Armando Fernandes

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Graça Morais

A notícia de a Universidade de Trás-os- -Montes e Alto Douro ir atribuir à pintora Graça Morais o grau de Doctor Honoris Causa provocou-me e continua a provocar-me intensa alegria não só devido ao facto de ser justo exame dada a sua obra pictórica a revolver as entranhas seculares da alma Nordestina expressa no húmus telúrico daquele território e das suas gentes, mulheres viúvas de vivos porque os homens na sua esmagadora maioria até aos alvores do 25 de Abril de 1974 moíam o corpo derramando o suor dos seus rostos nos sertões africanos, na estiva dos portos do Norte da Europa, na construção civil em França e Espanha e, para outras diásporas mais longínquas, mas também porque causa imenso júbilo aos seus amigos, não é assim Maria do Loreto? A pintora sentiu na carne as agruras da separação do pai emigrante, valendo-lhe a todo o tempo e em todos os transes a sua progenitora que é fonte de inspiração tutelar qual Mãe-Coragem figura central de muitos dos seus quadros. Neste tropel do turismo massificado os museus e Centros de Arte recebem visitantes apressados fazendo relampejar os instrumentos de fotografia dando azo a importantes obras de reflexão sobre o «miolo» escondido da criação artística, por isso relembro o pertinente ensaio do poeta, romancista e ensaísta José Régio – Em torno da expressão artística, 1940 -, na qual defende o primado da liberdade de conceber como quem concebe um filho e não atanazado por uma qualquer rede ideológica, na altura a ortodoxia de Cunhal pugnava pela doutrina inserida na vulgata de Gregory Lukacs, castradora, mais tarde dita engajada (termo em voga nos anos idos do Maio de 68, do século passado e dogmaticamente utilizada pelo transmontano nascido na raiana Moimenta, o sociólogo Alfredo Margarido). Ora, Graça Morais crente assumida e expansiva das virtudes da democracia tem demonstrado quão vital continuam a ser as considerações do poeta de Vila do Conde enamorado de Portalegre onde durante algum tempo deu/davam grandes passeios aos Domingos, com, entre outros David Mourão-Ferreira o qual foi admirador e amigo da pintora que viveu na vetusta Casa do Arco na cidade brigantina. Se a Casa do Arco motivou um grácil estudo publicado há umas boas dezenas de anos, o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais além de ter suturado uma lacuna na Região, estando consagrado à pintora é a prova/provada de os santos (a santa) da casa também fazerem milagres porque a dimensão da Artista por mérito próprio – estúdio e exercício – levaram a um decisor que entendo não nomear (deixo esse encargo aos leitores) a dedicar tempo e o modo da Autarquia honrar a ilustrada menina dos cabelos loiros a esvoaçarem nas ruas da urbe do bravo Braganção. Devemos considerar o doutoramento motivo desta crónica como coroamento da obra da Pintora, claro que sim, mas podemos e devemos pedir-lhe a continuação do seu labor, ao exemplo de larga e fecunda plêiade de Mestres e Mestras do seu timbre e escalão. Parabéns!

