José Mário Leite

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EXPLORAÇÃO MINEIRA: Porque sim ou porque não?

O crescimento exponencial do fabrico e uso de telemóveis e o crescente recurso à mobilidade elétrica veio aumentar a procura de elementos constitutivos das baterias, sobretudo os que lhes conferem durabilidade, aumento de capacidade e recuperação, bem como a possibilidade de cargas rápidas, como é o caso do lítio. Por isso é compreensível que a sua mineração aumente e que haja uma acrescida procura dos locais onde pode ser explorado. É essa a razão pela qual as serranias de Montalegre são agora cobiçadas por empresas e empresários que ali pretendem estabelecer unidades de extração mineral. Tudo bem, não fora a agressão ambiental que a abertura de enormes crateras a céu aberto vai causar, bem como a ofensiva ao justo e merecido bem-estar das populações ali residentes desde sempre. Argumentam, entre outras coisas, e com razão que tendo sido abandonados pelas forças vivas e poderosas, só são lembrados para lhes trazerem, não as verdadeiras melhorias de condições de vida, mas incómodos, poluição e transtornos válidos. Não só, é verdade, mas, segundo eles (e é a eles que compete avaliar o que lhes convém ou não), as melhorias que chegam não pagam nem compensam, minimamente as malfeitorias. Pois bem, se a vida moderna e o progresso das grandes urbes impõem o aumento brusco de novos materiais, que os procurem noutros locais ou, precisando dos que ali estão, o façam de outra maneira, respeitando a natureza e os naturais.
As frequentes crises financeiras têm vindo acrescentar valor ao ouro. É natural que apareçam candidatos à sua exploração em todos os cantos onde se suspeite possam existir reservas naturais. Os pressupostos são os mesmos.
Igualmente se poderia replicar o mesmo argumentário para o caso do ferro. Mas há, neste caso concreto, dois aspetos adicionais que não é possível ignorar, nem tão pouco minimizar. O primeiro e mais evidente é que a sua extração é mais agressiva, mais poluente e mais intrusiva para a vida dos cidadãos das suas redondezas; a segunda é a falta de racional que justifique o aumento da mineração, sobretudo a retoma onde fora fechada por causa da baixa rentabilidade.
Para melhor entender pesquisei várias publicações e relatórios da especialidade, em lado nenhum encontrei qualquer indício de crescimento da procura, atual ou futura. Mas há, como não podia deixar de haver, um aumento crescente do preço. Os especialistas apontam, como causa, não o aumento da procura, mas a diminuição da oferta... de um dos maiores produtores, a China... por causa de problemas ambientais!
Tempos houve em que muitos nordestinos procuravam os escuros e poluentes ambientes mineiros, para fugirem ao pão que o diabo amassou. 
Tempos idos, felizmente.
Haverá quem entenda que o futuro se resolve com trocadilhos com as palavras que ache estranho possuir uma das maiores jazidas de ferro da Europa, sem a explorar. 
Estranho, acho eu, é haver quem pense que o desenvolvimento das regiões de baixa densidade (seja ou não de alta intensidade, o que quer que se pretenda significar com isso!) passa por ter de comer o pão que o próprio diabo chinês se recusa já a amassar...

O Alfa Romeo e os caretos de Podence

Desde a sua fundação, em Portello, nos arredores de Milão a Alfa (mais tarde Alfa Romeo quando adquirida por Nicola Romeo) produziu carros de raça desportiva fomentadora da paixão automobilística nos adeptos das quatro rodas. Quem não se lembra da pontinha de inveja que o possuidor de um mítico exemplar Alfa Romeo Giulietta causava nos seus pares, nos idos anos 70 do século passado. A marca do quadrifoglio teve durante largos anos, um nicho de mercado muito próprio, fiel e apaixonado. O Cuore latino tinha a magia de entusiasmar e despertar o espírito desportivo com a sua raça. Há alguns anos, a direção da marca entendeu que a forma de crescer e aumentar o seu prestígio passava pelo alargamento do público alvo e resolveu apostar fortemente nos utilitários de forma a chegar a um público mais vasto e indiferenciado. O resultado é conhecido: perdeu o elã de largas décadas e não teve grande êxito no mercado generalista estando em risco de ser, brevemente, ultrapassada pelo fabricante espanhol SEAT.

