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Em tempo de máquinas ainda há animais que trabalham

Ter, 30/08/2016 - 14:08


Tenho reparado, no nosso programa de rádio, que há pessoas novamente a recorrer à tracção animal para fazer os pequenos trabalhos agrícolas na sua horta, aquilo a que nós chamamos “escritório”. Quando alguém anuncia na rádio que quer vender uma burra, mula ou macho que estão prontos para trabalhar a terra, aparece logo gente interessada em comprar, porque, na “nossa família” nada anunciado passa ao acaso. Por isso mesmo, vou apresentar-vos a Associação Portuguesa de Tracção Animal.

NÓS TRASMONTANOS, SEFARDITAS E MARRANOS - Dr. Jacob (Henrique) de Castro Sarmento (1691 – 1762-09-29)

Nasceu em Bragança por 1691, filho de Francisco de Castro Almeida e Violante da Mesquita. A história de seus ascendentes na inquisição era já longa e, face a uma nova onda de prisões na martirizada cidade, Francisco e Violante abalaram para o Alentejo com morada em Mértola, exercendo ele a função de estanqueiro do tabaco. Andava Henrique pelos 7 anos e ali aprenderia as primeiras letras.
Em 1706, receando ser preso, seu pai foi apresentar-se na inquisição de Évora e com ele o filho mais velho, João de Castro. Se pensavam livrar-se, não o conseguiram, pois os inquisidores decretaram-lhe a prisão. (1) Entretanto, para a mesma cidade tinha já seguido Henrique a continuar os estudos, formando-se em Artes, no ano de 1710. Coincidência: em 2 de Julho do mesmo ano, comparecia seu pai no auto de fé celebrado naquela cidade.
Licenciado em Artes por Évora, Henrique foi para Coimbra matricular-se em Medicina, curso concluído em 1717. A profissão de médico foi exercê-la em terras do sul, nomeadamente em Beja. Aí, em finais de 1720, a inquisição lançou uma tremenda ofensiva prendendo quantidade de médicos, advogados e grandes mercadores. Anos depois, viria a saber-se que o denunciante (sob nome falso) fora um médico cristão-novo, também originário de Bragança e morador em Beja. (2)
Naquele mar de prisões e com uma história familiar prenhe de “judaísmo”, certamente que o Dr. Castro Almeida receava ser preso. Dirigiu-se então para Lisboa, casou com sua prima Isabel Inácia e logo depois, no ano de 1721, se embarcaram para Inglaterra.
Em Londres, o jovem médico cedo estabeleceu relações com o Dr. David Neto, rabi da comunidade, que o voltou a casar, agora à maneira judaica, recebendo ele o nome de Jacob. Mudou também o sobrenome, de Almeida para Sarmento, acaso por ser de maior nobreza em Bragança.
Por essa altura, aconteceu em Londres uma verdadeira revolução no campo da medicina, com a introdução de um novo método de curar as bexigas “trazido” da Turquia e que levaria à descoberta da vacina contra a varíola.
Espírito aberto à inovação e ao experimentalismo, o Dr. Jacob, tinha-se já metido a estudar o assunto e publicou um trabalho sobre a matéria, ficando o seu nome ligado à descoberta da mesma vacina. E este foi o início de uma brilhante carreira que o levou a ser admitido no aristocrático Royal College of Physicians em 1728. E seria também o primeiro judeu a ser doutorado por uma universidade britânica, a de Aberdeen. Obviamente que, em paralelo, ele se afirmava no seio da comunidade judaica, sendo nomeado médico da “hebrah” em 1724.
O caso dos “falsários de Beja”, porém, continuava a evoluir e… sobre o Dr. Castro Sarmento caiu a suspeita de ser o grande denunciante, responsável por aquela vaga de prisões. De imediato ele foi demitido do cargo na “hebrah” e ameaçado de excomunhão pelas autoridades judaicas de Londres que, entretanto, abriram um inquérito no seio da comunidade. Concluiu-se que a acusação era falsa e a reabilitação do nosso biografado granjeou-lhe ainda mais prestígio, com o seu nome a aparecer depois entre os fundadores do hospital judeu de Beth Holim.
Nesta fase da sua vida, Jacob Sarmento escreveu duas obras de natureza religiosa e, falecendo David Neto, publicou um “Sermão fúnebre” em sua homenagem. Parecia um líder religioso. No entanto, a evolução seria ao contrário e, o interesse pela ciência e pelo positivismo faria esfriar a crença na religião judaica.
