José Mário Leite

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A Bandeira, a TAP e a CP

Ao mesmo tempo que sabia que os anunciados investimentos na ferrovia não só estavam atrasados como muitos deles já não teriam lugar no Portugal 2020 e têm a sua execução no Portugal 2030 dependente de nova avaliação porque o chumbo do Orçamento impediu o saneamento financeiro da CP, igualmente era público que, para além dos milhares de milhões já injetados na TAP, iriam ser disponibilizados mais cento e cinquenta milhões na transportadora que cancelava vários voos (com os enormes custos associados) e anunciava que seguiria o exemplo das operadoras de low-cost com quem concorre. Não é fácil entender esta dualidade de uso dos dinheiros públicos que, como é sabido, se sustentam dos impostos dos cidadãos. Os impostos, para além da afirmação da soberania, servem para financiar obras e atividades comuns, de utilidade pública, que não seria possível levar a bom termo exclusivamente com a contribuição voluntária de cada um e sobretudo para permitirem a redistribuição de riqueza exigindo mais a quem mais tem, para benefício de quem tem menos e pode menos. Ora, o que acontece com estas duas empresas públicas, está nos antípodas desta função de correção das desigualdades da sociedade. Os utentes da CP são, efetivamente, os desfavorecidos e foram estes os mais prejudicados com o encerramento das várias linhas, no século passado. Como os impostos são progressivos, os investimentos na ferrovia cumprem a nobre missão de apoio aos mais necessitados com maior contributo dos mais abastados. Já a TAP transporta sobretudo os que têm mais recursos e, como apesar das contribuições estatais, apresenta prejuízos pagos com os impostos de todos, favorece quem mais tem com o suporte, mesmo que menor, de quem tem menos e nada beneficia com isso. As justificações que são dadas para tão injusta discriminação, não convencem, por não resistirem a uma análise fria e racional. A TAP tem de ser uma empresa de bandeira. Não vejo porquê. A atividade exportadora passa, cada vez mais, pelos portos marítimos onde os barcos que aí operam o fazem sob os mais diversos estandartes sem que isso constitua qualquer óbice à sua atividade normal. É verdade que as aeronaves levam as cores nacionais na cauda mas são pouco visíveis pois o acesso aos aeroportos é limitado e, quando em voo, não se enxergam. Mais visíveis são os camiões que cruzam as rodovias europeias e não se conhece nenhum empenho especial, do Governo, no apoio às rodoviárias. A TAP é uma grande empresa exportadora. Exporta porque vende muitos bilhetes a cidadãos estrangeiros. Mas também importa porque compra, nos locais para onde voa, muitas das matérias e serviços que suportam a sua atividade. Como dá prejuízo, é bem possível que o que compra fora de portas seja superior ao que vende. Não é líquido que tenha um contributo positivo para a balança de pagamentos. É preciso proteger os empregos da TAP. Mas a injeção de avultados recursos foi acompanhada por uma considerável redução do número de trabalhadores. Também aqui foram os mais humildes os mais fustigados. O que a TAP não fizer, outra empresa o fará e não pode, por razões económicas, dispensar funcionários e fornecedores lusitanos no que for competitivo. O mesmo não se passa com a CP que, sendo mais ecológica, não se restringe a Porto, Lisboa e Faro, antes leva o desenvolvimento a todo o país, integrando o interior, desfavorecido, distante e desertificado. 