Num mundo cada vez mais globalizado, em que tudo está acessível, a todos, em todo o lado, não ter algo distintivo, é uma desvantagem considerável. Num mundo generalista onde a padronização invadiu o dia a dia e todos os mercados, onde a robotização produz artefactos absoluta e perfeitamente iguais, aos milhares, as maiores mais-valias estão na diferença, na genuinidade, na individualização. Mesmo que pequena, mesmo que tivesse sido negligenciada, até há bem pouco. Foi o que aconteceu com os caretos do nordeste, especialmente com Podence que persistiu em representar insistentemente a sua tradicional festa do Entrudo, resistindo às modas que outros importaram do outro lado do Atlântico. A aposta foi certeira e acertada como a sua elevação ao Património Imaterial da Humanidade veio demonstrar e que originou a recente deslocação a esta aldeia de Macedo de Cavaleiros do mais alto magistrado da Nação.

Destino totalmente diverso, tiveram as mais variadas tentativas de promover, pelas nossas terras, outros carnavais incluindo aqueles que despejaram sacos de dinheiro (público, com certeza) no “engrandecimento e modernização” dos corsos com ritmos de samba e cores tropicais. Outra foi, em boa hora, a opção das gentes nordestinas. Seria bom que a lição fosse compreendida e implementada, noutras manifestações culturais. Em vez de imitarem os demais e de quererem destacar Podence no “panorama dos carnavais nacionais”, seja isso o que for, mantiveram-se fiéis à tradição, insistiram na manifestação popular de velhos hábitos e, sobretudo, interpretaram adequadamente o sentimento secular, dedicaram-se ao que efetivamente sensibiliza e se adequa à tradição e forma de sentir da gente da aldeia e, também, das suas redondezas.

Por muito diferente que pense quem, temporariamente, preside aos destinos locais e pode, por legitimação eleitoral, dispor de recursos consideráveis, dando-lhe uma errada sensação de grande poder sem significativas limitações, a tradição não se fabrica por decreto, os costumes não se importam e a relevância não se compra!

 

O terrível e misterioso COVID 19

As potências mundiais possuem hoje uma capacidade de intervenção, nos mais diversos domínios, espantosa e de uma eficácia inimaginável há algumas décadas atrás. Os líderes políticos, religiosos e económicos têm a capacidade de, num ápice, determinarem, condicionarem e até destruírem a forma de vida, de subsistência e bem-estar de milhões de pessoas. Uma decisão, mais ou menos pensada, mais ou menos orientada, de Mark Zuckerberg pode contribuir decisivamente para o futuro político (ou outro) de dirigentes, partidos e fações em todo o mundo; um capricho, mais ou menos conveniente quando a braços com graves acusações internas, de Donald Trump, facilmente implica a execução, sem julgamento nem possibilidade de defesa, de uma alta patente militar no Médio Oriente; uma birra, sem qualquer outra justificação, para lá da alimentação do seu enorme ego, de Kim Jong-un faz tremer os poderosos exércitos vizinhos; uma fátua emitida por um dos aiatolas iranianos chega para condenar críticos religiosos, políticos, meros comentadores, humoristas e ilustradores, semeando o pânico nas sociedades livres que os albergam e obrigando as unidades de combate ao terrorismo a trabalho reforçado e empenhado. Vivemos um tempo em que se concentram em indivíduos ou grupos dominantes, poderes imensos sobre a natureza, sociedades e cidadãos. E, contudo, um organismo primário, com uma estrutura constitutiva muito simples, invisível a olho nu e mesmo aos microscópios óticos, um vírus do tipo corona, agora batizado por Covid 19, ridiculariza todos esses poderes e capacidades, espalhando o terror por todo o mundo. Pelo simples facto de existir e de se multiplicar, tal como acontece com todos os seres vivos, colocou as principais potências mundiais em estado de alerta, rindo-se dos seus sofisticados sistemas de segurança e de defesa: a China está em estado de sítio, a América está receosa como nunca e titubeia ao tentar repatriar alguns compatriotas “presos” num cruzeiro no oriente e a Rússia fechou a fronteira com o seu imperial vizinho do sul. Curiosamente, perante a incapacidade da tecnologia moderna e super-sofisticada da actualidade, os líderes tecnológicos, económicos e científicos recorrem a técnicas e metodologias medievais: isolam cidades, colocam doentes e suspeitos em quarentena, esperam a produção natural (ou artificial, sendo este o “único” toque de modernidade) de anticorpos capazes de lhe dar réplica efetiva e eficaz. Por isso a atenção redobrada nos que conseguem sobreviver à infeção.

