Manuel João Pires

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Estupidicídio colectivo

Boas tardes, meus caros. Espero que estas palavras vos encontrem com boa saúde e disposição, abrigados do calor destes meses de inferno nordestino. Como sabem não sou um consumidor de redes sociais além do WhatsApp e do seu sino-equivalente Wechat, mais os emails e alguns eteceteras que já são muitos. Nunca tive paciência para redes sociais. E até tenho conta no Facebook, embora não a use. Não apago o Facebook por causa do argumento estúpido de que há muitos contactos antigos que eu só tenho ali e um dia posso necessitar deles (embora se realmente precisar de algum, haverá sempre maneira de o encontrar). Eu que até tenho o Facebook desde muito cedo, 2008, numa altura em que, de tão primordial, ninguém sabia o que era. Abri a conta quase pelo mesmo motivo pelo qual Zuckerberg e os amigos o criaram, para colocar as fotos de um jantar. Lembro-me que depois de um jantar no Bairro Alto, uma amiga disse “abram conta numa nova rede social chamada Facebook, que eu vou pôr lá às fotos.” Face quê? Perguntámos todos.” Já não vou para novo, mas nem de mais novo achava grande piada. Ia lá uma ou duas vezes por mês e encontrava sempre tudo na mesma. Feita a minha declaração de desinteresses vou falar do que para mim é a forma mais evidente da taxa de estupidicídio em Portugal, e da humanidade em geral, o ser humano a revelar-se impotente contra a sua própria estupidificação. Vocês sabem também que eu vou acompanhando Portugal pela rádio. Ora, é interessante ver que os radialistas há uns largos meses falavam da chegada da rede social chinesa Tik Tok como sendo absolutamente estúpida, adolescente, fútil, desnecessária e dispensável. Algo de que eu não duvido. Acontece que as mesmas pessoas, meses volvidos, falam da mesma rede social, dos vídeos e do espaço que ela ocupa nas suas vidas com toda a naturalidade de quem a frequenta e a consome. Não sei se isto é o cúmulo da estupidez, ou se a estupidez está do meu lado e de mais quatro ou cinco gatos pingados como eu que ainda andamos a viver estes fenómenos de fora como se estivéssemos algures na década de 90, pensando que o mundo e os deuses estão loucos, quando de facto os únicos loucos somos nós. É uma seita, uma onda de estupidicídio coletivo. As redes sociais a serem muito mais fortes do que as pessoas. Perdemos a capacidade de escolha ou de live arbítrio diante de uma rede social por mais estúpida e inútil que seja. Consumimos tudo. “Olha, já leste esta: abriu o “Estúpido bar” aqui na cidade, um bar da parvoíce a escorrer azeite pelas paredes. Só para pirosos, até a decoração é pirosa, que parolice, que foleirada (Pierre Zago, 2019)”. Criticamos, gozamos, e, no entanto, semanas depois estamos todos ao balcão do bar da foleirada, dos fúteis e azeiteiros a beber uma cerveja com groselha e a olhar uns para os outros. É incrível, o grau de toxicodependência digital, o poder destes estupefacientes sociodigitais que nos têm completamente na mão. E nós a julgar que não, que deixamos esta droga quando quisermos, enganando-nos a nós mesmos como qualquer verdadeiro toxicodependente. “Não, isto da droga eu saio quando quiser, amigo. Eu estou no controlo, se eu quiser largar, largo num instante”. “Tik Tok?! que piroseira, isso até é uma vergonha para quem tem mais de 12 anos e usa isso” Após um par de semanas: “Por acaso, ontem vi um vídeo no Tik Tok muito fixe, tens de ver...” Mas a rede social mudou num par de meses? Ou foi o cidadão que não é capaz de dizer não às drogas que lhe passam pela frente, “agarrei-me a isto porque os meus amigos costumavam consumir. Eu tenho quase 50 anos, mas a minha personalidade digital ainda não está completamente desenvolvida”. Agora fala-se muito do ódio digital. Pergunta (absolutamente) estúpida: é assim tão difícil sair do digital e desfazer esse ódio ou reduzir substancialmente o uso de redes sociais? Ou mudar os usos da internet, pelo menos para não lá andar a destilar ódio, inveja e mesquinhez? Claro que é. Tão difícil como para um heroinómano deixar de usar heroína ou reduzir a sua utilização com um estalar de dedos. Para quem nunca andou metido no cavalo é muito fácil. Mas para quem anda agarrado, só Deus deve saber como é cruel estar enleado nas malhas do vício. Somos todos toxicodependentes, estupidificados, afogados em informação, completamente engolidos e manipulados por este admirável mundo novo do outro lado dos ecrãs. O grande irmão está a ver-nos, nós estamos a ver o grande irmão, estamos a dançar e a dar o nosso melhor para fazer a máquina deste grande irmão não parar. Unidos pela parvoíce e pela estupidez. Unidos por postiças sensações de empatia, proximidade, afecto. Vamos perdendo as valias do convívio, da interação. Praticamos a cidadania do teclado, somos cidadãos do like e do post, passamos a viver sentados na bancada. Nada aconteceu se não foi consumido no ecrã, tudo só vale a pena se for diretamente injetado nas veias dos ecrãs. Tudo o que de jeito e desenjeitado fazemos na vida tem de constar da tela. Todos os dias, minutos, segundos, de garrote no braço, entorpecidos, à procura de já nem sabemos o quê, a ter de estar a ali a ver caravanas a passar e cães a ladrarem. O ódio na internet é só a overdose. O evidente e incontrolável excesso. Mas não queremos ver, não queremos procurar ajuda, não queremos mudar. Aliás, vamos postar, partilhar, comentar, debater para que isto mude. A cada segundo que passa alimentamos e cometemos um incessante estupidicídio colectivo. Mas não há problema. Afinal, nós estamos no controlo, largamos isto quando quisermos.

