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Sapateiros de quadrúpedes

Ter, 05/07/2016 - 10:12


Óscar Alberto Martins, ferrador “desde que nasceu”, como faz questão de frisar, ainda exerce no Felgar, em Torre de Moncorvo, dando continuidade ao ofício que o seu pai já tinha e passou aos filhos, no tempo em que esta profissão dava trabalho a muita gente. “Agora, passam-se quinze dias sem ferrar um macho – diz com tristeza - antigamente até as vacas eram ferradas e praticamente todas as aldeias tinham um tronco” (lugar onde se prendiam os animais para serem ferrados).

Parte III - Ligação da cidade à Estação Ferroviária (a construção da Avenida João da Cruz) - Anos de 1926 a 1946

Com o início dos trabalhos de construção da Estação Ferroviária de Bragança a 20 de julho de 1903, no campo de Santo António, local fora da cidade, onde se acedia por caminho de terra batida, logo nesse dia a Câmara Municipal reivindicou que o governo mandasse construir uma avenida paralela à rua Conde de Ferreira para ligar a cidade à estação ferroviária, utilizando o fundo de receitas destinadas às obras do caminho-de-ferro.
A rua do Conde de Ferreira, que corresponde atualmente à faixa ascendente da Av. João da Cruz, dava seguimento à antiga rua dos Oleiros, que partia da Praça da Sé, cujo topónimo tinha sido substituído no ano de 1895 pelo de rua de Santo António, e mais tarde alterado para rua Almirante Reis, após a implantação da República, terminava próximo da atual rua de Santo António que liga a Av. João da Cruz à zona da capela de Santo António, antigo largo do Toural, dava seguimento à estrada de ligação de Bragança a Moimenta. Do topo da rua Conde de Ferreira, para sul partia o caminho de ligação ao Forte de S. João de Deus. Ao longo da rua existia uma única fila de casas, as mais afastadas da cidade nesta orientação, a meio da rua, do lado esquerdo acedia-se à escola Conde Ferreira.
Isolada, fora do perímetro urbano estava a capela de Santo António. A cidade terminava a poente, sensivelmente a meio da atual Av. João da Cruz, conforme bem evidencia o estrato da planta de 1897, publicada no livro Bragança e Benquerênça, pelo Coronel Albino Pereira Lopo, natural de Estevais, concelho de Mogadouro. Assim se percebe muito bem que a estação ferroviária foi construída fora da cidade e por isso necessitava de um acesso condigno. Já em ata da vereação de outubro de 1905, a Câmara condicionava a reparação dos muros de vedação da escola do sexo masculino, Conde Ferreira, a pretexto da previsível construção da reclamada Avenida.
Com a construção da Estação do Caminho-de-ferro, a necessidade de a ligar à cidade por uma via de maior dignidade foi evidenciada em muitos momentos. Na reunião da Comissão Administrativa da Câmara, feita a 9 de novembro de 1905, foram decididas orientações relativas às obras de arranjo dos muros da escola do sexo masculino, Conde de Ferreira, no sentido de os trabalhos não virem a colidir com a construção de uma avenida de ligação da cidade à estação do caminho-de-ferro.
Também na reunião da Comissão Administrativa da Câmara, feita a 27 de janeiro de 1919, foi indeferido um requerimento para a obtenção de licença de reconstrução da frontaria de um prédio sito na rua do Conde de Ferreira, indeferimento fundamentado na decisão que tinha sido tomada na reunião de 18 de fevereiro de 1918, de proceder à elaboração da planta para a expropriação dos prédios situados próximo da estação do caminho-de-ferro.
Na reunião de 23 de setembro de 1926, a Comissão da Câmara debateu a expropriação das casas junto do largo da estação do caminho-de-ferro referindo-se ao estado e utilização do largo nos seguinte termos, “não só pelo espectáculo vergonhoso que oferecem aos visitantes logo à entrada da cidade, mas ainda porque aquele local, hoje em parte destinado à feira do gado suíno tornado anti-higiénico, está naturalmente indicado para ser ajardinado e convertido em um sítio aprazível”.
O projeto para ampliação do largo junto da estação do caminho-de-ferro, foi aprovado pelo Ministro do Comércio e Comunicações, mediante parecer do Conselho Superior de Obras Públicas, e autorizada a expropriação dos prédios necessários à ampliação do largo, decisão publicada em Diário do Governo de 22 de junho de 1926, II série. Na impossibilidade de acordo amigável, a Câmara teve que promover ação judicial para expropriação.