Os regatos que lavam as fragas

Li ou ouvi, já não me lembro onde nem a quem que todos os resíduos levados pelos rios, para o mar, diminuem a massa continental. Um continente é uma unidade e, por isso, uma pedra, um tronco ou uma simples areia que é arrastada para o oceano, empobrece, na devida proporção, a totalidade do conjunto de formações geológicas. Pela mesma razão, quando alguém abandona uma comunidade, diminui-a e, como tal, enfraquece e depaupera, um pouco, todos e cada um dos elementos dessa comunidade. Cumprindo um ritual anual visitei, no primeiro dia de novembro, os velhos cemitérios de Lodões e da Junqueira onde repousam os restos mortais dos meus avós. Este ano, penosamente, fiz, adicionalmente uma visita ao cemitério novo da Junqueira onde foi enterrado, em janeiro, o meu pai. Foi logo de manhãzinha e não havia mais ninguém na sagrada necrópole. Tive oportunidade de, depois de depositar flores e acender velas na campa n.º 13, visitar, uma a uma, todas as restantes sepulturas do campo- -santo. Em cada uma delas, um texto, uma oração, uma prece, uma fotografia. Mas, sobretudo, um nome. E, para lá da simples onomástica, uma pessoa, uma recordação, uma lembrança... uma perda. Com cada um que partiu, algo, da nossa aldeia, se perdeu, para sempre, alguma coisa de cada um de nós desapareceu, para sempre. No dia anterior chovera em abundância e os regatos lavaram as fragas, abriram sulcos na terra solta, arrastaram areias e rolaram pequenos seixos pelas encostas. À primeira vista nenhum dos montes ficou mais pequeno, nem nenhuma leira encolheu e, contudo, uma pequenina parte deles já iniciou uma longa caminhada em direção ao Atlântico e não há forma de a reverter. O mesmo aconteceu (e acontece, continuamente) com a aldeia. Aparentemente a Junqueira continua, como sempre mas, em boa verdade, empobrece, continuamente, porque cada um de nós, mesmo continuando a calcorrear o empedrado das ruas, é menos do que era, porque lhe falta o pedaço, maior ou menor, de que as várias lápides são testemunho indelével. Toda a Vilariça outonava. As videiras, despojadas dos cachos dourados e tintos, vestiram- -se de folhagem multicolor, antes de hibernarem. Despertarão antes da primavera, chorando cada ramo amputado e preparando-se para reverdecer quando o tempo aquecer um pouco mais. Por agora esperam que as ovelhas venham despi-las, antes que a chuva, que regressava, lhes despencasse as parras amarelecidas. O silêncio sepulcral fez-me lembrar o tempo em que, por esta altura, ficavam abandonados e inertes, os arados nas leiras adormecidas e nas noras se amordaçava o tan-tan, ritmado pela cadência do quadrúpede que puxava a roda dos alcatruzes. Já não há noras no Vale. À saída do cemitério reencontrei a chuva. As perdas são mais duras quando lembradas, sempre que são sentidas. As boas recordações não recuperam as perdas mas menorizam-lhes o dano. Inexoravelmente, os regatos continuarão a desgastar os montes milenares e a arrastar consigo o lodo, a terra e as pedras, em direção ao mar. Lavam as fragas mas não a dor. Levam as areias mas deixam as lembranças.

SMALL IS BEAUTIFUL

“Small is beautiful” é o título de uma exposição patente, até 15 de janeiro de 2022, na rue de Turenne, em Paris, onde, em 900 m2, distribuídos por dois andares, vinte artistas internacionais apresentam 126 miniaturas e fotografias. Os organizadores retomaram um slogan que, no dealbar do último quartel do século XX, agitou as teorias de gestão e foi o “leitmotiv” dos gurus que anunciavam o fim da era dos grandes conglomerados. Era, aliás, uma prática recorrente nas restruturações a que as grandes empresas se viram obrigadas a fazer, para, na sequência da crise energética de 1973, racionalizarem os excessivos gastos fixos e exageradas despesas de estrutura. Passou a ser regra geral quase dogma, assistir ao desmembramento de todo e qualquer gigante industrial sempre que via a sua sustentabilidade ameaçada pela descida crescente da sua rentabilidade. A pesada e desmesurada estrutura era, num ápice, substituída por várias empresas pequenas, ágeis e muito flexíveis permitindo toda a espécie de alterações e inovações para garantir rapidez, personalização e adaptação rápida às flutuações do Mercado que começava, já nessa altura, a mostrar sinais de variabilidade, mudança e evolução. É verdade que o uso de plataformas digitais e o poder da internacionalização, voltaram a trazer, grandes empresas e gigantes económicos à escala mundial. Mas, trouxeram consigo os problemas graves conhecidos e que exigem soluções complexas e nem sempre eficazes. Mas ficou o conceito que, como muito bem viram os parisienses, se coaduna com o bom senso comum e a observação empírica da realidade em que nos movimentamos. Tudo quanto é pequeno tem o seu encanto e, principalmente, as suas virtudes. Porque, na maior parte das vezes, a acumulação de coisas boas não resulta num bem maior, bem, pelo contrário, traduz-se em algo mau e até mesmo perverso. Beber um copo, dois ou três de um bom vinho, sabe bem e é bom. Beber em demasia, por melhor que seja o néctar, causa desconforto e faz mal. Um medicamento sendo útil e eficaz, na dose certa, será mau e até fatal se exagerada a sua toma. É sabido que até o veneno, tomado em quantidades minúsculas não só é tolerado como acaba por induzir, no organismo, reações imunitárias. O mesmo se passa com algumas “soluções ambientais” de produção de energia. Aparecem por aí, projetos “verdes” que advogam instalações exageradas de painéis solares, que nos são apresentadas como excelentes porque o aproveitamento da energia do sol é bom e sustentável. Pois é, mas não em doses excessivas e concentradas. Essas, não podem ser amigas do ambiente pois a primeira coisa que fazem é... a descaracterização da paisagem, um dos melhores recursos que ainda nos resta. O aproveitamento da energia do sol, tal como a do vento, deve ser feito no respeito pela natureza pois só assim cumpre com rigor os princípios em nome dos quais se baseia para fazer valer a sua mais valia. A verdadeira solução foto-voltaica, para a nossa terra, não passa pela instalação de parques “industrializados” de painéis, para fornecimento de megawatts para a rede nacional mas pelo recurso de unidades individuais, instaladas em telhados ou pequenos anexos para consumo próprio. A produção global pode ser a mesma (ou até maior) mas a economia para cada um cresce e, sobretudo, preserva-se a paisagem. Mas essa é, obviamente, uma solução que exige competência, compreensão, dedicação e muito trabalho. Coisa a que muitos dos decisores políticos estão muito pouco habituados!