Bar da Santa Paciência

Ora muito boas tardes! Espero que vos encontreis bem de saúde, devidamente protegidos do sol abrasador, em casa, à sombra ou, tanto melhor, a molhar os pés pelo Azibo. Temperaturas altas e gentes da terra foi coisa que este ano voltou a trazer, aproximando-se dos níveis de afluência habituais para esta época calorosa e convivial que moldura o mês de Agosto. Tal como o Nordeste aqui noticiou, migrantes e emigrantes voltaram a preencher as casas, as ruas e os cafés das nossas pictóricas aldeias, o que é sempre de saudar e brindar. E aproveito este gancho dos cafés para contar uma anedota passada por estes dias em Avelanoso, uma aldeia como certamente muitas outras, já bafejadas pelas regulares brisas das campanhas eleitorais. Os peditórios das comissões de festas são este ano substituídos por peditórios de votos mais ou menos disfarçados. Aqui há uns anos botei um texto sobre a “Política dos últimos” - à imagem do icónico programa de futebol “Liga dos últimos” - com base numa conversa que apanhei numa camioneta Lisboa-Bragança em que o motorista dizia a um passageiro que por causa de políticas não falava com o irmão havia “quase 10 anos”. Como em muitos misteres, quem ganha milhões sabe sempre separar as águas, quem ganha tostões normalmente não tem intelecto para tanto. Quem ganha milhões põe os olhos na direção apontada, quem ganha tostões não alcança mais que a contemplação do dedo espetado. E essa é uma característica realmente definidora: a política dos pequenos é pessoal. É tacanha, é de ajuste de contas, é de canela até ao pescoço. É um anti-futebol e uma anti-política porque quando não se tem ideias a única obsessão é não deixar jogar, nada acrescentando ao jogo, à comunidade. E vale tudo nessa missão sarrafeira e caceteira de fazer política. Penso que quando se entra para a política deve haver duas portas. Há uma porta de entrada que por mais ou menos portas e travessas pode levar os políticos a algum lado e depois há uma porta que diz “curros” e que mal aberta leva outros a irromper pela praça a toda a velocidade, investindo contra tudo o que encontram, seja irmão, pai, vizinho, o que interessa é colidir, destruir, botar abaixo. Acredito que alguns destes se encostem às tábuas depois de tanto marrar e nada ganhar com isso, mas outros são bravos bovídeos capazes de levar essa política missão pela vida fora. Quiçá garbosos do seu contributo para a respetiva ganadaria. Voltando à anedota: a aldeia de Avelanoso não sendo pequena, tem desde há uns anos apenas um único bar. Um único ponto de encontro onde se pode tomar café, encontrar amigos, ver a bola: conviver. No fundo, conviver é o que nestes tempos mais faz falta para animar a malta e provavelmente a coisa que mais dá gosto fazer numa aldeia no mês de Agosto. O Bar da Santa é habitualmente gerido pelos mordomos das comissões de festas. Com a pandemia não se nomearam novos mordomos e alguns jovens pegaram no espaço simplesmente porque a aldeia precisa dele. Entre eles está o atual presidente da junta. Acontece que os candidatos do outro partido, começaram a campanha em modo “Bonito, 550kg, Ganadaria: António Brito Paes” e arrancaram praça adentro a toda a velocidade em direção a um capote rubro que diria incompatibilidade de funções ou uso inapropriado do espaço, pelo que forçaram o seu encerramento. Uma jogada de fino recorte político que mais não fez do que privar uma aldeia do seu único espaço público e social em pleno mês de Agosto. Espaço que os próprios frequentavam também. A primeira e quase de certeza última medida política que conseguiram produzir merece uma salva de palmas ou um “olé” lançado em uníssono pela afición nas bancadas. A população, a aldeia, agradece ter sido abatida pelas balas perdidas destas ferozes e impiedosas batalhas políticas de terceira divisão. Destes políticos-soldados da matarruanice pouco mais se pode esperar do que o bota-abaixismo. É pena que a esta data ainda se entre para a política sem ter nada para acrescentar, sem ter dois dedos de testa e, ironicamente, complicando a vida da comunidade em vez de a facilitar. Nossa Senhora da Saúde nos dê saúde e paciência para aturar estes políticos e estas politiquices de pé rapado. Antes de começarem, já deram um tiro no pé descalço, um autêntico tiro na nuca. Prevê-se uma vitória no sofá, ainda antes de entrar em campo, para o atual presidente ou uma campanha como a do professor Marcelo, sem precisar de gastar um cêntimo. Não bastasse ser rapaz solícito e disponível para ajudar, resolver e cooperar, os adversários... se a política tivesse mínimos nem se qualificavam. Precisamente, para este vasto número de atletas não qualificados proponho a fundação do PDU, o Partido dos Últimos. Um partido que vem para agregar, de norte a sul do país, todos os que entram para a política com a sensibilidade e a perspicácia de um rebolo dos grandes. Um partido sem segundas nem sequer primeiras intenções. Um partido dos que vêm verdadeiramente para partir. Um partido de U’s, Universal, de Últimos e de Ursos! Um partido em que os últimos são sem sombra de dúvida os primeiros! No PDU, vota tu! Além disso, a sigla do partido acaba em U, o que é bastante propício à criação de slogans ou lemas de teor elementar e cativante. O PDU, Partido dos Últimos, do qual, tristemente, nem todos os militantes sofrem dos gravitacionais e avançados efeitos da PDI. Fora (e dentro) de brincadeiras um saudoso e refrescante abraço a todos! E bons convívios (respeitando as normas) se não vos mandarem fechar o tasco. Saúde, um abraço!

Chega de fossa nova

Boas tardes, meus caros. Parece que as notícias têm sido mais animadoras e isso é de saudar. Que a primavera nos traga calor e mudanças para melhor. Vocês sabem que eu sou cada vez mais um estrangeiro na maneira como vejo o país, não é fácil levar uma vida minimamente ocupada em GMT+8 e ir acompanhando todas as vicissitudes do que se vai passando aí dentro. De maneira que aos poucos me vou metaformoseando num desconhecedor do meu país, que vai sabendo dele muito au ralenti. Algumas coisas têm-me chegado através da rádio, agora que se pode ligar o rádio em qualquer lado. Ainda no outro dia ouvia a história de um artista que começou a ouvir música com o rádio do avô, à volta do qual se reunia toda a aldeia, porém, o rádio era ligado unicamente ao domingo à tarde “para não gastar muita pilha”. Outros tempos, outros sofrimentos. Uma coisa que tenho vindo a notar recentemente é que a música que se tem feito em Portugal anda muito diferente, pelo menos a pouca que me vai chegando. Tudo são musiquinhas moles, envergonhadas, tudo muito acústico, mas onde até o eletrónico não quer incomodar os vizinhos, letras curtinhas, cansadas, umas vozes que não queriam ter sido arrancadas da cama, artistas que se expressam pelas vestimentas, mas em que depois as gargantas só conseguem lançar aquela expressão muda, seca, palavras mal saídas a quererem voltar para dentro, botadas em modo meloso, pegajoso como o álcool que escorrega das garrafas vazias espalhadas pelo chão da sala. Tudo soa a uma mesma Adriana Partimpim sem forças, empurrada para a frente de um microfone por recomendação e insistência do médico-psiquiatra, tudo meio imberbe, inacabado. Eu sei que a música é expressão do seu tempo e estes não são tempos nada comuns, também sei que para destilar descrença e abissal tristeza somos os primeiros, mas já é hora de começarmos a mudar um bocado o registo. Agora que vem o sol e a primavera, é uma boa oportunidade para desconfinar a música portuguesa, sair de casa, tirar o pijama borbotado de quinze dias, passar uma água pela cara e ir ver o mundo, apanhar um bocado de vitamina D e saborear uma esplanada. Já cansa esta ladaínha cantada por favor que faz o fado parecer Carnaval e em que tudo parece ser uma bossinha nova portuguesa extraída lá do fundo da fossa, uma autêntica fossa nova. Vamos sair da fossa, variar o registo, voltar a pôr as guitarras a rasgar, umas letraças daquelas, as bandas a justificar o aplauso feroz. É tempo disso, vamos voltar com força e desligar o modo abatido, desgostoso e agridocinho. Pimbalhada, rockalhada, martelada, metalada, popzada, venha tudo o que traga vida, sangue, decibéis. Tragam de lá o façam barulho e enfiem os “violões” e as violazinhas no saco. Por exemplo, as músicas do festival da canção têm sido uma tristeza, na mais literal acepção da palavra, no sentido de serem tão tristes e soturnas que até as pedras da calçada ficam a pensar se de facto não seria melhor cimentarem os passeios todos e irem desta para melhor. A gente às vezes até quer gostar destas músicas, mas nem consegue de tão apagadinhas e insuficientes que são. É imperativo levantar o estado de emergência da música portuguesa porque ela precisa de nos levantar a moral. Já não queremos esta música-ansiolítica, queremos algo com vida, com raiva, queremos os pés de dança, o salto, o golo, o orgasmo, o pontapé na atmosfera. Queremos música! Queremos a música portuguesa a gostar dela própria e não a música portuguesa a matar-se a ela própria, a desistir de si própria. Bora, música portuguesa, acredita em ti, tens tanta gente que te quer bem, salta da cama, anda viver meu amor que o sol está lá fora à espera de te ouvir cantar. E não nos venham com fatiotas nem outfits, tragam-nos música, queremos vibrações e variações, mas dispensamos esses palquistas quarenta-anos-depois que só têm a arte do guarda-roupa e da maquilhagem para mostrar. Queremos o antigo, o moderno, o revisitado e futurista, os agudos e os graves, sintonias de gritarias, sintetizadores e distorcedores, oboés e bués jambés, gaitas e guitarras, a vida nuns sopros, o bate-coração das baterias, cordas bambas e vocais, pandeiretas, palhetas e baquetas a bater nas mesmas teclas, quem canta seus males espanca, xilofones, saxofones, estar nos concertos e vê-los através dos telefones, castanholas portuguesas, carrilhões, apitos e berimbaus, queremos ir para cima das colunas, cabines de som e pregos no prato quando cai a noite na cidade, cornetas de pistões e órgãos de soberania, a cauda dos pianos com a vara dos trompetes, caminhos de ferrinhos e triângulos de bermudas, o atabaque faz bem à saúde e contrabaixos não há argumentos, ponham a boca no trombone nesta noite de açucenas, venham de lá os címbalos a chocalhar e as hormonas da harmónica, é uma guitarra portuguesa concertinas, o estradivários está tantã desde que a rabeca se foi embora, a ver se vejo o realejo e o alaúde em Mafamude, os pandeiros são os primeiros, venham de lá os bombos da festa, queremos o lirismo das liras e o herpes das harpas, as mãos nas flautas e sanfonas, faça chinfrim o bandolim, acordem os acordeões, ponham-se finos os violinos… e todos juntos vamos em fanfarra bater à porta da música portuguesa e arrancá-la de casa, da fossa em que se enfiou. A fossa nova já foi chão que deu uvas. Não queremos essa coisa entorpecida, quebradiça, sem coragem. Queremos as nossas músicas, a nossa música de volta. Precisamos da intervenção da música, da vida que ela tem e da vida que nos dá. Renasce a música e renascemos nós. Precisamos todos de renascer já!

