Armando Fernandes

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Infiltrados

Na minha opinião o jornalista alemão Richard Sorge foi o mais arguto e clarividente dos espiões infiltrados de todos os tempos dadas as circunstâncias em que se encontrava num Japão infestado de caça espiões por parte da temida polícia secreta nipónica. Antes dos seus rivais do Ocidente e do Oriente decifrou os planos de ataque do alto-comando japonês, remetendo o resultado obtido através de perigosos trabalhos para o sanguinário José dos bigodes, entenda-se: José Estaline, o Pai dos Povos não acreditou no sagaz Sorge, deixou-o esturricar em lume brando, preso acabou executado no País das cerejeiras. O mundo da espionagem é rico em episódios semelhantes, além dos picantes em vários tons e sons que entre muitos, Graham Greene e John le Carré trouxeram para a ribalta literária a par do plastificado 007 de Fleming. Ora, nos últimos dias o país da maior segurança (Eduardo Cabrita dixit, sem magíster) foi abalado pela detenção de dois iraquianos suspeitos de terem sido membros da polícia religiosa do DASH, acusados de crimes hediondos sobre pessoas indefesas e sitiadas. Os ora presos obtiveram o certificado de refugiados, granjearam simpatias como pudemos ler em duas peças incertas no pulcro e entrelinhado matutino Público. As tomadas de opinião neste jornal cessaram inopinadamente, o Diário de Notícias retomou a manta já muito pintada e, soubemos muito mais, enquanto o Expresso se limitou a pintar a mesma manta do DN utilizando outras tintas (palavras). Novas e mandados vieram da ONU, aqueles «bons rapazes» nunca entrariam na Casa do Gaiato sem serem averiguadas as suas referências porque o Padre Américo era bom, mas não era parvo. Assim não aconteceu no restaurante Mezze cuja coordenadora é crédula e confiada nas aparências muito ao estilo de uma sua parenta. Um dos iraquianos conseguiu de mão-beijada ultrapassar a aura de Sorge que nunca esteve à beira do Imperador do Sol Nascente, pois andou lado a lado com o Presidente da República portuguesa, embaixadores e noutra ocasião, certamente, fez profunda vénia ao dono da bazuca cospe milhões de euros ao ritmo das armas automáticas doadas pelos fujões americanos aos vitoriosos talibãs. O embaraço dos responsáveis pela segurança das principais figuras políticas e do País é enorme, por assim ser, e é, está em marcha a operação tapa-tapa, interessa esquecer o badalar dos sinos a rebate cuja autoria é do SEF em má hora objecto de extinção dada a estúpida e assassina actuação de alguns membros desse Organismo. Na lógica cabrital uma negligência é punida destruindo a Instituição, a ser seguida vão desaparecer hospitais, quartéis, prisões e tutti-quanti na sociedade portuguesa, assemelhando- -se ao feito pelo ministro Rapazote à PVT na época da outra senhora. Os infiltrados vindos do Iraque viram em Portugal tal como os rapazes gulosos se vêm em vinha vindimada, lamuriaram dada a falta de uvas (documentos definitivos a atestarem boa conduta), as senhoras gostaram de ouvir as melopeias pensando nas óperas de Verdi e Puccini, tudo prometia acabar em ridentes conversões, porém as vítimas dos dois algozes tiveram a sorte que faltou a Sorge, serem escutados. Tudo isto se passou (e vai passar) ao modo de ópera-bufa, sendo a prova provada de os bufões colocarem a máscara de pessoas de trato e merecedoras de estima conseguindo alcançar patamares de mando e influência a obrigarem-nos a soletrar: Porca Miséria|

PS. Nem sempre estou de acordo com as considerações de Manuel Vaz Pires. No caso do seu artigo – Se eu fosse Presidente –, apenas escrevo: se eu fosse candidato lia-o com estudada atenção.