É neste campo que surge um aspeto misterioso deste micro-organismo: a aparente imunidade das crianças a esta pandemia. Nos casos pretéritos tudo se passava ao contrário. Em muitas epidemias verificava-se haver um grupo etário, que não era afetado pelos agentes patogénicos. A característica comum desse grupo era ter mais do que uma determinada idade. Isso tem uma explicação

científica: em determinada altura terá havido um surto de doença causado por um vírus da mesma família e as pessoas que, tendo sido infetadas e lhe sobreviveram, por ação das defesas naturais ou por causa de vacinação a que tenham sido sujeitas, acabaram por adquirir a imunidade que depois lhes servia para uma luta eficaz ao novo agente.

Inexplicavelmente, agora, acontece o contrário. São os humanos situados abaixo de uma determinada faixa que estão a ser preservados da infeção. Não se conhece justificação lógica para isso. Há de ser encontrada, assim esperamos, pois não pode ser por simples “capricho” do molestador microscópico oriental. Para já é apenas mais uma característica misteriosa deste estranho e mortífero vírus!

 

A Nova Guerra Mundial

A guerra, a fome e a doença foram, desde os primórdios da história humana, as maiores ameaças à sobrevivência dos indivíduos e dos grupos onde se integravam. Foi a promessa de proteção contra elas, sobretudo a primeira que conferiu aos líderes históricos, o poder, reconhecido pelos seus pares.

A troco da segurança, a comunidade prestava vassalagem e pagava o respetivo trubuto ao chefe militar. Este mandou construir fortalezas para se proteger dos atacantes e ali dar igualmente, abrigo aos seus protegidos. A estratégia, tendo evoluído, ao longo dos séculos manteve, no essencial a estrutura consagrada e estruturada por Sun Tzu, no século IV AC no tratado “A Arte da Guerra” que, com mais ou menos variantes passava sempre pelo confronto direto com o agressor/invasor. Por muito importante que fosse a conquista a defesa foi sempre a principal preocupação pois era dela e da sua garantia que dependia, em última análise, a sustentabilidade dos exércitos. A proteção passou inicialmente pela construção de paliçadas, muralhas, cidades fortificadas, navios couraçados, fronteiras eletrificadas, escudos de defesa, antí-mísseis e... estamos no dealbar da guerra cibernética. Recentemente um general iraniano foi morto por um drone teleguiado. Contudo, a principal guerra, a vital batalha defensiva trava-se no ciberespaço, nos bunkers tecnológicos das Agências Nacionais de Informação. As guerras mundiais deixaram de acontecer, até agora, não pela diminuição dos equipamentos bélicos, não pela menorização dos exércitos e muito menos pela índole pacifista dos generais. Não há mais guerras à escala planetária porque, diariamente, constantemente, estão a ser monitorizados, vigiados, anulados e eliminados, preventivamente milhares de agentes bélicos e das suas continuadas ações.

O mesmo se passou com a saúde. Os combates às doenças têm, tal como outras atividades humanas, seguido caminhos paralelos aos da atividade marcial. O ataque aos agentes patogénicos, dificultado pela sua característica microscópica, dando-lhe por isso uma vantagem natural superior à dos exércitos tradicionais. As pandemias (guerras mundiais desta espécie) eram combatidas com quarentenas, isolamento de cidades, bandeiras negras demarcadoras e refúgio em zonas “limpas”. A evolução veio com o reconhecimento individual e científico do inimigo e com o uso da arma letal: os antibióticos; e muitas medidas preventivas: as vacinas. Contudo, ao contrário da outra, que nos últimos tempos se foca em eliminações cirúrgicas dos inimigos mais poderosos e mais perigosos, o uso maciço de antibióticos dedicou-se a eliminações indiscriminadas de todos os agentes patogénicos, logo, abatendo de imediato, os mais frágeis. Os que resistiram (cumprindo uma quota estatística, mesmo que pequena) foram sem dúvida, os mais fortes resultando portanto num reforço exponencial do inimigo! Por outro lado a globalização veio eliminar barreiras proporcionando viagens universais e gratuitas: os vírus não têm passaportes nem pagam bilhetes. E, ao contrário dos exércitos modernos, são democráticos: não escolhem as suas vítimas. Para complicar não reconhecem nem se detêm perante fronteiras, bunkers ou outros “esconderijos”. As poderosas lideranças dos tempos modernos não atemorizam os microscópicos vírus e bactérias que evoluem, continuamente, se reproduzem eficazmente e se disseminam rapidamente. Os custos em vidas e em recursos económicos e financeiros crescem exponencialmente e só tenderão a agudizar-se.

