Henrique Pedro

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Forças Armadas: o espelho do Regime

Dizia-se, noutros tempos, que as Forças Armada eram o espelho da Nação. Havia muito de verdade nessa conhecida asserção porquanto todos os jovens com idade para tanto, independentemente da sua naturalidade ou condição social, eram ajuramentados para servir militarmente Portugal. Graciosamente, note-se. Eram o melhor que a Nação tinha, que a representava com fidelidade e por isso a Nação neles se revia e dessa forma muito os valorizava. Presentemente não é bem assim. As Forças Armadas são, bem pelo contrário, o espelho em que se reflectem as piores malformações do Regime, as decisões mais gravosas de governos sucessivos, com destaque para o chefiado pelo primeiro-ministro António Costa. Governo que foi malfadado pela Geringonça, como se sabe e que tem envolvido as Forças Armadas num chorrilho de escândalos tão desprestigiantes quanto injustos. Geringonça que faliu na forma, mas não no conteúdo, já que a sua ideologia, chamemos-lhe “gerigoncianismo”, uma caldeirada de comunismo, capitalismo e oportunismo, de que o próprio António Costa é ideólogo principal, continua a condicionar negativamente a vida política, económica e social. E militar, como é óbvio. Aos sucessivos escândalos que têm rebentado no seio das Forças Armadas na vigência formal da Geringonça, com destaque para o assalto aos paióis de Tancos, que continua por esclarecer, se é que algum dia o será, mesmo depois das habituais bocas do Comandante Supremo que as comanda por megafone a partir das varandas do palácio de Belém, acaba de se juntar um outro ainda de maior amplitude e gravidade já que não se confina ao mundo menor da NATO e tem forte repercussão internacional. Escândalo que, quer os senhores do “establishment” queiram quer não, afecta gravosamente não apenas as Forças Armadas mas o Estado no seu todo. Como era de esperar, agora no caso dos diamantes que municiam as armas dos combatentes da Operação Miríade, como no assalto aos paióis de Tancos, nenhum digníssimo governante assumiu a sua responsabilidade e se demitiu. Quando muito aceitaram, seraficamente, o digno papel de ignorantes, a começar pelo Presidente da República e pelo primeiro-ministro. Escovaram a água do capote como soe dizer-se. A verdade, porém, é que na Operação Miríade como no assalto de Tancos, a culpa é de todos. Desde alto a baixo e daqui para cima. É do soldado que comete o crime, do sargento que não controla o soldado, do comandante de pelotão que não conhece os homens que comanda, do coronel que não prepara e treina devidamente os militares que envia para o campo de batalha, do ministro que não acerta uma no cravo, do primeiro-ministro que mais uma vez dá provas de não ser capaz de coordenar eficazmente o governo e do próprio comandante supremo que o finge ser para português ver. Abre-se aqui, todavia, uma outra memória do antigamente quando se dizia que que “as Forças Armadas são um mal necessário”. Máxima atribuída ao ditador Salazar mas que julgo ter sido empregue noutros tempos e espaços e por muitas outras personalidades. Ideia que não deixa de ter sentido, dependendo, muito embora, do contexto e da intencionalidade com que é proferida. Males desnecessários, porém, não faltam no Regime e no Estado português. No espírito do“gerigoncianismo” as Forças Armados são, isso sim, um mal desnecessário. A abater, portanto. Poi isso o governo de António Costa as tem reduzido a uns tantos generais com os peitos enfeitados de condecorações para ornamentar tribunas cerimoniais e a grupos de mercenários, sem alma nem pátria, como agora se viu na República Centro Africana. E que o próprio Comandante Supremo confirma quando afirma publicamente que se trata de forças da ONU e não de Portugal. Mercenários, sem dúvida. Governo que só ainda não enxovalhou ainda mais as Forças Armadas porque sabe que há milhares de portugueses vivos que não se coíbem de manifestar os seu orgulho de terem militado no Exército mais humano da História que no extinto Ultramar rasgou estradas, ergueu escolas e hospitais, tratou, curou, ensinou a ler e a escrever e matou a fome a milhares de infelizes, em simultâneo com o cumprimento das missões de combate. Que promoveu a paz e harmonia interétnicas e corrigiu os desmandos prevalecentes do colonialismo ancestral. E que jamais deixarão de evocar e de honrar os muitos camaradas, brancos e negros, que tombaram no campo de batalha ou de lá saíram fisicamente diminuídos. Sem esquecer que face à miséria que grassa pelo Mundo, em África em particular e Angola em especial, a descolonização criminosa foi uma grande perda para a Humanidade. É por demais evidente que o “gerigoncianismo” de António Costa está apostado em converter o Estado-Nação num Estado Novo de Negação da História. Do passado e do futuro. Começando por destruir o que de mais essencial uma Nação possui-as suas Forças Armadas, enquanto alfobre de virtudes cívicas e de garante da integridade e independência nacionais. E da própria democracia. Quem semeia ventos colhe tempestades. 