No livro de escrituras de 1927 e 1928, está registada a compra de três prédios sitos no largo da estação do caminho-de-ferro e uma casa de habitação e barracões no sítio de Santo António. Em reunião da Comissão, realizada a 14 de maio de 1928, o seu presidente informou ter negociado a aquisição do último prédio que faltava expropriar para a execução do plano de ampliação do largo da estação, negociação que a Comissão aprovou. 
Na reunião da Comissão Administrativa de 5 de novembro de 1928, foram analisadas as diligências feitas junto da empresa Mariano e Companhia Ld.ª, relativas à necessidade de expropriar uma parte do logradouro da moagem, para a construção da avenida. A Moagem Mariano, Ld.ª foi construída, no ano de 1925, por Acácio Mariano, a poente da Escola Conde de Ferreira, Escola que foi criada no ano de 1868, que a Câmara mandou demolir, por deliberação tomada no ano de 1948, para nesse local mandar construir o Tribunal. A Moagem laborou em pleno até ao ano de 1956. No ano de 1928 tinha sido construída a Moagem Afonso Lopes e C.ª Lda., sociedade criada por Alexandre Augusto Afonso, natural da aldeia de Refoios, em sociedade com dois importantes comerciantes locais, Domingos Lopes e Alcino Lopes, a única moagem que atualmente se mantém em funcionamento. Laborou ainda uma terceira moagem, a Moagem Lopes, na margem esquerda do rio Sabor.
A construção da Avenida João da Cruz teve o seu início no período de 1926 a 1929, período durante o qual o essencial dos trabalhos de abertura da avenida foram executados, sob a presidência do capitão Manuel Miranda Branco.
Na foto, observa-se a diferença de estrutura das faixas ascendente e da descendente, situação que veio a evoluir para a atual configuração. O pavimento é ainda em terra batida, incluindo a área de circulação pedonal. Nesta imagem ainda não aparece o monumento de homenagem a Abílio Beça, o que significa que a foto é anterior a 1 de dezembro de 1929. A finalização dos trabalhos de abertura da avenida ocorreu mais tarde.
Sob a presidência do Coronel Teófilo Maurício C. de Morais, natural da freguesia de Santa Maria, Bragança, reuniu a Comissão Administrativa, a 7 de janeiro de 1933 para autorizar a contratação de um engenheiro a fim de concluir todos os projetos para a conclusão da avenida João da Cruz e para requerer a isenção do pagamento de sisa pela aquisição das duas últimas casas. Na referida reunião, foi decidido contratar um empréstimo junto da Caixa Geral de Depósitos, Crédito e Previdência, no valor de 450 000$00, amortizável em trinta prestações semestrais, destinando-se 150 000$00 às obras de construção de um bairro de casa económicas, 200 000$00 para o prosseguimento das obras da Avenida João da Cruz e expropriações e 100 000$00 para a construção da Escola Infantil de Bragança.
Executados os trabalhos de abertura da Avenida no período entre os anos de 1926 a 1933, uma década depois foram iniciados os trabalhos de pavimentação, tiveram o seu começo no ano de 1942, sendo concluídos a 16 de março de 1946, no mandato do Presidente Dr. Manuel António Pires, natural de Brunhozinho, concelho de Mogadouro. O Diretor Geral da Direção Geral dos Serviços de Urbanização, por ofício n.º 3812, datado de 20 de dezembro de 1945 informava o Presidente da Câmara Municipal que, o auto de medição relativo aos trabalhos de “Conclusão da abertura e pavimentação da rua do Toural e das transversais que ligam à Avenida João da Cruz”, tinha sido lavrado a 6 de novembro, enviado a 23 do referido mês, para o Comissariado de Desemprego para autorização de pagamento. Nesse período foi construído o edifício do Correios, Telegráfos e Telefones, inaugurado pelo Ministro da Obras Públicas a 17 de abril de 1945.
No mandato de 7 de dezembro de 1951 a 15 de janeiro de 1953, do Presidente Dr. José Maria Lopes, foram iniciados os trabalhos de iluminação da Avenida João da Cruz e da Praça Cavaleiro de Ferreira. Durante esse período decorreu a construção do Palácio da Justiça e da Casa dos Magistrados, edifícios construídos pela Câmara Municipal que tinha essa competência legal.