A terceira dose (E os lucros das farmacêuticas)

A terceira dose da vacina contra a Covid19 é já uma realidade, pelo menos para uma parte da população portuguesa. Ainda bem. Há de chegar aos restantes. Contudo, quando tal aplicação era apenas uma hipótese, houve logo quem, a partir da extrema esquerda, viesse “denunciar” que tal hipótese, a concretizar-se, era uma oportunidade de geração de lucros avultados pela parte das farmacêuticas. Provavelmente sim. E então? As grandes obras públicas, tão do agrado de algumas correntes ideológicas, nomeadamente na construção de infraestruturas, traz, igual e naturalmente, lucros, muitas vezes significativos, para o ramo da construção civil. Ora isso não incomoda a vanguarda política da esquerda. O que é estranho. Porque, reclamando-se, tantas vezes, paladinos dos valores sociais e justos, deveriam saber bem que os níveis de corrupção e compadrio são muito maiores e mais frequentes entre os que usam mão-de-obra barata e pouco qualificada a movimentar terras e cimento do que os que, nem sempre pagos adequadamente, são altamente especializados a manipularem pipetas, placas de petri e máquinas de PCR. É sabido que a palavra lucro, apesar de seletivamente, como acabei de demonstrar, causa uma “natural” alergia em certos grupos ideológicos. O lucro é bom. E, se justificado e justo, quanto mais melhor. É nele que reside a primeira condição para o aumento salarial dos trabalhadores que essa elite jura representar, mas também para o aumento do conforto, progresso e bem-estar das populações. Alguém duvida que se não fosse a perspetiva de elevados lucros para as empresas farmacêuticas, a vacina contra a Covid19 teria surgido em tempo record? Curiosamente, foi anunciada, esta semana, a primeira vacina contra a Malária. Que é uma doença que mata MEIO- -MILHÃO de pessoas, todos os anos, a maioria crianças. É verdade que a luta contra um vírus é mais “simples” do que contra um parasita, muito mais complexo e com vários e complexos ciclos de vida. Mas também é sabido que a perspetiva de baixos lucros, por pertencer ao conjunto de doenças da pobreza, não teve nunca investimentos que se comparassem aos que foram disponibilizados para a pandemia deste século. Ironicamente, os maiores investimentos na investigação e desenvolvimento de vacinas e medicamentos de combate à Malária vieram... da Fundação criada por Bill Gates um dos alvos preferidos da ideologia do proletariado que nele vê a face do capitalismo que tem como dever maior que tudo, combater. Obviamente que a inoculação da terceira dose não pode comprometer o necessário e urgente alargamento das primeiras ao resto do mundo. Nisto, é necessário, igualmente, desfazer um equívoco. A extensão a África das vacinas não se concretiza, eficazmente, com doações de cedências. Para ser efetiva têm de ser construídas e operacionalizadas fábricas que as possam produzir, localmente. E essa é uma decisão das farmacêuticas que, obviamente, a tomarão em função da rentabilidade que possam obter. Quanto maiores forem os lucros, mais facilmente tomarão tal decisão. Venha pois a terceira dose e que dela resultem lucros ajustados, mas consideráveis, para as empresas que as fabricam e comercializam.

