Uma maioria absoluta que mete medo

Não há memória de haver uma ameaça de maioria absoluta tão assustadora.

Maioria absoluta que deve ser tida e respeitada como democrática, independentemente das vantagens ou dos inconvenientes que dela poderão, ou não, advir.

 Maioria absoluta que, lamentavelmente, ganhou, entre nós, por razões fundadas, um labéu profundamente negativo.

Tudo porque no permissivo regime político português instituições fundamentais como sejam os Tribunais, a Assembleia da República, a própria Presidência da República e os organismos reguladores, são ainda mais despudoradamente menorizadas e manipuladas pelos Governos, em função de interesse pessoais e partidários, quando dispõem de maioria absoluta.

Sobretudo agora que se diz que António Costa está à beira de a alcançar, quando a esquerda radical foi enxotada do poder em que aboborou à sombra da Geringonça e a direita se arrasta, sem tino, pelas ruas da amargura, os perigos que a maioria absoluta traz no ventre são, aos olhos da generalidade dos eleitores, mais assustadores do que em nenhuma outra circunstância.

Disso está ciente o próprio primeiro-ministro que procura ganhar votos de todas a formas e feitios, dando-se mesmo ao desfrute de arriar no governo que José Sócrates chefiou e do qual ele foi o ministro mais poderoso, numa hábil tentativa de despistar tal receio e disfarçar tal desejo.

Gesto que vários analistas consideraram uma encenação circunstancial, tacitamente concertada com o próprio José Sócrates que poderá ser um dos principais beneficiários da maioria absoluta, se ela se vier a concretizar.

A maioria dos portugueses tem, por estas e por outras, fundadas razões para temer a maioria absoluta tão desejada por António Costa quando, paradoxalmente, o próprio se ufana do sucesso do seu governo minoritário.

Temem os portugueses que a posse e aproveitamento abusivo de cargos governamentais e da administração pública e autárquica por famílias e correligionários socialistas se intensifique sem regra nem decoro.

 Temem que o combate à corrupção continue cinicamente iludido e que os crimes de traição à Nação cometidos por políticos e banqueiros fiquem definitivamente sem punição.

Temem que um governo socialista de maioria absoluta aumente perigosamente a dívida pública e a ineficácia dos serviços, como é seu timbre, contrariamente ao que apregoa.

Temem que a tenebrosa ideologia do género ganhe força nas escolas e acabe por dominar toda a sociedade portuguesa.

Temem que o islamismo intolerante saia de Lisboa com o apoio governamental e alastre a todo o país, acabando por, a prazo, liquidar a cosmopolita cultura portuguesa historicamente prevalecente e que desde sempre assentou no mais genuíno multiculturalismo.

Temem o cinismo político de António Costa que, porque não tem oposição à altura, ele mesmo encena a oposição ao seu próprio governo, invocando habilmente tudo o que até hoje não fez mas que agora mais uma vez cinicamente promete fazer, sendo certo que, uma vez senhor de maioria absoluta é absolutamente certo que o não fará. É o caso do investimento no Interior em geral e em Trás-os-Montes em particular.

Uma maioria absoluta que mete medo, portanto. Por tudo isto e por muito mais que fica por dizer.

 

Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

 

Henrique Pedro