Efetivamente a sua admiração pelo grande mestre Isaac Newton e o interesse pelas suas descobertas científicas levaram-no à publicação de um estudo com o título de “Tratado da verdadeira teorica das Marés conforme a Philosophia do incomparável cavaleiro Isaac Newton”. E a tradução e publicação em Portugal da obra de Francis Bacon foi um sonho por ele muito acariciado.
Por tudo isso, ele foi admitido na Royal Society, sendo um dos primeiros judeus a alcançar tão honrosa distinção. Isso implicava o convívio com a gente da cultura e da aristocracia de Inglaterra. Em simultâneo, estreitava as suas relações com gente do governo de Portugal, da universidade de Coimbra e da Real Academia Portuguesa. Como curiosidade, diga-se que o primeiro microscópio que chegou a Portugal terá sido oferecido pelo Dr. Castro Sarmento à universidade de Coimbra. Tal como o primeiro termómetro seria oferta dele ao Dr. Sachetti Barbosa.
Cientista e médico, o Dr. Sarmento terá encetado o primeiro estudo sistemático sobre a composição química de remédios e da maneira com atuam no organismo. Esta obra foi publicada em 1735 com um título à maneira de resumo, como era de norma naquela época:
- Matéria Médica, físico-histórico-mecânica, reino mineral. Parte I. A que se ajuntam os principais remédios do presente estudo da matéria médica, como Sangria, Sanguessugas, Ventosas, Sarjadas, Eméticos, Purgantes, Vesicatórios, Diuréticos, Sudoríficos, Ptyalismicos, Opiados, Quina-Quina, e, em especial as minhas Águas de Inglaterra, como também uma dissertação Latina sobre Inoculação das Bexigas.
Como se diz no título esta era a primeira parte da obra projetada. A segunda parte seria dedicada aos remédios de origem vegetal e animal. E nela se fala também das propriedades medicinais das águas termais e particularmente das águas das Caldas da Rainha. Aliás, em 1753, publicou mesmo um “Appendix ao que se acha escrito na Matéria Médica do doutor Jacob de Castro Sarmento, sobre a natureza, conteúdo e efeitos, e uso das águas das Caldas da Rainha”.
Sobre as “Águas de Inglaterra” diremos que era então o remédio mais eficaz contra o paludismo e as febres, preparado à base da quina, segundo fórmulas mais ou menos secretas. Ficaram famosas as Águas de Inglaterra preparadas pelo Dr. Fernando Mendes que as deu a conhecer em Portugal. Mas foi o Dr. Sarmento o grande “industrial” desse remédio que vendia na Inglaterra e que em Portugal montou uma verdadeira rede de distribuição, com representações em Porto, Lisboa, Coimbra, Évora e Faro. No processo de investigação e composição do seu medicamento, foi muito importante a ligação de Castro Sarmento com os jesuítas que no Brasil foram pioneiros no uso da casca da árvore da quina. E esta ligação do médico judeu aos padres jesuítas é mais uma prova da sua abertura de espírito.
Ainda no que respeita  à questão religiosa, recordemos que, em Portugal Henrique de Castro de Almeida viveu como cristão. Em fuga por causa da Inquisição, chegou a Londres e assumiu a condição de judeu. Médico famoso e homem de ciência, viu a sua mulher falecer, em Janeiro de 1746, fazendo-a sepultar no cemitério judaico de Mile End. Antes mesmo tivera relações com uma mulher inglesa, Mrs.  Elisabeth, e dela teve um filho. (3) Ficando viúvo, casou com ela e assumiu a religião anglicana, depois de escrever uma carta às autoridades judaicas da sinagoga Bevis Marks, declarando o seu afastamento. Em boa verdade há muito que ele se teria afastado do judaísmo. Porventura o seu casamento na igreja de Saint Margareth Moses, seguindo o rito anglicano foi também para contemporizar com o mundo. Acaso o Dr. Jacob de Castro Sarmento estaria seguindo por um caminho alheio a qualquer credo religioso e seria um dos primeiros pensadores sefarditas a lançar a questão do diálogo entre a ciência e a religião, caminho que levaria uns ao ateísmo e outros ao panteísmo.