Manifesto ecofágico

Boa tarde, meus caros. Espero que a anunciada Primavera vos traga saúde e esperança renovada. Hoje falo- -vos da natureza, de fauna e de flora, raposas, lobos, gamos, ginetos e javalis. Vai fazer um século que o manifesto antropofágico despoletou um movimento modernista brasileiro com o mesmo nome, inspirado no surrealismo francês de André Breton, para centrar a expressão artística na brasilidade, nas suas raízes indentitárias ameríndias, desprendendo-se das estrangeiras influências europeias e norte-americanas. Daí esse canibalismo, essa deglutição do Outro que o nome sugere. A antropofagia trasmontana de hoje não tem nada de surrealista, mas sim de ultra ou hiper-realista. Também não é bem antropofágica, porque não se trata de homens que comem outros à refeição, mas sim de naturofagia, biofagia ou ecofagia, ou seja, a natureza a dizer que o homem está ali um bocado a mais (ou a menos, na verdade). Às vezes costumo chamar à praça o académiquês no qual hoje em dia tudo consegue caber, mas, fora de brincadeiras, não sei qual a terminologia, mas estou certo de que haverá algum ramo da ciência que estude estas coisas. Temos por exemplo o caso de Chernobyl, conhecido por, depois da debandada das suas gentes, albergar agora uma vida natural única e vigorosa em termos de espécies vegetais e animais que vivem sem qualquer influência de actividade humana. O mesmo fenómeno se passa numa zona ainda mais difícil de aceder situada na divisão entre as Coreias, onde poucos ousam pôr o pé, mas onde muitos juram haver uma biodiversidade igualmente rara e especial. Uma faixa de terra desmilitarizada e sem presença humana desde a Guerra da Coreia, nos anos 50, com quatro quilómetros de largura e 250 de extensão onde a natureza se instalou com toda a naturalidade sem passar cartucho a humana e desavinda vizinhança. No caso do Nordeste Trasmontano as pessoas das aldeias relatam a cada vez maior propagação de animais selvagens pelos termos e pelos povoados, animais esses que muitas vezes se passeiam pelas aldeias natural e despudoradamente, alguns até já vão comer da gamela que lhes dão. Nos dias de batida ao javali os caçadores dizem avistar muitas dezenas, centenas destes animais. Nesta relação e interação entre gentes e fauna, quando deixa de haver pessoas, a fauna e a flora começam a deglutir e a envolver o meio involvente. Os animais selvagens proliferam e os humanos passam a ser para eles apenas quatro gatos pingados. Para todos os efeitos esse é um dos sinais mais realistas dos tempos que as aldeias do Nordeste vivem. Antes costumava ouvir-se muito a frase “antigamente estes caminhos andavam todos limpinhos, não havia uma brossa, umas silvas, isto até brilhava, cheios de gente pelos termos”. Depois os caminhos dos termos começaram a ficar abandonados, sem gente para os escanhoar, e agora estamos num outro inverso ponto em que são os animais que devem fazer semelhantes comentários: “Antigamente não se podia andar nestes caminhos de tanta gente. Agora, meu filho, se quiseres ir até à aldeia jantar a comida do gato à porta das pessoas, não tem nada que enganar, sempre a direito pelo carreiro. Não vale a pena andares aí a arranhar as patas no meio dos touções”. Raposas, cervos, javalis, gatos selvagens, etc., vivem tempos de liberdade. Tem a sua beleza, mas também tem os seus perigos e prejuízos. As aldeias do Nordeste Trasmontano fazem-se cada vez mais deles e cada vez menos de pessoas. Na perspectiva biológica e ecológica, e na perspectiva do PAN, é algo de enorme riqueza e singularidade. Na perspetiva demográfica e trasmontana, em termos de presença humana, é um bocado triste porque a natureza está literalmente a morfar ou a antropomorfar as pessoas e as suas pequenas comunidades. Pegando num termo muito ligado a Trás- -os-Montes, celebrizado pelo insigne poeta, estamos perante um telúrico-morfismo em que a terra enquanto elemento vivo, está a engolir os da terra enquanto elemento filosófico. Sendo que o elemento filosófico são as pessoas e sem elas há muitas coisas bonitas de serem apreciadas neste mundo, mas não filosofia nem outras formas que tais de ocupar o tempo. A natureza a ganhar espaço ao homem, um movimento cíclico, uma segunda parte de um jogo em que o marcador revira a favor da fauna e da flora. A terra a ir para as mãos de quem a trabalha. Há no Nordeste municípios de vastas centenas de metros quadrados com quatro, cinco mil pessoas. Na China isso pode perfeitamente ser a população de um prédio ou dois. Que o mundo é feito de desequilíbrios nao é novidade para ninguém. Que passados tantos anos não consigamos fazer grande coisa para inverter ou sequer impedir o acentuar desses desequilíbrios também não, mas é decepcionante. É urgente o amor e é urgente o equilíbrio, mas a questão que se coloca é sempre a mesma: como? Se o Polígrafo fosse investigar e analisar a veracidade da seguinte afirmação “O ser humano nas aldeias do Nordeste Trasmontano é um elemento em francas vias de extinção”, o veredito final seria: “Falso, mas...”. Um saudoso abraço a todos e muita saúde!