Requiem pela Geringonça

Seis longos anos durou a Geringonça. Bastante mais do que se previa. Geringonça que, contrariamente ao que se pensa, não se limitou a fazer prova de vida sempre que foi chamada a aprovar sucessivos Orçamentos de Estado. Sub-repticiamente corrompeu ainda mais e aprofundou as contradições do Regime em consonância com os desígnios ideológicos dos seus constituintes da estrema esquerda. Tornou o futuro do país e da democracia ainda mais problemáticos, como agora diariamente se constata. Acabou por se desconjuntar ruidosamente. Ainda bem. O estrondo ainda se faz ouvir fragoroso e as peças ainda rolam incontroladas pela última ribanceira, o OE2022, que já não conseguiu vencer de tão gasta que andava, presa por arames e a bater válvulas. E agora? Apetece perguntar. Agora que já nenhum bate- -chapas lhe pode valer, resta à rapaziada socialista divertir-se e divertir os portugueses a buzinar o velho calhambeque, com António Costa ao volante, como diz a cantiga de Roberto Carlos, enquanto aguarda, ansiosa, o restauro do Cadillac da maioria absoluta. Rapaziada para quem nem seriam precisos mais orçamentos de Estado ou eleições e melhor seria deixar ficar tudo como está. Em família. Mais divertido ainda será, porém, se o calhambeque socialista for ultrapassado, nas curvas e contracurvas eleitorais, por um Ferrari de maior cilindrada, vindo da direita e em contra mão. Depois do que se viu em Lisboa com Medina e Moedas tudo é possível. Atenção que esta história não é para rir. É para reflectir e eventualmente para chorar. Todos os portugueses livres e de bons costumes, honi soit qui mal y pense, grupo no qual eu humildemente considero que me incluo, têm razões de sobra para se sentirem enojados e desfeiteados e se indignarem cívica e eticamente com o comportamento dos políticos em geral e de muitos governantes em particular. Nunca o Regime desceu tão baixo. Por obra e graça de uns tantos artistas, poucos que fossem seriam demais, incompetentes, cínicos e traidores que campeiam na política portuguesa. Que enfie o barrete quem lhe servir. Não é da democracia que se queixam os portugueses, porém. É da politicalha e dos politicalhos que habilmente se servem da democracia para se servirem a si próprios, devastando o Estado e a Nação. A bondade da Geringonça confinou-se a pontuais e irrelevantes benefícios sociais na esteira do abrandamento da austeridade imposta pela Troica, sem a qual não teria sido possível salvar Portugal dos dislates cometidos por sucessivos governos, com destaque para os socialistas de José Sócrates. Já as suas maldades, porém, vão muito para lá da desfiguração de Orçamentos de Estado, como melhor se verá a partir de agora, à medida que o Estado regurgitar as suas dramáticas incapacidades em todos os domínios, com relevância para a Saúde, a Educação, a Segurança Pública ou combate à corrupção. Particularmente significativo é o tratamento indigno que tem sido dado às Forças Armadas, a que não é alheia a ideologia mais íntima da Geringonça, que preconiza reduzi-las a uns tantos generais enfeitados de medalhas para ornamentar tribunas políticas e a grupos de mercenários sem alma nem pátria. Justa e honrosa é, por isso, a revolta dos paraquedistas que no dia do Exército foram impedidos de cantar o seu hino em louvor ao seu patriotismo. António Costa, o demiurgo da Geringonça, tem vindo a cometer erros capitais atrás de erros capitais. Com a Geringonça foi a sua estrelinha que se apagou. Levado pela sede de poder e instinto de sobrevivência política afrouxou a corda dos princípios ao limite e sobreavaliou a flexibilidade ideológica do PCP e do BE a quem, está visto, a democracia continua a pouco ou nada dizer. Deslumbrado com o sucesso original arredou, com sobranceria e insensatez, o PSD e o CDS do seu confinado diálogo político, como se de portugueses de outro credo ou raça se tratasse. Optou mergulhar de cabeça no pântano da Geringonça, como se viu, acabando por se afundar inexoravelmente. Já nem mesmo as artimanhas de Marcelo Maquiavel, em desespero de causa, foram capazes de lhe valer. Foi com a graça da Geringonça que ambos prestaram um péssimo serviço ao país, confundindo estabilidade política com promiscuidade institucional e convertendo a democracia num perigoso forrobodó. Esperemos que a eventual colação de Marcelo e Rangel a não transforme num permanente delírio. Tudo é de esperar do próximo acto eleitoral porque os portugueses, por natureza emotivos, reactivos e de memória curta, reagem em diferido, como sentem e nem sempre decidem racionalmente. Certo é que Portugal precisa, como de pão para a boca, de uma democracia reformada e renovada, com novos políticos capazes de imprimirem ao Regime a honestidade, a dignidade e a confiança que lhe falta. Democracia é sinónimo de dignidade e de serviço público. Não de aldrabice e corrupção. 

Pão, circo e socialismo (q.b.)