NOTAS E BIBLIOGRAFIA:
1-ANTT, inq. Évora, pº 3019, de Francisco de Castro Almeida; pº 6692, de João de Castro Almeida.
2-IDEM, inq. Lisboa, pº 11300, de Francisco de Sá da Mesquita.
3-Henry de Castro se chamou o filho do Dr. Sarmento. Seguiu a carreira militar e notabilizou-se como general da armada de Inglaterra.
ESAGUY, Augusto Isaac - Jacob ou Henrique de Castro Sarmento, in: Congresso do Mundo Português. Lisboa, 1940. Vol. 13, pp. 177–210. IDEM - História da Medicina. Jacob de Castro Sarmento. Notas relativas à sua vida e à sua obra. Lisboa: Ed. Ática, 1946.
ANDRADE e GUIMARÃES - Jacob de Castro Sarmento, ed. Nova Vega, Lisboa, 2010.

Por António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães

Parte VII - Reconversão urbanística da Estação Ferroviária de Bragança e área envolvente

As negociações com a DGTT foram reativadas com perspetiva diferente de localização da Estação Rodoviária e dos fluxos rodoviários no acesso à cidade. No mês de novembro de 1998, a Câmara Municipal encomendou um estudo de avaliação das alternativas de localização, considerando as seguintes zonas: plataforma alta da cidade; plataforma próxima do centro urbano e plataforma mais na periferia. O estudo apontou como localização mais favorável a antiga estação ferroviária, que aproveitava todos os benefícios de centralidade do espaço a que correspondia uma oportunidade de requalificação urbanística de uma vasta área central e nobre da cidade.
No mês de janeiro de 1999, fez-se o pedido de aprovação de localização, aprovada pela DGTT, com 15 lugares-cais e autorização para uma paragem junto das residências para estudantes do IPB, o que muito facilitaria a vida aos estudantes vindos de fora. O projeto passaria a incluir um módulo de passageiros regulares, com nove cais de embarque, um módulo de passageiros expresso com cinco cais de embarque e um módulo de mercadorias, serviços e turismo com catorze espaços para operadores.
Em maio de 2001, a Câmara Municipal procedeu à adjudicação do projeto de execução da estação Central de Camionagem. O início dos trabalhos ocorreu a 20 de janeiro de 2003, conclusão ocorreu a 10 de março de 2004. O processo de negociação com a DGTT de Acordo de Colaboração Técnico-finaceiro foi concluído já com as obras em estado avançado de execução, foi assinado no dia 27 de junho de 2003, tendo prewsiodido à cerimónia o Ministro das Obras Públicas, Transportes e Habitação, Eng.º Carmona Rodrigues acompanhado pelo Secretário de Estado dos Transportes, Eng.º Francisco Seabra, natural de Bragança. A inauguração decorreu no dia 24 de janeiro de 2004, foi presidida pelo Secretário de Estado dos Transportes, Eng.º Francisco Seabra, a bênção das instalações foi feita pelo Bispo da Diocese D. António Montes Moreira.
Também o arranjo urbanístico do topo da Praça Cavaleiro de Ferreira, desenhada o ano de 1948 pelo Arq.to Januário Godinho, foi um sonho de décadas por parte dos responsáveis políticos do concelho, no sentido de conferir maior dignidade à referida Praça. A tentativa mais significativa de preencher esse espaço ocorreu no ano de 1963, com a elaboração do projeto da Sé Nova. Com esta nova localização foi abandonada a anterior localização, junto ao Cemitério, no campo de Santo António. Pretendia-se que as obras iniciassem durante o ano de 1964, na comemoração dos duzentos anos da transferência da sede da Diocese de Miranda do Douro para Bragança. Novas perpectivas vieram a ditar uma nova localização para a construção da Catedral, visto para o topo da Praça ter sido decidido, no ano de 1966, a elaboração do projeto para a construção dos Paços do Concelho.
No ano de 1997, assumimos na candidatura autárquica, rematar o topo sul da Praça Cavaleiro de Ferreira com projeto que lhe conferisse maior relevância urbana. A solução foi a da construção do Teatro Municipal, apoiada por fundos comunitários do III Quadro Comunitário de Apoio, no âmbito do programa da Rede Nacional de Teatros.
Em Bragança, no ano de 1817, existia a Casa da Comédia, administrada pela Santa Casa da Misericórdia, foi adquirida pela Câmara Municipal e passou a designar-se de Teatro Brigantino. Encerrou no ano de 1888 por falta de condições de segurança, tendo sido concessionado à Associação de Socorros Mútuos dos Artistas de Bragança, que o recuperou e inaugurou no ano de 1892 com a designação de Teatro Camões. No ano de 1969, um incêndio arruinou-o e assim, após século e meio este equipamento ficou inativo. Em Abril de 1974 abriu portas o Cineteatro Torralta edifício com uma grande sala de espectáculos, projeto do Mestre Viana de Lima, sala que encerrou no final da década de noventa.