Tal como na guerra clássica, é necessário mudar radicalmente, o paradigma. Mais do que a proteção das pessoas que os mantêm, o que os ricos e poderosos têm em mãos, é a sua própria proteção. E, perante os riscos da ação curativa e da despesa associada ao combate às crescentes e frequentes pandemias, só se antevê uma atuação consequente e racional – apostar tudo na prevenção e no combate precoce. Para isso só se antevê uma solução: a implementação do Serviço Mundial de Saúde, eficaz, global, acessível e gratuito.

 

Mi bisabuelo vos saluda!

Ernesto Rodrigues publicou mais um livro. Trata-se de uma edição do CLEPUL, dirigido até há pouco tempo, pelo escritor de Torre de D. Chama – Mirandela. “LITERATURA EUROPEIA E DAS AMÉRICAS” traz-nos o olhar crítico do ensaísta sobre vários dos principais escritores mais recentes dos lados de cá e de lá do Atlântico. Recebi um exemplar diretamente das mãos do autor e não resisti – comecei de imediato a folheá-lo, agradado com as várias referências que iam saltando do interior das páginas à medida que as ia desfolhando fossem europeus (Sartre, Dino de Buzzati) ou latino-americanos (Vargas Llosa, Machado de Assis, Drummond de Andrade e Jorge Amado). E, claro o grande Jorge Luís Borges cujo texto li, de uma assentada, ao serão do mesmo dia em que recebi a obra deste meu velho amigo. Antes, tínhamos tido a oportunidade de relembrar os cento e vinte anos do seu nascimento, cumpridos a 24 de agosto do ano findo, sem que tal tivesse sido motivo para a merecida homenagem, na terra de onde, segundo o próprio, partiu no final do século XVIII, o seu bisavô Francisco Borges em direção à América do Sul.

Ernesto Rodrigues dedica-lhe um dos textos mais extensos e completos. Analisa não só a obra do autor argentino mas também vários ensaios entretanto publicados sobre ele, bem como alguns aspetos da sua vida, nomeadamente, as suas vindas a Portugal, com especial destaque para a de 1984, presenciada pelo mirandelense, tendo sido visitado por uma delegação de moncorvenses que lhe levou o título de Cidadão Honorário de Torre de Moncorvo e a quem terá dito a famosa frase «Mi bisabuelo vos saluda!»

Entre algumas “revelações” ressalta uma expressão usada pelo ficcionista sobre o maior romancista português «yo no sé português y he leído a Eça de Queiroz. Cuando no entendia una frase la leia en voz alta y el sonido me revelava su sentido.» Desconhecia completamente esta afirmação borgiana, contudo foi exatamente o que eu disse ao saudoso Amadeu Ferreira quando me defrontei com dificuldades para compreender os seus escritos, em mirandês.

Ernesto evidencia algumas das características relevantes de quem António Alçada Baptista disse ser (na altura) «o maior escritor vivo», nomeadamente e a par com a sua cultura enciclopédica, a sua atração pelo infinito, consagrada na incomensurável Biblioteca de Babel, concentrado no Aleph, no Livro Infinito e, mais ainda, no vocábulo sem medida mas de um poder tal que, uma vez pronunciado faz desaparecer o objeto (um palácio) que descreve e é, ao mesmo tempo, uma sentença de morte para quem o pronuncia, pois com essa expressão esgota todas as razões possíveis, para viver!