Os Algoritmos

Recentemente, no tampo da minha secretária, estava um pedido de autorização para a aquisição de um sofisticado software para o aumento de capacidade de processamento do equipamento instalado no Laboratório de “Machine Learning” da Fundação Champalimaud. O quarto lugar no ranking mundial das instituições sem fins lucrativos, na área da Inteligência Artificial exige um investimento contínuo e ao mais alto nível. Obviamente que a classificação atribuída pela prestigiadíssima revista científica Nature, enche de orgulho todos os portugueses, bem como todos os colaboradores da Champalimaud, especialmente toda a Unidade de Investigação. Os resultados obtidos por instituições de investigação independentes, nesta área, são também motivo de alguma tranquilidade numa área que, devido à sua expansão e existência consistente em variadas áreas da vida contemporânea, não deixa de originar algumas preocupações. Muito mais do que imaginamos é já analisado, classificado e até decidido, com base em algoritmos residentes em supercomputadores. Foi notícia, o papel destas ferramentas informáticas no processo de despedimentos da TAP e isso tem de ser motivo de preocupação e reflexão. Porque este uso não está ainda regulado e, o estado da arte, atual, sendo já muito evoluído, tanto que tem enormes capacidades de processamento e elaboração, não o é, suficientemente, para estar, garantidamente, imune a erros grosseiros e perigosos. Um algoritmo é, na prática, um conjunto de instruções predefinidas que permitem chegar a um determinado resultado. São usados desde os primórdios da computação pois são a base da operação dos sistemas informáticos. Os recentes desenvolvimentos de software e a abundância de enormes bases de dados vieram permitir que a própria máquina não se limitasse a seguir um guião totalmente definido, mas pudesse aprender, imitando o comportamento humano, analisando milhões de casos documentados nas gigantescas memórias digitais. Mas, a aprendizagem por comparação, sendo um salto enormíssimo neste processo não garante, ainda, uma confiabilidade elevada. Os exemplos multiplicam-se existindo até uma página de internet dedicada aos fracassos. Um dos casos relatados trata da identificação de maçãs, por um programa de computador. O algoritmo é alimentado com milhões de fotografias de belas e diversas maçãs vermelhas e também de vários milhares de imagens de outros frutos. A máquina aprende e identifica todas as maçãs vermelhas mas, quando lhe é apresentada uma maçã verde... classifica-a como pera, por causa da cor! Contudo, a Inteligência Artificial é já usada no dia a dia, sendo o exemplo mais corrente o reconhecimento facial de alguns “smart-phones”. Mas é também uma ferramenta de trabalho em Bancos, Companhias de Seguro e Empresas de Seleção e Recrutamento. Nada nem ninguém obriga essas instituições a assegurarem a fiabilidade de tais processos, nem sequer a informar os utentes do seu uso e qual o grau de envolvimento na decisão final. Esta utilização discricionária, por empresas privadas, cujo objetivo principal é o lucro, é assustadora pelas consequências sociais que pode acarretar. Mas se o objetivo, para além do sucesso comercial e financeiro for político, pode ser ainda pior. Para agravar os receios desta situação, notícias recentes garantem que a China lidera a investigação nesta área bem como o seu uso pelo estado ou companhias controladas pelo poder público, o que é, mais ou menos o mesmo. Ora se o aproveitamento destas tecnologias pelos agentes do mercado pode e deve causar preocupação, se estiverem ao serviço de poderes políticos opacos e com pouco escrutínio público, devem ser motivo de inquietante temor.