Da ata de reunião de Câmara Municipal, de 18 de abril de 1952, consta a deliberação de atribuição do nome do Ministro da Justiça à Praça em construção, em que se refere estarem quase ultimadas as obras de construção dos novos edifícios do Tribunal Judicial da Comarca e das Casas para Magistrados, de cuja implantação resultou a completa urbanização de metade da praça, prevista no local, pelo plano de urbanização. Estas construções foram ezxecutadas no âmbito do programa nacional de instalações para os serviços judiciais, sob responsabilidade do titular da Pasta da Justiça, Professor Cavaleiro de Ferreira. Os edifícios foram formalmente entregues ao Ministério da Justiça, no dia da sua inauguração, a 11 de junho de 1952, em cerimónia presidida pelo ministro da Justiça, natural da aldeia de Parada, que nesse dia foi recebido em festa pelo povo e autoridades locais e regionais, o comércio encerrou das 10 às 14 horas.
Na sessão de boas vindas, o Presidente da Câmara Municipal, Dr. José Maria Lopes, entregou ao ministro da Justiça, a 1.ª medalha de ouro da cidade, que a Câmara Municipal considerou como “a alma da cidade de Bragança e de todo o concelho”, foi adquirida por subscrição pública, por dificuldades técnicas não foi entregue nesse dia.
No mandato de 1953-1954, sob a presidência do Dr. António Augusto Pires, natural de Bragança (Santa Maria), a Câmara Municipal deliberou em reunião realizada a 13 de março de 1953, prosseguir com os trabalhos de iluminação da Av. João da Cruz e da Praça Cavaleiro de Ferreira. Nos mandatos de 1954 a 1967 foram realizados trabalhos de embelezamento da avenida, com o início da pavimentação das faixas de circulação. No ano de 1956, sob a presidência do Eng.º Adriano Pires, natural de Fontes, freguesia de Parâmio, concelho de Bragança, aproveitando a pavimentação da estrada nacional na parte nascente da Avenida João da Cruz, a EN 308-3, a Avenida que foi pavimentada a paralelipipedo de granito, tal como hoje a conhecemos.
Poucas melhorias se verificaram na avenida no último meio século, a não ser, durante a década de oitenta, a colocação das colunas altas de iluminação em substituição das antigas. Durante os anos de 2006 e 2007, a câmara Municipal fez uma tentativa de remodelação global, incluindo no Plano de Atividades e Orçamento verbas para investimento. Em reunião de Câmara Municipal de 13 de março de 2006, foi aprovado o programa de concurso público e caderno de encargos para a contratação da elaboração do projeto. A 17 de janeiro de 2007, reuniu o Júri do concurso público, para a elaboração do relatório final, para adjudicação do projeto “Reconversão da Avenida João da Cruz e das ruas Guerra Junqueiro e Emídio Navarro” proposta que foi aprovada em reunião de Câmara realizada a 22 de janeiro de 2007, em que foi feita a adjudicação da elaboração do projeto ao concorrente J. Teixeira de Sousa.
Feito o estudo prévio, a Câmara Municipal iniciou na primeira semana de março de 2007, o processo de apresentação e discussão pública do projeto, realizou a primeira sessão pública no Teatro Municipal onde estiveram presentes dezenas de interessados. Pretendia-se em parte alterar a estrutura da avenida, remodelar todas as infraestruturas, colocar novos pavimentos, mobiliário urbano e iluminação pública, dando prioridade à criação de uma ampla zona de esplanadas do lado direito ascendente, considerando a boa exposição solar e a realidade comercial existente, mantendo a circulação ascendente e descendente, conforme o que existe, reordenar o estacionamento, mantendo uma solução próxima da existente em termos do número de lugares, solução que contava com o apoio do parque de estacionamento subterrâneo existente, com mais de 500 lugares.
No projeto estava previsto a aplicação de materiais de elevada qualidade, preservando a identidade original, como realidade a não apagar, sim a valorizar, tanto na Avenida como na Praça Cavaleiro de Ferreira. Da discussão pública não resultou suficiente adesão, a discussão adquiriu uma componente política que se sobrepôs à discussão do projeto, suas vantagens e desvantagens, pelo que, apesar de na altura ser possível assegurar apoios de fundos europeus para o investimento, optou-se pela concretização de outros trabalhos, evitou-se na altura uma frente desnecessária de confronto social com aproveitamento político, havia muito para fazer no concelho. O projeto foi adiado, assim terminou uma iniciativa que podia ter sido uma oportunidade única de modernizar a Avenida João da Cruz, a rua Guerra Junqueiro e a rua Emidio Navarro. O processo de requalificação vai agora ter uma nova oportunidade no atual Quadro Comunitário de Apoio, através do Programa Opercional Norte 2020, estando já contratado com o municipio o correspondente financiamento com fundos comunitários.

