Armando Fernandes

O pírtigo

Acredito piamente que as e os professores de ciências-agrárias, nestes tempos em a técnica surge em muitos relatórios referentes aos saberes de fecundar a terra e dela serem colhidos os frutos, à frente da ciência o pírtigo faça parte da arqueologia postergada para os arqueólogos elaborarem teses para a vidinha académica e segurar o assento profissional. Leitor empenhado de Terry Eaglaton, entendo a permanente funcionalidade dos utensílios de antanho, numa epistemologia abrangente retirando desse conceito saberes sobre os comportamentos e práticas do viver nas comunidades em plena fruição da ciência e da tecnologia como em devido tempo profetizou o sábio Aldous Huxley. Ora os malhadores eram exímios na colocação sincopada, cantada sonoramente nas espigas a debulhar sem ofender a cobiçada palha destinada a alimentar ruminantes, encher fronhas e colchões, fabricar colmos e beirados, enxergas cujo destino era incerto: amores escondidos, maleitas expostas para a mendicidade render mais, papel higiénico porcino na altura da matança e demais artes rústicas em voga até à quase desertificação do interior, sem esquecer o litoral das palhotas e demais construções como podemos perceber lendo os dicionários e corografias de ciências puras, aplicadas, históricas, sociais e agricultura. Ora, no mar encapelado da política nacional o Chefe, o vigilante apurado, António Costa ganhava honorabilidade se visionasse os filmes sobre as fainas agrícolas de Giacometti, no intuito de afinar o modelo de escolha dos futuros governantes através do movimento perfeito, ensarilhado, do pírtigo a bater a espiga. Se a curiosidade for intensa, pode recorrer aos ofícios de Berta Nunes, capataz da Federação local a fim de convencer o Senhor Gonçalves, dono e diligente operacional do restaurante Javali (parabéns pela distinção outorgada pelo Guia Michelin), o qual nas escassas horas vagas esculpe miniaturas em madeira, pedindo-lhe o favor de esculpir um malho (Santos Silva gosta de malhar na direita) cujo pírtigo o entusiasme a não se enganar nas escolhas, como se tem enganado repetidamente obrigando o Presidente Marcelo, Celinho, afirmou o humorista, a engrossar a voz à maneira de pai tirano dos filmes portugueses dos Silva e Vasco Santana castigavam os dislates do salazarismo através do riso para gozo de Leitão de Barros e Manuel Oliveira. O pírtigo é na minha modesta opinião o vigoroso antídoto contra os jecos vorazes, sem esquecer as mancebas marca Jamila Madeira e Cia, uns e outras em irmandade partidária no exercício de sugar na teta do Orçamento. Os professores clamam, as professoras esganiçam-se a pedir o respeito do governo, ficando em estado profunda agonia quando se lhes vem à cabeça a senhora que embolsou meio milhão de euros da falida TAP, também penso num pau de marmeleiro a sacudir a roupa dos membros da administração da empresa pública voadora porém suspendo o pensamento transferindo-o para Costa e Nuno Santos dupla de tomo à espera de áspero castigo nas próximas eleições legislativas, isto se emergir oposição de qualidade porque para já falta-lhe fibra à prova de água, inundações e torrentes. Pírtigo senhor Costa!