As obras do Teatro iniciaram a 26 de outubro de 2001, foram dadas por concluídas a 19 de fevereiro de 2004. Este projeto representa um ativo para o municipio, para os cidadãos em geral, para as escolas, para as companhias de teatro e de outras artes. Dia 31de janeiro de 2004, decorreu a cerimónia de inauguração presidida pelo Primeiro-ministro Dr. Durão Barroso, tendo sido significativa a participação de autoridades nacionais e regionais da região e da vizinha Castela e Leão.
O topo da Praça era um morro alto de pedra sobre o qual existiam algumas construções de fraca qualidade, o espaço irregular e rochoso por detrás da antiga moagem servia de lugar de estacionamento automóvel e acolhia um pré-fabricado onde funcionava a sede do Grupo Desportivo de Bragança. A construção do topo da Praça Cavaleiro de Ferreira e área próxima deixa na cidade uma marca urbanística de grande qualidade, o mesmo se pode dizer relativamente à requalificação urbanística da antiga estação ferroviária, área envolvente e acessos, operação concretizada em seis anos, que no seu conjunto foi o maior investimento realizado nas últimas décadas, cerca de duas vezes superior à intervenção Polis. A qualidade dos projetos, a harmonia da operação urbanística e a utilidade para os cidadãos confirmam ter sido feita cidade moderna para o futuro sem que se tivesse rompido com o passado.
A ocupação da parcela de terreno entre a antiga Moagem Mariano e a Escola secundária Abade de Baçal foi prevista no âmbito do plano global de arranjo urbanístico, aí se previa a construção de um grande parque subterrâneo de estacionamento automóvel, de capacidade superior a 500 lugares, intergrado em edifício com funções habitacionais, de comércio e serviços, incluindo um espaço para Sede da Junta de Freguesia da Sé, que estava precariamente instalada na ala Sul do antigo Colégio dos Jesuitas. O processo de construção desenvolveu-se entre o mês de abril de 2000, com a abertura de concuros público internacional para a empreitada de concepção/ construção de um edifício para habitação, comércio, serviços e estacionamento, com concessão do estacionamento em dois parques subterrâneos e estacionamento de superfície, foi concluída no ano de 2004.
Finalmente, para concluir este conjunto de seis textos alusivos à chegada do comboio a Bragança até à sua extinção e reconversão urbanística da antiga estação ferroviária, de referir que são muitos os registos de memória relativos à ferrovia na região, de entre vários cito a publicação no ano de 2006, na comemoração dos 100 anos da linha do Tua, e dos 150 anos da introdução do comboio em Portugal, pela delegação do Inatel em Bragança, com o apoio da Câmara Municipal de Bragança de publicação com o título “ 100 anos da Linha do Tua, 1906-2006”, textos de Luís Ferreira, pintura e fotografia de Luís Canotilho. Um legado de informação do estado em que a linha, material circulante e estações se encontravam no final da década de oitenta.
Como registo significativo, o Núcleo Museológico Ferroviário de Bragança, que integra a rede do Museu Nacional Ferroviário. Ocupa a antiga cocheira de carruagens da que foi a última estação da linha do Tua, esteve aberto ao público até meados do ano de 2003, enquanto o último funcionário da CP, em Bragança, Valdemar Augusto Pires não passou à situação de reforma. 
Com a execução das obras de reabilitação do espaço da antiga Estação Ferroviária, foi reabilitado esse edifício e elaborado o projeto de ampliação que, logo que executado perimitirá musealizar todo o espólio aí existente, estando previstos os seguintes temas: a história dos transportes ferroviários no país, nos aspectos sociais, económicos e políticos, do ponto de vista do ordenamento do território e seu significado para a Região de Trás-os-Montes; a história da linha do Tua, os seus construtores, os trabalhadores, os comboios, a exploração; a atualidade do caminho-de-ferro como transporte moderno e de futuro, no país e na europa.  
O projeto para as obras de ampliação do Museu foi elaborado no ano de 2008 pelo arquiteto Carlos Prata, inclui o aumento da área de exposição, de superfícies transparentes, permitindo usufruir do conhecimento de memórias associadas a um período de cerca de um século de circulação ferroviária no distrito.
É muito valioso o espólio existente, inclui peças como: carruagem fabricadas no ano de 1887 pela companhia Belga Ateliers Nivelles; locomotivas fabricadsa no ano de 1889, e no ano de 1908. Aqui está uma relíquia, a locomotiva E81, fabricada no ano de 1886, a 1.ª locomotiva a circular na linha do Tua, quando da inauguração do 1.º troço da linha, batizada com o nome Trás-os-Montes. No mês de fevereiro de 2007, foi assinado entre a Câmara Municipal e a Fundação Museu Nacional Ferroviário, o protocolo para a gestão partilhada do núcleo museológico de Bragança. Este projeto deverá ser brevemente concluído, com apoios da União Europeia, será o sétimo espaço museológico da cidade, contribuirá para a afirmação social cultural e identitária do Nordeste Transmontano.