Revela-nos ainda um estudioso das ciências exatas, explorando alguns paradoxos matemáticos, nomeada e curiosamente o uso do conceito de infinito invocando Zenão no seu célebre Paradoxo de Aquiles e da Tartaruga.

Surpreendeu-me a revelação de uma afirmação feita no Salão Palmela do Hotel Estoril-Sol em 1980 «Os superlativos são uma forma de terrorismo cultural que se prestam à polémica».

A Alma e a Linha

Num artigo de opinião, no jornal Público, Rui Tavares lembra um episódio de 1932, na Alemanha pré-hitleriana. Klaus Mann (escritor, filho do célebre Thomas Mann) ouvindo uma conversa de Adolf Hitler, num café em Munique, enquanto se empanturrava de bolos, autocensurou-se pela forma como combatera o nazismo nascente. Um homenzinho, inculto, rodeado de acríticos admiradores e com um discurso simplista e baseado em falsidades não podia representar qualquer perigo na sua ambição de liderar a poderosa, culta e nobre Alemanha. Baixou a guarda. Combatê-lo seria conferir-lhe a importância que não tinha. Pouco tempo depois penalizava-se pelo seu flagrante erro de avaliação.

Quem não se lembra da forma, quase anedótica como há pouco mais de cinco anos, era comentada por vários dirigentes democratas (Barack Obama incluído) a possível (pouco provável, diziam) candidatura de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Rapidamente se viram forçados, pelas circunstâncias, a reconhecer flagrante falha de apreciação.

Na sua edição de fim de semana, o Expresso traz entrevistas com dois dos candidatos à liderança do PSD. Pinto Luz, obtida a visibilidade, vem colar-se, mesmo que afirmando o contrário, às teses estratégicas de Montenegro. Para marcarem a diferença, relativamente a Rio, traçam ambos uma linha vermelha à esquerda. A afirmação do PSD passa pela alternativa absoluta e sem qualquer compromisso com o PS. Só assim, juram, podem chegar ao poder. Obtendo, obviamente, do eleitorado a confiança de uma maioria absoluta. O problema é que a realidade não acompanha as estratégias gizadas nos gabinetes sobretudo para convencer militantes, tradicionalmente mais radicais que os eleitores comuns. Contudo, mesmo as eleições internas não se vencem só com o apoio dos mais inflamados apoiantes. E para convencer os mais moderados é necessário trazer alguma razoabilidade ao discurso. Sendo as maiorias absolutas, cada vez mais raras e, tendencialmente, inacessíveis a um único partido, é preciso dizer onde se vão buscar os apoios necessários para a chegada à cadeira de S. Bento. Traçada uma fronteira inultrapassável à esquerda, só resta o espetro da direita para ir pescar à linha ou em aliança. De forma, quase ingénua, enunciam os pontos comuns com o neófito mas perigoso Chega! Para manter a lógica de diferenciação (não só do PS, mas sobretudo do atual presidente social-democrata) não hesitam em vender a alma ao mais radical dos populismos. Para não serem “muletas” dos socialistas, vão procurar quem, supostamente, se contentará em servir-lhe de “muletas” a eles!

Tal “ingenuidade” é quase confrangedora. O objetivo de todos os partidos, sem exceção, é alcançar ao poder, sozinhos, se possível, liderando, se for necessário ou servindo um outro partido maior se não houver outra alternativa. Os pretendentes à cadeira de São Caetano não podem alegar desconhecimento sobre a ambição, clara e explicitamente enunciada pela liderança de Assunção Cristas, ouvida e registada num passado bem próximo, do recente parceiro de coligação.

Obviamente que a defesa de propostas diversas e alternativas, favorece e fortalece a Democracia. Mas as linhas vermelhas, a existirem, devem situar-se nos extremos, nunca ao centro.

E esta, hein?