Trabalhar menos para trabalhar mais

É certo que a crise que atravessa a Europa não está só reservada ao nosso continente envelhecido e cansado da sua história. No cais da quase totalidade das democracias do planeta, vai soprando um vento mau e a incapacidade dos governos para resolver o problema lancinante do desemprego faz certamente parte da explicação.
O projecto de reformas do código do trabalho, as trinta e cinco horas da função pública, suscitam muitas reacções compreensíveis. Acredito também que o tempo de trabalho seja um verdadeiro indicador num momento em que todos estamos convictos de que a direita e a esquerda têm as mesmas ideias. A esquerda perdeu o seu otimismo conquistador e aparece regularmente como uma força defensiva, resignada a travar as reformas que ela sabe que são irreversíveis. A esquerda e a direita liberais partilham um grande número de temas e para muitos cidadãos não se vê que seja oportuno dizer que é preciso reduzir o tempo de trabalho. Outros afirmam que a questão não é aumentar o tempo de trabalho, mas sim reduzi-lo. É talvez paradoxal, mas deve poder ser reduzido.
Ultimamente, tem-se refletido muito sobre a questão dum vencimento universal, de forma incondicional, para todo o cidadão. Acredito que possa ser um debate interessante e que possa ser combatida a pobreza desta forma. Porém, penso também que é necessário ser pragmático; a igualdade não é de forma alguma a equidade, vejo mal como pode ser dado o mesmo salário à maior fortuna de Portugal e ao arrumador de automóveis. Já não se trataria de igualdade mas sim de igualitarismo. Será preciso verdadeiramente dar aos que precisam e não aos que não precisam. Por conseguinte, será conveniente encontrar outras fórmulas que não o aumento das horas de trabalho.
Todos os utopistas – penso que todos dão indicações e direcções – como Thomas Moore já no século XVI, são pessoas que pensam que é necessário trabalhar para produzir e produzir para viver e sobreviver. Ora vejo mal como, num futuro próximo, com a evolução tecnológica que impera na área, seja possível continuar a trabalhar, trabalhando cada vez mais, de forma a que as taxas possam ser devolvidas em forma de abonos ou subsídios às pessoas sem emprego. Será preciso dividir o trabalho e, seguidamente, poder prever trabalhar mais ou menos um dia, uma semana, ou outras possibilidades após entendimento entre empregados e entidades patronais.
Não há qualquer utopia, parece-me uma regra económica simples. Nunca se pensa na questão das famosas subvenções, pensa-se que os subsídios vêm do céu, mesmo quando se diz que chegam da Europa. Contudo a Europa não é de forma alguma uma espécie de Império ou Eliseu onde se vai buscar ouro para distribuir. A Europa tem o dinheiro que lhe é dado. Por isso, dever-se-ia pensar justamente na partilha do trabalho. Não é possível que as pessoas sejam assistidas, pela humilhação que lhes é imposta. O facto de ser assistido, na minha opinião, é uma humilhação, as pessoas não são desempregadas porque querem ou porque se instalam eternamente por ser auxiliadas. São velhas teorias conservadoras para não dizer absurdas, as pessoas não pensam assim quando não têm trabalho, sentem-se diminuídas, ostracizadas e humilhadas.
Pouco se fala do papel das paixões na história, e a humilhação tem um papel superior nesse campo. Se O Trumpolineiro nos Estados Unidos ou os Le Pen em França se encontram dessa forma apoiados pelo seu eleitorado é porque há uma falta de dignidade e essa dignidade e honra seriam recobradas se se dividisse verdadeiramente o tempo de trabalho.
O refúgio nacionalista e chauvinista não é certamente uma solução. Mas a Europa não pode continuar a derivar da forma como o vem fazendo há muito tempo. Talvez por falta, à frente, de personalidades possuindo um mínimo de sentido da história.