As quadraturas da liberdade

Boa tarde, meus caros. Que estas palavras vos encontrem com saúde e de bom ânimo. Hoje venho divagar sobre essa coisa onírica da liberdade. No outro fim de semana num restaurante estávamos à mesa umas quantas pessoas. Tal como começa a anedota, tinha o espanhol, o inglês, não tinha o francês, mas tinha representada várias nacionalidades como estado-unidense, brasileira, argentina, mexicana e alemã, entre outras que por ali andavam. Estávamos a falar de liberdade, na China, na esplanada multicultural de um restaurante propriedade de um italiano de Milão numa noite temática de comida mexicana preparada por um comum amigo de Guadalajara. Conversou-se entre tacos, cervejas e charros negros, os charros são os cóbois do México, ciosos da sua cultura charra ou charreria, já os charros negros não são mais do que o nome que os mexicanos dão a tequilha com coca-cola. A páginas tantas a conversa foi parar aos actuais e globais lugares comuns, as vacinas, o futuro, o mundo e os cantos do mundo de cada um. Falou-se também da liberdade e de liberdades... É difícil falar destes temas nestas linhas e fazer compreender plenamente estes tópicos pois no Ocidente existe um desconhecimento quase absoluto sobre a China e muito mais sobre a China de hoje. Isto digo eu e diz um sinólogo francês chamado François Jullien que tem também a expressiva e concludente frase “enquanto para o pensamento europeu a liberdade é a última palavra, para o Extremo-Oriente é a harmonia”. Esta afirmação ajuda a compreender os tempos que a Europa e o Extremo-Oriente vivem. Enquanto a Europa tem vindo a esforçar-se por preservar a liberdade como valor fundamental ainda que a harmonia (e o resto) decline e seja alvo de diversos tipos de ameaças, por outro lado o Extremo- -Oriente funda-se na harmonia como condição basilar de estabilidade e progresso ainda que algumas liberdades individuais tenham de dar o corpo ao manifesto e ser secundarizadas neste processo. São valores culturais, fundamentais, embora consideravelmente diferentes e às vezes contrários na forma de conceber e viver a sociedade. Por isso, aí quando se fala de China e restrições à liberdade, é sempre tudo por causa do regime, sendo na verdade tudo mais fruto da cultura intrínseca chinesa, inclusive a vigência do próprio regime. Uma visão eurocêntrica e coitadinha do mundo que não procura realmente conhecer o Outro, mas que parte sempre do princípio que os outros querem fazer as coisas à europeia, e se não o fazem é porque não podem, coitados, eles bem queriam ser em tudo tão mais- -que-perfeitos quanto nós. Actualmente na China as fronteiras continuam fechadas, entram os nacionais e os poucos estrangeiros que conseguem entrar no país. Na verdade não é que esteja fechado, a questão é que quem entra tem de cumprir quinze dias num hotel mais uma semana em casa. Sem excepções para ninguém, nem para diplomatas. No entanto, apesar deste filtro de três semanas engaiolado e a pagar o hotel do seu bolso para quem quiser andar livre cá dentro - tal como se faz na Austrália e em grande partes dos países do Oriente - a vida aqui corre absolutamente normal desde Abril do ano passado, tirando o requerido uso de máscaras em alguns locais. Deste modo, a pergunta que se colocou à mesa foi: o que é a liberdade? É querer andar a circular à vontade, porque é um direito que me assiste, quem é alguém para me impedir ou me encerrar num hotel, o que eu mais preciso no meio de uma pandemia é de viajar, na verdade de escarrapachar fotos no Instagram num sítio coiso, #life is a trip, respeitem a minha privacidade, era o que faltava num país democrático de plenos direitos quererem beliscar tamanhas conquistas... para depois acabar por ficar um país parado ou a meio gás, encerrado em casa e com as implicações todas que vocês conhecem melhor do que eu e que tantas consequências tem na vida, na economia e na saúde física e mental dos cidadãos? Quem tem mais liberdade, somos nós na China em que a normalidade já vai fazer um ano e nos podemos juntar e conviver à mesa de um restaurante ou são as pessoas em grande parte da Europa que em nome da liberdade são depois obrigadas a ter de vivê- -la dentro da quadratura das suas casas, da quadratura dos computadores, da quadratura dos postigos, da quadratura de tudo? Fica a questão sem mais juízos de valor. Antes que coloquem rótulos não se trata de defender certas concepções políticas, aliás, nessa mesa éramos todos nacionais de democracias bem fundadas, pessoas de esquerda, pelo menos as que conheço melhor. Trata- -se apenas de fazer concessões, de prescindir um pouco nestes tempos completamente invulgares para não andar na intermitência da liberdade, na cepa torta do hoje oito, amanhã oitenta. Praticar uma harmonia mais preventiva, abdicando de uma ou outra liberdade individual para não ter de desembocar na desarmonia de esgotantes estados de emergência. Não perdia nada a China em abrir mão de algumas liberdades individuais das suas pessoas e não faria mal à Europa trabalhar mais a harmonia colectiva dos seus cidadãos. Educamos os filhos com regras, com responsabilidades, mas a Europa não. Só liberdades, quase zero responsabilidades. Chegamos ao cúmulo dos dias de hoje de uma pessoa até se sentir fascista ao pedir uma ou outra regra ou concessão para a Europa, quando a questão é pecisamente a contrária. É dessa falta - desse só se poder abrir ou dar e não se poder corrigir ou recuar um milímetro que seja - que brota o perigo, o descontrolo, o descalabro. As democracias têm de agir e intervir, democraticamente, antes de males maiores. Dizerem “presente” para não dar tréguas a ameaças que se vão anunciando e alimentando da descrença. Tal como disse uma senhora, Grace Blakeley, há dias na Visão “a democracia não aguenta disparidades tão grandes. As pessoas tiram o seu apoio ao sistema e a legitimidade erode-se. Vejo muitos jovens a dizer que não acreditam na democracia, no capitalismo ou no liberalismo.” As pessoas, os jovens já não acreditam em nada e já começam a estar por tudo. Por estes dias, numa das suas mais recentes obras de rua, Banksy pôs o ladrão a escapulir-se da janela de um prédio com um cesto de comida, já não busca o dinheiro, as jóias ou televisor, mas comida. Uma imagem que diz tudo. Vivemos nos extremos, com disparidades económicas, sociais, disparidades entre os direitos e os deveres que não páram de aumentar e os partidos políticos a brincar aos moinhos de vento, sem fazer nada para mudar o rumo das coisas ou sequer para mostrar que não são instituições viciadas, narcísicas, a caminho da obsolescência. É triste e é perigoso. Enfim, tudo o que o mundo precisa é de equilíbrio. E também de mundivivência, de ver outras coisas, o outro lado, de se mostrar disponível para aprender com o Outro. Isto não é mais do que um desabafo, acaba por ser também para isso que estes textos servem, não espero que a natureza das coisas venha a mudar e muito menos que me queiram entender ou concordar com o que digo. Haja saúde e esperança, mas também acção. Um grande abraço!

