírito de missão, devidamente comissariada e que no fundo se limitou a calendarizar uns eventos e a fornecer uma listagem de livros aos professores, esses eternos “burros de carga”, a fim de por os alunos a ler (esses livros). Por sua vez, os professores, não querendo ser acusados de bloqueamento do processo e por brio profissional, lançam um repto aos melhores alunos. Estes sempre disponíveis, com os seus trabalhos e desempenho fazem as delícias dos mentores do Plano, que lançam hossanas e dão prémios. Claro que neste esquema competitivo os mais fracos nem se atrevem a entrar. Mas era para esses que o Plano, supostamente, era feito.

Por outro lado o fornecimento de uma lista de livros de leitura, enquanto acto lúdico, diz duas coisas importantes: uma é a tentativa da tutela do gosto, que outrora se revelou um contra senso; a outra é o reconhecimento tácito de que os autores estudados no “currículo” são “intragáveis”. Quem pode, em boa verdade, incentivar outrem à leitura recomendando os “Lusíadas”? Ninguém. Se no meu tempo já era uma “seca”, que fará hoje? Os “Lusíadas”, com as constantes referências à Mitologia e aos feitos históricos, tornam-se um discurso encriptado que para o entendermos temos de nos socorrer de um descodificador permanente. Além disso, mesmo em termos formais, Camões não é fácil. Ele não alinha as palavras na frase com a ortodoxia a que estamos habituados, antes faz um “puzzle” com elas e deixa para nós o trabalho de as colocar no lugar se o queremos entender. Bonito! Por isso é que era importante dividir as orações. Pior! Um mal nunca vem só. (Em tom de brincadeira direi que aquela pintura de Ramalho, “Camões lê os Lusíadas a D. Sebastião”, é elucidativa porque D. Sebastião nunca leria os Lusíadas. Tinham de lhos ler. Tal como nós). É curioso que quando recebíamos o livro de “Os Lusíadas” íamos logo ver o canto IX (a ilha dos amores) que era proibido. Mas os livros que eram para uso académico já o não tinham. Talvez o único canto que devia ser estudado, pois era, no livro, a única coisa demandada.

Resumindo, o Plano Nacional de Leitura é, como os outros Planos, inócuo. Os bons alunos carregam o fardo de o fazer parecer útil e os outros nem querem ouvir falar dele. Se lamentar a presente falta de avidez de leitura, quanto mais não seja por saudosismo, me parece natural, já este remar contra uma maré que não vencemos me parece uma, irreparável, perda de tempo. Repare-se que já há mais de 40 anos, Marshall Mcluhan, aquele que anunciou o aparecimento da internet e que chamou à Terra a “aldeia global”, classificou a sociedade da altura de pós-Gutemberguiana, entendendo isto como uma evolução, uma passagem a um estado superior. Há já quem suporte que o analfabetismo, hoje, é a iliteracia digital.