Larápio

Texto dedicado a uma senhora perspicaz e inteligente

Não estou autori- zado a contar o episódio, apenas a referir o porquê do hoje em desuso vocábulo – larápio -. Há alguns anos a se- nhora via um canal de televisão quando a determinada altura surgiu na pantalha a imagem de um figurão de alto coturno da nossa sociedade. A senho- ra levantou a cabeça, disse para o filho: se aquele que ali está for como o pai, é um larápio! Ora, ao ouvir os detalhes da afirmação entendi reter a atenção no termo – larápio –, visto a considerar eficaz em termos semânticos para a viva imagem do ratoneiro a fugir velozmente com o produto da rapina qual milhafre ou gavião a reter nas garras o pintainho descuidado privando a galinha alvoroçada do estouvado e, a dona do futuro pica no chão, como agora os frequentadores de restaurantes dizem numa referência envernizada à ruralidade. Bem sei, agora os larápios deram lugar aos cavalheiros de casaca (filme o Ladrão de casaca) os quais, nos intervalos de almoços, nos gabinetes opacos onde gizam jogadas golpistas em que larapiam dezenas e dezenas de milhões de euros, atirando para cima dos ombros dos contribuintes a responsabilidade de pagarem o escamoteamento dos lustrosos roubos. Larápio ladino ou não, de bicicletas, (genial o filme do neo-realismo italiano realizado pelo Senhor V. de Sica) recorda o biscateiro de secos-emolhados relapso a trabalhar nas segundas-feiras, terças e quintas ao contrário dos argentários sempre activos na ânsia de atingirem o estatuto de plutocratas descritos primorosamente no mais que esgotado livro O Plutocrata do filósofo Orlando Vitorino. Larápio é o palhaço pobre a contrastar a roupa puída contra as lantejoulas do Augusto, o larápio rouba um corte de fazenda, o Augusto toca violino enquanto o faz-tudo consegue entender a mensa- gem em notas musicais surripiando as carteiras dos espectadores nos circos de onde financeiramente vale tudo até esbulhar a família de os olhos bem abertos. O País tem assistido a cenas deste teor na destruição do cânone de a roupa suja da parentela lava-se em privado. O exemplo dos pri- mos DDT e Ricciardi desmente a velha máxima de os esqueletos de todas as famílias não devem sair dos armários. Tretas! Sendo esta a primeira crónica publicada no ano de 2023, não podia começar melhor, a justi- ça não sai do estado comatoso, o governo imita o Gargantua de Rabelais (come tudo), o Professor Marcelo após a desvinculação da Ritinha além de aguadeiro governamental é passa culpas relativamente a casos e casinhos da lavra da turma do chefe António Costa. Bom Ano Novo. Incluindo os larápios que também são gente. Na guerra e na paz!

Gal Costa e…

Foi no alfacinha Porão da Nau/Convés que ouvi a voz quente, sensual, arrebatadora de Gal Costa. A partir daí procurei engordar a colecção de discos com as suas admiráveis criações das quais destaco Índia e a banda sonora da famosa telenovela Gabriela Cravo e Canela. Se a voz cálida, coleante, num fundo do tempo a escorrer entre os dedos, tal qual a areia escorre quando enterramos os pés nos areais finos das praias é perenidade para lá da finitude. A baiana musa maior do tropicalismo emparceirava com Caetano Veloso e a sua irmã Maria Betânia feia como os trovões a intonar no estilo da mexicana Chavela Vargas, contribuíram de modo decisivo para a mundialização da música brasileira sem esquecer, antes pelo contrário, a Bossa Nova, Nara Leão e a portuguesa de nascença Carmem Miranda. Ainda adolescente, comecei a trautear canções de cantores brasileiros muito em voga no defunto Rádio Clube Português, a par da oficiosa Emissora Nacional que as difundiam e eu ouvia vibrando das tabernas quando passava nas ruas tal como escutava as notas altissonantes do Pardal sem Rabo a comandar o Terço de corneteiros do Batalhão de Caçadores Nº 3. Cantores do outro lado do Atlântico, as apresentavam nas verbenas estivais, principalmente durante as Festas da cidade no mês de Agosto. Lembro-me do Odir Odilon, da Mara Abrantes a qual ficou e morreu em Portugal. Já de Luís Gonzaga (onde estás coração?) e Caubi Peixoto restam-me fiapos de êxitos seus. A Gal Costa manteve a voz entonação/intonação sem quebras a cimentar a sua aura de cantora até ao fim abrupto dos seus 77 anos, não se sabendo quais foram as causas do desaparecimento do nosso convívio. Resta-me reunir os seus discos em vinil e compactos, escutá-los repetidamente aumentando a saudade como tenho do Marânus (Teixeira de Pascoaes), Montesinho e Nogueira berças do meu orgulho de ser transmontano de raiz telúrica regada com água ribatejana.