O ano do boi e os nomes das vacas

Bons dias, forte gente. Que estas palavras vos encontrem com saúde e com o ânimo e os corações ao alto para enfrentar mais esta hibernação. Hoje venho falar-vos de vacas, esse animal que faz parte do nosso dia-a-dia, seja por causa do leite e demais lacticínios, das costeletas ou da posta à mirandesa. Um animal que sempre nos deu o corpo ao manifesto, ora em vida, entregando-se aos trabalhos forçados dos campos, ora depois da hora do seu abatimento, para satisfação dos prazeres de comensais não vegetarianos. Excepção feita às que tiveram a sorte de vir ao mundo em algum el dorado hindu. Mas antes de passar à vaca trasmontana, começo pelo boi chinês. O novo ano chinês começa na segunda lua nova do ano, o que calha sempre entre meados de Janeiro e meados de Fevereiro, sendo também conhecido como Festival da Primavera. Em termos da sociedade civil também utilizam o nosso calendário gregoriano, mas para festividades usam o calendário lunar. Uma curiosidade do calendário chinês é que quando há estas celebrações ou festivais (da Primavera, de Outono ou de Inverno), por se basearem nas fases da lua, normalmente a mudança climatérica própria de cada estação sente- -se de forma mais evidente. Digamos que bate mais certo, não tanto como no nosso em que o Verão costuma derrapar até Novembro ou o Inverno quase até Maio. A forma de se celebrar não difere muito do nosso Natal, muitos jantares de amigos e de trabalho durante esta quadra, conviver em família na noite de ano novo e no primeiro dia do ano, e um período de dez dias em que tudo literalmente pára. Segundo o horóscopo chinês a cada ano corresponde um de doze animais devido a uma lenda em que os animais mais estatutos, pelas suas diferentes características, conseguiram atravessar o rio e chegar até junto do senhor Buda. Este ano que vai entrar é o ano do boi. Para quem liga a signos, que não eu, é idêntico ao nosso signo touro, nomeadamente, a força, a determinação, o empenho, a capacidade de trabalho, a resistência, e a tenacidade a toda a prova. Qualidades que até não vêm a despropósito. No fundo é aquilo que os signos fazem que é dizer- -nos o que precisamos de ouvir e aconselhar-nos o caminho que idealmente devemos seguir. Estes bovinos caminhos fazem-me seguir a lembrança muito pueril de uma vaca grande e misturada que não era totalmente mirandesa e que apesar de forte e trabalhadora era má como as cobras, domesticada mas pouco (de tal modo que eu até julgava ser um touro). Uma das ténues recordações que guardo de meu avô paterno, foi de um dia em que ele a estava a tirar da loja e ela esperneava e escorneava, indomável, não sei se por feitio ou se por ter tido algum vitelo há pouco tempo. Certo é que me lembro desse episódio porque inclusive feriu o meu avô na face de tão desgovernada. Ao que o meu pai acrescentou outro, que certa vez numas férias, já bem adulto, a dar uma ajuda aos pais revisitando o tempo de ir com as vacas, teve de dar corda aos sapatos e saltar um muro à peixe por causa dos bravios e repentinos maus humores da dita cuja cujo nome agora não me lembro. O destino não poderia ser outro se não vendê- -la quanto antes, pelo que foi, creio, a última vaca que meus avós tiveram. Estes animais sempre foram chamados pelos nomes que se lhes davam, desde o tempo em que um vitelo era tão ou mais importante do que um filho para a economia de uma família e o dono dormia ao lado da vaca quando estava para parir, para garantir que ambos não perdiam o seu precisoso bem. Apontava-se num caderno o dia em que a vaca ia ao touro, contavam-se as nove luas, depois os vitelos tratavam-se a pão de ló e vendiam-se por voltas dos cinco meses. Ouvi contar que vinham os bezerreiros com umas carteiras enormes cheias de dinheiro e que compravam os vitelos por umas quantas notas. “Vale 12 notas”, diziam, enquanto os donos regateavam para ver se chegavam às catorze ou quinze. Nesse tempo os bezerreiros andavam a pé, muitos vindos do sul, até do Algarve, e levavam o gado com paragens programadas onde pernoitavam, comiam e bebiam. Enfim, outros idos tempos, outros fardos para carregar. Os fardos vão e vêm, mas os nomes ficam como os que ainda hoje as vacas possuem, por exemplo as belas e autóctones vacas mirandesas, e que se podem ver nos eventos a elas dedicados como feiras ou concursos. Se quisermos passar uma demão para transformar o nome das vacas em académiquês, registe- -se esta área de estudo como “onomástica bovina trasmontana” elaborada com o apoio de meu pai na investigação de campo. Antigamente as vacas tinham nomes que lhes eram dados pelas suas características físicas: carriça ou carricica (pequena), malhada, morena, amarela, preta, castanha, roliça, cabana (como o lombo encurvado em baixio como uma barca, mais próprios dos cavalos, dizia-se vaca ou boi cabano); pelo seu feitio: amorosa (como a de um senhor que se montava na vaca e ia às feiras e a todo o lado com ela), marquesa, ratunha (que se escapava e ia roubar comida aos lameiros dos vizinhos colocando o pastor em trabalhos...); pela origem de onde vinham ou onde tinham sido compradas: mirandesa, vileira, romeira; nomes de motivação campestre: cereja, perdiz, rola, pomba, rosa, tomilha. Muitos mais se poderiam descortinar. Havia também as que herdavam os nomes de família, ou seja, certo dono costumava atribuir o mesmos nomes às diferentes bovinas gerações que lhe passavam pelos jugos. As vacas têm nomes e merecem a nossa maior consideração, palavras de apreço para além do bem ou mal passado. Um agradecimento às vacas, e ao tanto que nos dão, e que a força do ano do boi esteja connosco para levarmos tudo a eito sejam quais forem as adversidades. Um forte abraço!

