José Mário Leite

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O Problema

A propósito das inaceitáveis ameaças a deputadas e dirigentes de associações cívicas foram recordadas as recentes declarações de Rui Rio, sobre o Chega e de uma possível ou eventual coligação futura com o partido de André Ventura. Foram vários, aliás, os comentários, vindos de todo o lado, inclusive de dentro do seu próprio partido, sobre as afirmações do Presidente do PSD que, à luz da insinuação de Catarina Martins, questionado pela Comunicação social, alegou manter o que dissera a Vítor Gonçalves, na entrevista da RTP3. Há, nelas, três aspetos a considerar. Em termos políticos são, já ninguém duvida, um erro. Dar ao Chega o estatuto que não tem só pode beneficiar o partido da extrema-direita. Branqueia a atuação do seu líder e credita-lhe uma exagerada e inexistente importância eleitoral. Contudo, formalmente, na sua generalidade, as afirmações do antigo Presidente da Câmara do Porto, estão corretas. Diz que o PSD está onde está e não tem que se deslocar para lado nenhum e que, para haver qualquer entendimento, terá de ser o Chega a abandonar determinadas atuações e princípios. Rui Rio que veio para recentrar os sociais democratas não está a puxá-los, agora, para a direita. Não se entende esta referência explícita ao extremismo quando tem à sua direita um partido que ocupa essa área com prática e ideologia total e completamente compatível com o regime democrático saído do 25 de abril de 1974. É verdade contudo que, em entrevistas, nem sempre se diz tudo o que se quer e não se pode deixar de responder às questões colocadas pelo interlocutor. Admitindo a correção formal, genérica, da resposta de Rui Rio, há nesta, contudo, um pormenor que faz toda a diferença. E, para não ser injusto para com o líder do meu antigo partido, vi e revi a sua alegação final, sobre o assunto. Disse, ipsis verbis: “Se o Chega continuar numa linha de demagogia, de populismo, da forma como tem ido, está aqui um problema porque aí não é possível, efetivamente, um entendimento com o PSD”. O líder laranja deve esclarecer bem, afinal que problema é este. Se o PSD vai manter-se onde está e vai recusar qualquer diálogo com a sua direita mais radical, enquanto esta não mudar de discurso e de objetivos, é natural que não haja qualquer hipótese de entendimento. É a consequência expectável do percurso das duas formações partidárias. Não tem de ser um problema, mesmo que tal circunstância possa ser o único obstáculo para abrir, ao portuense, as portas do palácio de S. Bento. Há ainda quem, no PSD, venha reclamar que quem aceita acordos com a extrema esquerda não tem moralidade para criticar igual atitude à direita. Extremismos são extremismos, é verdade. Não são recomendáveis nem são, como é sabido, a opção da esmagadora maioria do povo português. Não são, igualmente, a minha opção. Não subscrevo nem apoio a organização política e social defendida pelos partidos marxistas muito menos a tomada de poder. Mas não receio a sua benéfica influência junto de quem governa. Apesar de não contarem com a minha militância política, são várias as iniciativas, missões e propostas que, vindas dessa área, merecem a minha total concordância. Não encontrei ainda nenhuma, na área do Chega, que me desperte qualquer simpatia.

Arrogância (grave e pouco inteligente)