Por Adriano Valadar

NÓS TRASMONTANOS, SEFARDITAS E MARRANOS - Moises Rafael de Aguillar (c.1620 - 15.12.1679)

Amesterdão, ano de 1681. Com a aprovação do rabi Aboad da Fonseca garantindo a verdade teológica e conformidade com as regras talmúdicas, foi ali publicado um livro que teve ampla divulgação entre a comunidade hebreia e um título pomposo, como era norma naquela época:
- “Dinim de Sechitá y Bedicá, Isto he, de degolar y visitar os animaes conforme nossa sancta Ley, coligidos do sulhan Aruh, traduzidos na língua Portugueza, por bom, e breve methodo ordenados, por o muy Docto Haham Rabi Moseh Rephael de Aguilar”.
Neste livro se patenteia de forma bem clara o rígido formalismo judaico que impõe regras minuciosas para o abate de animais e preparação da carne que se havia de consumir, sendo proibido comprar carne fora das carnicerias aprovadas e vistoriadas pelas autoridades eclesiásticas. A obra foi impressa na tipografia de David Castro Tartas, e o responsável pela edição foi José Franco Serrano, genro do autor e proprietário do manuscrito, o qual ficou com os direitos da edição por um período de 10 anos. O autor falecera dois anos antes e chamou-se Moisés Rafael de Aguilar.
Antes de mais, diga-se que o proprietário desta célebre oficina tipográfica era originário de Bragança, irmão do mártir Isaac de Castro Tartas, casualmente nascido na localidade francesa que lhe deu o sobrenome, quando seus pais iam fugidos da inquisição.
Aguilar, o autor do livro, era tio materno dos irmãos Tartas, ignorando-se a data do seu nascimento, bem como a localidade: Bragança ou Amesterdão?
Provado está que ele frequentou a Etz Haim (a escola pública da comunidade judia, espécie de seminário) e aparece entre os estudantes apoiados pela “aspaga”, um fundo de caridade para subsidiar os estudantes pobres. Os registos indicam a sua frequência entre 1637 e 1640, altura em que surgiu a polémica envolvendo Uriel da Costa, um filósofo maldito que se atreveu a pôr em causa a ortodoxia rabínica e a tradição talmúdica. E foi então que Aguilar, o brilhante aluno da Etz Haim, fez a sua estreia literária, escrevendo um tratado que circulou manuscrito, contra as ideias heterodoxas de Uriel da Costa, intitulado:
- “Respostas a certas propostas de certas pessoas contra a tradição”. 
Este facto permite concluir que Rafael usufruía já de um certo reconhecimento académico, e marca o início da sua carreira, longa e brilhante, de pensador judaico. Logo no ano seguinte, de 1641, ele partiu com o rabi Aboad da Fonseca para o chamado Brasil Holandês, acompanhando-o alguns membros da família, nomeadamente o irmão Jacob e o sobrinho Isaac Tartas. Ali foi investido nas funções de rabi / hazan da congregação Magen Abraham de cidade Maurícia, em cujo livro de atas aparece o seu nome.
Ignoramos se foi antes ou depois de embarcar para o Brasil que ele escreveu um outro trabalho que ficaria manuscrito: - “Tratado da Imortalidade da Alma”. Integra-se este na mesma polémica que envolveu os livre pensadores judeus na transição do pensamento religioso medieval para o pensamento moderno científico.