O Homem de Abril

No dia 3 de Abril de 1992, chegou-me a infausta notícia da morte do Homem, do meu querido amigo Fernando Salgueiro Maia, o exímio executor do plano que conduziu à tão aguardada por nós opositores, a queda da ditadura salazarista. A maldita maleita atormentava-o há muito tempo, quando a quebra física se acentuou refugiei-me no casulo qual vagem de maneira a ficar como ficou na minha memória a sua imagem radiosa, exuberante, contagiosa de alacridade a derramar-se sobre a família e os amigos. Agora, ao demoradamente contemplar a foto inserida na capa da revista do Expresso toldaram-se-me os olhos e, aquele seu olhar triste trouxe à boca o fel do remorso de não ter ido ao aeroporto quando chegou de Londres e a sua amada e devotada Mulher e dois comuns amigos o acompanharam a caminho do hospital. Iniciaram-se as comemorações dos 50 anos da restituição ao povo da expressão livre de alicates censórios, da castração mental dos espíritos, do abastardamento das consciências, daí ser natural e justo aparecer em primeiro lugar, em primeiro plano a figura do Homem cujo comportamento posterior à vitória se materializou no regresso ao quotidiano, à frequência do curso de promoção a Oficial superior na companhia dos camaradas brigantinos Moura Carneiro e Remondes em sã convívio desprovido de ademanes de vedeta estilo Patton ou do Caco leia-se Spínola apesar de vários façanhudos da «arma das rainhas» o incitarem como tantas vezes presenciei em Santarém e Santa Margarida, pois o excelso Capitão convidava-me a acompanhá-lo em várias ocasiões de júbilo e de cariz cultural. O Salgueiro Maia nutria gravidíssimo respeito ante a cultura e o engrandecimento através do estudo e investigação relativamente à génese da Humanidade e elementos contrastantes do comportamento humano assim é irrefutável logo demonstrável lendo os seus trabalhos de licenciatura em Antropologia cultural. Inimigo da táctica das arcas encoiradas pagou caro o desassombro no domínio do falar sem tibiezas, sem gorgomilos e estrias na língua suportando ágrio «exílio» em S. Miguel onde enfrentou galhardamente a turba separatista acantonada numa livraria de Ponta Delgada. Na sua Escola Prática de Cavalaria, já doente, dedicou-se a enriquecer e organizar o Museu da reputada unidade, revejo-o num almoço por ocasião do Festival Nacional de Gastronomia, o então Presidente da Câmara da sua terra natal, Castelo de Vide acompanhava-o, censurou-me brandamente pela minha fuga para a torre na qual o Homem de Abril estava como no dia em que no Terreiro do Paço disse a Ferrand de Almeida que a ditadura estava finita. E, estava! As revoluções são ingratas para as suas figuras para as suas evoluções são sinónimo de ingratidão de maior saliência ao ponto de as imolar em banhos de sangue (lembro Machado dos Santos, Carlos da Maia, o transmontano António Granjo entre outros), felizmente, no que tange ao 25 de Abril a sageza de Melo Antunes impediu a repetição da noite da infâmia onde o celerado Dente de Ouro praticou monstruosidades, pois no rescaldo do 25 de Novembro apareceram os adeptos da «limpeza» dos derrotados livrando o País da mais que possível eclosão de outra guerra civil satisfazendo os desejos dos «democratas» acoitados no cabanal franquista a conspirar e comerem tortilhas nas tabernas madrilenas. O Capitão cumpriu escrupulosamente as instruções de Eanes, retirou um subalterno do poço dos vencidos e por isso sofreu as investidas de muitos envinagrados contra o Homem de Abril, das duas datas substantivas da História contemporânea portuguesa. Apesar dos muitos erros praticados ao longo dos últimos 48 amos, ultrapassando as quatro dúzias da Ditadura, só por rancor e sulfurosa azia os ingratos desvalidos da pulsão de ver sem argueiros na vista podem negar quão importante foi a acção levada a cabo na madrugada do dia 25 do quarto mês do ano de 1974. Bem sei, sabemos, quão fácil é julgamentos (o Eclesiastes adverte: não julgarás), todavia no respeitante a Salgueiro Maia já escrevi e volto a escrever que nunca conheci e convivi com alguém tão generoso, tão amante de dar sem nenhuma espécie de interesse como ele. A pureza do ideal de se construir uma democracia dentro dos parâmetros clássicos da oriunda de Atenas de Péricles, plasmou-o O Capitão prematuramente desaparecido para prejuízo do Ser português em vez do triunfo (agora posto em causa dada a nefanda guerra da e na Ucrânia) do Ter tudo quanto cada qual possa arrecadar por nás e nefas de toda a ordem e desordenadamente. Se para mim 25 de Abril sempre, ao meu Amigo Salgueiro Maia o fico a dever, preclaro Cidadãos.

O culebrón

Os leitores façam o favor de desculpar a utilização deste vocábulo espanhol, porém, tendo em conta o caso longe do picaresco, sim muito rico em pormenores eivados de malícia (não me refiro ao filme com a falecida curvilínea Laura Antonelli), refiro-me isso sim, ao braseado conflito entre a juíza minhota Paula Sé e o juiz bragançano Marcolino nado na aldeia de Parada. Só agora trago à colação esta novela (culebrón estilo mexicano) porque os jornais encafuados no alforje durante a minha convalescença foram lidos sem pressas, a ouvir metafisicamente o sempre lembrado José Afonso que cantou sobre figuras nordestinas, uma de Parada, outra da Moimenta da raia de Vinhais. Ora, no jornal Público vieram a lume três peças relativas ao rocambolesco e escaldante culebrón entre a juíza Paula Sá e o juiz Marcolino, ela minhota, ele bragançano da acima referida aldeia de Parada. Há uns dez anos ficámos a conhecer a existência de opiniões antagónicas referentes a modos de proceder no exercício de funções da juíza em virtude a apreciação inspectiva do juiz, a partir daí vão-se sucedendo os episódios ao estilo de folhetim de faca e alguidar nos quais surgem os cônjuges de forma a o culebrón prosseguir imitando congéneres latino-americanos, especialmente mexicanos. Rivalidades, rixas envernizadas e de luva branca no seio dos juízes não são de agora, pensemos nos tribunais Plenários, na badalada acrimónia que subsiste no Ticão (Carlos Alexandre/ Ivo Rosa) e, irrompiam no salazarismo duras e pontiagudas com recurso a subtilezas florentinas só faltando os estiletes retirados das bolsas de veludo. O falecido juiz Sebastião Ribeiro em Anotações ao Presente elucida-nos relativamente ao modo de agir debaixo do poder do seráfico Salazar. Mais terra a terra, na cidadela brigantina (portas da vila), um rufião deu uma facada no juiz Bernardino por motivos de saias levantadas e descidas. Não puritano, muito menos árbitro de elegâncias (leiam o eterno Petrónio) de estilos e estéticas de linguagens, no entanto, talvez devido a ter sido ensinado a conceder o passeio e cumprimentar respeitosamente os juízes causa-me estranheza o «mundillho» das magistraturas apesar de as transformações sociais que se sucedem vertiginosamente levarem a justificar o conceito de normalidade, podendo-se considerar anormal a vinculação a práticas de urbanidade que no meu entender deveriam continuar a vigorar dispensando a citação do código de Hamurabi.