O sentido do voto

O ato eleitoral do próximo dia 26 não é nenhum referendo, não é nenhum plebiscito, não é nenhum exame popular sobre a atuação pretérita dos atuais autarcas, se candidatos. O que se vai escolher, no último domingo de setembro é a proposta de futuro que melhor se adequa aos justos anseios e às justificadas aspirações, dos cidadãos, a que responde com eficácia às suas preocupações e que pode resolver ou minorar as enormes dificuldades que, por todo o lado, mas muito especialmente, no interior, ensombram a vida quotidiana. É o futuro, só o futuro, que interessa. Não é o passado. Então, porque é nos debates e na campanha, sobretudo dos incumbentes, se insiste, se fala tanto, quase se reduz, em exclusividade, à análise dos mandatos anteriores? Porque é difícil discutir, fundadamente, o desconhecido futuro quando se tem à mão o passado que, mesmo podendo ser mais ou menos mascarado, não é possível ocultá-lo na sua plenitude. Houvesse uma bola de cristal... Mas não há... A vida é uma estrada se que percorre sempre pela primeira (e única) vez. Ninguém sabe o que nos espera para lá da próxima curva. Porém, quem viaja numa viatura, pelo andamento da mesma, pela configuração do caminho e, sobretudo, pelo comportamento do condutor, com alguma facilidade prevê qual a trajetória previsível na abordagem ao próximo meandro. É verdade que o despiste iminente pode ser salvo, no último minuto, por ação dos travões, mas isso, quando falamos de limitação de mandatos, é um artifício que aparentando salvífico, pode, pelo contrário anunciar a fatalidade, como adiante veremos. Todas as viagens contemplam riscos e peripécias. Mas quando todas nos caem em cima, fica pouco espaço para a esperança, para a condescendência, para a concessão de mais uma oportunidade. Numa competição nem todos podem ficar à frente e, necessariamente, alguns terão de ocupar o último lugar. Mas quando a tendência é sempre descendente, quando nada melhora e tudo piora o melhor é pensar seriamente em mudar de vida. Se, por acaso, o oitavo ano, de um executivo qualquer, apresentar melhorias significativas, há que desconfiar. Tal como o quarto, isto pode resultar da proximidade de eleições. O que é compreensível e não seria necessariamente mau... se no final do terceiro mandato se submetesse, de novo, a sufrágio... coisa que a lei não permite! Qualquer autarca que, nos dias de hoje, apresente como principal trunfo a diminuição da dívida camarária, é alguém do passado, é alguém que ainda vive nos tempos da famigerada troica! A dívida municipal não é, necessariamente, um malefício. Se for para suportar despesa corrente ou injustificado desperdício é, sem dúvida má. Mas se for para financiar investimento necessário e gerador de mais-valias para os munícipes, só pode ser boa. Mas, se a diminuição da dívida permitir à Câmara, diminuir o prazo médio de pagamento, não é louvável? Depende. Se a maioria dos fornecedores for do concelho, obviamente que sim. Mas se a maior parte dos pagamentos for para empresas fora de região ou mesmo da capital, já não me parece que haja nisso grande virtude, do ponto de vista dos eleitores. Não tenho a menor dúvida que o benefício municipal seria superior se “o preço a pagar” por um reforço significativo das compras dentro do concelho fosse um agravamento razoável do prazo médio de pagamento.