Bem diferente, mas igualmente importante para o estudo das origens da ciência moderna é um outro livro de Rafael da Aguilar que ficou manuscrito, com o título de “Significado das letras hebraicas”. É um trabalho que se rege por fundamentos da Cabala judaica e se integra na chamada “literatura curiosa”, com as letras a ganhar valor numérico e o mundo a ser encarado como um complexo campo de forças, cuja inteligência permitirá prever os acontecimentos.
Não é líquido se contraiu matrimónio em Amesterdão, antes de embarcar para o Brasil, mas sabe-se que nesta terra lhe nasceu o filho Isaac e a filha Ribka. A terceira filha, de nome Sarah, nasceria em 1654, ano em que a família regressou a Amesterdão. Mais filhas e filhos lhe deu a sua mulher Ester, que faleceu em 1702, havendo uma diferença de 23 anos entre o rebento mais velho e o mais novo do casal.
No regresso do Brasil, Rafael tinha já um nome feito como académico e intelectual, integrando o colégio rabínico da comunidade judaica de Amesterdão. De contrário, do ponto de vista económico, nunca conheceria um grande desafogo financeiro. E essa realidade fica bem patente no casamento dos filhos em alguns dos quais foram os irmãos que assumiram a função de padrinhos. Ao contrário de outros líderes religiosos, o rabi Aguilar nunca enveredou pelo mundo dos negócios, nem sequer na pátria do “ouro branco”, o açúcar.
No regresso a Amesterdão, abriu uma escola privada, que teve bastante sucesso. E o maior sucesso adveio-lhe da publicação de um livro escolar, mais precisamente, um Compêndio de Gramática Hebraica, no ano de 1660, com uma segunda edição a sair logo no ano seguinte. O editor e impressor foi Joseph Athias, poucos anos antes chegado à Jerusalém do Norte. E esta obra coloca o nosso biografado entre os grandes mestres da língua hebraica.
Académico prestigiado, Moises Aguilar, ao publicar a segunda edição desta obra, aparece já identificado com professor do Etz Haim, a prestigiada escola rabínica de Amesterdão, substituindo o grande timoneiro Menasseh Bem Israel.
Aquela foi também uma época de muita fé e esperança messiânica. E apareceu então, em Esmirna, um cabalista e rabi chamado Sabbatai Tsevi, apontado como sendo o Messias prometido por Deus a Moisés. E foram muitos os intelectuais e dirigentes religiosos que nisso acreditaram e aderiram ao movimento sabbatiano. Foi o caso de Rafael Aguilar e do seu amigo Abraão Israel Pereira, um rico mercador nascido em Vila Flor que logo deixou a sua casa em Amesterdão e se meteu a caminho de Veneza e da Terra Santa para estar com o “Messias” desde a primeira hora.
Concluindo, diremos que Moisés Rafael Aguilar passou à história como um intelectual académico defensor da tradição rabínica e da ortodoxia judaica face às novas ideias que começavam a espalhar-se pela Europa e punham em causa a visão medieval da vida e do mundo. Faleceu em 1679 e foi sepultado em beth Haim Ouderkerk Amstel, lavrando-se na sua campa a legenda e bem significativa: - “Aguilar louvou Israel durante 40 anos”. Trata-se de uma alusão aos 40 anos que mediaram entre o início e o fim da sua atividade como escritor e mestre da lei, e aos 40 anos que Moisés levou a conduzir o povo de Deus para a terra santa. Se apenas dois livros deste judeu sefardita e trasmontano viram então a luz do prelo, duas dezenas de outros ficaram manuscritos e integram o espólio da chamada “Livraria Montesinhos”, em Amesterdão.