António Machado

No início da década sessenta do século passado chegou a Bragança o lisboeta Machado, mais tarde Machadinho para os amigos em dias e noites de feéricas exaltações a arrancarem estrídulas gargalhadas aos convivas. Instalado no burgo bragançano a exercer a (na altura) o quase desconhecido múnus de professor do ensino especializado de crianças descapacita- das, depressa conquistou a generalizada simpatia das pessoas, dada a sua bonomia e integração numa terra na qual os fo- rasteiros eram olhados e escrutinados pormenori- zadamente. Vivíamos em ditadura, a cidade também enfermava da execrável acção gerada no coio dos bufos (Legião Portuguesa), a PIDE morava em Quintanilha, por isso todos os cuidados eram poucos. O professor praticava a modalidade de futebol, depressa pas- sou a envergar a camisola do Desportivo, o seu estilo viril agradava aos «tifosos», a tal integração era completa. Porém, An- tónio Machado ensaiou com pleno êxito o dificul- toso papel de animador das noites de uma cidade embiocada, bafienta, in- vejosa e dotada de baias conservadoras no que tange às diversões nocturnas. Logo de seguida aventura-se no intrincado universo das artes culinárias, na restauração, constituindo uma auspiciosa revelação a presença do restaurante Académico no Festival Nacional de Gastronomia em Santarém. O Académico firmou raízes, granjeou fiel clientela, mi- lhares de pessoas conhe- ceram várias especialida- des da magnifica cozinha transmontana, António Machado passou a ser fi- gura emblemática no e do Festival da sápida cozinha tradicional portuguesa. Nas últimas edições do certame gastronómico, o Machadinho fez-se representar pelo filho Nuno. A representação tem sido briosa, mesmo exemplar, no entanto, porque ele faz muita falta tenho tentado saber qual a causa do afastamento para lá das etéreas respostas de circunstância. E, o Nuno informou-me dos padecimentos de saúde que o têm apoquentado desde há tempos a esta parte. Em face deste informe de- cidi escrever esta crónica, com o intuito de o poder alegrar incentivando-o a resistir com todas as ga- nas à maleita, de maneira a regressar rapidamente ao nosso pleno convívio em que possamos revisitar o passado, revolvendo a memória dos momentos de ampla plenitude dos sentidos que encerro na Carmina Burana. Forte abraço para ti querido Machadinho, Bragançano de gema como se tivesses nascido na Vila ou no bairro de Além-do-Rio.

Chuva Bendita

Há dias, meses, até dois anos, a entoar a mesma litania – não chove, não chove, não chove –, na quarta-feira, dia 18 de Outubro !!!, acordei ao som celestial de grossos pingos de chuva a baterem nas vidraças (termo em desuso) do quarto, parafraseando Augusto Gil fui ver: não era o som burocrático do chuveiro, era o da chuva grossa a recordar-me as zurvadas empurradas pelos ventos das serras de Nogueira e Montezinho. Temeroso ante a possibilidade de rebate falso como Judas vendedor/ traidor reservei aturada atenção à persistência da bendita musicalidade da chuva como se estivesse a dançar qual Fred Astaire, ou a ouvir deliciado o sagrado contido na obra Water Music de Handel num concerto no grande auditório da Gulbenkian. Ao longo do dia, não imitei os guarda-fiscais peritos na arte de praticar o ioga espanhol (siesta), nas matas e bosques das terras transmontanas, nada de semelhante, de tempos a tempos vasculhei os céus sem telescópio no temor de o chaveiro do Paraíso ordenar ao estilo espanhol o corte da vital fonte de vida. Ou porque o senhor São Pedro principiou a acolher os vernáculos protestos deste seguidor de S. Tomé, ou em vista da desolação da paisagem portuguesa, a bênção molhada prosseguiu noite fora de forma no dia seguinte os pregoeiros dos canais por cabo anunciaram a continuação do maná levando-me a pensar na imagem do pescador de Almas existente na pequena e graciosa de Lagarelhos, de barbas canosas, de chaves na mão esquerda, vestindo folgada túnica azul. E, agora? Agora solicito-lhe, penhoradamente, a continuada colheita das águas pluviais pelo menos até ao dia 29 de Junho (Ele sabe qual é razão) de forma a barragens, lagos, poços, rios e riachos ganharem volume aquífero podermos ficar libertos da chantagem dos émulos de Sancho Pança, os patos nadarem nos rios que atravessam Gimonde, as cegonhas aspergirem as asas molhadas, sem esquecer os cães vadios disporem da ventura de beberem água no tanque de S. Vicente, que nunca foi cheio de caldo para desejo do dono de um perdigueiro (?) esperançado na satisfação da endémica gula do canídeo. Os curiosos perguntem ao engenheiro Manuel Vaz Pires a identidade do Senhor em causa. O Manel Vaz Pires pertenceu ao glorioso grupo das viagens de (re) conhecimento do Distrito de… Bragança. Obviamente! PS. Espero não rer feri- do susceptibilidades espúrias.