Defesa de Graça

Na altura em que escrevo esta crónica espera-se que se complete o ciclo vacinal, no que à primeira dose diz respeito, com a vacinação de mais de cem mil jovens, a maioria deles entre os 12 e os 18 anos. Esta faixa etária esteve fora dos planos de vacinação até há bem pouco tempo. E bem. Apesar de parecer a toda a gente que seria um passo lógico, necessário e indispensável para a tão ambicionada imunidade de grupo, apesar de, provavelmente, a cidadã Graça Freitas pensar como a maioria dos cidadãos, a Diretora Geral de Saúde esperou, como devia esperar, pela evidência científica necessária para validar a decisão que, podendo ter acontecido mais cedo, veio no tempo certo e adequado. Mas, nem mesmo assim se livrou de ser, mais uma vez, o bombo da festa da imprensa, dos “especialistas” e dos opinadores, a começar pelo próprio Presidente da República. Veio Sua Excelência lembrar que já tinha advogado a vantagem no uso de máscara facial, meses antes de ser tomada tal decisão. Esqueceu-se, convenientemente, de outras situações em que as suas capacidades preditivas, com base na sua inegável inteligência analítica e dedutiva, foram menos certeiras (quem não se lembra da “necessidade/conveniência” em salvar o Natal de 2020?), mas, mesmo que, até nessas alturas, tivesse acertado no alvo, continuava a faltar-lhe razão para reclamar qualquer clarividência nesta matéria. O tempo em que o rei alinhava a realidade com a sua visão, a lei com a sua palavra e a justiça com o seu julgamento, já ficou há muito, perdido na escuridão civilizacional da Idade Média. E, desse tempo, há vários relatos fidedignos e documentados de acertos providenciais no diagnóstico de doenças e de episódios em que mezinhas caseiras e de circunstância salvaram a vida a alguns dos seus autores por delas resultarem curas miraculosas de gente importante da sua época. Mas não há, porque seria impossível descrevê- -las a todas, relato das incontáveis vítimas dos pareceres “sábios” dos curandeiros da época e que, em muitos casos, “viam”, antes dos outros o que, estando à vista de todos, afinal era algo bem diferente e que só a ciência veio, mais tarde, revelar. O que ao comentador Marcelo Rebelo de Sousa poderia ser criticável, mesmo que aceitável, não é facilmente admissível no Presidente da República. Para além de que a intuição do seu ocupante, podendo ser útil em questões meramente políticas, é perigosa se extravasar as reais competências da instituição Presidência. Além de que não lhe fica nada bem ajudar ao foguetório mediático de bombardear a institucionalista (e bem) Diretora Geral de Saúde. Que tem estado bem, mesmo quando as suas ações não foram as mais adequadas, quando vistas à posteriori, mas que eram as necessárias na altura. E que por isso mesmo nos dão a confiança de acerto generalizado, de acordo com o que eram as certezas de então, ao contrário de quem anda ao sabor da opinião geral e generalizada tendo frequentemente de ziguezaguear para corrigir porque as decisões políticas foram, muitas vezes erradas ao passo que as técnicas, podendo ser, eventualmente, tardias, foram sempre na direção correta. O mal esteve quando a política se impôs à evidência. Recentemente ultrapassámos um milhão de infetados pelo Covid19. De todos os que vieram zurzir na Diretora Geral de Saúde quando foi anunciada esta possibilidade, obrigando-a a mascarar o seu parecer, devidamente fundado, como ficou demonstrado, nenhum, absolutamente nenhum veio a público retratar-se e muito menos pedir desculpa à cidadã Graça Freitas pelo que então dela disseram e pela afronta que lhe causaram. Marcelo condecorou, e bem, o vice-almirante Gouveia e Melo. Este no seu agradecimento não se esqueceu de referir que o seu trabalho se pautou sempre pela fidelidade ao determinado pelas autoridades de saúde. Ficava bem, ao Presidente da República, elogiar igualmente a DGS, na pessoa da sua competente e dedicada Diretora.

A Bala de Prata

Nos saudosos anos setenta havia em Bragança um funcionário camarário, encarregado da limpeza urbana, que cuidava do Jardim António José de Almeida, onde tinha um abrigo onde recolhia os seus instrumentos de trabalho e onde, igualmente, guardava uma grande caixa de madeira que, com frequência, trazia para um patamar intermédio das escadas por onde se acedia ao espaço ajardinado a partir da rua da República. Suponho que esses momentos lúdicos acontecessem nos seus tempos livres mas, na altura, não me ocorria que isso pudesse ter alguma relevância e depois de tanto tempo já não consigo lembrar-me. O sr. Francisco, de alcunha o Nairéco, segundo o Estácio Araújo que é a melhor e mais credível fonte desses tempos brigantinos, era famoso pela fabulosa coleção de livrinhos de bolso de cowboys, da coleção “Seis Balas” que se compravam por cinco coroas no quiosque junto à escadas do antigo liceu e que, uma vez lido, se podia trocar por outro do enorme espólio guardado, religiosamente, na tal caixa de madeira, com fechos metálicos. Muitas vezes era troca por troca, mas nem sempre. Havia alguns que, para lhes aceder era necessário entregar dois e às vezes três. Eram títulos míticos e muito disputados. Não consigo, a esta distância, recordá-los com precisão, lembrando-me que, mais raro e valioso que o “Duelo ao pôr do sol” era o inatingível “A Bala de Prata”. Saltava-lhe das mãos, mal se predispunha a fazer uma troca.

– Quero esse! – diziam-lhe, com frequência!