A história é simples e descreve-se em poucas palavras. Começou alguns dias antes da chegada da pandemia e terminou em plena fase de confinamento. Não tendo importância bastante para se impor a outros assuntos que, entretanto, foram surgindo, contém em si matéria suficientemente grave para impedir o seu esquecimento. Havia, desde há mais de uma dezena de anos, uma regra do conhecimento de todos e nunca quebrada e que determinava que todas as edições literárias produzidas por munícipes de determinado concelho, tinham direito a apoio municipal. Naturalmente, o editor abordou o Presidente da Câmara solicitando a normal contribuição municipal para a divulgação de várias obras que preenchiam os requisitos. O autarca concordou, de imediato, com todas as propostas com exceção do livro escrito por um determinado autor. Ao saber do sucedido, o visado dirigiu-se por e-mail ao autarca pedindo explicações. Este mandou um responsável da autarquia responder que os apoios culturais estavam cancelados por causa da pandemia, entretanto instalada. Há, pelo menos, três aspetos e relevar desta situação. 1 – Como a recusa foi feita com base no nome do autor e não em qualquer análise da sua obra (ainda não tinha sido lançada, nessa altura) o gesto configura manifesta censura baseada em suposto delito de opinião. Queria, provavelmente, “prejudicar” o escritor, mas a penalização afeta sobretudo o editor, pequeno empresário do mesmo concelho. Peca, sobretudo, por falta de inteligência. Qualquer pessoa com dois dedos de testa facilmente concluiria que esta era uma oportunidade única de colocar nos ombros uma capa de democrata, mesmo não o sendo (até porque a promessa poderia ser deferida para a altura que mais lhe conviesse). Desperdiçar essa possibilidade revela, sobretudo, pouca esperteza mas, infelizmente, há pessoas para quem, qualquer avaliação positiva, mesmo que modesta, arrisca-se sempre a ser exagerado. 2 – Decidindo furtar-se a dar, na primeira pessoa, uma justificação, qualquer que ela fosse, sobre uma decisão pessoal a discricionária, mostra, não só o incómodo que a situação lhe causou mas, mais do que isso, evidencia a cobardia de quem não é capaz de assumir os próprios atos, escondendo-se atrás de quem não se pode deixar de obedecer às “ordens superiores”. Episódios passados denunciam não ser este um episódio fortuito. É bom não esquecer que o que foi questionado por e-mail não foi a recusa da concessão de apoio mas quais as razões para a exclusão com base apenas no nome do escritor. 3 – Mas, o pior de todo este episódio reside na exibição, sem pudor, nem recato, da determinação, por parte de quem ocupa um lugar de eleição democrática, de usar, a seu bel prazer, os recursos públicos que jurou gerir responsavelmente e com equidade. Se mesmo sabendo que o episódio dificilmente deixaria de vir a público (admitir o contrário seria diminuir-lhe a capacidade intelectual a um nível inimaginável), não se coíbe de assumir, que usará ou deixará de usar os fundos municipais em função dos seus humores pessoais e das suas considerações subjetivas e distorcidas é de uma gravidade enorme. Em qualquer altura. Muito mais no dealbar do ano de eleições!

Primeiro estranha-se

Há quase cem anos, Fernando Pessoa escrevia o célebre slogan com que a Coca- -Cola pretendia entrar em Portugal. O poeta dos heterónimos glosava com a capacidade adaptativa dos seres humanos perante as novidades, sejam adversas, benéficas ou nem uma coisa nem outra. Realidade que é extensível a todos os seres vivos, residindo nela o segredo e a maravilha da biodiversidade e da evolução. É bom não a esquecer, para o bem e para o mal. Após um período de bom comportamento generalizado, assistimos ao retrocesso em vários locais. Qualquer um de nós, antes de apontar o dedo a quem usa máscara com o nariz destapado, afastando-a da boca e empurrando-a para o pescoço, deveria fazer um pequeno exercício e lembrar-se de gestos que infelizmente se esqueceram rapidamente, com o avançar do desconfinamento, mesmo que, felizmente outros se tenham enraizado. O à vontade com que começamos a lidar com o vírus que, apesar de invisível, continua presente, é o novo risco, passada que foi a temporada das contaminações exponenciais com que nos apanhou de surpresa. O risco do relaxamento tão natural, quanto perigoso, contrasta com o avanço do conhecimento e das descobertas que a ciência continua, diariamente, a fazer, sobre este intruso que veio, de surpresa, para se instalar e reclamar o seu lugar, nas nossas vidas. Das muitas que vão surgindo e que, lembrá-las a todas seria desvalorizar cada uma, há duas que me mereceram devida e apropriada atenção, talvez, porque não?, por me chegarem através de instituições que muito me dizem, já há vários anos. Zachary Mainen, um dos investigadores de referência do Centro de Investigação em Neurociências da Fundação Champalimaud anunciou estar a coordenar em Portugal um amplo projeto internacional, liderado por uma equipa de cientistas israelitas, que tem por tema a avaliação da capacidade olfativa, sendo a sua diminuição ou perda, um alerta precoce para a infeção por COVID-19. Este programa acessível a todos permite que, por comparação diária dos cheiros de várias substâncias, se possa avaliar o estado dos interessados. Miguel Che Soares, do Instituto Gulbenkian de Ciência, em declarações à TVI veio esclarecer alguns aspetos fundamentais e há muito conhecidos da pandemia e, igualmente, descobertas recentes e preocupantes. O vírus, quando infeta uma pessoa, se não conseguir transmitir-se, morre. “Se pararmos a transmissão, matamos o vírus e ele desaparece.” – disse. Disse também que a transmissão se faz por partículas de 5 micrómetros expelidas quando alguém infetado fala ou tosse e que podem ser projetadas até dois metros de distância, antes de caírem no solo. Daí se ter fixado essa distância como padrão do afastamento social seguro. Porém, investigações recentes vieram demonstrar que as referidas partículas, em ambientes quentes (entre 25 e 35 graus celsius) e relativamente secos (entre 10% e 40% de humidade relativa) as mesmas gotículas dividem-se em outras mais pequenas que, sendo mais leves, permanecem no ar durante mais tempo, atingindo distâncias perto de dez metros, antes de caírem de vez. Como o vírus mede entre 0,8 a 0,9 micrómetros, há perto de cinquenta em cada uma das primeiras, permanecendo nas segundas em número suficiente para infetar quem as inale. Daí a perigosidade da concentração de pessoas em locais de fraca ventilação, temperaturas elevadas e baixa humidade, como os transportes públicos onde, precisamente, se aglomera mais gente!!! Como nota positiva, o investigador confirmou que o tratamento por ultravioletas tem apresentado bons resultados na eliminação do coronavirus pelo que seria bom dotar os sistemas de ventilação de equipamento com essa tecnologia.