Bibliografia:
REMEDIOS, J. Mendes dos, Os Judeus Portugueses em Amsterdam, ed. A. França Amado, Coimbra, 1911.
BERGER, S, Moshe Raphael de Aguilar, a short Biography, in: Classical Oratory and the Aephardim of Amsterdam.
GOLDFARB, José Luiz, Tratado da Imortalidade da Alma e discurso sobre significação das letras hebraicas: análise de dois documentos judaicos seiscentistas. In: MARTINS, R. A.; MARTINS, L. A. C. P.; SILVA, C. G.; FERREIRA, J. M. H. (eds.). Filosofia e história da ciência no Cone sul: 3º encontro. Campinas: AFHIC, 2004, pp. 249-256.

Por António J. Andrade /  Maria F. Guimarães

 

As duas faces

Tal como as moedas o Verão também tem duas faces; a movimentada, eclatamte e afectiva, a negativa, obscena, violenta. As pessoas movimentam-se, até freneticamente, os sentidos recuperam efusões, minoram saudades, desenvolvem pulsões do florir do desejo nuns casos, de a recordação florida dos tempos idos onde as vozes masculinas assumem a condição de aedos. Os que tiveram de emigrar as representam nos dias estivais.
E, no entanto, negativamente, a tal face obscura, representa-se nos dichotes verbais, nas escaramuças jocosas, às vezes nos desforços físicos, já ouvi chamar aos nossos «regressados emigrantes» Mosca de verão. Não, não estou a referir-me a turistas sudarentos, depositantes de lixo, pouco gastadores, autênticas Hordas de sandálias como lhes chamou o famoso escritor Joseph Brodsky, Nobel de 1987.
O mote Mosca de verão levou a senhora licenciada de unhas bem pintadas a enunciar os efeitos da invasão de varejeiras: aumento de preços, confusão no trânsito, gritos nas ruas e cafés, meneios e contorções dos vindos de Franças e Araganças.
Uma rede repleta de palavras a denunciarem antagonismo velhos e relhos numa mistura de Ser por ter no antigamente, esvaído à medida da passagem dos Estios, do ter agora elevar a Ser muitos dos obrigados a pertencerem ao universo da diáspora. Dá trabalho a retirar, uma a uma, cada palavra da rede pesqueira, no entanto, o exercício permite rasgar o véu sorridente de uns e outros à chegada de forma a precavermo-nos contra comentários ao estilo da senhora adversa a moscas, tal como Jaime Gama quando tinha de visitar países africanos na condição de Ministro dos Estrangeiros.
Há tempos rapaz do meu tempo voltou a Bragança ao fim de quarenta anos, tinha a intenção de permanecer oito dias, esteve dois, além de já só conhecer poucas pessoas, ficou agravado, os conhecidos não lhe fizeram vénias, nem lhe afagaram o ego salientando-lhe os seus glosados êxitos. Um pouco à bruta ri-me dos seus pruridos, nem lhe lembrei a frase do não voltes a onde foste feliz, coisas são como são, as mundanidades lustrosas, das chiques estâncias de veraneio, em Bragança tais vanidades valem zero. Rugiu: não volto lá!
É neste ponto que apelido de obsceno e violento o contraste, seja o emigrante analfabeto, seja o letrado, de alta patente militar ou académica, a maioria quando volta à terra carrega o propósito de ser recebida entre nuvens de incenso e mirra, aspergida e perfumada qual rainha de Sabá, por seu turno os dali nunca saídos aguardam exclamações de apreço dada a coragem em terem permanecido, fortes amplexos de louvor, quando não hossanas a quem aguenta nove meses de Inverno e três de Inferno.
A fusão das duas posições é possível quando a inteligência supera a pulsão do despeito, e quando se chega a uma certa idade, nada é mais familiar do que as referências afectivas expressas nas personalidades marcantes, nas figuras singulares, mesmo risíveis, nas ruas, nas praças, nos jardins, nos becos, nas tabernas, nos cafés, nos monumentos, e no…cemitério. Visito sempre o cemitério.
Se a fusão não é conseguida eclodem manifestações violentas titilantes nas respostas mal-humoradas, quando não agressivas, os ajuntamentos potenciam-nas, as reservas e azedumes escoram notícias, agravam males provindos do passado.
A largueza de vistas lastreia a fusão, destroça a desconfiança, importa fruirmos a estação calmosa desvanecendo o nevoeiro derivado dos lúgubres afastamentos, dos desvalimentos de outrora. Por muito sedutoras que sejam outras paragens, a Terra-Mãe vale a aproximação. Que o vinho da saudação eleve os corações, sele as amizades, afaste a ideia de recriminação!