Falando de… O Caminho Fica Longe, Vergílio Ferreira

Em centenário do nascimento do escritor, a Quetzal reedita a sua obra completa. Cerca de quarenta e cinco volumes.
Sentiu a censura à ilharga, vendo obra sua apreendida. Em tempos de Salazar,
poucos eram os que escapavam aos esbirros do lápis azul. A Vergílio Ferreira coube-lhe o seu quinhão. O Caminho Fica Longe, apreendido em fase editorial, bem como Vagão J, retirado três anos mais tarde dos escaparates, um mês após o lançamento, são o “prémio” da ousadia de quem escrevia dando livre arbítrio ao seu talento.
Ler O Caminho Fica Longe, em período de férias, é sentir uma frescura que nos faz recuar a uma atemporalidade que nos conduz a momentos áureos de uma vivência feita de obstáculos, de lutas perdidas e ganhas em busca de desideratos que almejados e que com esforço se vão conquistando.
A Maria da Glória Padrão, Vergílio Ferreira em “Um Escritor Apresenta-se” afirma, “Escrever é uma espécie de catarse aristotélica”.
Muitas são as personagens que se identificam com cada um de nós, estudantes ou não, trabalhadores, boémios, conquistadores e conquistados do destino ou da força do trabalho, em busca de metas, percorrendo caminhos longos, distantes. Alguns, vítimas da própria razão da sua existência, oriundos de locais onde a escassez domina e a pobreza se acrescenta. É em Coimbra que tudo se passa e decorre.
Se o In Illo Tempore, de Trindade Coelho, é um recordar do que foi a vida académica em terra coimbrã, um tempo pretérito de uma existência que se glorifica, tecendo epifanias a uma juventude que faz da paródia um adjuvante a um trabalho que não se quer cansativo, O Caminho Fica Longe é o tempo presente da vida académica, das paixões exacerbadas, dos amores de estudantes, que começam e acabam ao ritmo dos anos lectivos, ou que perduram para além do prazer de ser estudante.
Um livro jovem, escrito numa idade jovem, um retrato a querer dizer que o tempo passado vem até nós transportando-nos para a época de todos os sonhos, onde não falta o excesso em comemorações académicas que todos querem celebrar. E Vergílio Ferreira, em forma de dedicatória escreve: A ti jovem amigo, que segues/heroicamente o caminho que traçaste/dedico este livro escrito na tua idade.
Vivendo em período em que todos são apodados de heróis, sem que a designação nos macule, jogadores de futebol, atletas de desportos vários, bombeiros em luta contra chamas ateadas por pirómanos, impunes e imputáveis, são lembrados  aqueles que do sacrifício e da renúncia fizeram o seu percurso escolar tentando chegar a patamares onde os progenitores, proletários de sempre, não chegaram.
Rui, Domingos, Amélia, Catarina, Joana, a mãe de Rui,  Vaz, Fernando e Luísa, que têm o mundo à sua espera. Envoltos em paixões, fazem e desfazem idílios amorosos ao ritmo dos seus apetites de juventude.
Escrito em 1939 e publicado em 1943, fazendo parte de uma trilogia a que os teóricos denominaram de neo-realista e que Hélder Godinho  confirma em prefácio  de quatro folhas, O Caminho Fica Longe, hoje, lido em liberdade conserva  a actualidade de outros tempos. As facilidades concedidas aos estudantes em tempos hodiernos, são do conhecimento público, diferentes das dos anos trinta. Sem trabalho, sem sacrifício, sem prazer nada se faz. As diferenças sociais, quer queiramos, quer não, mantêm-se. 
    Na sociedade mais democrática, onde todos se tuteiam, a academia ainda vive das suas clivagens. Os costumes de outrora e de agora não se alteraram, e nós, saídos do nosso habitat, revivemos, observando no livro o mundo dos outros, que não deixa de ser o nosso; o eu é também o outro, sem que, muitas vezes, não nos apercebamos.
A vida é, apesar de tudo, uma repetição de poucas diferenças. E é nela que aprendemos e transmitimos aos que nos descendem o exemplo da existência.
Neste livro de 366 páginas, o retrato de uma época a não perder.

Não foi adoptado o Novo Acordo Ortográfico.

Por  João Cabrita

Ciência cidadã (e a participação cívica)

Desde o final do século XIX que milhares de cidadãos, de forma consciente e voluntária, analisam grandes quantidades de dados, partilham e discutem o seu conhecimento apresentando publicamente os resultados. Esta participação cívica começou nos Estados Unidos com a contagem coletiva de pássaros, atividade que ainda se mantém sob a coordenação da Audubon Naturalist Society. O avanço das tecnologias de informação permitiram que a Ciência Cidadã se ampliasse e alargasse a outros domínios.

Foi com base neste conceito que um grupo de portugueses lançou uma iniciativa de monitorização dos níveis de radioatividade na zona de Castelo Branco, preocupados com os efeitos nesse território da atividade da Central Nuclear de Almaraz. Esta central de produção de energia elétrica é a mais antiga de Espanha e já deveria ter sido encerrada em 2010, tendo sido prolongada a sua licença de funcionamento até 2020. Os seus acionistas pretendem a extensão adicional deste período para lá daquela data. Nas margens do rio Tejo dista menos de 200km da cidade de Castelo Branco sendo óbvias e evidentes as consequências para Portugal e para os portugueses de qualquer acidente grave que ali possa, eventualmente, ocorrer. A perceção de qualquer desvio aos padrões normais assume uma importância vital.