O Orçamento do Estado para 2022, que o Governo apresentou na Assembleia da República em 11 de Outubro, será votado, na generalidade, já no próximo dia 27, mas tem a votação final global agendada apenas para 25 Novembro. Tempo mais que suficiente, portanto, para o primeiro-ministro António Costa fazer valer as suas competências de domador de feras, dentro e fora do circo de São Bento. São Bento que é isso mesmo: uma tenda em que assentou arraiais a companhia circense Geringonça, que há seis anos dá pão, circo e socialismo (q.b.), ao povo português. Com muitos e variados números de ilusionismo, malabarismo e engolidores de sapos, agora abrilhantados com mágicos pozinhos de perlimpimpim polvilhados pela generosa bazuca bruxelense. Circo que muito tem divertido e distraído a maioria dos portugueses dos reais problemas do país, como convém aos talentosos artistas governamentais. Circo que nesta temporada pós Covid tem o seu número mais arrojado com o temerário primeiro-ministro a meter a cabeça nas mandíbulas escancaradas do feroz leão PCP e do sinistro leopardo BE, enquanto o dócil PAN exibe as habilidades dos seus cãezinhos amestrados. Tudo com o rufar de tambores anunciadores de uma eventual crise política que silenciam os ecos da sistémica crise económica e social que é bem mais grave e persistente. Quanto à bicharada de direita, que o afortunado domador António Costa remeteu para as galerias, tem-se limitado a piar baixinho, desafinada, à espera que a barraca abane. Não é de todo improvável que, quer o leão PCP, quer o leopardo BE, ou os dois em simultâneo, se vejam compelidos a fechar desastradamente as mandíbulas. Porém, se o fizerem, não será com o intuito de decepar o domador mas apenas para salvar as suas próprias cabeças. BE e PCP que, confrontados com a total e universal falência prática do marxismo puro e duro, procuram sobreviver com recurso à demagogia primária que não belisca o mais débil capitalismo, sequer, e nada de visível acrescenta à nação que trabalha. Ou será que já aprenderam que só mesmo a democracia é revolucionária?! Certo é que, se tal acontecer, apagar-se-ão definitivamente os holofotes da Geringonça, o que não significa, contudo, que o domador Costa não sobreviva. Bem pelo contrário! O mais provável até será o espetáculo de São Bento prosseguir sob a sua batuta, por algum tempo mais, embora com renovada companhia. Mais se evidenciará, contudo, outra competência deste prócere político também conhecido como mestre de sacudir a água do capote: o de saco de box, tanta a pancada que irá levar, de todos os lados. O mote até já foi dado por três conhecidas personalidades do mais alto gabarito, nada mais nada menos que Marcelo de Sousa, presidente da República em exercício, Cavaco Silva e Ramalho Eanes, dois ex-presidentes da mesma República, que recentemente vieram a público bater-lhe forte e feio. Não o fizeram por razões de cacaracá, o que só lhes ficaria mal, até porque sempre deram provas de se baterem por causas do mais alto interesse nacional, talvez com excepção de Marcelo de Sousa que, por tudo e por nada, opina sobre questões de lana caprina. As matérias tratadas por tão ilustres figuras são, de facto, altamente relevantes, porque estão intimamente ligadas à sobrevivência da Democracia e ao futuro da Nação. Foram pancadas certeiras e demolidoras que teriam provocado a imediata queda do primeiro-ministro, ou de alguém por ele, se houvesse vergonha e moralidade na política portuguesa. Tanto assim é que Marcelo de Sousa, a propósito da exoneração do Chefe de Estado-Maior da Armada, não se limitou aos palpites habituais. Puxou dos galões pela primeira vez e deu dois murros na mesa, o que fez com que António Costa de pronto metesse o rabo entre as pernas e arrepiasse caminho. Por sua vez, Ramalho Eanes, que em matérias do foro militar sabe bem do que fala e tem reconhecida autoridade, verberou, com o seu timbre peculiar, a mais que evidente tentativa de politização das Forças Armadas e mesmo a sua eventual partidarização o que, no seu avisado entendimento, poderia ser facilitada pela ambição e falta de carácter de alguns militares, como tão tristemente aconteceu no PREC, de mão memória. Já Cavaco Silva, por mais handicaps que lhe possam apontar, num extenso artigo publicado no Jornal Expresso limitou- -se a evidenciar preocupações partilhadas pelos economistas mais categorizados. Um discurso que ficaria melhor, é certo, na boca de Rui Rio, o principal líder da oposição que, lamentavelmente, continua a desaguar em mares que ainda nenhum navegador descobriu. Desgraçadamente, como bem se vê, a barca lusitana continua a navegar à vela e à vista do próximo naufrágio e os portugueses a sobreviver com o socialismo (q.b.), o circo e o pão recheado de impostos que o diabo do Regime amassou. Vale de Salgueiro, 21 de Outubro de 2021

Cinismo e Abstencionismo

É por demais sabido que o Sistema Democrático (liberal e representativo, em que o princípio um homem um voto, a separação de poderes e a representatividade das diferentes ideologias são práctica e são lei) não se esgota num único Regime político. E é por demais óbvio que os políticos do Regime vigente em Portugal, que favorece a adulteração sistemática do Sistema Democrático, nada têm feito para aumentar a participação dos portugueses nos sucessivos actos eleitorais e trazer a abstenção para valores minimamente aceitáveis. Para lá de discursos relapsos e de desenxabidas promessas de reforma. Sobretudo desde que senhor António Costa pôs em marcha o PRREPS (Processo Revolucionário de Redução do Estado ao Partido Socialista), com a conivência do BE e do PCP e a inação do PSD. A persistente taxa de abstenção eleitoral, vergonhosamente elevada, como mais uma vez se verificou nas últimas eleições autárquicas, é uma marca do Regime e um instrumento de que os manda-chuvas partidários, não só socialistas, se servem para sobreviver, adiando sistematicamente reformas fundamentais. Como é o caso da lei eleitoral e do recorrente processo de recenseamento de eleitores, precisamente. Tomemos o exemplo das eleições presidenciais de 24 de Janeiro de 2021, as mais recentes do género, em que a taxa de abstenção excedeu os 60%, com menos de ¼ dos eleitores legalmente habilitados a credenciar pelo voto o Presidente da República em exercício. Ora, é por demais evidente que nenhum Regime político, mesmo revestido de roupagens democráticas, se poderá assumir como genuinamente democrático quando mais de ¾ dos eleitores se alheia da eleição do mais alto magistrado da Nação. A verdade nua e crua é que mais de ¾ dos eleitores não abonaram expressamente tal eleição o que não preocupou nenhum político, mais interessados que estão com a sobrevivência, ainda que contra natura, do Regime corrupto. O abstencionismo, sistémico, e o cinismo político, atávico, coexistem na perfeição, como se vê. O problema fundamental, porém, não está na deficiente educação cívica dos portugueses como muitos pretendem. Bem pelo contrário, a abstenção tem razões diversas ainda que a maior parte delas não tenham o peso que muitos lhe querem dar. Desde logo a eventual doença, ausência ou simples comodismo dos abstencionistas cujos números não serão, quanto a mim, significativos para justificar a anormalidade da abstenção. Também há quem invoque a desatualização dos cadernos eleitorais que igualmente terá um peso marginal, para lá de que são por demais conhecidos episódios lamentáveis em que defuntos e ausentes milagrosamente também votam, por interpostas pessoas, claro está. A razão maior, isso sim, é que a grande maioria dos abstencionistas não se sente motivada a votar, indiferente e desgostosa que anda com o dito sistema, os ditos partidos, os ditos políticos, a dita corrupção e coisas que tais. Ou porque, pura e simplesmente, se não revê nas soluções e nas alternativas eleitorais que lhe são apresentadas. E também porque as forças políticas que têm poder para tanto, promovem a viciação das sondagens eleitorais com o propósito de desmotivar aqueles que, à partida, reconhecem como adversos. Já no que aos votantes diz respeito muitos são, por certo, os que louvavelmente votam só porque entendem que devem assumir o direito e dever de votar sem outros interesses associados. Honra lhes seja prestada. A maioria, porém, fá-lo porque obviamente serve, se serve ou espera vir a servir ou a servir- -se do sistema. Claro que os partidos que granjearam clientelas e militantes seguros não estão interessados em que haja votantes que não sejam seus simpatizantes. O seu único interesse é ganhar eleições, com maioria absoluta se possível, nem que seja um só cidadão a votar. Daí que não lhes interesse promover a ida às urnas dos abstencionistas porque sabem, de antemão, que isso os prejudicaria. Assim se compreende que os políticos mais influentes do presente regime menosprezem o voto obrigatório mesmo se configurado de forma justa, adequada e democraticamente persuasora. Não o fazem por opção ideológica, seguramente, (qual marxismo, qual liberalismo, qual esquerda, qual direita!), mas por meras razões corporativas. E porque sabem que só a democracia livre e representativa é verdadeiramente revolucionária, desde que genuína e plenamente assumida. A verdade é que quem não cumpre o dever de votar também não pode reclamar direitos correlativos, porque o voto é simultaneamente um direito político e um dever cívico. Havemos de concluir que cinismo atávico e abstencionismo sistémico são a alma do regime. Servem o sistema prevalecente mas corrompem a democracia.