A velha casa

De memória revejo a Velha casa (o ora esquecido escritor José Régio escreveu o livro a Velha Casa e acréscimos) herança materna, bicentenária, a qual não visito desde os primórdios da pandemia, cuidada prestimosamente pela Cândida minha parente em duplo (eu e o marido somos primos em segundo grau, a casa do avô exibe a riscante data 1908 numa pedra da outrora palheira e/ ou cabanal) e, sempre atenta na observação das fissuras e sinais de velhice pois também as casas nascem, crescem e morrem. Ora, as casas acompanham a calvície e mantas canosas dispersas nas cabeças dos donos por assim ser, e é, Portugal desde o litoral ao interior a par da arquitectura com laivos ou acentuados símbolos significantes da traça original pululam toda a sorte de volumetrias, colorações, ademanes e bizarras «esculturas nas casas e jardins no Continente e Ilhas adjacentes. É um fartote/ orgia de gostos na maioria de duvidoso gosto. E, no entanto as casas encerram histórias, segredos, dramas, amores desvairados, dependências atrozes, pecados mortais, doenças e entorses de toda a casta e géneros. Nem só Régio escreveu sobre as Casas vetustas, façam o favor de lerem entre muitas outras as obras-primas A Ilustre Casa de Ramires, a Casa Grande de Romarigães, a Casa de Bernarda Alba e ouvia a distinta Amália a cantar a casa da Mariquinhas das tabuinhas tão comuns a ripas com as latas existentes nos dias de agora, das armas guiadas de longe de modo a erradicar bairros inteiros de casas/ caixotes das grandes e médias cidades, escapando (às vezes) as Velhas casas das aldeias de todas as partes do Planeta. A casa de Lagarelhos aquando das obras de restauro das cicatrizes sem ofensa da fachada trouxe à vista desarmada o cano enferrujado de uma espingarda escondida no falso apressadamente construído para esconder o meu avô dado o seu primo Manuel Buíça ter sido o autor do assassinato do rei Dom Carlos. O meu avô nada sofreu, porém o ferrete do apelido perseguiu-o várias vezes, lépido que nem coelho a retouçar no vergel do quintal o meu progenitor expurgou o Buiça do nome da minha Mãe, do mesmo modo ao registar- -me poupou trabalho à mulher do Senhor Frederico Monteiro (correspondente da quase totalidade dos jornais de Lisboa e Porto) funcionária do Registo Civil. O desvelado servidor da imprensa Sr. Monteiro bem merecia placa a assinalar o seu labor em prol do jornalismo local, prazenteiramente, aqui fica a sugestão. Pois, seria imperdoável não assinalar a brigantina e emblemática Casa do Arco cujo passeio fronteiro sapateei, longe de ter visto a Sapateira Prodigiosa, mas na esperança de ver guapas encerradas no casarão a partir da hora de recolhimento. A pandemia está a caminhar para a endemia, mantendo o elmo e a viseira penso em volver à Velha casa, por um ou dois dias (o tempo continua a escassear-me, terei uma eternidade à minha espera para repousar quando for desta para pior) a fim de perscrutar o horizonte até à Serra de Nogueira recreando o oráculo de Delfos no desejo de obter resposta para a causa da continuidade e crescente aumento da banalidade do mal debaixo de todos os ângulos, prismas e pontos de vista. PS. Não utilizei – cima da mesa – dada se terem esgotado as mesas!

