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Nós trasmontanos, sefarditas e marranos - Francisco Lopes, Capitão Farrapa (Orense, 1654- Coimbra, 1701)

O pai, António Mendes, era natural de Vila Franca de Lampaças e a mãe, Maria Lopes, de Lamego. Certamente receosos de ser presos pela inquisição, foram morar para a Galiza. Aí, na cidade de Orense, nasceu Francisco Lopes, por 1654.

Da família paterna, uma referência para o seu tio Geraldo “que se ausentou para a Índia e se fez padre”. Da família materna, diremos que se repartiu entre Lamego e Talavera de la Reina, na região de Toledo, em Castela.

Com o pai, terá Francisco Lopes aprendido os caminhos entre Portugal e Castela e a arte da mercancia, acompanhado pelo irmão João Mendes, que depois se tornou estanqueiro do tabaco. O pai, no entanto, faleceu cedo e a mãe, foi presa pela inquisição da Galiza. Posta em liberdade, mudou-se para Rio de Onor, aldeia da raia de Bragança e dali foi para Talavera de la Reina.

Francisco tinha duas irmãs. Uma delas, Ana Mendes, foi casar e morar em Lamego com Manuel da Fonseca, meirinho das cadeias e, enviuvando, casou segunda vez com Francisco dos Rios, mercador de tabacos. Maria Gomes, a outra irmã, casou em Vinhais, com Pascoal Ramos, estabelecendo o casal a sua morada também na aldeia raiana de Rio de Onor.(1)

Por 1676, Francisco Lopes deixou a casa materna e foi casar e morar na vila de Chacim, com Antónia Ferreira, de uma família com largo historial na inquisição que prendeu o pai, a mãe e 6 de seus irmãos. Diogo Ferreira, um dos irmãos, acabou mesmo por falecer no cárcere da inquisição de Coimbra, em 5.6.1699.(2) E Francisco Lopes dirá mais tarde que foi catequizado no judaísmo por seu sogro. Em casa do sogro, com os cunhados, terá aprendido também o ofício de torcedor de seda.

Não sabemos onde e como ganhou o epíteto de Capitão Farrapa. Mas sabemos que era um homem muito conhecido e bem conceituado entre a gente da nação dos cristãos-novos da região de Trás-os-Montes, referido em variados processos.

A sua casa de habitação era sobradada e situava-se no espaço mais nobre da vila de Chacim, na Praça, defronte do Pelourinho, pegada com a casa do concelho. Valia uns 60 mil réis.

Tinha um torno de fiar seda “que custou 30 mil réis e hoje, pelos consertos que nele fez, vale 40 mi réis”.

Para além doutras “artes”, Francisco Lopes exercitaria a menos digna, de “cerceio de moeda” e, por isso, foi condenado em multa de 50 mil réis. E indo o caminheiro a Chacim, cobrar a multa e perguntando por ele a seu cunhado Daniel Ferreira, este indicou-lhe a casa de Francisco Lopes, o Bonitinho de alcunha, “dizendo-lhe que esse era o condenado”. E o Bonitinho, protestando embora, não teve outro remédio senão pagar! Obviamente que a cena deixaria desavenças e ódios entre as famílias dos dois Franciscos Lopes.

No seguimento da prisão dos cunhados e outros parentes e amigos, também o Capitão Farrapa foi levado para a inquisição de Coimbra, em novembro de 1698. Manteve-se negativo durante 3 anos, começando a confessar apenas em 8.12.1701, quando lhe disseram que estava condenado à morte. E a confissão que então fez foi muito diminuta. O processo foi visto de novo pelos inquisidores que mantiveram a condenação. E foi então, depois de lhe atarem as mãos, dois dias antes do auto da fé, em 16.12.1701, que ele confessou seus crimes e denunciou seus familiares. E porque sua confissão é muito importante para o estudo das ritualidades funerárias em Chacim, transcrevemos um extrato. Vejam:

— Disse que, haverá 5 anos, em Chacim, em casa dele confitente (…) na ocasião em que faleceu sua filha Catarina, de 10 anos, (…) disse ele confitente para a dita sua mulher Antónia Ferreira que a amortalhasse em um pouco de lenço novo que em casa havia, em presença dos outros. E estando a dita sua mulher amortalhando a dita defunta, entrou Domingos Ferreira, cunhado dele confitente e disse que andavam bem em a amortalhar em mortalha nova e que era bom jejuar 3 dias judaicamente pela alma da dita defunta e ele confitente respondeu que não podia porque tinha de ir para fora, mas que antes daria alguns tostões a quem lhos fizesse (…)

Disse mais que, haverá 7 anos (…) por ocasião de assistirem ao mortuório de sua cunhada Bárbara Ferreira, mulher do dito Lourenço Mendes, que havia falecido, disse o dito Lourenço Mendes para ele confitente e para as mais pessoas que lavassem a dita defunta e a amortalhassem em mortalha nova, por cerimónia judaica e por intenção da mesma havia de jejuar 3 dias de estrela a estrela, (…) e mandaram dar de jantar bacalhau e os mais ficaram na dita casa 8 ou 9 dias e ele confitente se foi embora; e passados alguns dias, tornando à mesma casa, lhe disse o dito Lourenço Mendes que havia de jejuar 30 dias por alma de sua mulher defunta.(3)

Francisco e Antónia tiveram 9 filhos. Três deles foram presos pela inquisição em 1701, estando ainda solteiros: Maria Ferreira, de 20 anos; Ana Ferreira, de 15 anos e Pascoal Lopes, de 18 anos. Deste voltaremos a falar.

Pedro Ferreira, outro dos filhos, era criança quando o pai foi preso. Aprendeu o ofício de torcedor de seda e tinha uns 25 anos quando foi apresentar-se na inquisição de Coimbra. De regresso a Trás-os-Montes, casou com Ana Maria, filha de Francisco Dias Cardoso, fixando o casal residência em Bragança. Deste casamento teve um filho, que casou com uma filha do Dr. Gabriel Ledesma e duas filhas que casaram com dois torcedores de sedas. Por 1726, faleceu sua mulher e ele casou em segundas núpcias com Maria de Sá, filha do tecelão Lourenço de Sá, da qual não teve filhos. Em abril de 1747 foi preso pela inquisição de Coimbra, saindo condenado em cárcere a arbítrio.(4)

Quando Pedro se foi apresentar em Coimbra disse aos inquisidores que os irmãos Manuel Ferreira, André Ferreira e Hilário Ferreira eram ausentes em Castela.

Voltemos atrás, a Pascoal Lopes Ferreira que, depois de sair da cadeia, se foi viver para Carção, antes de se abandonar o País.

Vejamos agora uma informação muito interessante, transmitida por José Rodrigues Mendes, aliás, Moses Mendes Pereira, de Bragança, que, em agosto de 1727, passava por Bayonne:

— Disse que, haverá 4 meses, em Bayonne, de França, em casa de Hilário Lopes Ferreira, aliás, Abraham Lopes Ferreira, casado não sabe com quem, filho do Capitão Farrapa, natural da vila de Chacim, morador em Bayonne de França, e com um irmão inteiro do mesmo chamado Pascoal Lopes Ferreira, aliás, Isaac Lopes Ferreira, natural de Chacim e morador em Bayonne.(5)

Abraham Lopes Ferreira não terá permanecido em Bayonne por muito tempo. Com efeito, em 1733, ele já morava em Bordéus e uma das sinagogas existentes na cidade, funcionava em sua casa, sendo ele referido como “ministro do culto”, conforme informação enviada para Paris, pelo “aide maior de la Ville de Bordeaux”:

— Dans la rue des Augustins et vis à vis de la grande porte de l´Eglise de ce couvent est une autre sinagogue dans une maison occupée par un juif nommé Ferreyre (…) Ils ont plusieurs prestres (ministres officiants), du nombre desquels sont les nommés Abraham Ferreyre, Jacob Mendes et Abraham Lopes.(6)