VIRA MAL AIO

O Chef com o toque enterrado até às orelhas, de olhos saltitões e sorriso mofino, acabava de colocar a comida na travessa, chegava ao guichet da cozinha fazia-a deslizar na pedra de mármore e gritava: vira malaio! A Amelinha ficava irritada, mormente no serviço de jantar pois o chefe da cozinha do restaurante Machado-Cura nessa altura carregava nos decibéis tanto quanto Catarina Martins carregou na última campanha eleitoral a gritar lobo, lobo! A senhora tal como Pedro tramou-se e tramou a maioria dos funcionários do BE pois a gritaria levou os envernizados betinhos de esquerda a abrigarem-se no guarda-sol socialista. O Chef, minhoto de Bra- ga, gostava de reconfortar o palato e a garganta com amiudados goles de tinto, quando entendia cozinhava primorosamente batendo aos pontos os cozinheiros da concorrência culinária – Moderno, Poças e Pousada –, as restantes casas de comeres não suportavam os custos de um cozinheiro em exclusividade de funções. O Vira Malaio fumava enquanto cirandava entre tachos e panelas, no entanto, não constou ter sido encontrada uma pirisca no arroz, cousa comentada acidamente nos cafés da cidade. Os cozinheiros vindos de fora eram brindados com sorrisos depreciativos das Mestras de um cozinha tradicional/regional apurada, bem calibrada dentro do cânone – farta, forte, fechada –, em si mesma, a grande excepção era o colorau picante vindo do outro lado da fronteira. Mesmo os famosos ervanços (grão-de-bico) samoranos eram objecto de purulentos comentários dos taberneiros e proprietários, de calças vincadas, dos ditos restaurantes do burgo, especialistas na diferenciação de alheiras e tabafeias. Não por acaso o SNI publicou em página de grafismo cativante a lista das mais relevantes composições culinárias de Bragança que os Vira Malaios se esforçavam em aprender, pois rodriguinhos gastronómicos mereciam a mesma atenção concedida ao enchido de sobras do porco, que os rapazes da Lombada chamavam Buitielo ,que o antropólogo Ernesto Veiga de Oliveira estudou durante muito tempo. Hoje, o enchido ganhou esporas de cavaleiro e cavalga/surfa a onda da «modernidade» deixando os amigos dos salpicões muito felizes. Pudera! Aproxima-se o tempo sazonal das matanças, dos enchidos de massa, de sangue (também ex- travagantes composições lapuzes) e de carne. Ao contrário do que bonifrates e mouriscas dizem e escrevem os comeres da Terra Fria estão a perder soberania, estatuto e rigor. Aqui deixo o alerta às Confrarias de Bragança, ao Óscar Gonçalves e seus camaradas de profissão, ao perspicaz Alberto Fernandes, a todos quantos admiram a genuinidade ancestral tão bem expos- ta por Mestre Gil a ver para entender. Anda por aí muita gente a escrever sem consultar e ouvir as fontes primárias porque dá muito trabalho, desconhecem quanto penou o pai do Teatro Português para registar pómulos obscuros, autênticos nós-cegos da então dieta alimentar dos pobres, pobres de pedir enjeitados de tudo por todos. Esperemos que esses sinistros exemplos não voltem!