À espera de Godot

No dia 12 de Fevereiro, mês quente com o Mafarrico no ventre, ao dar início às operações de sair do leito procurei o registador do nosso quotidiano a fim de ver as horas, recebendo um clarão branco, baço em trevas cintilantes a desmentirem o significado/significante de negritude rememorada na Semana Santa. Aturdido qual cego guiado por ladino moço de cego plasmado na literatura picaresca, seriamente preocupado ante a malignidade da mazela recordei-me do grotesco absurdo da genial peça teatral “À Espera de Godot”, concebida pelo sardento Samuel Beckett a interrogar- nos acerca dos mistérios da vida e das nossas mesquinhas existências. E, interroguei-me pensando nos cegos meus amigos ou conhecidos cujas obras me proporcionaram vivo gasalho cultural a todo o tempo em todos os transes e nos enormes parágrafos jubilosos do Tempo Para Amar, Tempo Para Morrer, parafraseando Eric Maria Remarque porque a tragédia ucraniana é a prova provada da besta irracional a passear-se no Jardim não das Delícias, sim das Monstruosidades Vulgares tão bem delineadas em metáforas reais pelo hoje esquecido José Régio. Imaginei João de Deus de cataplana à sua frente a atirar amêijoas cristãs transformadas em cegos de enorme talento a engendrar ingredientes literários para a eternidade levou-me a recordar Homero personagem fabulosa, Jorge Luís Borges que patrioteiros moncorferrences pretenderam fazê-lo descente da vila do «banido» Campos Monteiro, mais perto de nós o autor d0 livro Olho de Vidro e o Cego de Landim, o Castilho agricultor e Saramago ortodoxo estalinista a aplaudir a posição dos camaradas a defenderem cegamente o camarada Putin. O fim-de-semana no vácuo, lento, quanto a mula do Má-Cara, fez- -me listar as muitas dezenas de mulheres e homens que conheci e conheço de Bragança as quais resumo numa só o bondoso Cónego protector, mestre, conselheiro de gerações de escuteiro. Alguém se recorda do seu nome? Procurem ao Fernando Pires, ele sabe o nome. Também elenquei os biltres a cruzarem- -se comigo desde adolescência até aos dias de chumbo de agora, um de apelido Madureira a quem dei a mão a fim de obter emprego bem remunerado logo que teve ensejo a ferrou com a dentuça sem clorofila, meneando a cabeleira ensebada. O filósofo Orlando Vitorino meu Mestre dos dias bons e avinagrados exclamava: «a ingratidão é pulsão corriqueira e dos imbecis!» Na segunda-feira, dia 14, consegui ser observado pelo emérito (é mesmo emérito, não de pacotilha como muitos) oftalmologista brigantino António Sampaio, tendo ele diagnosticado uma distorção na vista esquerda, marcando uma intervenção cirúrgica para a próxima quinta-feira. Havia a necessidade de colocar uma nova lente no local anteriormente morada de uma catarata. A inquietação irrompeu qual foguete a matar pessoas indefesas em Kiev. O lapidador de lentes Spinoza , ortodoxo pensador judeu, activo contraditor do também ortodoxo e bragançano Oróbio de Castro, agitou as páginas dos seus escritos para além da finitude existencial a sobrepor-se a Godot. No domingo gordo telefonou- -me o estimadíssimo Francisco Cepeda, queria saber novas e mandados de mim. Estava a degustar almoço opíparo a acompanhar o nosso comum amigo Alberto, Alberto Fernandes, contei-lhe as agruras, bem menos pungentes que o Chico ajudou a suavizar aquando da minha estada no Batalhão de Caçadores 10, onde por sua iniciativa fui escrivão na sala de justiça. A operação correu bem, a convalescença flui ao ritmo lento das águas minguadas do Tejo meu vizinho. Estou a retomar a escrita corrida de caracol. É a vida!