Negacionismo a Ferro e fogo

A definição mais justa de negacionismo encontrei- -a no Diccionario de la Lengua Española, da Real Academia Española, que reza assim: Actitud que consiste en la negación de determinadas realidades y hechos históricos o naturales relevantes, especialmente el Holocausto. Especialmente o Holocausto, vejam só! Não sei, nem me importa saber, como é ou deixa de ser o cidadão Eduardo Ferro Rodrigues na sua vida particular e muito menos privada. Enquanto figura pública e principalmente Presidente da Assembleia, a segunda figura do Estado logo a seguir ao Presidente da mesmíssima República, note-se bem, é comumente tido como arrogante, faccioso e mal-educado. Um manancial de animosidade, portanto, que em nada prestigia o cargo que exerce. A verdade é que foi eleito por um número suficiente de portugueses. Ou malteses, sabe-se lá, integrando uma emblemática lista do género “todos à molhada e fé no partido”, tão característica da democracia lusitana. A sua nomeação como presidente de tão douta assembleia política foi posteriormente acordada interpares. Ferro Rodrigues é uma figura de proa partidária, um machucho do emergente totalitarismo socialista que paulatinamente tem vindo a abocanhar a democracia portuguesa, sobretudo desde que António Costa, com a bênção de Marcelo de Sousa, seu amigo de circunstância, ousou controlar avassaladoramente a comunicação social mais determinante, instalar agentes na administração pública e política mais relevante, tutelar a denegação da justiça nos processos políticos mais escandalosos, explorar a confrangedora acefalia da oposição de direita e manipular a esquerda a seu bel-prazer. Não quero com isto dizer que Ferro Rodrigues, enquanto Presidente da Assembleia da República, não deva ser democraticamente respeitado, mesmo quando o próprio, no exercício do cargo, se não dá ao respeito. Bem pelo contrário! Entendo até que as ameaças e os insultos de que foi alvo quando almoçava tranquilamente, acompanhado pela esposa, num restaurante próximo do Palácio de São Bento, devem ser drasticamente verberados, publicamente e nos tribunais. Ofensas que os principais órgãos de comunicação social atribuíram a negacionistas, “tout court”, sem considerações relevantes sobre esta importante temática, o que evidencia algum tipo de engajamento. Importa esclarecer, por isso, que negacionismos e negacionistas há muitos e para todos os gostos. Desde logo há os que negam a existência de Deus, que a Terra seja redonda, a evolução darwiniana, o aquecimento global ou o próprio Holocausto, o que é, quanto a mim, o espanto maior. Não seria de admirar, portanto, se alguém viesse agora argumentar que o “homo politicus” Ferro Rodrigues não existe, de tão surpreendente que é. Só mesmo o seu correligionário Eduardo Cabrita, ministro da Administração Interna, se lhe compara mas também ninguém apareceu, até hoje, a duvidar da sua existência. No caso que envolveu Ferro Rodrigues não restam dúvidas, porém, de que se está apenas e tão-somente, perante negacionistas da COVID-19 e da justeza da vacinação contra este flagelo que irreflectidamente associam ao desastrado Presidente da Assembleia da República, como se tivesse sido ele, mais os seus acólitos, a inventá-la, embora não necessariamente a produzi-la na chafarica de São Bento. É que, se assim fosse, tal não passaria de um “remake” da teoria da conspiração de que que os chinocas se conseguiram safar, até melhor ver. É claro que os negacionistas lusitanos da Covida-19 estão no exercício pleno de um consagrado direito democrático. Devem é apresentar argumentos relevantes, cientificamente validados para as suas reivindicações e fazê-lo de forma pacífica e dentro da Lei. O que não foi o caso. É o que acontece, por regra, com os diferentes tipos de negacionismo que irrompem nas democracias liberais, que poderão nada ter de espontâneo e antes serem provocados, promovidos e financiados por forças escondidas. Com realce para as que preconizam a tão badalada Nova Ordem Mundial que é, na verdade, uma hidra de sete cabeças, expressão moderna, em última análise, da velha tentação totalitária, não sendo necessária grande imaginação para encontrar tentáculos americanos, chineses ou mesmo islamitas, entre outros, a esbracejar subrepticiamente. Preocupante é, contudo, concluir que todos eles contemplam a extinção de grande parte da Humanidade por diversas vias, mesmo quando declaram o contrário, no quadro de uma governação mundial optimizada em função dos seus próprios desígnios totalitários. São forças que, sob capas progressistas, esquerdistas e revolucionárias, mesmo quando marcadamente de direita, privilegiam a mobilização de ingénuos e papalvos, porque assim se torna mais fácil e eficaz a desmoralização e destabilização de sociedades e da própria Humanidade.

