O flagelo indefensável dos refugiados, no romance Uma Bondade Perfeita, de Ernesto Rodrigues (com a qual o escritor vence o Prémio Pen Clube da Narrativa 2017)

O amor é forte. / Que coisa forte que é a loucura. / Porque a
loucura canta minada de portas. / Nós saímos pelas portas,
nós / entramos para o interior da loucura.

Herberto Helder (Cruz, 2004: 349)

 

O mundo dobra-se ao peso da injustiça.

(Rodrigues, 2016: 170)

 

O ato de ler a prosa de Ernesto Rodrigues implica, por parte do leitor, ter tempo, para ler devagar, demoradamente, pois, só assim, como lembra Herberto Helder, no poema “Para o leitor ler de/vagar”, o leitor apreenderá os temas, os motivos e as ideias que enformam as obras literárias.
Sem dúvida que Ernesto Rodrigues, quando escreve, tem em mente, não o protótipo do leitor atual, mas, pelo contrário, um lente que “descanse” na lentidão da leitura, como única via de fruir e de apr(e)ender a palavra do escritor.
Nos tempos hodiernos marcados pela vertigem alucinante da (des)informação e da “inexistência de tempo”, este autor exige-nos a tranquilidade de espírito, a leitura atenta e demorada, como um meio libertador da angústia presente. Por conseguinte, o romancista, numa atitude de pertinácia perseverante, consciente e intrépida, convoca o leitor para uma leitura reflexiva, num ambiente de silêncio difícil de encontrar na atualidade, como assevera George Steiner: “o silêncio tornou-se um enorme luxo. Os jovens têm medo do silêncio”. E acrescenta: “o que vai acontecer às leituras sérias e difíceis?” (Steiner, 2011).
Ernesto Rodrigues tem, pois, plena consciência do “sacrifício” que pede ao leitor, intuindo, ainda, as mesmas dificuldades elencadas por Steiner, ao afirmar: “quanto à literatura pesada, deixá-la ficar. Dá dores de cabeça e cansa os músculos”. Pois “as linhas prenhes de prosa derreiam boas intenções” (p. 67).
Para o intelectual francês, “a literatura escolheu o domínio das pequenas realizações pessoais”. Ora, pelo que já se afirmou acima, a postura do autor de Uma Bondade Perfeita não corrobora essa prática, mas, pelo contrário, numa atitude completamente antagónica, não desiste de interrogar a sociedade, questionando-a, com o fito de levar o leitor à autognose.
Uma Bondade Perfeita é, à semelhança da anterior produção romanesca do autor, uma obra fortemente estruturada, onde a trama é pensada de forma holística, para que o mais ínfimo pormenor ocupe e sustente de forma harmoniosa a estrutura global do romance.
O livro encontra-se dividido em duas partes: I – “A NOITE DO CONVENTO”; II – “A VIRGEM E O MENINO”. A primeira subdivide-se em três capítulos, obedecendo rigorosamente à mesma estrutura interna. O número que abre cada capítulo apresenta uma breve contextualização do mesmo, a que se seguem quatro entradas devidamente intituladas. A segunda parte apresenta mais um capítulo, funcionando o quarto como desenlace.
O título da primeira parte remete o leitor para a grande analepse, narrada pelo frade ex-jornalista Filodemo, que concilia, de forma inteligível, os segmentos narrativos. O da segunda remete o leitor, auxiliado pelas imagens da capa, para a problemática central do romance, o drama dos refugiados. Assim, só próximo do final da obra se dá o (re)encontro entre mãe e filha separadas à nascença. Este enleio, segundo pensamos, poderá corroborar a opção do autor pelo Amor/Bondade que, como lembra a epígrafe de Herberto Helder, luta perenemente contra o Mal/Loucura.
A escrita do autor é pautada por um despojamento assinalável, muito próxima da poesia, musa que o autor também venera, cingida ao essencial, reduzida apenas ao osso. Aliás, esta ars narrativa é defendida e cultivada por outro grande vulto da literatura, também transmontano, José Rentes de Carvalho.
Salientamos, ainda, a recuperação da técnica queirosiana de utilizar os verbos com um significado diferente, alargando, assim, o campo semântico dos mesmos. Este recurso permite, também, realçar a cáustica ironia, marca indelével do autor, que valora esteticamente o texto. Vejamos alguns exemplos: “um silêncio roçou” (p. 33); “mas algumas províncias ainda rezingavam” (p. 114). E, por fim: “hienou ela” (p. 186).
O processo narrativo assenta na analepse (cf. Reis e Lopes, 1996: 29), como se deduz das palavras iniciais do romance, pronunciadas por Clemente: “— quero contar como fui convidado a matar minha mãe” (p. 9). Este repto é aceite pelo frade/Filodemo também ele narrador, “peguei na história, cujo fim estava por horas” (p. 10). E “agora, conto eu” (p. 134).
Deste facto resulta que, em termos diegéticos, no romance são audíveis duas vozes. Quem comparece no convento é Clemente (p. 20), com o propósito de salvar a mãe, Alcina, acusada e presa injustamente. Com esse desiderato, expõe o que viu ao frade/Filodemo. Este, por sua vez, passa a narrador apoiado nas revelações de Clemente, na primeira parte da obra, e no caderno de Ágata, na segunda, “a letra irregular do diário conta a sua via dolorosa” (p. 87).