No ano seguinte, em 25.3.1734, foi eleito tesoureiro da “nação” e, em 26.3.1735,(7) ascendeu ao cargo de gabay. E agora veja-se a ata n.º 72, que ele assina como “parnas”:

— Nos Parnasins y gabay assistidos de los Señores Benjamim Gradis KK Rabis Joseph Falcon y Jacob Hain Attias deliveramos que Moize de Paz Dias portugais queda escluido del rol de la Sedaca por ser pertinas y contumaz a la Lei de Dios, y otras razonnes a nos savidas. Bordeos a 24 de Elud de 5495 que corresponde a onze de setiembre del anno 1735. Signé Jacob Lopes de Paz, parnas; signé Ferreira, parnas; signé, Benjamin Gradis Gabay; signé en hebreu de K. K. Falcon.(8)

A última notícia que temos do seu agregado familiar data de janeiro de 1744, altura em que na lista dos contribuintes da taxa anual da nação, aparece coletada em 7.10 libras a viúva de Abraham Ferreira.(9)

 

Notas:

1 - Inq. Coimbra, pº 2551, de Pascoal Ramos. Ficando viúvo de Maria Gomes, Pascoal casou 2.ª vez, com Inês Soares, fixando morada em Chacim.

2 - Idem, pº 6977, de Diogo Ferreira, tecelão de seda.

3 - Idem, pº 9708, de Francisco Lopes, capitão Farrapa.

4 - Idem, pº 7466, de Pedro Ferreira.

5 - Idem, pº 4939, de José Rodrigues Mendes.

6 - FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN – Le Registre des Deliberations de la Nation Juive Portugaise de Bordeaux (1711-1787) p.601-602, Centro Cultural Português, Paris, 1981.

7 - Idem, p. 134.

8 - Idem, p. 137.

9 - Idem, p. 166.

Pela boca...

Durante muitos e muitos anos fomos bombardeados com um comentário recorrente, repetido, muitas vezes até à exaustão, sobretudo nos anos de crise, por muitos dos autarcas nacionais: “As autarquias gerem muito melhor que o Governo Central. Um euro gasto localmente, rende muito mais que quando é usado centralmente”. Assim sendo, o processo de descentralização, em curso tem todas as condições para trazer benefícios vários aos munícipes, melhorando os serviços públicos, aumentando a eficiência e, claro, poupando os cofres públicos. Seria pois expectável que todas as Câmaras Municipais aceitassem, de imediato, todas as transferências de competências que o Governo pretende delegar nos municípios. Contudo tal não se está a passar assim. Embora haja uma resposta que, em termos gerais pode ser considerada positiva, a adesão está longe do que as declarações grandiloquentes do passado poderiam induzir. É fácil enunciar princípios, alegar razões, propalar conceitos, sobretudo quando nos arrogamos em juízes de causa própria.

Não questiono nem a oportunidade, óbvia e evidente, nem tão pouco a realização... em média! E esse é que é o busílis da questão. Em média, cada euro gasto pelas instituições mais próximas dos cidadãos têm uma rentabilidade superior a aplicações idênticas feitas pela Administração Central. Mas, cada caso é um caso e, a menos que se sintam compelidos a fazerem um aproveitamento oportunista desta possibilidade que, brevemente passará a obrigatoriedade, a recusa da totalidade das propostas governativas descentralizadoras, ou mesmo de parte, não deixa de ser uma confissão, na primeira pessoa, de incapacidade de gestão. Porque exigir mais, para fazer o mesmo, em melhores condições não atesta muito sobre as capacidades de quem, em campanha, garantia ser o melhor do concelho e até, muitas vezes, das redondezas.

O aumento das competências das autarquias traz um problema que, nos grandes centros pode ser de somenos importância mas assume algum relevo nos municípios mais pequenos: a contratação. Nem seria preciso lembrar os exemplos recentes vindos a público na comunicação social sobre o uso dessa prorrogativa de forma abusiva em benefício de familiares e correligionários para saber que os preciosos empregos, nas terras do interior, são um argumento de poder que convém manter em níveis mínimos de discricionariedade. A contratação de serviços e pessoas tem de ver aumentada a sua transparência e equidade. Tal passará, entre outras medidas cautelares, pela reformulação dos poderes e funcionamento das Assembleias Municipais, repensando o papel, nas mesmas, dos Presidentes de Junta e, ainda, aumentando a ligação desta aos cidadãos que nela possam ver um verdadeiro fórum municipal onde tenham mais que um diminuto papel de consentimento de expressão no final das suas reuniões.