Corin Tellado fez as delícias das raparigas do meu tempo. Fazia-as sonhar cor-de-rosa. Nós, rapazes, fazendo jus à educação da época e ao ditado popular, “o homem quer-se como o capote: feio e forte”, tínhamos que sonhar azul. E sonhar azul neste caso era entrar no imaginário das “cowboiadas” e dos policiais. Professores e pedagogos condenavam veementemente este tipo de leitura. Chamavam-lhe literatura de cordel, uma alusão ao facto de estes livros não estarem nas prateleiras das livrarias mas sim nos quiosques presos com uma mola a um cordel. Durante muito tempo este tipo de literatura foi menorizado e até ostracizado e só o facto de algumas obras terem sido passadas ao cinema por grandes mestres e interpretadas por actores como Robert Mitchum, Humphrey Bogart ou Lauren Bacall, autênticos “monstros sagrados” de Hollywood, é que fez com que os críticos literários vissem o género policial com outra atenção e respeito. De notar que o nosso Diniz Machado (“ o que diz Molero”) escreveu Westerns e policiais com o pseudónimo Dennis Mcshade. Também Corin Tellado foi considerada uma escritora menor, que só escrevia futilidades. Mas aqueles que assim pensam, podem agora confrontar as suas teses com as de Maria Teresa González, uma Catedrática da Universidade de Gijon. Esta, na análise que faz à obra de Corin Tellado, além de elogiar o aspecto formal e de achar impar a forma como ela prende a atenção do leitor, faz reparar que a obra percorre, cronologicamente, todos os patamares da luta da mulher pela sua libertação. Segundo esta estudiosa a obra de Corin Tellado, durante o Franquismo, é um autêntico manual de “Educação Sentimental”, uma espécie de “código amoroso”. Já em democracia, ela teria sido pioneira na reflexão sobre o papel da mulher em sociedade e das sucessivas fases na luta de emancipação. E dá exemplos: “Ella entre los dos” sobre a perda da liberdade no casamento; “hago lo que quiero” sobre as relações sexuais pré matrimoniais; “Cuéntame qué passa” sobre o adultério; “Nos separan los celos”, de 1981, é o culminar de toda esta trajectória e aborda a questão da violação em matrimónio. Tema que ainda hoje é actualíssimo. Pelos vistos a mulher não era tão fútil assim. Conclusão: os críticos literários e os pedagogos fizeram asneira, e da grossa. Há bons e maus autores em todos os géneros literários. Mas não há géneros literários menores. Esta arrogância intelectual de rotular de “pimba” ou erudita é tique que se perpetua entre os convencidos. Rotularam o policial de menor, de “pimba” da mesma forma que se esqueceram de reconhecer Bob Dilan ou Chico Buarque já para não falar do chumbo que apanhou o Nobel Português. Todos estes falhanços são grosseiros, de palmatória até, mas lamento mais ainda o ter-se ignorado ou mesmo desprezado a avidez e a voracidade literárias dos leitores compulsivos dos meus tempos de adolescência em lugar de os conduzir, com paciência e humildade, a leituras de outros géneros. Aos pedagogos ninguém pedia que gostassem daquela literatura mas tão só que cavalgassem aquela onda de vontade. Perdeu-se uma oportunidade de ouro. Foi o grau zero da Pedagogia.

Aproveito o ensejo para prestar uma homenagem ao Sr. Lelo. O Sr. Lelo era Contínuo no meu tempo de Liceu. Não privei com ele, claro, que a diferença de idades era grande. Mas ele era amigo dos alunos e cúmplice também. Cúmplice quando nos chamava à parte e nos alertava assim: “Já mandei o postal. Vê lá se ainda o agarras no carteiro, senão já sabes como te mordem.” O postal era a comunicação aos pais do excesso de faltas, de alguma falta disciplinar ou de qualquer outra coisa menos abonatória. E, claro, lá passávamos uma tarde, na rua, à espera do carteiro e quando o víamos, disparávamos: ”É para mim!” Mas também era cúmplice quando trocava connosco “cowboiadas” e policiais, a tal literatura proibida. Entre o Sr Lelo e nós havia vizinhança e que importantes nos sentíamos quando de forma quase clandestina se disponibilizava: “tenho ali um muito bom. Mas vê lá não mo percas.” Era o melhor incentivo à leitura.

Insignificâncias que tornam o Mundo maior.

Nós, trasmontanos, homens da Inquisição - José da Guerra Faria, de Freixo Espada à Cinta

Os familiares do santo ofício eram os civis que, a mando dos inquisidores, executavam as prisões e conduziam os prisioneiros para as cadeias. Nos autos-da-fé, competia-lhes vigiar e acompanhar os réus. E eram também os informadores locais, espias ou “bufos”, como hoje se diz.

Pensar-se-á que era um trabalho sujo e pouca digno. Pelo contrário. Naqueles tempos, era uma grande honra fazer qualquer serviço em nome do santo ofício. E o cargo de familiar era extremamente cobiçado, pelo prestígio social que acarretava. Além de que proporcionava boas vantagens económicas, como era a isenção de impostos, de serviços comunais e militares e autorização para usar armas e vestuário de seda. Em termos simplistas, diremos que o título de familiar da inquisição era mais cobiçado e dava mais prestígio do que o de presidente da câmara ou capitão-mor do concelho.