A armadilha

Quando António Costa liderou com sucesso a formação da plataforma de apoio ao Governo Socialista que ficou conhecida por Geringonça, foi, repetidamente, afirmado que se havia ultrapassado uma linha vermelha de décadas. Foi sem dúvida um facto histórico ver a esquerda do PS a apoiá-lo, sem qualquer quebra (apesar das naturais e “necessárias” críticas), mesmo nas medidas operacionais de que discordava. Mas esta suposta linha estava marcada num caminho que não nascia ali; já vinha de trás. A verdadeira viragem, o início desta caminhada, aconteceu quatro anos antes quando o Bloco e o PCP abriram caminho para o acesso ao poder de Passos Coelho e Paulo Portas. Isso ficou claríssimo nas declarações quer de Jerónimo de Sousa quer de Catarina Martins na noite das Eleições Legislativas de 2015. A esquerda portuguesa estava refém de si própria, com sentimento de culpa por ter entregue o Governo da Nação ao extremo político oposto e desejosa de se redimir e, tanto quanto possível, sair da armadilha em que tinha caído. António Costa percebeu isso de imediato e tem usado esta situação da melhor forma, em seu proveito. Depois de ter aberto os corredores de S. Bento à Direita, a esquerda foge desse cenário como Maomé foge do toucinho. Foi por isso que o líder socialista os empurrou para a Geringonça, os dispensou no início desta legislatura e os vai recuperar agora e sempre que precisar do seu apoio. Costa, disposto a pagar o necessário para aceder à chefia do governo, como hábil negociador que é e talentoso político, não pretende despender um único cêntimo por algo que pode ter gratuitamente. Digam o que disserem, quer o PCP, quer o BE tudo farão para evitar a queda do governo, com receio de servirem, de bandeja, a presidência do Conselho de Ministros ao lado oposto do espetro político nacional. Evitará, inclusivamente, obrigar o governo a procurar apoio no PSD o que, com Rui Rio, não é uma impossibilidade. O facto de o PCP ter votado contra, não desmente o que atrás foi afirmado, antes pelo contrário vem confirmá-lo. Ao votarem contra, os comunistas sabiam bem que a aprovação não estava em risco; mostraram que não se revêm nas opções socialistas e quando as apoiam é por receio das consequências governativas e não por adesão ideológica; sinalizam (ficou claro nas justificação dada pelo líder parlamentar do PCP) o desagrado do apoio recolhido junto do PSD; tiveram o cuidado de, através do presidente do partido, avisarem já que não vislumbram qualquer crise política, no curto prazo (entenda-se, se for necessário, nós estamos cá e não falhamos)! Em termos gerais, nacionais, a situação não está fácil para o Governo que, atingido o primeiro superávite se preparava para surfar a onda da folga orçamental, arrumado Centeno, libertando o Primeiro Ministro para “fazer política” com os recursos públicos disponíveis, se viu mergulhado numa crise grave e profunda mesmo que ainda não seja totalmente conhecida, nem sentida a sua amplitude. Mas, politicamente está, dadas as capacidades e qualidades do Secretário Geral do PS, como peixe na água. A esquerda evitando a todo o custo o cenário de 2011 e o PSD, acossado pela sua direita, contentando-se em impedir o de 2015. De ambos os lados haveria disponibilidade para partilharem o poder com o atual detentor. Mas, o que poderiam oferecer, em troca, estabilidade política, tem-na António Costa, gratuitamente, por causa da teia enredosa em que se encontram.