Os efeitos da carambola

Na década de 60 do século passado sempre que tinha oportunidade sentava-me numa cadeira na sala do bilhar do Café Central de Bragança e invejava a maestria do jogo largo às três tabelas do Senhor Luís Malhau e o jogo miudinho também às três tabelas do Senhor Faria, vulgo o Mouco. Eles também jogavam e ganhavam com o sargento e o prato com as bolas a executarem arabescos, só perdiam quando se cansavam causando resmungos e sarcasmos nos oponentes especialmente quando se faziam apostas por fora levando alguns incautos a procurarem jogar por debaixo da mesa a exemplo do Ochôa malabarista a quem o Michelin pespegou sonora bofetada. Ao ouvir os comentadores da CNN procurarem enfatuadas explicações ditas analíticas para o vendaval de rosas (em Janeiro?) o qual derribou laranjeiras, clementinas, mandarinas e tangerineiras, destruindo ainda alfaias e outros signos políticos: foices, martelos, blocos de prosápia e umas ditas linhas azuis, sem esquecer as aboboradas e estrídulas propostas em voz de pão-de-ló da senhora dos túneis contendo frutos vermelhos nas terras de Odemira. O tornado soprado pela animadora de pista Catarina içando o estandarte malévolo do intento de Rui Rio em transformar o SNS numa estrutura mais ágil e menos custosa para o Estado também levou o ortodoxo Jerónimo a soprar a mesma brasa, a esquerda caviar diletante e discursiva bem como os camaradas saudosos da demagogia dos amanhãs que cantam a fugirem espavoridos em direcção ao guarda- -chuva socialista os primeiros e os segundos a abrigarem-se no guarda-sol do CHEGA. As bolas brancas bateram forte na tabela do PSD acabando a beijar suavemente a bola vermelha rosada de António Costa. Os números comprovam-no. A Bola vermelha cor de vinho tinto vendido nas tabernas de Bragança cujos petiscos de polvo frito e tabafeias na época delas fidelizavam a clientela ao contrário das clientelas partidárias de ora, nomeadamente, da esquerda caviar e dos comunistas, a primeira refugiou-se espavorida no guarda-chuva do PS temendo perder o conforto e a preguiça funcionalista acrescida das mordomias via ADSE e demais penduricalhos, enquanto os comunistas entraram em transe epiléptico ao ouvirem Jerónimo de Sousa gritar que o lobo Rui Rio estava a chegar brandindo o gládio da privatização do SNS e da Segurança Social. Esta opinião, repito- -a até à exaustão por que os fujões concederam a maioria absoluta à propaganda coordenada por Duarte Cordeiro. E agora? Agora Rui Rio sai pela porta baixa apesar de lá no fundo, bem no fundo (leiam o poema de José Régio) tinha carros de razão, porém não possuindo a sorte de Costa (nasceu com o rabiosque virado para a lua) só lhes resta sair condignamente de cena evitando os Brutus do tempo presente. No Partido Comunista o Comité Central ao modo das jibóias demora tempo a digerir a derrota, quando o fizer encenará uma cerimónia entoando hossanas e louvores a Jerónimo colocando-o na prateleira dourada. Nas bandas do BE o artigo de Boaventura mandarim do pensamento extravagante terceiro-mundista provocou estragos, o antigo maoísta Fernando Rosas tentou varrer a testada do pedido de demissão da contorcionista Catarina, enquanto a mana Mortágua, uma das filhas de Camilo Mortágua antigo líder da LUAR procurou rebater o sociólogo de Coimbra, debalde julgo eu. O Chicão colocou a placa de mármore sobre a campa do CDS. Veremos se Nuno Melo imita Lázaro se o ressuscita. O PAN recebeu o incisivo castigo das senhoras dos lulus fraldiqueiros e dos gatos persas (aconselho a leitura das Cartas Persas do recentemente falecido historiador José Augusto França) dado terem dado ouvidos aos maridos caçadores e adeptos da Festa Brava de um conjunto de abstrusas e até ofensivas para o senso comum as propostas da senhora deputada do partido cujo programa é um gordo NULO. O Livre é um manjerico na lapela do Partido Socialista. O Sr. Cotrim pode cantar imitando um grouse numa pastagem escocesa, tenho curiosidade em perceber se na prática é seguidor do pensar de John Locke ou mera capa de livro de citações do Liberalismo. E, o CHEGA? Cegou há pouco tempo, mas conseguiu entre dois piscares de olhos estilhaçar códigos e convenções de mesura e protocolos políticos estribado nos antagonismos localistas, nas diferenças raciais e de entendimento da praxis do género. Não será pera-doce na Assembleia da República em virtude do intento de vitimização a render votos nos mercados, lares de idosos e na solidão dos povoados, vilas e cidades. Colocar no gelo o deputado escolhido para ocupar o lugar de vice-presidente é erro a pagar com língua de palmo futuramente. A finalizar: no decurso da campanha eleitoral li atentamente Nordeste as declarações dos candidatos do distrito de Bragança. Fiquei pasmado ante o supino descoco das propostas e promessas dos indigitados pelos partidos mais pequenos. Os leitores não merecem e não mereciam ler tantas e tantas inanidades simbolizadas em cousas irrealizáveis, grávidas de vacuidade e coloridas tontarias. Nós, leitores temos direito a não nos ofenderem intelectualmente. Fica o protesto.

