class="html not-front not-logged-in one-sidebar sidebar-second page-frontpage">

            

Um País indefeso

A engrossar o já extenso rol de queixas e lamúrias que continuam a abater-se sobre o Governo, veio agora a público, gaba-se-lhe o atrevimento, o almirante Silva Ribeiro, Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, topo da hierarquia militar.

Entre outras coisas de interesse nacional, Silva Ribeiro disse que “ o Exército tem carência de 4 mil praças ”, caceteando João Cravinho, ministro da Defesa que, enchouriçado, se apressou a desautorizar publicamente o almirante amotinado.

Silva Ribeiro, porém, podia e devia ter dito muito mais, fosse ou não inconveniente para o Governo e para ele próprio também, designadamente que as Forças Armadas nacionais têm soldados a menos e generais a mais.

Devia, se para tanto tivesse rasgo, ter posto em causa o utópico Conceito Estratégico de Defesa Nacional vigente, (do qual decorrem o Conceito Estratégico de Defesa Militar, o Sistema de Forças e suas Missões, bem como o Dispositivo Territorial), que privilegia Forças Armadas convencionais, permanentes, excessivas e enviesadas, ignorando a exiguidade do Território, o virtuosismo da Nação e a penúria do País.

E podia ter ido mais longe, ainda, dando a conhecer à Nação, o que só lhe ficaria bem, que Portugal é, faz tempo, um país indefeso e que vai continuar a sê-lo nas próximas décadas. Depois se verá!

Evidência que não foi comprovada, felizmente, por episódios de guerra recentes, mas ninguém poderá garantir que não venha a sê-lo, ainda que não se deseje. Porque, como é sabido, os conflitos militares acontecem quando menos se espera, enquanto a organização e a preparação para a guerra requerem décadas de antecedência. Sem esquecer a consagrada divisa latina atribuída ao romano Flávio Vegécio :“Si vis pacem, para bellum” (“se queres a paz, prepara-te para a guerra”), que continua a ter plena actualidade.

Portugal é um país indefeso, seja a ameaça militar ou dos elementos. Não é indefensável, porém, se a sua defesa for atribuída à Nação. Se todos os cidadãos de maior idade, com condições de saúde, independentemente do género, estiverem aptos a usar armas em defesa do país, devendo para tanto receber a adequada preparação e treino militares regularmente e em tempos livres, o que nada tem a ver com o tradicional serviço militar obrigatório.

À semelhança da República Suíça, exemplo por demais conhecido, que não possui forças armadas regulares, antes baseia a sua defesa terrestre numa milícia composta por todos os cidadãos de sexo masculino com idades compreendidas entre os 20 e os 42 anos, com os militares de carreira reduzidos a um pequeno núcleo de não mais de 1000, aos quais estão atribuídas as missões de treinar os milicianos e de assegurar o comando nos escalões superiores.

Modelo que possibilita que a República Suíça, que tem uma população de pouco mais de 7 milhões, mobilize, em menos de 48 horas, mais de 200 000 mil militares, devidamente equipados, armados e treinados, o que é impensável com o modelo português em apreço.

É óbvio que os desafios que hoje se colocam à Proteção Civil, designadamente os incêndios florestais, teriam soluções bem mais económicas, transparentes e eficientes.

Para lá de que os custos de implementação deste conceito de defesa de inspiração suíça seriam bem menores do que os requeridos para o Conceito Estratégico de Defesa Nacional português em vigor, que não será viável nos tempos mais próximos.

Se é que algum dia o virá a ser.

 

Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

 

Ainda há caça?

Perante esta pergunta, a mim dirigida através do espaço cibernético, por um jovem que suponho ser brigantino de nascença mas, certamente, desligado das vivências das comunidades rurais, poderia muito simplesmente responder: Sim, ainda há “caça” nos nossos campos transmontanos!

Porém, parece-me oportuno apresentar uma resposta mais “compostinha”, mais completa e elaborada, quiçá mais académica! E devo também perguntar: A que caça se refere?

Procurando esclarecer, tanto o jovem que me questionou como os leitores porventura também afastados destas “coisas da caça e do campo”, cumpre referir que há “caça maior” e “caça menor”, “caça de pena” e “caça de pelo”, “caça sedentária” e “caça migradora” e, dos diferentes animais que é permitido caçar, uns são aves e outros são mamíferos…! E por aí adiante... E agora? A quais se referia, caro jovem conterrâneo?

Além do mais, para cada grupo de espécies, em respeito pela respetiva bioecologia e etologia, há “períodos”, “processos” e “meios” de caça perfeitamente definidos em diplomas legais e ainda há a ética que deve nortear a atuação de todo o caçador que se preze…! Aliás, a caça é das atividades lúdicas mais regulamentadas, tanto no nosso país como em todo o espaço europeu, onde há cerca de sete milhões de caçadores.

Por outro lado, as dinâmicas populacionais das espécies cinegéticas têm variações interanuais e entre diferentes zonas, há fortes relações intra e interespecíficas… E, caso não saiba, devo também esclarecer que os animais, no ambiente natural, não são todos “muito amigos” entre si, antes pelo contrário, uns são alimento de outros…

A alegada escassez de peças de caça menor no nosso território não corresponde à verdade, a meu ver, até porque continuo a ser um “caçador de perdizes e codornizes satisfeito”! Contudo, a verificar-se pontualmente, não se deve especialmente ou exclusivamente à captura resultante da prática da caça, mas sim a um conjunto de fatores limitantes que, por vezes, se conjugam e levam à perda de qualidade do habitat para determinados grupos de animais, favorecendo outros… Curioso, não?! Refiro-me concretamente ao caso, sobejamente conhecido, da redução da atividade agrícola e abandono do sistema tradicional de sequeiro cereal-pousio, que trouxe como consequência a diminuição das condições favoráveis à proliferação da caça menor (perdizes, codornizes, rolas, lebres e coelhos), em favor do aumento da presença de caça maior (javalis e corços).

Por fim, caro jovem conterrâneo, permita-me que lhe deixe apenas mais duas ideias, de caráter algo pessoal, sobre tudo isto: fiz-me caçador por paixão pelo campo, pela terra, pela vida animal, pelos costumes ancestrais e pela cultura identitária de quem vive no mundo rural; e fiz-me estudioso destas matérias – conservação da natureza e gestão cinegética – por igual paixão, que também passa por melhor entender a complexidade de funcionamento dos ecossistemas e da bioecologia da nossa riquíssima fauna e flora natural e bravia…

 

Agostinho Beça