Um tiro nas teorias da conspiração

Durante várias semanas escrevi sobre a pandemia provocada pelo SARS-Cov-2. Ansiando, tal como todos, pelo fim do confinamento para retomar a “normalidade”, era minha intenção fechar esse ciclo com uma crónica reservada ao tema que hoje vou abordar. Infelizmente, situações inesperadas e graves perante as quais não podia ficar calado, vieram adiá- -la. Mais valendo tarde do que nunca, como diz o nosso povo, eis-me aqui a prestar o devido tributo ao livro de Manuel Cardoso: “Um tiro na Bruma” A Covid-19 entrou-nos porta dentro, de forma inesperada e devastadora e, com ela, entre outras, várias teorias da conspiração. Entre todas, a mais divulgada foi a da intencionalidade do seu aparecimento. Defendiam, a exemplo do presidente norte-americano e da trupe da Casa Branca, que o coronavirus tinha sido planeado e criado em laboratórios chineses, concretamente em Wuhan, onde apareceu pela primeira vez e onde há um instituto de investigação que, naturalmente, se dedica a estudar este tipo de epidemias por razões óbvias. De pouco adiantaram as opiniões fundadas cientificamente, demonstrando a incapacidade tecnológica para realizar tal feito que, até hoje, não foi ainda possível levar a cabo: a fabricação de um organismo vivo diretamente na bancada em placas de Petri, ou reatores biológicos. Continuaram a insistir, teimando em atribuir causalidade a fenómenos que são naturais e, mais, não são inéditos. E, para além das evidências científicas, há o registo histórico. Para todos os que não queiram “lamber papel” à procura dos vários relatos, inseridos nos tratados de história, com especial enfoque, nos últimos séculos, melhor documentadas e factualmente suportadas, podem e devem ler, atentamente o romance do autor de Macedo de Cavaleiros. Manuel Cardoso, depois de uma exaustiva pesquisa, sabedor da história familiar, conta a saga do seu avô, o médico Amadeu Cardoso, no início de século XX a braços com a mais mortífera das pandemias causada igualmente por um coronavirus, vindo do oriente, potenciada e agravada pela crise política no Portugal Republicano, com o regime ainda à procura da estabilidade, pela crise social resultante desta e acrescentada pelas nefastas consequências económicas resultantes da Primeira Guerra Mundial e ainda aprofundada, no nordeste, pela miséria crescente, pelo afastamento do litoral e pela escassez de tudo, alimentação, medicação e liderança regional. Está lá tudo! Leia-se o romance, esquecendo-se a datação histórica e as condicionantes da época, atualize-se e modernizem- -se os diálogos, expurgados do contexto da sua época e facilmente se ficará confundido pois haveremos de julgar- -nos cem anos depois no meio da crise sanitária que acabou de nos atingir. As recomendações do médico Amadeu “lavar muito as mãos, manter o distanciamento social, cuidar da alimentação e arejar os espaços interiores” e os lamentos da sua esposa clamando pela descoberta e divulgação de uma vacina, bem como a dramática incidência maior e mais profunda junto das comunidades mais pobres e desfavorecidas adequam-se em tudo ao tempo atual. Ora, Manuel Cardoso não tendo nem assumindo capacidades proféticas não podia antever, em 2007 que, mais de uma dezena de anos depois poderia assistir, ao vivo, à réplica de muitas das cenas e, sobretudo, das observações e recomendações por si descritas com base nas suas investigações e aturados estudos. Todos os que seguirem a minha sugestão, que vivamente recomendo, serão brindados com um enredo adicional de uma morte misteriosa, com uma lição de história regional e ainda com a brutalidade do tempo revolucionário onde a própria demência pode ser confundida com secreta conspiração contra-revolucionária onde o eucarístico Kyrie, que quase titulava a obra, é dramaticamente castigado.