O tempo cumpre no romance uma função axial. O cronológico abrange 38 anos de 1972 a 2010, como lemos na epígrafe, qual epitáfio tumular, inicial da obra.
O psicológico, associado, em particular, à grande violência, tanto física como mental, a que as personagens são expostas, facilita ao leitor a compreensão das forças, que se digladiam continuamente no romance: o amor/bondade e o ódio/maldade.
O tempo da intriga é condensado, à semelhança do que acontece na tragédia grega e no drama romântico, em apenas 8 dias, ou seja, de 22 de fevereiro a 1 de março de 2010. O argumento começa às “sete horas de uma noite fria, sexta-feira, 5 de Março de 2010” (p. 9). Ato contínuo, Clemente e Filodemo desenrolam, em flashback, a trama narrativa até ao epílogo: “na missa de sétimo dia por alma de Ágata, em 8 de Março de 2010, Indira e Clemente misturavam lágrimas” (p. 194).
A frieza das relações humanas, minadas pela desconfiança, indiferença e intolerância pessoal e coletiva, atravessa a narrativa, onde o silêncio propicia a introspeção. Pois, como menciona Steiner, “apenas o silêncio nos ajuda a encontrar o essencial em nós”.
O silêncio, por vezes, é maculado pela presença dos outros, “dirigindo-se ao bar, onde lhe punham à frente, em silêncio sujo, sanduíche de presunto e um copo de leite” (p. 16). O silêncio, alimento do espírito, é associado ao nutriente corporal (sanduíche), “após o que, transportava a sua dose de silêncio para a banca de jornais e lia os títulos” (p. 16).
A crítica à justiça e à forma de a exercer serve de pano fundo ao romance, “os poderes da capital, que se esgadanhavam na reforma de uma justiça que ninguém via: justiça e reforma” (p. 27).
O jornalismo é-nos apresentado como presa dos grupos económicos, destituído da sua nobre missão de informar. “O jornalismo inventa quanto pode. Distraído, não explica. Ou deixa-se levar com duas cantigas pelo grupo económico” (p. 27).
Por fim, registamos a hipocrisia humana face às guerras intestinas que, tanto em 2010 como no presente, devastam as nações e mergulham milhares de refugiados no abismo:
“tanto sacrifício para um fim trágico, no fim de uma guerra esquecida, perdida para a humanidade em cada Afeganistão, que se esvaía, éden para os encenadores do mal, como inevitáveis eram seus «danos colaterais»: aviões aliados massacravam civis. Vigorava o «fogo amigo», demasiado «amigo», ali. As autoridades arribavam desde a véspera, segundo hierarquias e horas de maior audiência; a oposição ao governo vociferava, à distância, para repórteres sedentos, enquanto o olhar sobrevoava poças vermelhas; operadores de câmara eram apanhados em serviço, alguns interpelavam um céu fechado…” (p. 73).
Perante este retrato, que mais palavras se poderão usar para descrever os horrores da guerra, a dissimulação dos governantes, a parcialidade e a teatralidade dos meios de comunicação, a não ser, uma vez mais, as do próprio autor: “«Ele não tinha princípios; tinha fins.» Não: antes de mais, a maldade era um meio. O mal pelo mal deliciava o seu homem” (p. 76).
Uma breve palavra sobre os dois textos citados no romance. O de Séneca (p. 57) justifica o título do livro, corroborado pelos ícones da capa, que recorre às palavras do filósofo latino, e remete o leitor para o amor, a bondade e a perfeição, na aceção de Eça. Refira-se, ainda, que estes matizes já estavam plasmados na carta 34, do livro IV (cf. Séneca, 1991: 125, 126).
O outro intertexto presente na obra é retirado do texto bíblico, Génesis, 6: 5-6 (p. 63), onde se lê que Deus se arrependeu de criar o homem. Se o texto de Séneca justifica e legitima a bondade de várias personagens da obra, a citação bíblica remete o leitor para a maldade, o ódio e o desrespeito pelas normas sociais, personificados na personagem Menigno.
Sendo um truísmo afirmar que se compreendem melhor os tempos modernos lendo os clássicos, onde a magnificência e a crueldade humana se cristalizaram, não é menos verdade que em Uma Bondade Perfeita o ser humano tem uma oportunidade singular para se confrontar com os dois paradigmas (bem/mal) que regem a humanidade e, deste modo, fazer uma opção consciente.
Enfim, tudo depende do arbítrio do ser humano, porque, como escreveu outro clássico, Sófocles, no primeiro estásimo da tragédia Antígona, “Muitos prodígios há; porém nenhum maior do que o homem” (1987: 52).
Este prodígio da natureza vive, ab initio, como joguete, nas mãos destas duas forças primordiais, sendo que esta dicotomia abala, ininterruptamente, a natureza humana. Cabe, pois, a cada pessoa saber agrilhoar uma e alforriar outra. São vários os exemplos literários onde a bondade prevalece. O mesmo acontece em Uma Bondade Perfeita, onde o bem triunfa, lembrando-nos a sentença de Virgílio “Amor omnia vincit” (Bucólicas, 10, 69).
Terminamos com a derradeira proposição da mencionada carta de Séneca: “Não segue o caminho da verdade aquele cujos atos discordam do que afirma”. Ora, a postura de Ernesto Rodrigues tem mostrado que o termo coerência não é, para ele, uma palavra vã, tanto cívica como literariamente.
 

Norberto Veiga