A escolha

Há razões que a razão desconhece é frase finalização de conjecturas elaboradas em torno de decisões que nos parecem despropositadas, abstrusas, torpes ou inclassificáveis, as quais mais tarde mesmo os seus autores as classificam de veemente asneira embebida em algodão em rama, a consciência do ensinamento contido no provérbio nem tudo o que reluz é ouro, responde a razão dizendo: agora torce a orelha, mas ela não sangra, fica entregue ao remordimento impotente do que não tem remédio remediado está. Podemos apontar vários exemplos das razões desconhecidas pela razão, seja no domínio do amor, seja na área profissional e académica, seja ainda no tocante às afinidades electivas (tão bem descritas e vincadas polo poeta, filósofo, anotador de costumes e paixões de mulheres e homens), no entanto, as asperezas da vida, as desilusões porque nos iludimos muito, o progressivo conhecimento da fiabilidade do prometido, obriga-nos a adoptarmos os cuidados dos gatos (felinos que escaldados pela água quente da fria têm medo) agora feitos personagens da campanha eleitoral em curso dando azo a um tropel de inanidades de vários comentadores da CNN Portugal, com excepção de Maria João Avilez e Carlos Magno, a fim de não cairmos na esparrela de votar com o coração esquecendo os registos ponderados e reflectidos do cérebro que também toca os instrumentos das emoções categoricamente definidos pelo professor António Damásio. Ora, o nosso voto não pode (não deve) ser desperdiçado ao sabor das razões desconhecidas pela referida razão, não sendo necessário recorrermos a um qualquer gestor de momentâneo entusiasmo em função da propaganda seja da banha da cobra, seja da cantata de estar a surgir a cornucópia dos milhões, seja ainda da distribuição dos votos ao modo do bondoso e exímio mestre da língua portuguesa (de leitura obrigatória) que foi o Padre Manuel Bernardes autor de Pão Partido em Pequeninos, no caso em apreço em votos. Sim, eu sei, o pluralismo partidário deve existir, de qualquer modo desperdiçar o voto num partido sem qualquer possibilidade de eleger deputados ou de ganhar arreganho de forma a alterar a governação no meu entendimento só favorece quem exerce o poder na justa medida da dispersão o favorecer. Obviamente, inúmeros pensadores defendem a referida dispersão, longe da bondade e da doutrina do ínclito Padre Manuel Bernardes, alimentam utopias tão utópicas como as do Senhor Pangloss quando visitou Lisboa após o terramoto. As sondagens dizem não estar previsto nenhum terramoto eleitoral, nesse campo apenas Ventura pode esperar uma maior migalha, daí não votarei desvalido da intenção de contribuir para a alternância do poder, por nás e nefas, com duas máscaras, cautela e distanciamento exercerei o direito de votar desprovido da fátua ilusão (a grande e obra-prima filmou-a em 1937 Jean Renoir) , sim atento ao desenrolar e desvendar dos resultados de um prélio de enorme importância para o futuro deste Portugal ainda a vender resquícios dos fumos da Índia, sempre interessado no gastar acima das nossas posses, exibindo um perecer sem ter, ao contrário das voltas do cordão de ouro daquela senhora de falas francas enquanto ajudava o marido na vetusta praça do mercado de Bragança. Alguém se lembra da saltitante Senhora?