Sayago onde há perto de 35 anos se pretendia instalar uma central nuclear fica a menos de 30km de Miranda do Douro. Aldeia d’Ávila fica ainda mais perto da fronteira e esteve quase a receber um cemitério nuclear que a oposição popular ibérica conjunta acabou por suspender. Não se suspenderam as castelhanas intenções radioativas e recentemente nuestros hermanos anunciaram a intenção de iniciar em Retortillo/Villavieja, mesmo nas nossas barbas, uma exploração de urânio. Toda a bacia do rio Douro volta, de novo, a ficar ameaçada.

É necessário ficar alerta perante tantas e tão ameaçadoras investidas do lado de lá da fronteira. A democratização da ciência cidadã, com o uso adequado da internet e demais ferramentas de comunicação e partilha de dados, associado ao crescente baixo custo dos instrumentos de medição e monitorização escancara as portas ao controle público de dados e indicadores que até há bem pouco tempo estavam restringidos aos departamentos governamentais.

A monitorização da radiação na zona raiana de Castelo Branco irá ter um custo da ordem dos 2.500 euros. Nada que não possa ser dispendido pelos municípios nordestinos que em conjunto pretendam permitir a participação cívica que, nestes casos e com estas ferramentas acaba por ser mais eficaz, mais célere e mais confiável que os processos diplomáticos intergovernamentais.

