A tentação totalitária socialista

Escrevo esta crónica no dia 27 quando ainda não são conhecidos os resultados eleitorais, como é óbvio, e as sondagens cada vez mais baralham os espíritos. Acresce que esta Crónica apenas será publicada depois de consumado o acto eleitoral. Não tenho, portanto, a mais pequena intenção de interferir na campanha eleitoral por mais influente que pudesse ser a minha humilde opinião. Acontece que não acredito no Regime vigente, muito embora continue a ter fé no Sistema de Democracia, liberal e representativa. Para mim, só mesmo esta democracia é revolucionária! Qual foice, qual martelo, qual punho fechado, qual sinistra globalização?! (https://henriquepedro.blogspot.com/2020/09/imperio- -mistico.html) Regime que persiste em promover a corrupção, a pobreza, as desigualdades sociais e a macrocefalia lisboeta, em prejuízo das demais regiões, em especial do meu querido Trás-os-Montes. ´ Regime que persiste em denegar o muito de bom e de bem que os portugueses fizeram por esse mundo de Cristo além. Não me cansarei de dizer, a este propósito, que militei, com muito orgulho e honra, no Exército mais humano da História que em simultâneo com a missão militar rasgou estradas, ergueu escolas e hospitais, tratou, curou, ensinou a ler e a escrever e matou a fome a milhares de infelizes. Que promoveu a paz e harmonia interétnicas e corrigiu os desmandos prevalecentes do colonialismo ancestral. Por tudo isso, não deixarei de pedir à Nossa Senhora de Fátima, se necessário for, que salve Portugal do pântano político e social em que cada vez mais se afunda. Donde se depreende que darei o meu apoio a todas as forças, sejam de esquerda, do centro ou de direita, que genuinamente se empenhem numa reforma positiva do Regime e do Estado. Mais uma vez constato, com tristeza que, apesar dos quase 50 anos que a democracia já leva, os políticos portugueses mais influentes ainda não alcançaram a necessária maturidade democrática já que se têm mostrado incapazes de bem governar o País, com maioria relativa ou absoluta. Por insuficiência de carácter ou de espirito democrático, o que os leva a discutir o cão e o gato e a pôr os interesses pessoais e partidários acima do interesse nacional. O espirito da democracia é servir o povo mas optam sistematicamente por servir o partido. É o caso de António Costa que no auge da campanha eleitoral não se coibiu de apelar ao eleitorado que premeie os seus fracassos governativos com maioria absoluta, apesar da Geringonça, da oposição de direita e do próprio Presidente da República lhe terem dado roda livre para governar como lhe apeteceu durante dois mandatos sucessivos. Controlou a comunicação social como bem entendeu, influenciou a Justiça sempre que lhe interessou, inundou o Estado dos correligionários incompetentes que entendeu. A aprovação dos Orçamentos de Estado pelo BE e o PC não foi mais do que um mero subterfúgio político circunstancial. Só quando se aperceberam que António Costa lhes comia as papas na cabeça e se arriscavam a pesadas perdas eleitorais é que decidiram por termo à governança socialista. Amónio Costa, porém, não desarmou. Incapaz de governar hegemonicamente com maioria relativa reclama agora uma maioria absoluta como a que partilhou no consulado de José Sócrates, de que foi elo fundamental. Maioria absoluta que redundou no desastre nacional que todos conhecemos comprovando que quem não é capaz de bem governar com maioria relativa pior o será com maioria absoluta. Havemos igualmente de concluir que o regime político vigente não está formatado para governos positivos de maioria absoluta ainda que também não facilite governos de maioria relativa. Apenas favorece governanças desenfreadas, ao deus dará, como se vem constatando, contrariamente a outras nações de igual natureza e dimensão. António Costa, porém, ciente do impacto negativo que a maioria absoluta de José Sócrates continua a causar na opinião pública, argumenta agora que o Presidente Marcelo de Sousa lhe não deixará pôr o pé em ramo verde. Só que Marcelo de Sousa se tem revelado o Presidente da República mais promiscuo e permissivo de sempre, como se constatou em diversos momentos críticos da governança de António Costa, como os trágicos incêndios florestais ou o assalto aos paióis de Tancos, em contraste com a vida negra que Mário Soares fez ao primeiro-ministro Cavaco Silva ou como Jorge Sampaio tratou Santana Lopes. Pedir maioria absoluta nas circunstâncias actuais é reflexo da atávica tentação totalitária socialista de António Costa, que mal disfarça com mudanças de discurso quando as sondagens lhe são desfavoráveis. Tentação totalitária essa que poderá levar António Costa a perder as eleições e a perder-se a si mesmo, à democracia e ao país, definitivamente, se as ganhar. A ver vamos.

Henrique Pedro