Tango

Por mero acaso no remexer da caótica aglomeração de CDs musicais encontrei dois dos muitos do prematuramente desaparecido cantor argentino de voz de rouxinol Carlos Gardel, cuja popularidade em Portugal até chegou à barbearia do saudoso Senhor César dos Santos Barata, onde o exímio escanhoador de queixos ao patronímico Carlos acrescentou o Gardel apodo recebido por parte das dezenas de clientes muitos deles esforçados repetentes do Liceu fronteiro à conhecida casa de corte de cabelos e barbas de merecida fama na cidade. O Carlos Gardel bragançano idolatrava o Benfica, o jogo da sueca e nunca perdia a ocasião de implicar com o camarada de profissão, dito Vila Real. Uma viagem a ir ver o mar possibilitou-me ouvir no automóvel o formidável cantante da sua Mi Buenos Aires querida, a frenética, belíssima e sulfúrica cidade debruçada sobre o rio da Prata separador da erótica Montevideo onde velho amigo revolucionário a sério torrou parte da fortuna familiar nos casinos enquanto aguardava ordens do controleiro para entrar em acção nos conturbados anos dos Tupamaros. Nesse tempo do tocado inúmeras vezes numa casa da rua Nova (na qual dançava aos tropeções), o dito tango dos barbudos em homenagem aos cubanos revolucionários lia os textos do Padre Camilo Torres, as prédicas do sinistro (na altura desconhecias as suas barbaridades) Che Guevara e acreditava que a história iria absolver Fidel Castro. Ainda acreditava no Pai Natal…! Para lá de Jorge Luís Borges (que uns rapazes queriam à viva força coloca-lo no rosário de crendices do envernizamento das supostas ascendências transmontanas), nada sabia da terra do também tocador de Bandemónio e tanguista Astor Piazzolla, só mais tarde tive contactos a permitirem um melhor entendimento do tango portenho, vislumbrar a famosa livraria na qual o eterno candidato ao Nobel, o falado Borges tinha cadeira reservada, e, adiós pampa mia, a refulgente e melancólica ária para mim, canção escutada nos quatro cantos do Mundo porque é signo/sinal de uma identidade incorporadora das raízes genéticas da outrora farta e admirada Nação. Nos bailes quer do pífio elitista Centro (fui sócio de motu próprio, não vias urinárias), quer da Associação fundada a par de outros pelo pai dos irmãos Quintela (uma lápide do TEUC coimbrão assinala o prestígio de Paulo Quintela colocada numa casa na Rua Alexandre Herculano), o ritmo vindo do continente sul-americano agitava os corpos nos bailes, levados a cabo no fim do ano velho e início do nascituro ano Novo, destacando-se em tais palcos uma costureira moradora nos Batocos, levando vários mirones a irem observá-la à Associação pois a sua posição na escala social impedia-a de pisar as tábuas do Centro. E, agora? Agora apesar de os tempos serem outros, permanecem tabus não alicerçados no suposto pedigree ancestral, sim do vaivém dos modelos recriados pelas redes sociais, o esbatimento das normas de tratamento entre as pessoas, o avacalhar de programas televisivos nos quais a língua portuguesa sofre tratos de pelé para lá do tango ter perdido adeptos dada a avassaladora vitória das canções de língua inglesa, por isso o tango subsiste em nichos reservados ao estilo do Turf Clube o que muito deve agradar a um reformado crítico gastronómico e a um seu amigo nado na margem esquerda do rio Fervença, também na situação de sabática gozação da vida. Para futuras e escassas viagens (raios partam a pandemia) já seleccionei outros compactos e intérpretes, p. ex. Manolo Escobar. Nestes primeiros dias do ano vou reler o acídulo livro de Rubem Fonseca «Feliz Ano Novo», em que o antigo jornalista disseca a violenta vida urbana no Rio de Janeiro a par de ouvir os tangos palavrosos da campanha eleitoral. A cousa promete, à cautela o arguto Jerónimo de Sousa não participará no «agarra-me senão vou-lhe bater», os fumegantes críticos do Flórida dirão trombas ou fuças adornando as palavras com grinaldas de carrejão (estilo Belisário) evitando o Chega e o antigo sócio na geringonça Bloco de Esquerda. A tanguista Catarina (não Catrineta) e o Ventura em pose aristocrata patuleio ensaiaram obtusos passos de pedaços de asno (obrigado Senhor António Sérgio), sim de acerado e salivoso duelo. O tango que não pretendo perder é entre Costa e Rio, o primeiro executará meneios de sabor indiano, o segundo escorado no vernáculo da Ribeira portuense, numa coreografia verde e vermelha pois a Pátria primeiro declaram os dois. E declaram bem! Feliz Ano Novo.

A serpente emplumada

O famoso romancista D.H. Lawrence é autor de um romance «esotérico» com este título cuja figura primacial é uma mulher irlandesa de visita ao México onde encarna o Mito da serpente emplumada. Ora, esta serpente temida e adorada pelos crentes nessa Mitologia transladando-a para o nosso tempo, em Portugal, vendo nela o descarrilamento mental de elementos das forças de segurança cujas bolsos e bolsas contêm o letal curare extraído de plantas naquelas paragens. A descrição das malfeitorias daqueles sete militares revelam perversidade repelente digna dos torcionários nazis e comunistas. O nosso conterrâneo Padre Alípio Freitas, o Padre Alípio da canção de Zeca Afonso, contou-me o modo como foi torturado no Brasil após o golpe de 1964, os militares humilharam-no e torturaram-no barbaramente, da mesma forma que os migrantes vindos da Ásia sofreram no quartel de Odemira. A serpente emplumada mortífera e sádica mostrou-se na vila alentejana, todos nós cidadãos esperamos a justa punição dos criminosos fardados, no entanto, a lentidão da justiça qual jibóia acabada de deglutir um vitelo mamão, vai demorar uma eternidade a julgar os malfeitores, pois todos sabemos quão pachorrenta é, quão insólitas são algumas decisões tomadas aqui e acolá, divulgadas através da quebra sistemático do segredo de justiça, da estrídula exigência de milhões de euros a figuras salientes da sociedade portuguesa, do ostensivo corporativismo das magistraturas, da preguiça do poder político em analisar seriamente esse universo estruturante do Estado de direito. Há décadas vi por duas vezes no cinema da Póvoa de Varzim o filme O Homem na Pele de Serpente, nessa fita Marlon Brando serpenteava numa loja do sul da Améria entres mulheres em plena pujança física de eclatante beleza. As mulheres sucumbiram como se tivessem sido atingidas por uma flecha embebida no fatal curare, a terrível poção dos indígenas da selva sul-americana. Ora, instituições estatais não podem acolher no seu seio áspides (reza a lenda ter Cleópatra cometeu suicídio através de uma mordedura de uma áspide) capazes de obterem escalofriantes sensações de poder sobre seres humanos indefesos aturdidos e longe dos seus, das suas origens. As serpentes do mal levaram o genial Ingmar Bergman a filmar o Ovo da Serpente alegoria sobre o choco do nacional-socialismo, agora, no século XXI vão desfilando ante os nossos olhos acções a poderem ser enquadradas nessa pestífera ideologia, os homens na referida pele de serpente o demonstram a justiça lusitana simboliza a serpente emplumada, sinuosa e muitas vezes de difícil entendimento, noutras cristalina quanto é a água das coutadas transmontanas. A pergunta impõe-se: qual a razão desta dualidade? O factor humano? Responda quem souber, não sou jurista, porém causa-me náuseas o facto de homens de excepcional inteligência serem autores de leis mais que cruéis e extravagantes a sustentarem decisões a que a filósofa Hannah Arendt cunhou ser a banalidade do mal. Esta banalidade do mal suporta as atrocidades dos militares da GNR (da canhota dizia-se no salazarismo) estacionados na bonita vila alentejana. Uma nódoa para todo o sempre!