A Casa

No Ípsilon do Público, de 18 de Agosto, li bem desenvolvida reportagem sobre a casa onde nasceu e viveu até aos treze anos o famoso escritor americano John Updike. A autora, Isabel Lucas, teve o talento de realçar a paixão do autor de Corre Coelho pela casa situada numa cidadezinha perto da cosmopolita Filadélfia, capital do estado da Pensilvânia.
O escritor suscita-me grande admiração, possuo a maior parte da sua obra, se tudo correr como espero na próxima Primavera irei entrar na casa renovada, tactear a grande mesa debaixo da qual o impetuoso autor enquanto menino se acolhia segurando um livro, apurando o ouvido no fito de nenhuma palavra lhe fugir das saídas das bocas dos adultos sentados ao seu redor.
À medida do correr da leitura do texto começaram a surgir imagens da vetusta casa de Lagarelhos, a Casa, da minha meninice, de outras casas em que tenho vivido além, acolá, ali, aqui, nestes últimos anos, num casarão prantado junto ao rio Tejo, no entanto, a Casa prevalecente é a de Lagarelhos, antes de a ter restaurado.
Recuada relativamente ao caminho agora rua alcatroada, antecede-a ampla entrada, no passado, de um lado várias canhotas à espera de arderem no Inverno e o esqueiro, do outro o parral, uma parede baixa separava o quintal cultivado quase todo o ano de modo a abastecer a cozinha de primícias sazonais, a escada de pedra dava (e dá) acesso ao piso de cima e à varanda comprida que no ano do dito de Delgado obviamente demito-o foi amputada com a incrustação da casa de banho.
Agora diz-se rés-do-chão, nesse tempo feliz rente ao chão situava-se o lagar, as lojas dos porcos limpas e canonicamente acolchoadas com palha a fim de os laregos engordarem jubilosamente e ressonarem placidamente. A meio da primeira loja ficava o poleiro-abrigo do galo, das galinhas e descentes, frangas a preservar, os frangos a saborear nos dias nomeados. Gostava de ser mandado a verificar a existência ou não de ovos, a incumbência caso a procura fosse positiva rendia-me um estrelado em unto, guloseima de estadão, a obrigar-me a sensível desempenho no furar a gema empregando a fatia de centeio, tarefa de grande risco, de fina engenharia.
Contínua à loja era a adega dotada de tina, vasilhame diverso, esteios, a masseira e a cuscuzeira, arcas de castanho, o monte das batatas, no extremo sinais locativos de ter existido mula ou égua antes do meu avô ter emigrado no intuito de pagar dívidas abanando a árvore das patacas no Rio de Janeiro.
Entre a segunda loja e adega ficava o falso, um pequeno quadrado, criado na sequência do regicídio pois o meu bisavô recebeu a notícia de todos os familiares de Manuel Buíça até à sexta-geração, como prémio do parentesco seriam executados. Não foram, provo-o exuberantemente. O primeiro-ministro da acalmação Ferreira do Amaral não deixaria cometer tal torpeza de lhe fosse proposta. Assim o penso.