A campanha

Antes de outras considerações permito- -me salientar o concludente editorial da Directora deste jornal (edição do dia 24 de Agosto) relativo às tentações de santos e pecadores procurarem interferir na massa lêveda do seu labor procurando alterá-la através do fermento partidário, individual e vesgo. Aquele editorial enobrece o jornal e, avisa, que a linha editorial do Nordeste não balouça ao sabor das ondas quantas vezes espúrias dos mandantes ressabiados. Muito bem, cara Directora! Vou lendo novas (velhas promessas) e mandados de ocasião dada a proximidade das eleições onde predominam o mimetismo em destemperado copianço envernizado com palavras de plataforma publicitária, a volubilidade dos projectos ditos estruturantes, sem esquecer a facúndia adiposa do «palavreado» de feira no antigo Toural. Os cidadãos atentos dirão: porca miséria! Este falacioso estendal que nem arremedo gongórico consegue ser é uma das principais causas da abstenção, pois as mulheres e homens em idade votar preferem entender palavras que toquem na buba dos problemas que afectam as comunidades, rejeitam pancartas balofas em sinceridade e rigorosa intenção. De um momento para o outro prometem-se corridas aos mapas cartográficos a de colocarem o município A, ou a freguesia B no MAPA, como se as pessoas fossem pacóvias da era em que procurava o centro do mundo medindo o planisfério escolar recorrendo à fita métrica do alfaiate da freguesia. Se os candidatos estão interessados em consultar mapas escolares só tem de pedir a ajuda do Senhor Alberto Fernandes (do Dom Roberto de Gimonde) ele teve o cuidado de recolher e guardar alguns aquando das obras de revitalização do casario adquirido na época certa. O eleitor comum em terras (ditas de promissão na caça ao voto) onde não mana o leite e o mel ainda estão à espera do maná da dádiva dos ajudantes de ministro, fundamentalmente o que o aperreia e preocupa é a sua segurança e dos seus bens, a assistência sanitária, o receberem a tempo e horas as reformas aplicadas na botica, na mercearia e distribuidoras de pão. Cozer pão acarreta dores de costas, os dentes fugiram, pão mole e bolos nos dias nomeados fazem esquecer as côdeas ou codechas de antanho. Segundo o lido no Nordeste constato vários candidatos barrigas de aluguer também denominados pára-quedistas, os partidos recorrem a eles no afã de fazerem listas de presença especialidade da CDU e Chega pintando uma pantomina da democracia. Via RTP assisti ao debata referente aos candidatos de Bragança. Sem surpresa Hernâni Dias ganhou por KO, Jorge Gomes deu-me a impressão de ter calçado as luvas a fim de fazer um frete partidário, o senhor da CDU além de ter lido mal a vulgata mostrou-se num registo de suecada pós prandial, o rapaz do Bloco ainda tem de comer muitas malgas de caldo, o Sr. Silvestre foi cómico no seu patético discurso coisa que não me surpreendeu pois sempre assim o vi no antanho político. Enfim!

Vespeiros

No dia de saída deste jornal, 24 de Agosto, celebram-se festejos em honra do Santo que acorrentou o Diabo fomentador de toda a sorte de vespeiros. O apóstolo Bartolomeu perdeu a paciência ante os desmandos de Lucífer e, para sossego de todos, acorrentou-o, assim o vi em imagens impressivas a impressionarem-me na meninice pois o esgar do Demo é programático a anunciar tumultos vingativos mal conseguisse livrar-se do garrote. Para o efeito criou os vespeiros de várias tonalidades, sons, roncos e catástrofes de múltiplos quilates tal como os diamantes ensanguentados expostos em bustos de pómulos salientes, chatos ou lisos, sem esquecer anéis, diademas da realeza. Se quando menino nas veredas de Lagarelhos vislumbrava um vespeiro escondido num buraco de uma parede o tal Mafarrico tentava-me a enfunar um pauzinho na entrada do covil, enfiava-o até ao meu punhos, remexia e depressa percebi o erro cometido ao receber ferrões enraivecidos que me inchavam o rosto e braços, lançando-me num pranto desalmado (sem ânima) sim animado pela promessa de nunca mais. E, após uma desastrada segunda investida entendi a lição. No entanto, manda a verdade escrever, que passados alguns dias voltei ao vespeiro, tapei o rosto com o lenço de assoar o nariz (coisa rara na aldeia) visto prevalecer o lenço de cinco pontas mesmo quando os candeeiros dos meninos luziam quais faróis de um Bentley (ronaldiano) em incessante monco amarelo entre as narinas e a boca. Blusa fechada no pescoço, lenço na face, enfiei o pau no ninho das vespas para logo a seguir com a ajuda do saudoso Arménio meter na sua toca estopa a arder. Fugimos para longe, passado algum tempo voltámos ao local do incêndio qual Nero a cantar e tocar lira julgando-me um anjo vingativo. Só que algumas vespas vagueavam enfurecidas devido a atribulada saída de cena e, num hara-kiri obsceno, conseguiram ferrar- -me numa mão levando a minha avó a censurar-me causticamente a estultícia enquanto colocava azeite e pingos de vinagre na buba inchada que nem uma grávida cereja bical. Como alguns sabem a História está prenha de vespeiros gerados, mexidos e remexidos pela imprudência, ausência de estudo, vingança e desejo de ficar nos anais, por políticos, militares, charlatães, aventureiros e demais comandita (termo comercial). Para não ir mais longe basta o século XX e o actual para lembrar as duas grandes guerras em geral, o sufoco americano no Vietnam, na fuga fandanga no Afeganistão em geral e a nível local a guerra colonial portuguesa. Os filhos do Tio Sam beneficiaram enormemente a Europa nas duas guerras mundiais, borraram a pintura na Ásia, Vietnam, Iraque e Afeganistão. Um grande amigo meu, felizmente ainda vivo encontrava-se em Saigão nos últimos dias do governo fantoche, contou-me o que viu, ouviu e cheirou nesses dias de chumbo, o vespeiro fervilhava, ele conseguiu cumprir a secreta missão, presenciou o selvagem crepúsculo do orgulho ianque, Saigão passou a ser episódio de estudos de mal sucedida estratégia militar. Ao tempo o sagaz Ho Chi Minh sorria feliz nas catacumbas de Hanói! Nesta altura a única potência mundial chora para dentro a humilhação que está a sofrer o “simpático” Biden tirou a máscara, cai nas sondagens, os republicanos casquilham gargalhadas. Tenho três netos americanos, eles irão ouvir toda a sua vida os pregoeiros da ciência política mencionar a repetida asneira de agora nas universidades e comunicação social, espero bem que a América retire as conclusões capazes de evitar outras semelhantes ou piores. Por fim o vespeiro português. O tacanho Botas de Santa Comba não entendeu a ventania da finitude do ciclo histórico do colonialismo, também fui mobilizado, na altura a publicação clandestina Cadernos Necessários alertou-me para o previsível colapso do nosso esforço. Durante 27 meses na floresta do Maiombe lia o PERINTREP e o SITREP, aqueles documentos não maquilhavam a situação, a Seara Nova ajudava-me a resolver a equação: estávamos metidos numa camisa sem mangas, de forças opostas, poderosas. Era uma questão de tempo. E, foi. O Caco (António de Spínola) deu o pontapé de saída. O Trasgo continua a chocalhar o cortiço vespeiro!