A criação de uma rede de familiares por todo o país foi o instrumento usado pela inquisição para conseguir o controlo da sociedade e do poder político, tornando-se, em simultâneo, uma instituição verdadeiramente popular. A ponto de os autos-da-fé serem as mais concorridas e participadas festas populares.

Se em 1580 a rede contava apenas com 18 familiares, em 1640(1) o número ascendia 1600 continuando em franco crescimento nos 150 anos que seguiram. De acordo com o decreto publicado em 3.4.1693, a rede de familiares na área de Trás-os-Montes e Alto Douro, foi assim estabelecida: Lamego, 20; Torre de Moncorvo, 6; Miranda, 10; Bragança, 8. Nas restantes sedes de concelho, haveria 1 ou 2, conforme o número de moradores.(2)

Cargo muito cobiçado, era difícil de conseguir, organizando-se um rigoroso processo para a sua admissão. Por vezes demorava décadas e o pretendente gastava fortunas, com sucessivas diligências. Outras vezes era simples, como o caso que hoje apresentamos.

José da Guerra Faria, natural e morador em Freixo de Espada à Cinta, solteiro, de 21 anos, proprietário do cargo de escrivão dos órfãos. Em julho de 1636, apresentou um requerimento no conselho geral da inquisição, em Lisboa, dizendo que “deseja empregar-se em o serviço da santa inquisição, com a ocupação de familiar, porquanto na dita vila e seu termo se não acham mais de 2 e é das mais populosas do reino”. Com o pedido, o pretendente, logo entregou 6 mil réis.

O requerimento foi despachado para Coimbra e dali foi encarregado o comissário Sebastião Carvalho Torres, abade de S. Pedro da Silva, junto a Miranda do Douro, para, “extrajudicialmente, com muita cautela e segredo”, colher informações sobre as condições económicas e a qualidade de sangue de Faria Guerra e seus ascendentes. Sim, que os familiares deviam ser pessoas ricas, das principais da terra e não podiam ter sangue de “judeu, mourisco, negro, mulato, nem de outra alguma infecta nação das reprovadas em direito”.

Foi o comissário a Freixo, secretamente tomar informações, que mandou para Coimbra, escrevendo:

— O habilitando se trata limpa e abastadamente, do rendimento do ofício de escrivão dos órfãos, de que é proprietário e serve, e de outros bens, terá 25 anos, solteiro e não tem filhos. Seu pai tratava em fábrica de sedas e fora alferes de ordenança e seu avô paterno fora sapateiro e tocava charamela na igreja e procissões e o materno fora lavrador.(3)

Entretanto, fizeram-se investigações nos arquivos das inquisições de Coimbra, Lisboa e Évora, verificando-se que nenhum processo ou denúncia existia contra o suplicante e seus ascendentes. À partida, não havia obstáculo de maior e, por isso, o processo podia continuar. Para isso ordenaram os inquisidores de Coimbra que o mesmo comissário fosse a Freixo tomar informações judiciais ouvindo 12 testemunhas juramentadas, as mais idosas, cristãs-velhas, “noticiosas, verdadeiras, desinteressadas e das mais principais”, levando um escrivão de sua confiança, para lavrar os autos.

Por 7 dias assentaram arraiais em Freixo de Espada à Cinta, em casa de Francisco Saraiva do Amaral, familiar da inquisição e capitão-mor da vila, o comissário Torres e o escrivão, padre Gregório Supico. Não vamos referir as testemunhas ouvidas e respetivas declarações que, sobre o assunto, todas foram positivas e elogiosas, revelando-se muito interessantes para o estudo da ambiência económica, social e cultural da terra. Resumindo, diremos que José Guerra se tratava “à lei da nobreza”, vivendo desafogadamente, com 60 mil réis/ano que recebia do emprego de escrivão dos órfãos e dos rendimentos do casal “que ele e sua mãe possuem e tem o valor de 10 a 12 mil cruzados”, (4 ou 5 contos de réis). Para além disso “tratava de mandar compor e fabricar seda a seus criados e obreiros”. Aliás, também o seu pai tinha em casa torno de fiar seda e vendia panos de peneiras.