No piso elevado logo à entrada o lar, do tecto pendia grossa cadeia de ferro negra da fuligem, sustentáculo de caldeiras e do lato onde coziam os manjares dos suínos, no chão a pedra grande, lisa, sobre ela pauzinhos de cisco, urzes e giestas secas logo pegavam lume iscando guiços, ramalhos, a seguir rachos, todo aquele combustível fazia forte fogueira a na época das matanças fumar chouriços, salpicões, alheiras, palaio e reizinhos.
O lar estava envolto em colete de madeira agrilhoado a bancos largos, a banda esquerda acoplava mesa de pôr e levantar escorada em dois cavaletes. Exemplo do modelo medieval de pôr a mesa.
Na outra ala dois quartos dotados de forro tal como a despensa cofre-forte da salgadeira, dos potes contendo rojões e pingo, de duas arcas e uma mosqueira.
Sem forro o restante espaço, nos dias rudes o vento fanfava entre as telhas, no sobrado de tábuas irregulares tralha diversa, a cantareira, o lava-louças, debaixo as caldeiras, numa mesa o garfeiro, a arca do pão, o saleiro grande, os colherotos e colheres de madeira.
Na outra parte da casa um quarto, a sala só utilizada no dia da matança, grande comezaina todo o dia, à noite a luz dos candeeiros iluminava a brava suecada prenha de facécias e renúncias. Aquela sala de paredes bem caiadas, decorada com a tulha, mesa de alargar e cadeiras a condizer, só voltava a servir no dia da bênção pascal e no dia da festa. No resto do ano recebia maçãs porfirias (reinetas), amarelas e rosadas, o forro exibia numerosos camarões que na altura devida recebiam cachos de uvas a secarem até atingirem a podridão ideal para serem comidas na companhia de pão trigo.
Daquela sala desprendiam-se aromas intensos, agradáveis, dizíamos bem cheirosos a anularem os odores maliciosos vindos da rua e da loja dos dadivosos fornecedores de carnes e gorduras sápidas, capazes de levarem um eremita à tentação.
  A velha casa, não do esquecido José Régio, mas minha por herança. Lá está a resplandecer brancura, quando a ela aporto cada resquício aponta-me o passado de felicidade, de folgança, de liberdade.
Agradeço a John Updike a ideia da crónica.

Informação pimba

Ter, 30/08/2016 - 13:51


No declínio do verão instala-se uma agonia perturbante, uma quase vontade de vomitar, perante o que é um espectáculo de mediocridade, mesmo  de pimbalhice no que respeita à generalidade dos serviços de informação dos órgãos de comunicação social.

PS de Macedo diz que há falta de investimento na rede de abastecimento de água

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Qua, 24/08/2016 - 11:45


O PS de Macedo de Cavaleiros critica a falta de investimento e de manutenção na rede de distribuição de água, o que de acordo com os socialistas está na origem dos problemas de falta de água que se têm feito sentir na cidade e outras localidades do concelho, em particular, desde o início deste mê

EPB a braços com falta de espaço e guardas prisionais

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Qua, 24/08/2016 - 11:37


Sem fundos, a actual direcção do Estabelecimento Prisional de Bragança pretende avançar ainda este ano com algumas intervenções consideradas prioritárias, com o apoio da sociedade civil e das autoridades locais.