– Este? Nem que me desses três em troca! – respondia a rir-se!

– Este é o Bala de Prata!

Para os que desconhecem a mitologia daquele tempo (desconheço se continua a ser assim), a bala de prata é um projétil mítico que, quando devidamente disparada mata monstros, bruxas, lobisomens e outros adversários muito poderosos. Não li o livrinho nem conheci ninguém que, para além do Nairéco lhe tivesse acedido. Um deles terá afirmado que já lera o “seis balas de prata” mas o sr. Francisco desvalorizou logo. Tal como o livro, a bala de prata, ali romanceada, era única.

– E se falha à primeira? – questionou-o um colega meu que também andava no S. João de Brito.

– Pois! – afirmou perentória e misteriosamente o funcionário público.

– Só se lhe prender um baraço para depois a poder trazer de volta – caçoou.

Recebeu como resposta uma sonora e escarnecedora gargalhada.

Recordo este episódio, com meio-século de vida, observando a forma como alguns políticos da nossa praça resolvem “responder” a diversas, variadas e relevantes críticas, perguntas e sugestões que lhes vão chegando por cidadãos interessados e empenhados na administração da coisa comum. À falta de arsenal adequado colocam no tambor do revólver o que julgam ser uma bala de prata com a esperança que com a sua utilização possam atingir “mortalmente” o(s) opositor(es) e assim se furtarem de vez às explicações, justificações pedidas e devidas.

O problema é que, apesar de guardada por tempo razoável, à espera da melhor oportunidade, uma vez disparada, o alvo foi completamente errado e o efeito foi nulo. Em vez de procurarem outros apetrechos de defesa e/ou de ataque, devem ter optado pela disparatada “solução” do meu colega, provavelmente ataram um cordel na mesma para a recuperarem, uma vez usada, porque continuam a metê-la na câmara e a pressionar o gatilho. E pedem aos correligionários mais subservientes que façam exatamente o mesmo, sem se aperceberem do ridículo de continuarem a usar um projétil já gasto e, por isso mesmo, absolutamente inofensivo.

Esta insistência, persistência, e obsessão chega a ser penosa. O que pode justificar tal teimosia e obstinação? Desespero perante a proximidade das eleições?

É confrangedor.

Ao náufrago, qualquer pedra lhe parece uma boia.

Reflexões no nordeste

A visita mensal à terra natal é sempre motivo de observações e reflexões, depois de rever sítios e pessoas, relembrar paisagens, cheiros e sabores. De entre vários e variados, três delas ganharam estatuto para figurarem nesta crónica:

1 - Lares – Muito se falou nos lares e nem sempre pelas melhores razões. Com ou sem razão. Depois dos surtos e demais peripécias é altura de relevar, com inteira justiça, o inestimável serviço que estas instituições têm prestado a toda a comunidade e não só ao grupo sénior. Razões pessoais levam- -me a testemunhar e a agradecer, publicamente, o empenho, profissionalismo e dedicação de todas as pessoas, sem qualquer exceção, com quem tenho tido o privilégio de contactar e interagir nestes meses mais recentes.

2 - Caça à multa – A Junqueira foi, na última década, conhecida, por muitos automobilistas pelas notificações que lhes chegavam a casa dando conta do excesso de velocidade que, quase naturalmente, aconteciam no troço do IP2 que ali tem início. Era quase automático o pisar no acelerador, ao abandonar a mais estreita e sinuosa Nacional 102. Com o tempo os condutores “aprenderam” a moderar o impulso e o limite dos 90km/hora passou a ser respeitado, na generalidade. Implicando, obviamente, uma diminuição das receitas. Eis se não quando, subitamente, o limite máximo foi reduzido de 90, para 70. Porquê? Não há qualquer justificação razoável. É uma reta, afastada dos cruzamentos (onde se pode circular a 90) e não há registo de qualquer acidente ou situação menos segura que ali tenha ocorrido. Alguma razão haverá, provavelmente, mas não se vislumbra, outra que não seja a, injustificada, caça à multa!