Em sua ascendência, o menos qualificado e digno, seria o avô materno que era sapateiro. A seu favor pesava, no entanto, o facto de tocar charamela na igreja. O comissário Torres concluiu assim o seu relatório:

— É pessoa de boa vida e costumes, muito capaz para servir o santo ofício (…) somente tem, em um olho um vermelhão, por respeito que, sendo menino lhe nasceu um carbúnculo e ficou com algum defeito, mas que lhe não tira a vista. Este é o defeito que lhe achei.

Como se vê, até o aspeto físico do candidato era esquadrinhado. Resta dizer que o comissário e o escrivão procuraram também os livros paroquiais para deles extrair certidões de nascimento e casamento do pretendente, seus pais e avós. Encontraram apenas alguns registos, muito poucos, apesar das buscas que fizeram nos livros paroquiais, muitos deles já depositados em Torre de Moncorvo, onde o comissário gastou mais um dia.

Claro que o requerente pagou todas as custas: ao comissário, 10 588 réis; ao escrivão, 6 192; notificações, 240. Fazendo contas, verificamos que por dia de trabalho, escrivão recebeu 774 réis e o comissário 1 323,5 reis, ou seja o correspondente a mais de 13 jornas de um operário normal.

Em 1750, o familiar José Guerra quis casar, com Catarina Pereira Meireles. Antes, porém, foi-lhe necessário promover iguais diligências para averiguar a sua limpeza de sangue e modo de vida “à lei da nobreza”, começando logo por depositar 5 mil réis. Da missão foi encarregado o comissário Manuel Zuzarte Coelho, morador em Freixo, que, pouco tempo depois, faleceu.(4) Substituiu-o o comissário José Domingos Espinosa, abade da igreja de Santa Maria de Mós, comarca de Moncorvo que levou o padre Manuel Lopes Pinto, de Carviçais, por escrivão.

O processo foi analisado pelos membros do conselho geral que decidiram passar-lhe carta de familiar em 4.4.1747. Interessante: no dia em que a carta lhe foi passada, um dos membros do conselho encontrava-se ausente. Por isso foi necessário ir a sua casa para assinar, debitando ao pretendente 10 tostões de despesa.

Mais barata ficou a carta de familiar de seu irmão, Amaro de Faria Guerra,(5) passada em 31.8.1753, já que estavam feitas as diligências sobre seus pais e avós na vila de Freixo de Espada à Cinta. Fizeram-se apenas diligências a respeito de sua mulher Maria Luís, essa sim muito rica, herdeira de dois tios padres e possuidora de uma grande casa agrícola em Vilar Chão, onde o casal morava. Resta dizer que Amaro Guerra era formado em medicina pela universidade de Coimbra. A propósito veja-se um naco da informação do comissário:

— É bem procedido e com capacidade para servir a ocupação, trata-se com decência, vivendo de suas fazendas, sem usar de suas letras de medicina.

Veja-se: o curso de medicina não abonava a favor das pretensões do candidato, antes seria um obstáculo à sua nomeação de familiar! Na sociedade de então, gozava de mais nobreza um lavrador que um médico.

 

Notas:

1 - GREEN, Toby, A Inquisição o Reino do Medo, p. 280, Editorial Presença, Lisboa, 2010.

2 - TYPOGRAPHIA Dominici Gonçalves, Opusculum de Privilegiis Familiarium… Ulyssipone, MDCXLVII, Anexo. O decreto não seria respeitado, decidindo os inquisidores casuisticamente.

3 - ANTT, tribunal do santo ofício, conselho geral, habilitações, José, mç. 41, doc. 661.

4 - O escrivão foi o padre Francisco Geraldes da Guerra e o local de audição das testemunhas foi a capela do Senhor da Fonte Seca.

5 - ANTT, tribunal do santo ofício, conselho geral, habilitações, Amaro, mç. 3, doc. 47.