Campos Monteiro

O último fim de semana de maio,apesar de aliviante desconfinamento, surpreenedeu-me com uma notícia chocante e inacreditável: o busto do escritor moncorvense Abílio Adriano de Campos Monteiro tinha sido derrubado! No largo com o seu nome e no lugar onde honrados e gratos moncorvenses fizeram erguer uma justa homenagem ao grande vulto literário estava agora um montão de escombros “protegidos” por amarelas grades metálicas. Fiquei incrédulo e chocado! Era difícil acreditar no que me era mostrado. Resisti à tentação visceral de protestar, vociferando, à boa maneira transmontana, contra quem pudessem ter estado na origem de tal ato criminoso e lesivo, não só da memória do escritor, mas também da boa-fé de todos os que lhe reconhecem o inestimável contributo para cultura nordestina. Não podia ser o que parecia. Tinha de haver uma explicação razoável... ou então, de imediato, mãos diligentes haveriam de refazer o que, insensatamente fora mandado desfazer! Estava esperançado que a reunião de Câmara da segunda-feira seguinte, dia 1 de junho, iria esclarecer a situação e os seus fundamentos legais. O Castelo de Torre de Moncorvo, onde se insere o monumento em questão foi classificado, por decreto governamental, como imóvel de interesse público em outubro de 1955 de acordo com o que está publicado no PDM em vigor. Como tal está ao abrigo das disposições da Lei de proteção e valorização do património cultural. Nenhuma intervenção, mesmo limitada à conservação e restauro, pode ser efetuada sem autorização da entidade tutelar. Esta haveria de ser exibida na reunião municipal e tudo ficaria esclarecido. Era preciso ter paciência e aguardar. Afinal, de acordo com o testemunho da vereadora Maria de Lurdes Pontes, publicado e não desmentido, o único documento apresentado foi uma nota de serviço da autoria do Presidente da Câmara! Fiquei ainda mais incrédulo! Não podia ser! Não sei quando ouvi, pela primeira vez, falar de Campos Monteiro. Mas lembro bem a descoberta, no manual de leitura do ciclo preparatório, de um texto maravilhoso transcrito do livro “Ares da Minha Serra” sobre a Rebofa, fenómeno que, felizmente deixou de acontecer. A descrição realista e dramática avivara e recriara a observação recente e traumática das águas lodacentas do Douro a invadirem as canameiras, vinhas e pomares da Vilariça, espalhando o terror e a destruição. Mais recentemente, já como Presidente da Assembleia Municipal, tive o privilégio de propor para aprovação o regulamento que estabeleceu o Prémio Literário Campos Monteiro, dando substância a uma feliz ideia do saudoso moncorvense Rogério Rodrigues. E que, apesar de continuar anunciado na página do município, ao que me informaram, foi suspenso por decisão do Presidente da Câmara, num clamoroso desrespeito pela Câmara a que preside, (autora formal da proposta), pela Assembleia Municipal (que a aprovou), pelo seu patrono (mais uma vez!), por todos os autores, possíveis candidatos e, em resumo, pela cultura! Escrevo este texto esforçando- -me por manter o nível que o respeito pelas instituições municipais do meu concelho me merecem, apesar e independentemente de quem as preside. Não sei se Abílio Adriano Campos Monteiro teria os mesmos pruridos, depois da ofensa que reiteradamente lhe fazem. No fecho desta crónica, não resisto, à tentação de lhe dar a palavra na pessoa de Marcial Jordão, pseudónimo com que escrevia no Jornal de Notícias. Questionado se isto prenunciava o fim do mundo, o repórter tripeiro, provavelmente, haveria de responder, como o fez em novembro de 1919: “... o mundo não acaba ainda. Mesmo porque esse dia seria o dia do juízo, – e juízo é uma coisa que tarde haverá...