F oi notícia, na semana passada, a “preocupação” dos autarcas com a venda das barragens instaladas no Nordeste à Iberdrola. O Presidente da Associação Ibérica de Municípios Ribeirinhos do Douro (AIMRD), perante a possibilidade de mudarem de dono as barragens portuguesas situadas no Douro Internacional e as do Baixo Sabor e Foz Tua manifestou-se muito preocupado, sobretudo com a alienação das barragens de Miranda do Douro, Picote e Bemposta. Segundo Artur Nunes, estaria em causa a regulação do caudal do Douro e a economia local onde estes ativos assumem grande importância. Esta posição teria sido ratificada na Secção dos Municípios com Barragem, na Associação Nacional de Municípios. Muito estranha esta notícia. Cheguei a duvidar da sua data efetiva. Teria havido um lapso temporal e esta “novidade” era requentada de mais de dez anos? Porque se o fosse, talvez se pudesse encontrar aqui um louvável nacionalismo, mesmo assim, pouco ortodoxo, quando vindo diretamente da AIMRD. Mas, nos dias de hoje, seria oportuno perguntar ao Presidente da Câmara de Miranda que, subentende-se, fala também pelos seus colegas nordestinos, igualmente atingidos por esta “adversidade”, o que os leva a confiar mais nos chineses da EDP do que nos espanhóis da Iberdrola? Será que os restantes associados da AIMRD subscrevem as afirmações mirandesas? Seria estranhíssimo que assim fosse, pois dos quarenta e dois associados daquela agremiação, vinte e cinco são… espanhóis! Dir-se-á, em abono da verdade que a Iberdrola não é 100% espanhola. Claro que não. Mas, a fazer fé na informação pública, 43,73% da sua composição accionista é- -o. Na EDP, sabe-se, pelo que é público, que, pelo menos 54,66% não o é. Aceite-se que possa haver uma participação nacional idêntica em ambas. Contudo, na Iberdrola, não existe, como accionista de referência, nenhuma empresa pública de outro país! O que faz toda a diferença! As decisões estratégicas, para o bem e para o mal, seguirão as regras e conveniências do mercado e não os ditames de um politburo político com demasiado poder económico para ter de se preocupar com outros pormenores que não sejam a sua estratégia expansionista! Curiosíssima é ainda a referência à Secção dos Municípios com Barragem da Associação Nacional de Municípios. Esta não foge à regra geral (porque haveria de fugir?) das outras secções, que convido o leitor a visitar na página da internet da ANMP. São nove e com temas absolutamente cruciais para o desenvolvimento regional, como a atividade taurina! A maior parte das atas são secretas o que não deixa de ser curioso, numa corporação autárquica. Um pouco mais de transparência não lhes ficava mal. A menos que esse segredo seja para “proteger” a pouquíssima utilidade e ainda menor participação que aquelas que são públicas já revelam. Em concreto, a dos Municípios com Barragem integra oitenta e oito municípios e já realizou seis reuniões. De duas delas não há ata. Das outras quatro, duas atas são de acesso reservado!!! Das restantes, em que o senhores autarcas se deram ao incómodo de partilhar com os humildes cidadãos as suas elevadíssimas decisões, uma foi electiva e nela participaram apenas 26% dos membros (conceção bizarra da participação democrata!) A outra teve quórum ainda inferior (24%) e foi, vejam bem, para protestar com a atuação da EDP!!!! E esta, hein? – como diria o saudoso Fernando Pessa!

Voto contra!

O PSD que Rui Rio promete e quer fazer afirmar é um partido responsável, honesto e racional. Não faço ideia do que lhe possa ir realmente na cabeça, mas não posso deixar de concordar quando diz que o voto do PSD terá de atender à validade das propostas e não à autoria das mesmas. Outra e radicalmente oposta é a proposição de Luís Montenegro que entende que o Partido, liderado por si, reprovará tudo quanto vier do PS ou de qualquer partido à sua esquerda. Pinto Luz suavizou esta última opção colocando como primeiro passo a leitura e conhecimento do projeto governamental, mas foi logo avisando que não acredita na bondade do que quer que seja que venha daquele espetro político. Tem sido, por isso, referido como aquele que teve o melhor discurso, mais inteligente e mais assertivo. Talvez. Foi, sem dúvida o mais oportunista. O mais ambicioso, no pior sentido do termo.

A posição radical de Montenegro, agrada, de forma clara e entusiástica aos militantes, principalmente aos mais radicais. Estou certo que o propósito de Rio terá maior aceitação nos eleitores. Pinto Luz quer abraçá-los a todos. Por isso foi batizado como talentoso.