Pedradas no futebol

Após o desastre dos andrades (portis- tas) ante o Bruges, cidade onde vive uma bra- gançana do meu tempo, do jet-set da Praça da Sé dos anos sessenta do século passado, vários energú- menos entretiveram-se a aguardar o carro da famí- lia do treinador Conceição, para o apedrejarem civili- zadamente arremessando bocados de granito, xisto, quartzo e mica contra a sua viatura. O estúpido atentado, provocou enor- me comoção nas redac- ções chorosas, em virtude do falecimento da rainha do reino desunido, provocando a saída para as ruas de Lisboa, devidamente ataviado, do Sr. Magina polícia Intendente, qual Pina Manique a examinar bolsos e bolsas como se fossem caixas forradas de livros proibidos do rol do Santo Ofício de triste me- mória. Ao que as pantalhas da CNN, SIC, CMTV e oficiosa RTP informam, o fundista e acólitos já estão identifi- cados, por tão formidável proeza o cavalheiro Ma- gina e demais detectives aguardam serem conde- corados no próximo 10 de Junho ante proposta de José Luís Carneiro, de- vendo os penduricalhos serem apostos na casaca azul de gala por Marcelo supremo chanceler das ordens honoríficas portu- guesas. Nem mais! Ora, nos anos sessenta do século passado na esteira da década antece- dente a escolha da equi- pa que ia disputar uma das zonas da 3ª divisão no distrito de Bragança confinava-se a Bragança e Mirandela, só se alargan- do alguns anos depois. A rivalidade passava dos resmungos recíprocos de narros para lá e para cá, até ao violento acertar nas viaturas dos forasteiros, passando pelos enfrenta- mentos dentro das quatro linhas do campo. A cousa com laivos épicos possuía vários actores de diferen- tes escalões e respectivas representações, jogadores ordeiros e respeitados, o grande e sorridente capi- tão Xico Ferreira e o im- pecável Luís Mesquita, o pendular Frias, o Dionísio de tremenda mão zurda no GDB, o Policarpo avançado do Mirandela. No leque dos sarrafeiros, a legião dos passa a bola não pas- sa o homem placado que esperneia no áspero cam- po pelado, alargava-se nos dois lados de tal modo que prefiro restringir-me a re- ferenciar o Moisés, o Rodi- nhas e o Tita no GDB, o Vi- nhas, o Mário e o Macedo no Mirandela. Os despiques na assis- tência levavam a cenas de “mosquitos por cordas”, os mais ferozes de língua seriam o tenente da GNR, comandante da secção ca- nhota salazarista na vila de Mirandela, agora refe- rida como princesa do Tua (o saudoso Roger enfure- cia-se com a ridícula ca- talogação), enquanto nas hostes bragançanas, o ad- vogado Eduardo Gonçal- ves semeava impropérios condenatórios dos dislates dos árbitros. No que tange a árbitros Armando (Bom- badas) e Salazar deixaram em herança acções grotes- cas a favorecer o Despor- tivo, os apitadores vindos de fora quando metiam a pata na poça (o campo após uma boa chuvada exibia muitas) entornava-se o «caldo» daí perseguições até à Mosca (estação), sen- do empregues calhaus, pe- dras, e demais auxiliares de iradas manifestações de vernáculo vocabular da nossa língua charra. Nos prélios no «está- dio» do Toural a presença de trovadores/trotadores incansáveis a dar voltas e voltas era habitual, de tempos a tempos, inci- tavam os jogadores bra- dando os nomes da sua afeição. O Senhor Veloso (Cabeça de Pau), distin- guia-se dada abrangência do clamor sem recurso a chistes de afrontamento. Agora, o «Mundo da bola» toldou-se, as tecno- logias de ponta são mais perigosas que as navalhas de ponta e mola, as claques quais émulas dos rapazes de Al Capone imperam no «jardim das delícias» do referido desporto-rei, o negócio da compra e ven- da dos atletas pouco varia relativamente ao mercado de escravos de todos os colonialismos. As multi- dões aplaudem!

Os lambe-botas

Uma das maiores dádivas que recebi ao longo da vida, foi a de privar e receber a amizade, apuro na análise do comportamento humano, sem esquecer os conselhos repletos de ironia, dados em filigrana ao longo de décadas pelo arguto e visionário filósofo Orlando Vitorino. Como é e foi, comentávamos o fluir do quotidiano, as subtilezas dos malabaristas dos negócios, da política, da composição e poder das famílias poderosas, dos lambe botas e manteigueiros em geral, dos existentes na Instituição na qual trabalhávamos. O autor da Refutação da Filosofia Triunfante, e da Exaltação da Filosofia Derrotada, tolerava com ironia os manteigueiros, abominava e zurzia sem piedade os rastejantes de língua de fora a salivarem baba nas botas, botins e sapatos dos decisores e adjuntos. A um adjunto chamou e escreveu que não passava de um Nulo abre portas nos corredores alcatifados. O Homem que contemplei vezes sem conta a escrever de jacto documentos de enorme densidade e doutrina, da mesma forma um livro destinado a crianças, uma peça de teatro e/ou ensaio relativo a pensadores da estirpe de Aristóteles, Maquiavel ou Nicolau de Cusa. O leitor perguntará: porque carga de água (que escasseia) trago à colação o também cineasta Orlando Vitorino, tecendo considerações referentes à praga de lambe-botas tão comum na sociedade portuguesa? Porque a Instituição das nossas vivências profissionais mudou de timoneiro há pouco tempo e, os referidos passadores de saliva nos sapatos andam numa roda-viva a escreverem loas ao Senhor em causa, tendo o cuidado de nomearem antigos dirigentes de igual estatuto não vá o Diabo ser tendeiro exercitando ciú- mes do ora na fruição da refor- ma porém, atentos ao cair das folhas do jardim das delícias e memórias vivas, discretas e secretas daquele centro de poder tão vigiado no Estado Novo, tão escrutinado e apetecido desde sempre. O filósofo declinou convi- tes de direcção, a burocracia aborrecia-o, a opacidade dos gabinetes de igual modo, amante e amigo da liberdade retirou-se abruptamente para o seu amado Alentejo quando os lambe-botas o quiseram manietar. Ele defendia a Escola Formal e a «razão animada». A mulher do ferreiro Venâncio de Lagarelhos estava sempre de acordo com as comadres e compadres, originava risos e dichotes, os lambe-botas dão asco. O saudoso Filósofo a todo o tempo lembrava o menino travesso a desmascarar o rei nu!