Análises isoladas não são válidas

Que mal tem? 
Esta vai ser, provavelmente, a pergunta que mais se irá ouvir, nos próximos tempos. 
Nenhum. Provável e aparentemente nenhum, mas é proibido.
E bem.
Porque neste regresso do confinamento não podemos fazer uma análise casuística mas sempre grupais ou universais. Não há risco nenhum em que alguém esteja deitado na areia da praia a tomar banhos de sol. Mas o direito individual, devendo ser universal, perde-se por causa dessa característica, globalizante. Uma pessoa a banhos, não representa qualquer ameaça, mas milhares delas, sim.
Tal como acontece em tantas outras atividades da nossa vida. Sempre que as consequências de um ato são desproporcionadas, a precaução tem de compensar essa desproporção. O exemplo mais claro, frequente e generalizado é o do seguro automóvel. Para causar um grande dano não é necessária uma ação continuada, esforçada e musculada. Nada disso. Basta um pequeno descuido. Por isso a compensação tem de vir da extensão. Visto à lupa e de forma isolada, provavelmente não há razão para forçar a maioria dos condutores ao pagamento obrigatório da sua prestação anual. Mas a análise global da sinistralidade, não a dispensa. 
O mesmo se passa com o uso obrigatório de capacete de proteção, quando aos comandos de um motociclo. Não é só a análise casuística como o próprio histórico, demonstram poder ser dispensável o seu uso. Nada de grave acontece numa pequena viagem, nenhum risco concreto se incorre na esmagadora maioria das restantes. Foi, contudo, a enorme quantidade de acidentes de consequências muito graves que impuseram essa medida de segurança. O gesto de colocar o capacete, desde que generalizado, poupa muitas vidas mesmo quando não seja possível ou evidente vislumbrar, como, antecipadamente. 
Como alguém que me é próximo alertou, recentemente, o vírus não foi embora nem o risco de contaminação desapareceu. O achatamento da curva garantiu-nos “apenas” mais camas disponíveis nos Cuidados Intensivos. Não serei tão dramático. É realista reconhecer que há hoje outras medidas que diminuem a possibilidade de contágio... desde que não se baixe a guarda. É bom ter presente que a máscara de uso generalizado não garante a imunidade... aumenta a proteção, o que não sendo tudo, não é pouco, nem de somenos. 

Vamos ter de conviver com o risco de infeção, que é real e permanente, independentemente do achatamento da curva e da dimensão do famoso R. Este risco nunca é zero, porque seria impossível viver com cada um de nós dentro de uma bolha assética e isolada. O nosso papel é minimizá-lo. E, em cada gesto, em cada ação não podemos questionar a sua consequência direta para nós mas julgá-la, com base em dois critérios:
- Contribui para diminuir ou aumentar o risco?
- Mesmo que o meu gesto e atitude seja aceitável, sê-lo-á, igualmente se repetido por milhares de cidadãos.

Nota final. É verdade que a vida moderna já não dispensa as viagens aéreas e todos nós ansiamos pelo seu regresso nas condições a que nos habituámos. Mas a diminuição das exigências de distanciamento num ambiente confinado e de convivência próxima, durante várias horas não é uma boa medida e muito menos um exemplo para outros processos de desconfinamento igualmente sedentos de regresso à normalidade.

EGOÍSMO E SOLIDARIEDADE (Privacidade e Segurança)

Ninguém se salva sozinho.

Durante o recente confinamento lembrei-me, a propósito do uso das máscaras e não só, dos primeiros anos da minha vida profissional. O meu primeiro emprego foi numa das maiores empresas têxteis do Vale do Ave. Como morava no Porto ia, com vários colegas meus, nas mesmas circunstâncias, diariamente da Cidade Invicta até Pevidém, nos arredores de Guimarães. Fazia parte do entretenimento da hora de viagem tentarmos adivinhar, até chegarmos à Trofa, qual a cor com que o rio Ave se apresentaria, nesse dia.

No início dos anos oitenta a têxtil ressurgia depois de uma crise (e antes de outra) e não havia preocupações ambientais, dignas desse nome. No rio Ave e seus afluentes eram despejados os resíduos das secções de acabamento e tinturaria das inúmeras estamparias da região. Os cursos de água ficavam tão poluídos que a utilização da água, por cada uma delas tinha de ser precedida da passagem por adequadas estações de tratamento de água. Cada unidade tinha de despoluir a água que usava e despejava depois, diretamente no esgoto em direção ao mar. Com o aumento da sensibilidade social para este problema aliada à necessidade de mudar o panorama por causa da nossa adesão à então CEE foi necessário mudar o cenário. Podia parecer ser necessário um investimento brutal para, mantendo a atividade económica, alterar radicalmente o problema. Parecia mas não era tanto assim. Afinal, cada empresa têxtil tinha já uma estação de tratamento de água. Se todas, sem exceção, usassem o equipamento existente para despoluir, todos tinham acesso à água limpa e o rio Ave libertava-se, automaticamente da horrível e pesada poluição.