A fábula da rã e do escorpião

Dois eventos notáveis, de pura política que não de política pura, sucederam-se a semana passada, facultando uma melhor compreensão dos defeitos do regime político vigente e da governança desenfreada a que dá cobertura. Primeiro foi a apresentação pública, na quarta-feira, dia 1 de Setembro, do livro Memórias da autoria do conhecido homem público Francisco Balsemão. Uma obra surpreendente não só porque lança luz sobre a sua longa e densa vida política, mas sobretudo porque traça perfis pouco simpáticos de várias personalidades públicas, sendo particularmente lesivo do carácter de Marcelo Rebelo de Sousa, porque o coloca no papel do escorpião que pica o batráquio da fábula, de que o próprio autor veste a pele. Imediatamente a seguir, na quinta-feira, dia 2, portanto, teve lugar no palácio de São Bento, sede do Governo, a homenagem que o actual primeiro-ministro António Costa entendeu fazer ao citado Francisco Balsemão, por ocasião da passagem dos 40 anos do VII Governo Constitucional que este chefiou. É por demais óbvio que a coincidência destes dois eventos se não foi concertada entre António Costa e Francisco Balsemão foi, por eles, manifestamente negligenciada. Homenagem que é igualmente questionável porquanto gesto idêntico só António Costa o teve em 2016, para com o seu correligionário Mário Soares, para realçar os 40 anos da tomada de posse do I Governo Constitucional. Não faltaram datas nem motivos para António Costa homenagear outros colegas. Optou por estes dois por razões manifestamente pessoais. Recorde-se que Mário Soares sucedeu a Francisco Balsemão à frente do único Governo de Bloco Central (1983-85) que se destacou precisamente por pedir ajuda ao FMI, de imediato, porquanto o Governo da AD liderado pelo homenageado deixara o país na bancarrota. De realçar que foi a primeira vez que Portugal se viu forçado a recorrer a um resgate externo, o que voltaria a acontecer mais tarde com José Sócrates, correligionário e patrono de António Costa, que estabeleceu, em 2011, um acordo humilhante com o Fundo Monetário Internacional, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia, congraçados na célebre Troika. A execução de tão gravoso contrato de financiamento acabaria por representar um pesado encargo do XIX Governo Constitucional, liderado por Pedro Passos Coelho que, malgrado os erros cometidos tem sido injustamente tratado. Talvez António Costa o devesse homenagear e não criticar tão acintosamente como o tem feito. Uma segunda questão se apresenta como politicamente relevante: saber se António Costa e Francisco Balsemão igualmente se concertaram, e com que finalidade, o empolamento da publicitação do ataque feroz que Francisco Balsemão disferiu em Marcelo Rebelo de Sousa no livro atrás referido. Será que António Costa receia ser a próxima rã a ser picada e já se está a precaver? Com concertação ou sem ela, certo é que o bom nome do cidadão Marcelo Rebelo de Sousa e o seu prestígio enquanto Presidente da República foram profundamente afectados. Os portugueses têm agora motivos reforçados para duvidar da competência, do patriotismo e da seriedade dos políticos, dos partidos e demais machuchos do “sistema” sobretudo porque acreditaram, ainda que fugazmente, que com o advento da democracia e a integração europeia Portugal se transformaria num país de sonho. Tal só não aconteceu, na opinião de um jovial ancião do povo onde moro, porque no momento chave da consolidação da democracia e modernização da economia o país caiu nas mãos de “betinhos”, de “filhos do papá”, a quem também chama “direitinhos”, da linha do Estoril e doutras linhas enviesadas, tais que Francisco Balsemão e Marcelo de Sousa, que sobrepuseram os seus interesses e os seus umbigos, acima do interesse nacional. Mais se agravou a situação, ainda no dizer do espirituoso ancião, agora que aos “betinhos” sucederam os “esquerdinhos”, “filhos da mamã”, uma outra espécie de escorpiões que picam a rã com o ferrão revolucionário embora tentando a travessia para Cuba ou para a Venezuela. Qual foice, qual martelo, qual punho fechado, qual sinistra globalização! - Contraponho eu. Só a democracia liberal e representativa, com as armas do voto e do protesto público livre e espontâneo, é verdadeiramente revolucionária. Tem é que ser vivida dia a dia, com verdade. Haveremos de concluir, portanto, que a fábula do escorpião e da rã que Balsemão invoca relativamente a Marcelo de Sousa, tem aplicação muito mais vasta e profunda. Só que os escorpiões são demais para uma única rã que é a Nação, que incompreensivelmente continua a deixar-se levar na cantiga dos “direitinhos filhos do papá” e dos “esquerdinhos filhos da mamã”, que trazem a traição no ventre e a vão picar até que todos se afundem definitivamente. Vale de Salgueiro, 9 de Setembro de 2021

 