Portugal, Portugal

Boas tardes, meus caros. Escrevo para o distrito de Bragança onde o deputado do Benfica teve a segunda maior votação. Não vos condeno o feito, nem vos gabo a sorte. Compreendo-vos. Um país que vos olha ainda mais de lado. Votastes num político anti-sistema do sistema até à ponta dos cabelos que subiu os polidos degraus dos jotinhas, dos padrinhos e dos cristãozinhos perfeitos. Não os cristãos que como Cristo se sentavam à mesa com ministros, putas e pulhas e em todos procuravam a redenção. Não do Cristo proto- -feminista do atire a primeira pedra de há dois milénios, mas dos cristãos inquisidores, da perseguição e da tortura, dos que mandam Cristo às favas e estão mortinhos para que o Papa Francisco tome o mesmo caminho, dos que querem fazer valer a constituição da instituição para ver o mundo bem dividido entre beatos e satanáses segundo as inquestionáveis e divinas leis dos antigos regimes. Vá de retro esse catolicismo! Como braço direito e fiel cardeal Cerejeira, o inatacável presidente do Benfica para completar a bendita neo-triologia deste país: CMTV, Benfica e Fátima. A família que seja monoparental, monofilial ou até monossexual desde que eles não se cheguem para o meu lado. A força do meio de comunicação mais impactante de Portugal aliada às duas instituições mais influentes do país. O deputado criado pelo futebol e pelo espaço de opinião que, como os da sua estirpe, tem um percurso muito do bem, mas se expressa em oco português tasqueiro. Perspicácia bastante para o seu plano de chegar ao poder pelo caminho mais rápido entre os pingos da miséria, da falta de ideias e de rumo. Velejando mais à bolina de quem o repugna, do que de quem o apoia, que lhe faz a vontade de o colocar invariavelmente na ponta da língua e na crista da onda. Mas a culpa não é dele. O caminho foi aberto por nós, que confiámos tudo à classe política como se eles fossem feitos de matéria diferente da nossa. Como se quando eles dizem povo, não se estivessem nas tintas ou sequer se verdadeiramente o conhecessem. Como se não quisessem, mais que tudo, remediar as próprias contas bancárias como todos os outros, que ideologias são muito bonitas, mas não pagam dívidas nem enchem a barriga. Como se quem fosse hoje para a política não fosse sobretudo por isso, e entre tantos, quando as coisas dão para o torto, valham- -nos os independentes que nos acudam, seja na Economia, na Saúde ou na Educação, porque eles disso percebem pouco. Como se Portugal não estivesse hoje ainda mais binomizado entre Lisboa e Porto (mais o Allgarve nas pontes e feriados) e o resto do país, essa cambada de labregos, Terra Nossa, que pouco mais servem do que para continuar a ser satirizados, sendo que às vezes sai de lá um Tino que, grunho, consegue quase tanto como os políticos ultra-profissionais, tendo pelo menos o bom-senso de não fazer publicidade atrás de publicidade daquilo que não se quer comprar. Como se Portugal fosse só um par de meios urbanos, ou a América só Nova Iorque, e no dia das eleições abríssemos todos muito a boca de espanto porque não é tudo como nos Instagrams e afinal não pensamos todos tão bem como os John Stewarts deste mundo. Com esta é que não contávamos, país de burros, país de incultos, é o que é, culpa dos parolos de além A2. Como se os partidos não vivessem tão alienados no seu exclusivo mundinho e não nos governassem em modo “para quem é bacalhau basta”. Como se a direita não estivesse ruída e a esquerda pelo mesmo caminho, batendo-se quase só por moinhos de vento com fraquinhos moleiros sem a mínima ideia de como produzir farinha para o povo ter pão. Como se ainda alguém passasse cartucho a essa história das direitas e das esquerdas de quatro ou cinco gatos pingados, capazes de sequer convencerem um jovem a sair de casa para colocar um papel dentro de uma caixa, num país que não sendo para velhos, são eles que ainda vão votando. E fazem-no, muitas vezes, mais em memória de não o terem podido fazer no passado do que propriamente pela vontade de o fazer no presente. E, amigos brigantinos, quando com tudo isto votais no deputado da CMTV, os capatazes ainda carregam mais em vós, enfiam a cabeça e estalam com raiva o chicote nas vossas costas provincianas, sois vós os maiores culpados como se quisessem saber de vós ou sequer tivessem muito melhor para vos oferecer. Na única vez que sois necessários para alguma coisa, nem uma cruz sabeis pôr no sítio certo. Para isso, morte ao interior moribundo, que vá morrer (ainda mais) longe de uma vez. Já Fernando Namora escrevia, depois da revolução, mas ainda longe da CEE, que enquanto tivéssemos mentalidade de assistidos nunca saberíamos fazer cumprir a revolução. E aqui continuamos nós a assistir à desassistência, desistidos, à espera que alguém mexa uma palha para prontamente comentarmos o que foi feito. E com esse muito nosso desporto de comentar e opinar, que além de desporto passou a catapulta para o poder-poleiro, lavamos as mãos no que faz o governo, todo-apoderado e tudo-criticado, mas a caravana passa sempre imperturbável. Nisso não temos qualquer diferença em relação ao povo chinês que delega tudo no partido único, que remédio, com a diferenca que não pode refilar. Residindo nesse apático estrebuchar, a principal democrática diferença. Somos um país que se diz livre de liberdade dependente de terceiros. A liberdade filosofal como bola colorida entre as mãos de uma criança com o mundo inteiro pela frente mas que não sobrevive um dia sem a saia e o biberão da mãe. Haverá liberdade sem pão ou sem o que faz fazer o pão? É livre um país que aos 900 anos vive em casa dos pais e em tudo deles depende? A noite já vai longa para retóricas. De modo que nós que já não produzimos nem revoluções nem o resto, tirando talvez vinho, vivemos literal e pré- -historicamente do que a natureza nos vai dando, os campónios de chuva na horta, os cidónios de sol na praia. Quando a fome aperta, de mãos nos bolsos, assomamo-nos ao sítio do costume à hora marcada, ansiosamente à espera das bazucas de sopa que nos traz a europeia carrinha da Comunidade Vida e Paz, sem a qual não conseguimos pôr uma perna à frente da outra. E depois disso, muitos de nós não passamos sem a carrinha da metadona para recolher as bazuquinhas sem as quais não conseguimos dormir nem dominar os espíritos. E com isto, minha gente, boa noite que já é tarde, a conversa está boa mas vou à cama, deixa só ver o Facebook que antes era gatinhos e boas intenções e agora é só odiar e dividir, sempre a facturar a fracturar. E nisto perdi- -me nas horas, vamos dormir para amanhã tomar café, agora que já nem há postigo, Portugal, Portugal, amanhã é outro dia, sempre à espera, cada vez mais no fundo do mar, nação dolente e banal, da qual Portalegre, Bragança e tudo onde a maresia não alcança são o corolário do atraso de vida, não fazem cá falta nenhuma. Era vender tudo aos espanhóis para olival ou aos chineses para arroz. Mal por mal isto já é tudo deles. De maneiras que, caros bragançanos, não se iludam, a culpa é exclusivamente vossa e de outros como vós. Marquem na agenda, eles hão de voltar aí na próxima campanha eleitoral e fazer o frete com o melhor sorriso amarelo. Enquanto isso não espereis ser compreendidos, tidos ou achados, pois a culpa não é dos governantes, a culpa não é dos mesmos, da minoria que nos domina, a culpa nem sequer é de todos nós. Faz-se tarde, boas noites. Portugal, Portugal, venha o diabo e escolha.

Natal e alhos (sem bugalhos)