O MATA-BORRÃO

O dito deste verão é da autoria de Marcelo Rebelo de Sousa: «António Costa é um mata-borrão». Ora durante a primeira classe mantive luta inglória com os borrões de tinta que os chupa-nódoas acabavam por soçobrar ante a frequente invasão das mesmas a alcançarem as mãos e as roupas a causarem comentários em vivo vernáculo à minha avó materna. No dia 7 de Outubro entrei na decrépita escola de Lagarelhos, tinha seis anos de idade, envergava uma camisola de gola alta (Ives Montad pautava no círculo da moda parisiense que chegava a Bragança através dos Sehores Tozé e Queiroz), calça curta, meias brancas rendadas de canhão alto, botas engraxadas, debaixo braço um pasta, (a fotografia assim o confirma)assim penetrei na sala esburacada, carteiras e mesas compridas, na cabeceira uma secretária, no tampo a Santa Luzia, atrás a minha vizinha, a senhora Emília, viúva, professora de Posto de Ensino, vulgo posteira, ao lado a menina Lili, sua filha, numa cadeirinha e pequena carteira, apertada numa gola engomada e muito senhora de si fazendo contrastar a sua alva tez aveludada com as tisnadas pelo sol das meninas a que todas e todos chamávamos garotas. E, já lá vão setenta anos! Na parede do fundo, no centro, um crucifixo, do lado esquerdo o retrato do Marechal Carmona, do lado direito o de Oliveira Salazar. Num balcão corrido ao longo das vidraças os alunos quase todos calçando socas e socos, colocavam os trastes – roupa, sacolas, sacas, saquitas, boinas e gorros –, tudo muito pobre. Junto à porta o vassouro que as alunas o empregavam para varrer à vez as largas tábuas de castanho, quase tidas estropiadas devido à idade e constância trepidante dos socos e socas de amieiro cravejado de cardas. As pessoas viviam numa pobreza envergonhada, a alimentação baseava- -se nas batatas, castanhas, couves, centeio, e carne de porco. Quem cevava e matava os recos. A senhora Emília e a diáfana filha eram de Vale das Fontes a professora plácida, pesada, e tristonha, o rebento mimada, receosa e recatada. No final ao ano lectivo fui (contrariado) para Bragança, nunca mais soube nem novas, nem mandados, da mocinha sempre colada à Mãe. O meu «estacionamento» na última fila permitia-me ver quem passava no caminho pedregoso e lamacento nos dias chuvosos, não faltando pretextos para falar com os passantes e deixar cair gotas de tinta azul do aparo de aço enfiado na caneta com mola, roída na extremidade. O caderno das cópias estava polvilhado de marcas de tinta pois o mata-borrão dado pelo meu pai no dia anterior ao bap- tismo escolar ao fim de pouco tempo não passava de um enor- me borrão, mais a mais, a partir do momento em que o Chiquito (desapareceu para sempre pas- sados alguns anos) entornou sobre o absorvente cor-de-rosa o resto contido num tinteiro. Em Bragança comprava as fo- lhas de mata-borrão na Livraria Silva onde o Senhor Domingos da Silva com uns óculos lentes cus de garrafa que nos fixavam insistentemente, e na Livraria do Senhor Mário Péricles na qual imperava a menina Teresinha metida numa bata de cetim preto uniforme de telefonistas, cabeleireiras veteranas e outras funções similares. Na cidade do Braganção existiam grandes bebedores e co- milões, um deles comeu uma canonha assada acolitada com uma carreta de batatas, para mata-borrão bebeu cinco litros de vinho vendido na taberna do Canta. Estes mata-borrões tinham largo uso no circuito democrático do trabalho operário, do mesmo modo nos ramos do funcionalismo civil e das forças de segurança, já que a tropa despediu-se da sua categoria de praça-forte logo a seguir â eclosão da guerra colonial. Seria cavar rancores caso enunciasse célebres mata- -borrões de antanho porque, forçosamente, iria deixar no tin- teiro muitos deles, de qualquer modo, os contributos dos anó- nimos justificam registo pois há vários tipos de absorventes de nódoas por isso António Costa prefere não exercer tal função deixando Nuno Santos, Fer- nando Medina e Céu Antunes entregues a si mesmo pois as manchas são de tal ordem que só uma esfregona embebida em soda cáustica conseguiria trazer algum disfarce na carreira/acção política dos visados. A manta da maioria realiza o resto. É a vida parafraseando António Guterres! PS. O desgosto pela perda de uma caneta de tinta permanente levou-me a rabiscar apenas com esferográficas publicitárias.