O mesmo se pode passar com a COVID. É óbvio que o interesse mais importante de cada um é não ser contaminado. Mas, se cada um de nós impedir contaminar quem quer que seja, ficamos todos protegidos e o ambiente à nossa volta também! É por isso que todos devemos usar máscara.

Mas isto aplica-se, igualmente a outras ações. A propósito da possibilidade de serem usados os telemóveis com a finalidade de se rastrearem, retroativamente, os contactos de alguém infetado. Tendo em vista preservar a confidencialidade, o desencadear do processo de advertência tem de se iniciar apenas a partir da informação, para o sistema de quem for diagnosticado como positivo. Todos os restantes ficarão a saber que alguém, não identificado, com quem teve um contacto próximo, está infetado com o coronavirus.

Um amigo meu, com quem discutia o assunto, disse-me que não iria aderir, mesmo garantindo os seus direitos, porque não acreditava que os outros comunicassem. Eu aderirei. Porque se for detetado como positivo, comunico. Mais do que por solidariedade... por puro egoísmo. Porque a melhor e mais eficaz forma de garantir que todos informam passa pelo compromisso de cada um informar.

Nesta situação particular, (tal como acontece com a necessária recuperação económica na união europeia) quando começar a pensar egoísta e exclusivamente em mim... nesse mesmo momento deixei de tratar do meu próprio interesse!

 

A segunda vaga

Tal como prometido na minha crónica anterior e com as cautelas necessárias, procurando a maior objetividade possível, à luz do que se vai conhecendo, tentarei analisar as razões das opções tomadas pelos decisores.
Embora o tenha referido, nos meus últimos textos publicados na imprensa, é bom não esquecer que a pandemia nos apanhou de surpresa e que mesmo alguns especialistas, conhecedores do fenómeno e dos seus mecanismos tinham dificuldade em apontar, com certeza, os caminhos certos e adequados, sem deixarem de manifestar muitas dúvidas e incertezas. Mas também desenhando alguns cenários possíveis, prováveis e inevitáveis. 
No início deste mês a Fundação Gulbenkian organizou uma tele-conferência com vários e distintos convidados internacionais para além dos meus conhecidos Mónica Dias, Miguel Soares e Gabriela Gomes. Esta última, especialista em epidemiologia, criadora do modelo Gripenet, surpreendeu com o anúncio da inevitabilidade do surgimento de uma segunda vaga, de valores muito elevados, como consequência do achatamento da curva atual. Ao susto inicial seguiram-se as justificações e explicações sobre os cenários possíveis. Entre estes uma certeza, aceite por todos os que têm conhecimentos credenciados na matéria: uma primeira vaga dura e agressiva e pouco reprimida, causando grandes estragos e sacrifícios atuais, evitará uma segunda, devastadora... se nada de extraordinário acontecer.
A segunda vaga vai acontecer. Como acontece sempre com estes fenómenos epidemiológicos. Terá, esperamos, condições de defesa reforçadas. Mas encontrará, igualmente, não o esqueçamos, situações que lhe são favoráveis. Os focos de infeção estarão mais dispersos e será mais difícil a contenção. A auto-disciplina será mais difícil de implementar. Quem não tenha seguido as determinações com rigor, nesta fase, e dela saído incólume, dificilmente se convencerá a adotá-las depois. Quem sofre muito com as condições atuais, terá grande relutância em iniciar um novo ciclo. Muitas empresas vão sair do vigente confinamento muito debilitadas sabendo bem que um segundo impacto parecido ser-lhes-á fatal. Muitos sentir-se-ão desanimados porque os sacrifícios da primeira investida não evitaram a segunda.
Por isso mesmo é necessário ter muita cautela antes de sentenciar já outras opções, como a ensaiada pelo Reino Unido e implementada pela Suécia. É verdade que o custo em vidas e em esforço do Serviço de Saúde é enorme, mas, em boa verdade, também enorme pode ser, no futuro, a poupança, nesses mesmos domínios. Uma vida não tem preço, logo não é possível determinar qualquer parcela da mesma, medida em anos poupados ou em baixas futuras. É uma matemática impossível de fazer. Por outro lado, esse cenário que nos espera, ameaçador, poderá ser minimizado, com o aparecimento de uma vacina, com uma alteração dramática, com uma descoberta fantástica. A esperança de hoje, existe e deve ser mantida!
À luz do que se sabe, ouvindo e valorizando quem efetivamente sabe, não é fácil tomar decisões! Não queria estar na pele de quem tem de o fazer! Angustiado, deprimido, fragilizado, sinto-me bem e confortável a seguir à risca o guião desenhado por quem tem de o fazer e o faz, não duvido, pensando no que é melhor para mim e para todos nós!