Bons dias, meus caros. Que estas palavras vos encontrem bem de saúde e devidamente abrigados do frio. Para ásperas gargantas tocadas por cortantes dias e geladas noites recomenda-se um chá bem adubado com cenoura, cebola e alguns dentes de alho. Uma espécie de micro- -caldo servido em chávena temperado apenas com uma ou duas colheradas de bom mel caseiro. Receita muitas vezes provada (de má cara e um tanto ou quanto à força) e comprovada por este escriba, e um dos inúmeros aproveitamentos das propriedades do alho. Aqui perto de mim há um restaurante particularmente frequentado pela classe operária, nomeadamente por trabalhadores da construção civil. São quem realmente faz a China. Não são os ideólogos nem mandantes, nem as classes médias e altas que quanto mais sobem mais se fazem depender das bases para as servirem e para lhes tornarem os dias mais fáceis e à medida das suas vontades. Quem faz a China que se vê hoje são todos os trabalhadores migrantes que deixam os seus para trás e estacionam numa obra o tempo que for necessário até que fique pronta e cujos direitos numa outra província mudam tanto ou mais como se tivessem emigrado para outro país, os que a todo o segundo levam e trazem comida e encomendas de motoreta ou carripana, os senhores e senhoras cantoneiros, electricistas, canalizadores, amas e mulheres-a-dias de todos os incansáveis dias da semana. De todos estes, e de muitos outros, destaco os homens da construção, enrugados e tisnados do sol e do pó que ao fim do dia se dão uma lambidela de água e se juntam em magotes, sentados em cima dos próprios capacetes das obras a fazer de banco, de cigarro ao canto da boca, a atacar algum caldo de hortaliça ou alguma talhada de melancia, trocando dois dedos de conversa ou simplesmente vendo passar os minutos que o sol leva a cair e o céu a descolorar- -se. Fonte de diárias e peculiares exposições fotográficas, mesmo aqui ao lado, para quem seja versado nas artes fotográficas. E agora, atenção que lá vai alho. O alho vai no tal restaurante em que cada mesa está apetrechada para quem goste – além dos frascos do tradicional e local jindungo e do molho de soja – com uma pequena malga cheia de dentes de alho soltos e por descascar. Dos dentes de alho à mesa da classe operária de hoje podemos viajar até à primeira greve da história feita por trabalhadores das pirâmides egípcias precisamente por lhes ter sido retirado o alho da alimentação diária em ano de má gestão das colheitas. Fazendo um esforço por evitar cair na tentação da Wikipédia e efectuando um périplo por sites com alguma fidedignidade, fui dar a um livro chamado “Alimentos com História” onde se pode ler que os egípcios acreditavam que o alho tinha até poderes sobrenaturais ou mágicos e que aquando da abertura do túmulo de Toutankhamon foram encontrados feixes de alho entre os tesouros destinados à transcendente viagem. Na Antiga Grécia atribuíam-lhe semelhante devoção, Homero serviu- -se de alho para que Ulisses se defendesse de pragas e encantamentos, os atletas usavam-no bastante no decorrer dos Jogos Olímpicos. Com o Império Romano o consumo de alho prosperou e era considerado, segundo o poeta Virgílio, “essencial para manter as forças dos soldados e dos homens que trabalham no campo.” Dos tempos das pestes negras do medievo persistem semelhantes mitos ou lendas, por exemplo em França e Inglaterra, de que famílias se terão salvo devido a confinamentos com abundante provisão de alhos. Ainda agora nesta pandemia também houve quem destacasse (e descascasse) os seus atributos preventivos. Toda uma história de íntima e constante relação entre um vegetal e a humanidade numa dicotomia trabalhadores-dentes de alho que continua actual e vigorosa. Alguma coisa há-de ter esta planta para ter andado sempre à mão de semear. E para tal, dizem os antigos que a melhor altura é o advento, algures por esta época do ano: “No Natal semeia o teu alhal”. Para os que já trataram da sementeira, que a colheita se avizinhe boa, para quem colhe do supermercado que não lhe falte alho para fazer companhia ao polvo e ao bacalhau que não se querem solitários na travessa. Atravessemos o que falta deste ano que não está para tradições e tenhamos esperança que o próximo não venha tão alheado. Aqui não há Natal, que é um dia tão útil como os outros, embora por esta altura se assinale também uma das maiores festividades da cultura chinesa na qual as pessoas se juntam para celebrar a chegada do Inverno. Traduzindo o nome é mesmo “Festival do Solstício de Inverno” em que os membros da família se reúnem e ao longo da noite vão fazendo e comendo uma espécie de raviolis com diferentes recheios e com o alho como ingrediente de destaque. Nós humanos chateamo-nos por causas das nossas diferenças, das identidades, das religiões, das politiquices, mas o que nos conduz é a verdadeira natureza. A nossa natureza, a natureza que nos doma, que nos apequena e iguala, contra a qual pouco podemos e da qual absolutamente dependemos. As fases da lua, o sol, da água, as plantas que nos acompanham, as limitações do nosso ser. A Natureza que nos ensina, com a qual aprendemos e sobre a qual transmitimos intergeracionais conhecimentos. Por entre esta original humanidade que nos une e que vive connosco embora por vezes não a consigamos ver de tão ocupados e distraídos que andamos, um grande e intercontintental abraço de amizade e consideração. Que o espírito natalício inspire o que há de melhor na natureza de cada um e de todos nós. Feliz Natal onde e como quer que te encontres. Não te esqueças de que continuamos juntos. Saúde!

Pós e contas

Boas tardes, forte gente. Espero que a castanha esteja a pingar do jeito que esperavam e que o esforço para a apanhar seja bem recompensado. A economia trasmontana agradece. Como é natural as pessoas têm-me perguntado como está a situação do vírus aqui pela China. Como sabem deixei de falar sobre este tema por não haver nada que um leigo possa acrescentar. Já toda a gente está farta de saber o que isto é e o que há a fazer, de maneira que não vale a pena ser mais uma voz a insistir nas mesmas pesarosas e batidas teclas. Enquanto foi uma realidade que apareceu primeiro por estas bandas podia valer a pena tentar alertar as pessoas, mas a partir do momento em que se tornou uma questão global e quotidiana dei por findado o meu contributo para esse cansativo chover no molhado. É dar tempo à ciência para percorrer o seu caminho e irmos todos cumprindo o nosso papel para lidar com esta realidade. Mas hoje abro uma excepção após todos estes largos meses porque tenho recebido muitas mensagens a perguntar sobre a situação por estas bandas. Ora bem, aqui na China não tem havido Covid. A vida decorre normalmente como antes. Tirando as máscaras obrigatórias nos transportes públicos, umas medições de temperatura aqui e ali... Honestamente, quase só me lembro da existência do Covid quando leio as notícias de Portugal e vejo que o país e a Europa estão novamente mergulhados num epidémico caos. Não é que aqui se viva exactamente um pós-Covid porque ninguém está em condições de decretar “pós” coisa nenhuma, mas é uma vida normal quase como sempre foi. A sombra paira, continua a haver muita gente a usar máscara, houve uns casos no mês passado (cento e tal) em Qingdao, mas a coisa ficou por ali, até porque os nove milhões de habitantes da cidade foram todos chamados a fazer testes. Mas então o que é que a China tem ou faz para que não haja Covid e se possa sentir mais segurança ou viver mais próximo da tão almejada normalidade? Simples, a China continua com as fronteiras (praticamente) fechadas. Desde Março até hoje pouquíssima coisa mudou em termos de circulação de pessoas nas fronteiras. Os cidadãos nacionais podem regressar e têm regressado muitos, principalmente vindos dos EUA. Tenho conhecido bastantes chineses a viver lá há muitos anos que me dizem que o país está um caos - violência, insegurança, hostilidade - neste momento é uma sombra de si próprio e muitos chineses estão a voltar à procura de refúgio, na esperança de que a trumpestade passe e a coisa volte a assentar. Para os estrangeiros, o regresso à China é bem mais difícil, muito burocrático, só para quem tem visto de trabalho ou de negócios e mesmo nesses casos as instituições têm de superar montanhas de burocracia para conseguir trazer trabalhadores estrangeiros de volta. Os estudantes internacionais, por exemplo, ainda estão impedidos de regressar à China sem data anunciada. Há pouquíssimos voos e poucas companhias autorizadas a fazer voos internacionais, os aeroportos estão às moscas e os poucos voos que há estão a preços proibitivos. Ao chegar, uns e outros, estrangeiros e nacionais, têm de fazer duas semanas de quarentena em hotéis designados para o efeito, normalmente próximos do aeroporto. Em alguns casos as pessoas depois desses quinze dias ainda têm de ficar mais uma semana em casa, se posteriormente tiverem de se deslocar para outra província (praticamente só os aeroportos de Pequim e Xangai estão com voos intercontinentais). Mais, agora antes do embarque são exigidos dois testes feitos até 48 horas: o teste do Covid e também o teste serológico. Caso algum deles dê positivo, a pessoa não pode embarcar para cá. De maneira que a moral da história é muito simples: aqui não há Covid porque as portas estão (continuam) fechadas a sete chaves. Não as confinadas portas de casa, mas as portas do país. E, segundo parece, pelos menos é essa a percepção das pessoas, não vão abrir tão cedo. Não enquanto não se controlar a pandemia pelo mundo fora ou enquanto não houver uma vacina para proteger, segundo estimam, cerca de 20 a 25% da população. Diria que a normalidade, ao que à circulação de pessoas diz respeito, não vai chegar antes de 2022. E pronto, no caso do Covid não há mesmo milagres. Há apenas medidas que se podem ou não tomar. Antes que alguns comecem desde já a dar azo ou a corroborar certas teorias, é preciso dizer que não só o país está vedado como o Covid trouxe um rombo gigantesco. Aqui tudo é maior em escala. A economia começa a recuperar, mas largos milhares (milhões?) de pessoas ficaram sem trabalho, imensos negócios foram ao ar, muita gente por conta própria foi trabalhar para outrem, outros mudaram de ramo profissional, as famílias perderam poder de compra, alunos ficaram sem poder continuar a estudar. E aqui as pessoas não tiveram direito a lay-off, foi mesmo chapa zero durante meses a fio... Eu próprio, passe o pleonasmo, conheço gente que se enquadra em todas essas situações e tenho ouvido outras tantas histórias desta natureza, por isso embora desconheça números oficiais, não tenho dúvidas da abismal dimensão destes problemas. Por tudo isso, esta é uma normalidade ainda com um pós muito desconfiado e com imensas contas à vida para fazer. Um abraço e bons magustos a todos, na medida do que o bom senso dos novos tempos possibilitar.