ARREBITA, Arrebita…

O lapuz latagão enfiava as botas ensebadas no pó levantando-o na direcção dos pares dançantes idos da cidade à festa na aldeia (sem terem visto o filme do Sr. Hulot) porque as raparigas dançavam a precei- to ao som do conjunto António Mafra e não descriminavam os citadinos. Não havia bandas que na altura se chamavam conjuntos. A canção do momento aludia à cachopa se queres ser bonita, arrebita, arrebita, daí o estardalhaço poeirento que ofendia os sapatos a que nem o Sr. Gonçalves (sempre impecável de casaco e gravata, jovial e bem-disposto) escapava. A música desprendia-se de dois altifalantes pendurados num castanheiro centenário, certamente, testemunha de outras sonoridades derivadas de sopros, metais, madeiras e vozes.

O mês de Agosto é o mês festeiro, o Senhor Gonçalves seria um irmão mais velho no que concerne ao circuito das festas, fugia das encrencas e zaragatas como o Diabo foge (fugia das aglomerações de garotos segundo afirmava o Sr. Padre Aurélio pároco da freguesia de Vilar de Ossos) da Cruz, porque além da sua índole ser pacífica sabia quais eram os efeitos etílicos das bebidas fortes reduzidas ao vinho e à cerveja (esta muito menos), as restantes cingiam-se a pirolitos com berlinde e laranjadas.

A canção de António Mafra gozava de grande sucesso. Estávamos no dealbar da década de sessenta do século passado.

Sem saudosismo espúrio peço aos leitores (envolvendo os da minha idade) para ajuizarem sobre a transformação das festanças nos dias de hoje. Agora predominam as tais bandas a empregarem o inglês como língua primacial, os músicos e acompanhantes em palco em vez de roupa exibem tatuagens, correntes e botifarras. Desapareceram os vocalistas, as melodias (?) são gritadas, abundam os estilos copiados do universo anglo-saxão, proliferam os charros, os tiros (shots), os braços ao alto, o abanar das cabeças até à exaustão, os avultados capitais nesta influente indústria do entretinimento que a par do futebol considero enquadrar-se no conceito marxista de ópio do povo.

A brejeirice de Mafra (atente-se no carrapito da Dona Aurora de outra canção e as letras dos Mata-Ratos) não passa de eufemismo na comparação das (in)delicadezas do presente, obviamente, a soturnidade fossilizada do regime ditatorial manietava jovens e a generalidade dos lusitanos, a violência latente e quantas vezes expressa em mortes e feridos graves assusta-me.

O contraste faço-o de maneira simplista: o chapéu de feltro do Sr. Gonçalves e os bonés de pala comprida usados a esmo nas aldeias e nas cidades e, para não ser acusado pelas zelotas da igualdade de género, entre as socas abertas da Aninhas de Castrelos e as sapatilhas pisca-pisca da Joana de Porto Côvo.

A Sociedade do Espectáculo (Debord) ainda não atingiu o ponto focal na nossa sociedade mimética, Pacheco Pereira tem recebido incessantes ataques por ousar colocar o dedo na buba do sectarismo das identidades, ao que parece, nas convivialidades festivas as particularidades não têm dado azo a conflitos notórios. Ainda bem!