3 - O Vale da Morte – Quem estiver minimamente familiarizado com as técnicas e processos do tão falado e procurado empreendedorismo sabe bem que para dar vida e futuro a uma startup ou mesmo a uma spinoff, sendo necessária uma boa ideia e um adequado planeamento suportado e sustentado, de nada valerá se a concretização do projeto fundador não conseguir ultrapassar a fase a que se chama, justificadamente, o Vale da Morte. Daí que de pouco adiantam os gabinetes de empreendedorismo, agora tanto em voga, se não tiverem o devido enquadramento de fundos de Capital de Risco e/ou de Business Angels, razão da sua modestíssima prestação. Que mal compare, algo de parecido se passa na gestão autárquica onde o Vale da Morte dá pelo nome de Processo Eleitoral. De pouco vale o reconhecimento ou certificação de competência para a gestão municipal de qualquer candidato se este não conseguir passar, pelo crivo das eleições. Pela mesma razão que continuará a haver velhas, desatualizadas e pouco sustentáveis empresas a quem novas, inovadoras e rentáveis pequenas empresas não conseguem tirar o mercado, por não terem sido capazes de ultrapassar o nó górdio da afirmação ou conquistarem o apoio capitalista necessário, igualmente vai haver autarcas, ultrapassados e incapazes de acrescentar valor aos respetivos municípios nem de melhorarem o nível de vida dos munícipes que conseguem resistir à competição de novos agentes, mais ágeis, competentes e inovadores ... não por falta de qualidade destes mas, simplesmente, pela incapacidade (própria, alheia ou simplesmente circunstancial) de gerirem adequadamente o ciclo político prévio e necessário.

Pedro, o Lobo, os Lagos do Sabor e o Coelho da Páscoa

O projeto dos Lagos do Sabor é do melhor que apareceu nas Terras Transmontanas. Tive conhecimento dele apenas em 2016 por causa de uma entrevista que o Presidente da Câmara deu à revista “Passear” e fiquei rendido à qualidade, inovação e potencial que apresentava. Surgiu-me, de imediato, uma dúvida. Tendo sido este projeto completamente desenvolvido, desenhado e esquematizado no mandato do Aires Ferreira que, durante a campanha anterior falou, legitimamente, de todas as mais valias que tinha trazido para o concelho, por que razão não o publicitou? Não tive oportunidade de lho perguntar mas deduzo que era do interesse municipal que tal anúncio se fizesse quando houvesse garantias da sua concretização. O sentido de utilidade pública remeteu-o ao silêncio, mesmo com prejuízo pessoal. Assim fossem outros. Quando foi anunciado, pela primeira vez, em 2016, como referi, supus que a sua implementação estaria para breve, pelas razões aduzidas. Não aconteceu! Tendo tido conhecimento do seu anúncio “oficial” e formal, em junho de 2018, fui, propositadamente, à Torre de Belém para participar no lançamento de tão elevado desígnio. Para meu espanto e desalento, a cerimónia não teve o impacto que merecia (espaço muito exíguo, poucos convidados, impressa ausente), apresentando um filmezinho razoável, teve como nota de realce um belo discurso do Presidente da Câmara de Moncorvo. Disso dei conta, em tom elogioso, na imprensa distrital. Agora é que era. Mas não! Não aconteceu nada de relevante, Houve umas tentativas de os levar a inscrever no Livro dos Records, com iniciativas de gosto duvidoso e nem isso resultou apesar da campanha, em má hora, levada a cabo. Tal como na conhecida história de Pedro e o Lobo, quando for feito o anúncio do verdadeiro e genuíno empreendimento, com os barcos-casa e as casas palafitas podem os verdadeiros interessados estarem já tão desconfiados e desiludidos das anteriores proclamações que não lhe liguem nenhuma. Assim se perdendo o melhor projeto turístico que, na última década, nasceu no nordeste! Para piorar andam agora a vender uma ideia, engraçada, e com algum sucesso, noutras paragens, baseada na instalação de baloiços em alguns dos pontos estratégicos. Parece que, em número e com resultados concretos para a economia local, muitíssimo inferiores aos esperados para um projeto daquela magnitude. Provavelmente satisfaz quem não consegue, consequentemente, ambicionar e ser capaz de concretizar um pouco mais. Faz-me lembrar alguém que tendo ovos de ouro que, não os conseguindo vender, enquanto tal e pelo seu real valor, no curto prazo, resolve pintá-los com motivos coloridos, como se fossem meros e simples ovos da Páscoa pois são esses que estão a ter sucesso de venda, na banca mais próxima!