Luxos

A quadra natalícia impele mesmos os carentes de tudo a gastarem o que podem vir a ter, pois a época leva a gestos de inusitada generosidade, a sacríficos dolorosos, até a tragédias como o ilustra Mestre Aquilino Ribeiro em o conto O Cavaquinho. Um lenço de assoar, um par de meias, um boneco enrolado em pano, constituíam luxo luxurioso para quem tinha a ventura de receber essas prendas. Mas esta crónica desencaixada é uma reflexão relativa a luxos ofensivos na posse da nababos capazes das maiores excentricidades no intuito de serem aceites no restrito, logo exclusivo número de míticos sibaritas a ficarem na história como ficou Assurbanípal, rei da Assíria, o qual ofereceu um ágape para mais de 70.000 convidados onde nos sete dias de duração foram consumidos 1000 bois, 10.000 cordeiros de pasto e de curral, outras iguarias em quantidades gigantescas. Na minha cidade natal, Bragança, nunca existiram plutocratas desse calibre, mesmo em Portugal contam- -se pelos dedos os argentários que ao longo dos séculos ficaram nos anais dada a sua inclinação para o luxo/luxo. No burgo do Braganção teceram-se vestimentas luxuriantes provindas da indústria da seda, só os membros do clero nos dias Santo e de guarda e da nobreza chupista usufruíam da macieza túrgida dos veludos, dos tafetás e gorgorões. Na minha meninice veio a lume nos lavadouros citadinos que fulano tal possuía mil contos (não de encantar) provocando tal soma enorme admiração, o negociante de batatas e castanhas era milionário! Ora, há dias o publicista António Araújo glosou no DN uma restrita e requintada festa destinada a 12 convivas, abrilhantada por 120 modelos femininos sem defeito, na qual foram servidas comidas e bebidas dignas do refulgente Petrónio, envolvendo centenas de funcionários e segurança obrigados por escrito a rigoroso sigilo. Só que, o resort de tantas estrelas quantas as do firmamento (passe o exagero) possuía câmaras de filmar, uma fuga de informação obrigou a precipitada debandada dos participantes. Custo da festança: 50 milhões de dólares. O Rei D. João V, que morreu dado ter ingerido lagosta em demasia, escorado no ouro e diamantes do Brasil não acharia caro o dispêndio se o ágape tivesse sido levado a efeito no seu tempo, seria um sinal de luxo lusitano, o acima descrito é um eco de luxo arábico. Várias obras na área da história e das ciências sociais dedicadas ao luxo explicam o vaivém do luxo, dos muitos milhares de postos de trabalho em consequência da indústria adstrita a tão importante nicho de mercado, só que outras milhares de pessoas sobrevivem esgaravatando no lixo do luxo, ante o estrídulo esbanjar de milhões por poucos. Sem qualquer pretensão moralista, muito menos detentor de virtudes exemplares, a obscena quantia das libações na Arábia excedem os registos neste género de bunga-bunga do multimilionário Berlusconi, mesmo do padrão do marcante luxo asiático. Neste Mundo cão (lembram-se do filme?) a opressão da dissipação gera raivas alterosas (pensemos na Revolução Francesa) conducentes a explosões sociais que nunca sabemos até onde chegam, sabemos, isso sim: as sangrentas consequências. Caro leitor: faça o favor de desculpar a crónica acidulada em vésperas de Natal, mas se não a escrevesse ficava azucrinado comigo mesmo. A todos quantos têm o hábito de ler os textos da minha lavra e aos elementos do Nordeste Informativo os meus votos de Boas Festas. Um voto de saudade em memória de Teófilo Vaz.