Tempo de choro e ranger de dentes

O advogado “Joe” Biden é, desde 20 de Janeiro de 2021, presidente dos Estados Unidos da América, a maior potência económica, tecnológica e militar da actualidade. Até ver. Coube-lhe a decisão final, e a correspondente supervisão, da retirada do Afeganistão das forças militares americanas e dos seus aliados, o que está a revelar- -se um fracasso monumental. É caso para se dizer que o homem mais poderoso da Terra se transfigura, neste caso, no calino cabo de esquadra da gíria militar. Não é, de facto, uma retirada bem planeada, ordeira e segura que está em desenvolvimento, mas uma verdadeira debandada militar, um estrondoso fracasso moral e um terrível drama social. Ainda que o processo tenha sido iniciado pelo polémico Bush, filho, e passado pelas mãos de Obama e Trump, a batata quente sobrou para Biden que, lamentavelmente, agora dá provas de não ter estatura para tão grandes desafios, como, de resto, já se suspeitava. Ninguém consegue compreender, por certo, como o exército nacional afegão, que arregimentava mais de 300  000 efectivos altamente bem armados, equipados e trainados, colapsou sem disparar um tiro que fosse, entregando armas e arsenais ao inimigo, de mão beijada. Houve, por certo, grandes e graves incompetências, para não dizer traições de quem, ao mais alto nível, dirigia politicamente o dito exército, o apoiava e comandava militarmente. Como também ninguém, em seu juízo perfeito, aceita pacificamente a tragédia que milhares de seres humanos estão presentemente a viver e o cruel retrocesso civilizacional que inevitavelmente se irá consumar com o assumir pleno do poder pelos talibãs, traduzido, sobretudo, no sacrifício cruel das mulheres. Sobreviva, ou não, o Afeganistão, como estado livre e independente, o mais provável é continuar a ser aquilo que sempre foi: um covil de sinistros terroristas. O pior de tudo, porém, é que Cabul não é assim tão distante de Paris, de Londres ou de Berlim quanto se possa pensar, o que não tranquiliza o mais humilde europeu que seja. Como Nova Iorque não estava assim tão distante de Cabul como se pensava antes de eclodir o trágico 11 de Setembro de 2001. Os satélites do Centro de Monitorização de Conflitos de Torrejón de Ardoz, uma agência da União Europeia (SatCen), poderão ser úteis para precaver conflitos domésticos, mas são incapazes de detectar talibãs e mujaedines equipados com cintos explosivos, no interior das grandes urbes europeias. Como de nada valerão os arsenais nucleares ingleses e franceses no combate urbano, político, religioso e social que os fundamentalistas islâmicos estão abertamente a promover e cuja arma mais cruel e sinistra é, sem dúvida, o êxodo forçado de milhares de infelizes das suas pátrias. Havemos de concluir que a grande crise da EU não é económica nem militar. É, acima de tudo, de liderança porque a generalidade dos seus políticos está atolada na mediocridade, pusilanimidade e corrupção. Lamentavelmente, a advertência que um notável grupo de generais franceses fez publicamente ao presidente Macron do risco de colapso da França às mãos de fanáticos islâmicos que atacam desapiedadamente a cultura e as tradições francesas e já impõem os seus mandamentos nos grandes subúrbios, desrespeitando a Constituição Francesa, terá caído em saco roto. O mesmo se aplica a todas as nações europeias que persistem em não separar claramente as louváveis ações humanitárias que são da sua cultura promover, das insensatas políticas de defesa e segurança nacionais. Acresce que políticos como Biden, ou Trump não são de fiar, para lá de que os americanos já não são o que eram. Ou o que foram na II Guerra Mundial, o período mais negro da história da Humanidade e da Europa muito em especial. No Afeganistão mais uma vez se confirma aquilo que sir Winston Churchill disse, um dia: “sempre se pode contar com os americanos para fazer a coisa certa – depois que tentaram todo o resto.” Só que a coisa certa para americanos como Biden, pode muito bem ser o sacrifício da Europa, abandonando os europeus com a mesma leveza com que agora abandonam os seus aliados afegãos. Entretanto a China do senhor Xi Jinping não deixará, por certo, de fornecer, na oportunidade, milhões de burcas às mulheres europeias submetidas à sharia entretanto decretada pelos novíssimos conquistadores sarracenos. E o astucioso senhor Putin não se coibirá de mobilizar o exército vermelho e ocupar toda a Europa, supostamente em defesa da cristandade, se acaso a guerra civil europeia deflagrar. É tempo de choro e ranger de dentes. Os europeus que se cuidem. 

Herói fútil de uma revolução inútil

Cumprido que está o período de nojo, tempo em que após a morte de quem quer que seja devemos evitar comentários pouco abonatórios, podemos agora falar da desconcertante personalidade que foi Otelo Saraiva de Carvalho.

Abordemos os factos com realismo. Desapaixonadamente.

Era uma vez, um modesto major de artilharia que as circunstâncias levaram a que fosse ele o coordenador principal das forças militares que no dia 25 de Abril de 1974 marcharam sobre Lisboa e despuseram o governo, abrindo caminho à tão desejada democracia, mas que acabou por descambar num tão conturbado quanto descabido processo revolucionário.

Outro poderia ter sido o coordenador que não ele, porém, já que, face à conjuntura, a oficialidade insatisfeita o teria aceitado pacificamente.

Tratou-se, de resto, de uma elementar movimentação militar, envolvendo um limitado número de tropas, sem riscos de maior e que não requeria excepcional capacidade de coordenação, comando e direcção.

Operação urbana, sem inimigo nem manobra táctica, que apenas teve um momento de afrontamento no Terreiro do Paço, mas que Salgueiro Maia, o capitão que comandava a forças revoltosas no local, ousou resolver com superior serenidade e eficácia. Honras continuam a ser-lhe devidas por quem de direito, por esta e por atitudes subsequentes.

Acresce que a mítica operação havia sido longamente discutida e preparada durante todo o processo conspirativo que reuniu, em diferentes locais da capital, exclusivamente oficiais do quadro permanente, unidos por justificado espírito corporativo. Processo conspirativo de que a hierarquia tinha conhecimento mas não teve engenho, arte ou vontade para o debelar à nascença, o que teria sido possível.