Deus (Esquerda), Pátria (Partido), Família (Clã)

Contrariamente ao que muitos possam pensar a tríade Deus, Pátria, Família, divisa do chamado Estado Novo, não é da autoria de Oliveira Salazar mas de Afonso Pena, político brasileiro filho de pai português, que foi o 6.º presidente do Brasil, entre 1906 e 1909, muito tempo antes, portanto.

Diga-se, em abono da verdade, que Afonso Pena, contrariamente a Oliveira Salazar, não se limitava à trilogia Deus, Pátria e Família. Acrescentava-lhe um quarto elemento: Liberdade.

Com a implantação da democracia liberal em 25 de Abril de 1974, que é tudo menos representativa (os transmontanos que o digam), aquela fórmula ideológica foi definitivamente posta de parte, como se sabe, passando a reinar a regra 3D: Democratizar, Descolonizar, Desenvolver, sendo que, até ver, apenas a descolonização, se cumpriu, bem que mal, continuando em aberto a verdadeira democratização e o pleno desenvolvimento.

O primeiro-ministro António Costa, que teve suficiente engenho e arte para pôr a Geringonça a voar qual caranguejola e fazer valer um governo excêntrico, é senhor dum estilo peculiar e dum pensamento político próprio que faz lembrar Afonso Pena, inspirador do Integralismo do também brasileiro Plínio Salgado e onde Oliveira Salazar também foi beber, mais liberdade menos liberdade, a célebre divisa Deus, Pátria, Família.

Para António Costa, Deus é a Esquerda, com todos os seus credos e seitas, a Pátria é o Partido Socialista, tout court, e a Família o Clã de que é tutor e que os melhores dicionários definem como o conjunto de famílias que pertencem à mesma tribo, ou à mesma casta, se nos valermos do hinduísmo.

Este ideário político de António Costa ganhou mais força com a recente remodelação governamental, em que o peso das famílias, dos amigos e dos amigos dos amigos no aparelho de Estado passou a ser determinante, como se os problemas do país pudessem ser resolvidos lá em casa, à hora do jantar.

Não se contesta a licitude de um ou mais governantes possuírem laços de parentesco sejam eles quais forem. Reprovável será, em qualquer caso, se for o nepotismo a determinar a nomeação para cargos governamentais. É aqui que justas interrogações se levantam porque, lamentavelmente, a governança de António Costa está recheada de amigos e correligionários cuja competência nunca antes foi posta à prova e que acabaram por fazer tristes figuras nas situações mais dramáticas.

É óbvio que ninguém é competente só porque é amigo do primeiro-ministro, que não há uma casta superior, bramânica, no partido socialista e muito menos famílias superdotadas.

Talvez o primeiro-ministro, nas actuais circunstâncias, só tenha encontrado pessoas disponíveis para integrar o governo, com plena responsabilidade, no seu círculo mais íntimo de fiéis. Preocupante, mesmo assim, será pensar que, caso Antónia Costa ganhe as próximas legislativas, com ou sem maioria absoluta, inevitavelmente irá aprofundar o lema Esquerda, Partido, Clã, com as consequências desastrosas que já se adivinham.

É por estas e por outras que o primeiro-ministro António Costa, que andou a semear ventos e ilusões, colhe agora tempestades e frustrações.

 

Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

Flávio Gomes avança para Valongo com um carro mais competitivo

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Qua, 06/03/2019 - 09:40


É já no domingo, dia 10, que tem início o Campeonato de Portugal de Trial 4x4. Valongo será o ponto de partida para a consagração dos campeões, tendo como final a etapa de Paredes a 13 de Outubro.