Os partidos não são clubes de futebol. Estes, sim, existem para combater todos os outros porque é esse o seu objetivo e porque não é possível ter sucesso de outra forma. Os partidos não. Programaticamente têm como missão o serviço público, embora, pragmaticamente o que os move é a busca do poder. Que não tem grande mal se forem capazes de os compatibilizar. O que, aparecendo levemente no atual Presidente do PSD (por tática eleitoral?), está totalmente fora dos planos dos seus dois contendores. Não há a menor dúvida que todos se reclamam herdeiros e continuadores de Francisco Sá Carneiro. Como tal, nenhum deles enjeitará ou repudiará a máxima política que celebrizou o advogado portuense: “O País está à frente do Partido”. Contudo, só o actual líder se propõe levar à prática tal norma sendo exactamente por isso que mais o criticam os seus oponentes!

Votar contra só porque uma proposta vem de um concorrente e adversário, sem qualquer outra razão, não é fácil de sustentar exceto junto dos mais radicais seguidores. Mas estes não alargam o estreito caminho para a cadeira de S. Bento. É necessário arranjar uma justificação. A principal razão pela qual os dois desafiadores “garantem” o voto contra todas propostas socialistas, reside no congelamento do partido do poder, na orla da geringonça que suportou o governo na anterior legislatura, diabolizando todas as propostas vindas dessa área. A terem sucesso, paradoxalmente, pode trazer grande prejuízo para o próprio partido. Se houver adesão eleitoral a esta hipótese, a consequência mais imediata será, a recentragem do PS. Ora o risco para o partido de S. Caetano à Lapa não lhe vem de um Partido Socialista encostado à extrema-esquerda, (isso seria uma bênção!) mas sim a virar ao centro, roubando-lhe, a partir da cómoda cadeira do poder o eleitorado centrista (social-democrata) entalando o PSD contra o ascendente Chega! e a disputar o, cada vez mais diminuto, eleitorado do CDS.

In memoriam (O Genocídio Arménio)

Ouvi várias vezes e usei, muitas outras, a expressão “jovens turcos” para identificar e classificar grupos que emergem, sobretudo em partidos políticos, constituídos por pessoas mais novas com propósitos de romperem com a ordem estabelecida. A expressão perdeu força e é agora também usada para caracterizar situações de renovação geracional noutro tipo de instituições. O verdadeiro significado da proposição, percebi-o numa visita recente a Erevan, capital da Arménia.

No cimo de uma colina, nos arredores da capital, junto ao rio Hrazdán ergue-se um memorial dedicado às vítimas do genocídio de 1915. Uma torre com mais de quarenta metros aponta para o céu, ao lado de um monumento composto por doze lajes de basalto negro, representando as doze províncias perdidas para a Turquia. Num extenso muro estão inscritos os nomes das cidades e vilas onde aconteceram massacres. O resto do espaço está ocupado por um extenso jardim de abetos plantados por muitas das celebridades que visitaram o local. Foi aí que, com uma música fúnebre de fundo, a guia, emocionadamente, recordou as atrocidades cometidas contra o seu povo na sequência da política de homogeneização cultural e limpeza étnica levada a cabo pelo movimento iniciado pelos Jovens Turcos!

Dos dramáticos relatos sobre essa tragédia enorme e sem medida houve dois que me impressionaram especialmente, ambos relacionados com a memória, com a descoberta dos seus mais recônditos labirintos, um, com a sua inaceitável perda, o outro.

Os carrascos turcos enviaram para o deserto sírio, várias e numerosos grupos de arménios, cujo destino traçado foi a morte pela fome, sede e desidratação. Desesperadas, muitas mães, ofereceram os filhos a tribos nómadas com quem se cruzavam. Mais tarde, as autoridades arménias pretenderam resgatar essas crianças e repatriá-las. Duas enormes dificuldades se lhes depararam: as raparigas estavam já, na sua grande maioria, casadas integrando famílias constituídas e estabilizadas, por ser tradição árabe casá-las ainda muito jovens. Havia também um obstáculo na identificação dos rapazes, mais livres e disponíveis: a maioria deles não sabia nada da sua ascendência, nem tão pouco falava ou reconhecia qualquer palavra arménio. A forma como foram identificados foi pela forma como reagiam a canções arménias de embalar. O reconhecimento desses sons familiares, recônditos, despertou nos jovens, momentos adormecidos e quase apagados.