Certo é que tal movimentação militar teve sucesso pleno, tanto que, felizmente, nem um só morto ou ferido causou.

Não é de espantar, por tudo isso, que o incensado coordenador do levantamento tenha sido entronizado, de imediato, como herói nacional.

Pior, porém, foi o que veio a seguir, quando a revolta eminentemente militar cedeu lugar às complexas e traiçoeiras maquinações políticas.

O modesto major de artilharia, ébrio de vaidade e vanglória, transfigurou-se num insano revolucionário, denominador comum de marxistas, leninistas, trotskista e anarquistas, e dos tolos que pretenderam converter o MFA num partido, sem doutrina nem lei, inevitavelmente totalitário.

Acabaram por envenenar todo o processo, abrindo caminho à descolonização injusta e trágica e pondo em perigo a democratização e a independência nacional. Em 25 de Novembro salvou-se o que se pode!

A história é, de resto, bem conhecida. A banca e os seguros foram nacionalizados, a reforma agrária pôs o Alentejo e o Ribatejo a ferro e fogo, com o falso lema de que a simples mudança da posse da terra beneficia quem a trabalha, no norte do país eram perpetrados actos violentos, designadamente assaltos a sedes de partidos de esquerda em protesto pelo que acontecia a sul. Posteriormente, bombistas passaram a matar inocentes sobe a égide do novíssimo libertador.

Instalou-se o caos. Extremaram-se posições. Três forças se aprestaram para o confronto decisivo: os otelistas, os gonçalvistas e os moderados. E dois potenciais focos de guerra civil ganharam fôlego: o que opunha forças totalitárias a forças democráticas e o que ameaçava rebentar no seio das próprias forças totalitárias. Inevitavelmente Otelo converteu- -se no bombo da festa e caiu na desgraça.

Uma pergunta fulcral se impõe, agora, para que um mais lúcido juízo histórico se posso fazer: e se não tivesse havido o 25 de Novembro, se o golpe das forças totalitárias não tivesse sido neutralizado pelas forças democráticas?

Constituir-se-ia Otelo no émulo europeu de Fidel Castro, como terá sonhado? Seria Portugal ocupado por soldados cubanos como aconteceu em Angola? Consumar-se-ia a sugerida matança de fascistas na praça de touros do Campo Pequeno? As forças militares e paramilitares que Otelo liderava entrariam em confronto fratricida com as forças fiéis ao PCP? Converter-se- -ia Portugal numa outra Cuba ou numa outra Albânia? A Nato interviria? E o Pacto de Varsóvia como reagiria? Hipóteses com elevado grau de probabilidade, note-se bem. Lamentavelmente, a punção revolucionária de Otelo, derrotado e humilhado em 25 de Novembro, não terminou aí, já que aparece associado, de imediato, às Forças Populares 25 de Abril, a organização terrorista de extrema-esquerda que operou em Portugal entre 1980 e 1987. Surpreendentemente, ou não tanto, Otelo terminou a sua mirabolante carreira política claramente arrependido e a elogiar o ditador Salazar.

Nenhum machucho político do momento, chame-se Eanes, Marcelo ou Costa, por melhores intenções que tenha, poderá determinar em que galeria da Historia Pátria, se na dos heróis se nas dos traidores, irá ser dependurado o seu retrato a óleo.

Talvez a História o consagre como o herói fútil de uma revolução inútil.

Paz à sua alma.

Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico

Poder Local: a lei da selva.

É oficial: as próximas eleições autárquicas terão lugar a 26 de Setembro de 2021. Daqui a cerca de dois meses, portanto. Estará em disputa a eleição de 308 presidentes de câmara, com os correspondentes vereadores e deputados municipais, mais 3091 Assembleias de Freguesia com os respectivos elementos e associados executivos das Juntas de Freguesia. Demasiada gente para tão pouco poder. O papel do Poder Local na democracia portuguesa, sobretudo no que às freguesias diz respeito, é pouco mais que simbólico, ainda que a Constituição da República lhe confira importância fundamental na governança do país, articuladamente com o Poder Central e o Poder Regional, que apenas se encontra estabelecido nas regiões autónomas da Madeira e dos Açores, já que Portugal continental, lamentavelmente, continua não regionalizado. Pior um tanto: Portugal é governado como se composto por três regiões, considerando as regiões autónomas da Madeira e dos Açores, sendo o Continente a terceira, especialmente se apreciado no contexto da União Europeia. Isto explica a diminuta importância que as Câmaras Municipais provincianas e as Freguesias rurais merecem dos órgãos do Poder Central em geral e do Governo em particular o que, como é óbvio, mais aprofunda as escandalosas assimetrias regionais que estigmatizam o país, sendo que a maior de todas se consubstancia na megalómana área metropolitana de Lisboa. Portugal pode assim ser visto como um Estado obeso, com um abdómen enorme na região de Lisboa, um governo macrocéfalo no palácio de São Bento e o dito “interior” sofrendo de raquitismo crónico. Interior que mais se assemelha a uma selva, com macaquinhos e outros animais de estimação aos guinchos e onde o Poder Central promove “safaris”. É por demais óbvio, portanto, que para os nossos doutos governantes as autarquias provincianas são inúteis, subservientes ou mesmo escusadas e que as populações remanescentes estão a mais, tudo fazendo para as deslocalizar, por entenderem que serão mais úteis nas metrópoles litorais. Basta olhar para as competências das freguesias, seja qual for a sua população, no que diz respeito ao Equipamento rural e urbano, ao Abastecimento público, à Educação, à Cultura, ao Desporto e Lazer, aos Cuidados Primários de Saúde, à Ação Social, à Proteção Civil, ao Ambiente e Salubridade e ao Desenvolvimento e o Ordenamento Urbano e Rural para concluirmos que o Poder Local se afundou num mundo de penúria e fantasia. O panorama não é mais prestigiante para os Municípios provincianos que estão praticamente confinadas ao trato de parques, jardins, feiras e romarias, com significativa omissão das suas atribuições fundamentais como sejam o Ordenamento do Território, a Energia, os Transportes e as Comunicações, a Saúde, a Proteção civil, a Polícia Municipal, a Promoção do Desenvolvimento e a Cooperação Externa, áreas em que o Governo central põe e dispõe a seu bel-prazer. Neste quadro ganha especial gravidade o despovoamento de vastas regiões do Interior que origina a manifesta inutilidade das Freguesias que são, por regra, canibalizadas pelas Câmaras Municipais, que por sua vez são canibalizadas pelos governos que o mesmo é dizer pelos partidos. Da mesma forma que as vilas canibalizam as aldeias e a cidades canibalizam as vilas. Mais uma prova, evidente, de que o ermamento dramático da maior parte do território nacional é consequência de políticas pensadas muito embora seja apresentado como uma fatalidade por parte dos governantes, que dessa forma ali instituem, tacitamente, a lei da selva. O que leva os partidos a procurar afanosamente conquistar o maior número de autarquias, sempre que há lugar a eleições autárquicas, como se de troféus de caça se tratasse, tendo em vista a tomada do poder central e alimentar as clientelas com benesses e mordomias. Um Poder Local, servil e subserviente, portanto. Assente, para lá do mais, num processo eleitoral autárquico abastardado em antecipado acto eleitoral legislativo, que nada mais é que um enfeite democrático de efeitos perversos.

Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico (VS 29/7/2021)

Vampiros versus Canibais

Não haverá ninguém, certamente, que não conheça a famosíssima canção com que José Afonso estigmatizou o Estado Novo a que alguns historiadores também chamam  Segunda República e que terá sido, metamorficamente falando, uma República de Vampiros. Música de inconfundível melodia, com letra do maior impacto social e político, surpreendentemente mantem plena pertinência, mesmo agora que os portugueses se regem por um novo regime, que muitos não consideram genuinamente democrático, por diversas e importantes razões. Os vampiros da canção de José Afonso voavam em bandos pela noite calada, silenciosos e discretos para da melhor forma chuparem o sangue fresco da manada, mantendo um certo recato, por isso mesmo. Comiam tudo e não deixavam nada. No alvor da democracia, porém, metamorfosearam-se em canibais sem escrúpulos, desavergonhados e desapiedados e, associados em gangues e clãs políticos e argentários, não se limitam agora a sugar o sangue ao povo. Também lhe devoram as entranhas e lhe roem os ossos, e continuam a tratá-lo como reles manada. Canibalizam tudo à luz do dia e não pagam nada. São os mordomos de Portugal inteiro. Tomando como credíveis as iniciativas do Ministério Publico (não há razão para pensar que o não sejam) não será estultícia considerar o regime político vigente como uma República de Canibais. A analogia é triste mas cruelmente verdadeira. O Governo da República, a Administração Pública, central e local, as Empresas do Estado, os Partidos, a própria Justiça, os grandes clubes de futebol e a banca pública são, ou foram em algum momento, canibalizados por ousados machuchos que lançam a Democracia no descrédito, o Estado na desgraça e a Nação na miséria. Em Portugal, o crime corporativo, ou do colarinho branco, melhor dizendo, é sistémico. Salgado, Sócrates, Berardo, Vara e Vieira são apenas as personalidades melhor cotadas na tabela do Ministério Público Tudo atestado em processos judiciais de grande impacto político e mediático que comprometem um ex-primeiro ministro, vários ministros, presidentes de câmara, banqueiros, dirigentes desportivos e envolvem instituições poderosas como a CGD, o Novo Banco e o Sport Lisboa e Benfica, entre outras. Consta, até, que já há tribos de canibais a dançar alegremente à volta da fogueira do Plano de Recuperação e Resiliência. A seu tempo se verá no que isso vai dar. Acresce que na República dos Vampiros tudo se passava à sorrelfa sob o olhar grave e conivente do dito “Venerável Chefe de Estado”. Na moderna República dos Canibais tudo se desenrola às claras, com muita luz, cor e som e com a complacência do sempre sorridente e inimputável “Mais Alto Magistrado da Nação”. Portugal, hoje, pouco mais é que uma vaga recordação histórica que, para alguns, até nada de bom terá. Uma região mendicante da Europa rica. Um estado marginal e subserviente que, entre outros atentados aos direitos fundamentais, impunemente envia dados de cidadãos inofensivos para governos estrangeiros sinistros. Uma triste Nação que muitos continuam a pretender converter, com pés de veludo, num estado satélite de uma quimérica URSS, de que Cuba e a Venezuela são paradigmas palpitantes. Quanto aos portugueses já nem se sabe bem quem são e o que são. Talvez sejam mesmo uma manada mansa como dizem. Figurantes de uma democracia desfigurada em República de Canibais. O pior de tudo, porém, é que, aparentemente, não há como dar volta a tão dramática situação. Em Belém não se vislumbra rasgo suficiente, São Bento, é óbvio, protege os canibais mais graúdos e os partidos do poder são a sua incubadora privilegiada. O empenhamento corajoso de meia dúzia de magistrados, com destaque para o procurador da República, Rosário Teixeira, o juiz Carlos Alexandre e o inspector tributário Paulo Silva, verdadeiros heróis dos nossos dias, não parece ser força bastante. Urge que uma revolução aconteça. Na certeza de que na Europa moderna as revoluções não se fazem nas ruas, a tiro e à bomba. Operam-se nas urnas com a arma do voto na mão.

Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico (VS 15/7/2021)