Carinhos de ferro

Boas tardes, boa gente. Que o Outono vos traga saúde, paz e muita castanha. Aqui há tempos foi notícia uma lasciva aventura a três que uns jovens tiveram na carruagem de um comboio da linha da Azambuja ou linha do Norte (de Lisboa). Nao é propriamente uma notícia, é uma decorrência de todo e qualquer um andar com um câmara de filmar no bolso. É o grande irmão das democracias, em que andamos todos sempre de olho no outro, de olho em tudo. São coisas que sempre aconteceram entre as juventudes. Que lance a primeira pedra a geração que nunca fez destas coisas. Hormonas incontroláveis, doses de risco e insensatez sempre andaram lado a lado e sempre assim hão-de andar entre corpos e mentes jovens. A questão é que hoje em dia há sempre uma câmara a fazer filmes que não interessam nem favorecem ninguém. Não favorecem os actores, muito menos os filmadores e nem sequer quem os vê. São coisas que podem acrescentar alguma coisa à felicidade de quem as pratica de bom grado, mas que não acrescentam absolutamente nada na perspectiva da partilha nem a nível de filmografia. Por outro lado, ninguém refere aqui o machismo ainda predominante, mas é sempre a mulher que fica mal nestas coisas quando todos os actores estão em pé de voyeurística igualdade. Os homens talvez até saiam como galifões. A rever esta forma de olhar para as coisas no âmbito da luta pelas igualdades. E ponto final parágrafo em termos de notícias que não o deveriam ser. Escolhi este apontamento porque nesta linha de comboio passei muitas horas da minha vida durante muitos anos, ora nos comboios, ora nas estações à espera deles. Primeiro para a escola secundária, depois para a universidade. Não sei como estão as rotinas agora mas não devem ser muito diferentes. Lembro- -me das mulheres que faziam crochê, dos revisores com quem alguns às vezes tentavam evitar cruzar-se, dos que adormeciam até ressonar, das horas de ponta em que não se cabia, das horas mortas ou do último comboio, quase sempre às moscas. Muitas vezes o último comboio era uma espécie de carruagem prestes a transformar-se num monte de abóboras tal como na história da Cinderela, na medida em que era o horário do último comboio que marcava o final da noite e o regresso a casa. À data não se tinha carro nem dinheiro para táxis. No comboio fazia os trabalhos de casa, entabulava conversas com novas pessoas, viajava sentado ao lado dos vizinhos a caminho das mesmas rotinas, uma vez lembro-me que comecei um namoro, outra vez viajava encostado à porta do maquinista com o combioo à pinha e ele de repente abriu-a de dentro sem ninguém contar, de modo que eu rebolei lá para dentro da cabine, para junto dos comandos da locomotiva. Depois havia sempre os quinze minutos a passo largo para se chegar à estação a horas, às vezes era preciso fazer uns bons sprints para não se perder o comboio. E quando se perdia que remédio se não esperar sentado pelo próximo. Toda uma vida de histórias passadas entre suburbanas idas e vindas. É interessante o facto de esta ser uma realidade por vezes difícil de explicar em países territorialmente muito maiores que o nosso. Por exemplo, aqui na China, em que os comboios não desempenham esse papel de parar a cada 5 minutos para largar e recolher pessoas, num pára-arranca de locais e locaizinhos em que uma pessoa vai indo aos soluços. Aí às vezes o comboio sai da estação, nem chega a dar uma acelaredela e já está a travar para poder parar na próxima. Aqui quando arranca só pára, no mínimo, aos cinquenta quilómetros de cada vez. Essa função suburbana que o comboio tem na Europa, equivale aqui ao papel do metropolitano, por norma com linhas muito mais extensas. Também tem a ver com as cidades em si, não só em dimensão, mas no modo como as pessoas vivem e a cidade se organiza – ou se desorganiza na perspectiva europeia do que é uma cidade e do que são os seus subúrbios. O conceito de subúrbios é bastante diferente nas grandes cidades asiáticas ou sul-americanas em que tudo é uma mesma massa, uma mesma cidade, um mesmo extenso espaço com diferentes zonas. Não há subúrbios marcadamente definidos, em que se percebe pela arquitectura ou pelo ambiente que se está num sítio com uma face e um ritmo diferente, sem grande vida, que basicamente serve para dormir (dormitórios). Lembro-me de ter esta conversa aqui uma vez com pessoal de Barcelona e da Cidade do México e falávamos precisamente sobre isto, sobre esta mudança bastante evidente entre o espaço da cidade e dos subúrbios na Europa que não ocorre noutros quadrantes em cidades muito maiores e mais populosas. Enfim, mudarão as cidades, mudará o transporte, haverá histórias semelhantes, mas quanto ao papel suburbano do comboio não é a mesma coisa, pois é um meio de transporte com características e com uma história única e incomparável. Para acabar, um último apontamento. Uma vez voltava da universidade e vinha a ler ou a estudar algo. Ao passar pela estação de Braço de Prata, junto a Santa Apolónia, pergunta-me um senhor de uma certa idade que estava sentado mesmo à minha frente: “tu que és estudante, deves saber o seguinte: quem é mais rico, Lisboa ou o Porto?” Uma pessoa sabe sempre que estas perguntas atiradas assim trazem água no bico, mas eu lá disse “será Lisboa”, ao que o senhor respondeu: “Errado. É o Porto porque enquanto Lisboa tem um Braço de Prata, o Porto tem um Rio Douro”. Muito bem, disse eu, tenho de continuar a estudar mais para chegar a esse nível de sabedoria. Comboios rápidos, às vezes voadores cruzando países, outras vezes comboios inamovíveis que parecem teimar em não nunca mais chegar onde devem. Os comboios chegam e partem, num cá para lá predestinado de “vai e vens”. Só o tempo avança impassível sem parar em estações nem apeadeiros. Caro amigo, um abraço bem forte para ti porque a vida é hoje