IN MEMORIAM

Soube pelo meu amigo Nelson Rebanda que se prepara, em Moncorvo, uma justa e justificada homenagem aos soldados moncorvenses falecidos na sangrenta e dramática guerra ultramarina levada a cabo pelo Estado Novo contra os movimentos de libertação das antigas províncias ultramarinas que lutavam pela sua autodeterminação. Entre estes está um nome que me é muito caro: Raul Teixeira.
É normal recordarmos, dos que partem, as virtudes e exaltá-las, mas, no caso corrente, não há forma de o dizer de outra maneira: o Raul era um homem bom. Do melhor que conheci na minha aldeia, a Junqueira da Vilariça. Era uma fonte inesgotável de boa disposição e não consigo lembrar-me dele a não ser emoldurado por um sorriso singelo e contagiante. Era um pacificador e empenhava grande energia em resolver conflitos naturais entre jovens da sua idade. Era mais velho que eu e, embora a diferença não fosse significativa, para a minha idade era considerável. Conhecia-o bem porque frequentava a casa dele. Os nossos pais eram amigos e compadres e eu gostava de ir brincar com o Luís e com o Manuel, os seus irmãos mais novos e que me eram mais próximos.
A casa do Raul tinha um enorme quinteiro lageado por onde se entrava para a cozinha e dela subia-se para um espaço aberto que dava acesso aos quartos (foi num deles que vi deitada, quase desfalecida a sua mãe, Luz Abade quando soube da morte do filho) e a uma enorme varanda de madeira. Era mágica esta varanda. Ficava por cima do quintal anexo à casa onde o senhor Eugénio plantara árvores de fruto, entre outras laranjeiras, na altura raras na aldeia. Mas era sobretudo a varanda que abrindo, como quase todas na minha aldeia, para o enorme horizonte do Vale da Vilariça, tinha um atrativo adicional: estava situada sobre o terreiro da fonte onde, no verão, os rapazes dormiam a sesta à sombra das amoreiras e as raparigas vinham à água. Este largo era o centro da aldeia. Nada de importante acontecia que não passasse por aqui. Era aqui que o ferrador vinha “calçar” os machos e os jumentos, era aqui que os pantomineiros faziam as suas acrobacias e palhaçadas, era aqui que os latoeiros faziam caldeiros e romeias de folha e concertavam cântaros, era aqui que chegavam os vendedores ambulantes e era por aqui que passava o padre para ir depois rezar a missa. Era aqui que se fazia a fogueira do Natal, que se jogava ao “abre-e-dá-lhas” e ao par e pernão. Era aqui que as crianças brincavam, as mulheres ralhavam e os jovens namoravam.
O Raul era mais velho que eu. Meia-dúzia de anos, na minha tenra idade, era uma diferença substancial. Os da sua idade pertenciam a um grupo que nos olhava de alto. Eles eram já homens feitos e nós apenas uns garotos. O Raul não. Por bondade ou generosidade sempre me deu atenção e foi ele que me fez o meu primeiro carro de cortiça. Igualzinho ao que o irmão dele, o Luis tinha: uma cana limpa e direita com um furo duplo na extremidade mais grossa por onde fez passar o eixo onde se encaixaram duas rodas aprimoradamente feitas por ele mesmo, com uma navalha da poda a partir de dois quadrados de cortiça; um terceiro pedaço, menos elaborado, enfiado diretamente na cana, fazia de volante. Foi grande a minha alegria e igualmente a sua satisfação expressa no sorriso que ainda hoje recordo.
A dramática morte em terras africanas consagrou-o como o meu herói. Foi nele que me inspirei para escrever o meu primeiro livro “Cravo na Boca” editado pouco tempo depois. Dediquei-lhe um poema (“Post-Scriptum”) que publiquei no meu livro “Pedra Flor” editado mais de vinte anos depois.
A história incompleta, continua por contar.
 
Por José Mário Leite