Mónica Bettencourt-Dias (Instituto Gulbenkian de Ciência – Moderadora)
Akiko Iwasaki (Yale School of Medicine)
Filipe Froes (Hospital Pulido Valente)
Gabriela Gomes (Liverpool School of Tropical Medicine)
Miguel Soares (Instituto Gulbenkian de Ciência)
Stewart Cole (Pasteur Institute)

Qem só sabe de futebol Nem de futebol sabe

A frase aparece com várias formulações mas a ideia é de Manuel Sérgio, conhecido como o filósofo do futebol. O Professor e antigo Deputado na Assembleia da República tem chamado à atenção do erro que é tentar resolver questões complexas com olhares unidirecionais, por mais complexos e “competentes” que estes possam ser, na sua especialidade. É assim não só no futebol como, praticamente, em todas as áreas da vida contemporânea.

A sociedade moderna impõe a existência de especialistas nas mais variadas áreas do conhecimento e da gestão societária. É verdade que a complexidade dos temas, a grandiosidade das variáveis e a importância das consequências, para o bem e para o mal, exigem uma especialização crescente. Paradoxalmente, a multidisciplinaridade dos assuntos mais importantes, impõem a partilha e abertura a várias áreas e conhecimentos complementares diversificados. Idealmente, os especialistas deveriam ter um perfil, nascido na renascença, mas há muito extinto por impossibilidade prática: o homem enciclopédico. O volume de conhecimento a multiplicidade de temas e profundidade dos seus requisitos tornou essa quimera impraticável. Essa é a razão pela qual a liderança do conhecimento humana, personalizada nos melhores cientistas, nas mais diversas áreas, deixou de se fazer de forma individual (nem tão pouco em grupo) mas alargadamente, em ampla cooperação. Apesar disso continua a haver áreas em que, pensando com isso aumentar a competitividade e concorrência internacional, algumas pastas são entregues a “especialistas” cuja reputação foi feita com abundantes provas dadas na matéria de que é suposto cuidarem mas, por tão especializados e focados, esquecem totalmente as disciplinas adjacentes, algumas delas bem próximas, influenciadas e influenciadoras daquela a que se dedicam. Conheço exemplos de mulheres e homens geniais, líderes mundiais nos estudos que promovem e incapazes de reconhecerem normas banais e pouco mais do que bom senso em áreas de suporte e de menos complementaridade. Felizmente, nesses casos, a inteligência geral que possuem, leva-os a confiarem em terceiros, permitem que, nesses campos outros, menos geniais mas mais c omp e tente s para o efeito os substituam, com ganho de causa. Não há qualquer drama nem isso representa qualquer menorização dos vários intervenientes. Em ciência é essa a norma e todos a respeitam, honram e aceitam.

Infelizmente não é assim quando passamos para o campo da política. Senhores de verdades absolutas, treinados para liderarem sem “desvios”, acostumados a que todas as críticas são oposicionistas, todos os reparos são penalizantes, quando especializados numa pasta e nela têm sucesso são tentados (muitos persistem) a esquecerem tudo o resto, menorizarem o que não é do seu domínio independentemente das consequências mesmo para este.

É o que se passa com o cargo de Ministro das Finanças na Holanda. As suas repugnantes declarações não são apenas uma inaceitável demonstração de falta de solidariedade. São igualmente estúpidas e ignorantes. Numa pandemia, no limite, (quase) todos vamos ser infetados. A melhor forma de defender e proteger os cidadãos holandeses passa pela contenção da contaminação galopante em Itália e Espanha.