O segundo tem a ver com a indiferença como o mundo tratou, na altura, este horrendo crime contra todo um povo. Foi de tal forma desvalorizado, desmerecido e desacreditado que, quando a chamada “Solução Final” para exterminar os judeus alemães e polacos foi apresentada a Adolf Hitler e este a aprovou, alguém lhe chamou à atenção sobre a repercussão que tal plano poderia ter na imagem internacional da Alemanha, este respondeu que seria um fenómeno passageiro argumentando: Quem se lembra já do genocídio arménio?

Para evitar a repetição do Holocausto é necessário lembrá-lo e descrevê-lo. Mas é necessário, antes, reconhecer e condenar o horrendo genocídio arménio. Porque aconteceu e porque o precedeu e porque foi desvalorizado, negado e esquecido!

In memoriam (O Genocídio Arménio)

Ouvi várias vezes e usei, muitas outras, a expressão “jovens turcos” para identificar e classificar grupos que emergem, sobretudo em partidos políticos, constituídos por pessoas mais novas com propósitos de romperem com a ordem estabelecida. A expressão perdeu força e é agora também usada para caracterizar situações de renovação geracional noutro tipo de instituições. O verdadeiro significado da proposição, percebi-o numa visita recente a Erevan, capital da Arménia.

No cimo de uma colina, nos arredores da capital, junto ao rio Hrazdán ergue-se um memorial dedicado às vítimas do genocídio de 1915. Uma torre com mais de quarenta metros aponta para o céu, ao lado de um monumento composto por doze lajes de basalto negro, representando as doze províncias perdidas para a Turquia. Num extenso muro estão inscritos os nomes das cidades e vilas onde aconteceram massacres. O resto do espaço está ocupado por um extenso jardim de abetos plantados por muitas das celebridades que visitaram o local. Foi aí que, com uma música fúnebre de fundo, a guia, emocionadamente, recordou as atrocidades cometidas contra o seu povo na sequência da política de homogeneização cultural e limpeza étnica levada a cabo pelo movimento iniciado pelos Jovens Turcos!

Dos dramáticos relatos sobre essa tragédia enorme e sem medida houve dois que me impressionaram especialmente, ambos relacionados com a memória, com a descoberta dos seus mais recônditos labirintos, um, com a sua inaceitável perda, o outro.

Os carrascos turcos enviaram para o deserto sírio, várias e numerosos grupos de arménios, cujo destino traçado foi a morte pela fome, sede e desidratação. Desesperadas, muitas mães, ofereceram os filhos a tribos nómadas com quem se cruzavam. Mais tarde, as autoridades arménias pretenderam resgatar essas crianças e repatriá-las. Duas enormes dificuldades se lhes depararam: as raparigas estavam já, na sua grande maioria, casadas integrando famílias constituídas e estabilizadas, por ser tradição árabe casá-las ainda muito jovens. Havia também um obstáculo na identificação dos rapazes, mais livres e disponíveis: a maioria deles não sabia nada da sua ascendência, nem tão pouco falava ou reconhecia qualquer palavra arménio. A forma como foram identificados foi pela forma como reagiam a canções arménias de embalar. O reconhecimento desses sons familiares, recônditos, despertou nos jovens, momentos adormecidos e quase apagados.

O segundo tem a ver com a indiferença como o mundo tratou, na altura, este horrendo crime contra todo um povo. Foi de tal forma desvalorizado, desmerecido e desacreditado que, quando a chamada “Solução Final” para exterminar os judeus alemães e polacos foi apresentada a Adolf Hitler e este a aprovou, alguém lhe chamou à atenção sobre a repercussão que tal plano poderia ter na imagem internacional da Alemanha, este respondeu que seria um fenómeno passageiro argumentando: Quem se lembra já do genocídio arménio?

Para evitar a repetição do Holocausto é necessário lembrá-lo e descrevê-lo. Mas é necessário, antes, reconhecer e condenar o horrendo genocídio arménio. Porque aconteceu e porque o precedeu e porque foi desvalorizado, negado e esquecido!