A greve das cegonhas

Os meninos pelo feitio não ficam caros (Homem de Lagarelhos)

Os censos de agora revelam a perda de 250.000 habitantes relativamente aos censos anteriores. Por várias causas a população portuguesa vem diminuindo de ano para ano. Longe vão os tempos das famílias numerosas, seja no universo urbano, seja no rural. As ciências sociais elencam várias razões causadoras da rarefacção dos agregados familiares, prosaicamente os casais fazem contas à vida, as mulheres têm ao seu dispor a pílula, o truca-truca de José Morgado, glosado pela notável e bem-humorada poetisa Natália Correia deixou de ser praticado apenas com o móbil de engendrar descendentes, embora «fazer» filhos pelo feitio não fiquem caros segundo ouvi a um homem de Lagarelhos irmão de quatro raparigas e quatro rapazes, o seu adequado sustento, a sua boa educação (física, académica, científica e técnica) só está ao alcance de pais detentores de rendimentos acima da média e, nos dias de hoje os jovens nem nem a ficarem na casa paterna, usufruindo de cama, mesa, roupa lavada sem esquecer a mesada quantas vezes retirada das magras reformas dos progenitores. A mesada é forçada ali ou acolá, até de modo violento, segundo registam órgãos de comunicação social.

O acima exposto é uma pálida ideia referente à míngua demográfica reinante nas terras lusitanas, sendo muito maior no interior de Norte a Sul, pois as pessoas preferem viver no litoral apesar dos apelos de sinal contrário, provando-se a força do apelo do mar, ou fossemos um povo de marinheiros. No tempo da Maria Cachucha, da época em que os animais falavam e das fadas da Condessa de Ségur existia um serviço de mala-posta confiado às cegonhas as quais não tinham asas a medir na lufa-lufa de entregar bebés às mulheres casadas transmontanas e beiroas (contando ainda com o suplemento das mães solteiras de meninos marcados com o ferrete de zorros para infelicidade dos nasciturnos). As cegonhas deixaram de desempenhar tão grácil tarefa queixando-se da penosidade da profissão e não terem sindicato poderoso capaz de as defender, o dos motoristas de camiões de combustíveis mofarem ruidosamente da pretensão de união com as pernaltas de bico comprido, estas retiraram-se e vivem em ninhos no cocuruto de árvores e postes. Um escritor espanhol caminhante ao estilo de Camilo José Cela referiu um ninho de cegonhas nas imediações do restaurante D. Roberto em Gimonde, eu observei outro no cimo de uma torre de alta tensão na aldeia de Milhão, no tocante a mala-posta sobrou a localidade assim denominada Malaposta onde esparsamente estaciono a fim de revisitar o vetusto restaurante Pompeu dos frangos.

A desertificação do interior não se enfrenta nomeando e mantendo secretários de Estado (ajudantes de ministros) para lá do Marão, Serra da Estrela, Gardunha e S. Mamede, sustem-se tomando corajosas decisões, há dois séculos e meio o Sr. Sebastião Carvalho e Melo semeou indústrias nessas terras recônditas, Covilhã e Tomar servem de exemplo, agora tudo se transformou, a burocracia, a voracidade empresarial dos núcleos de maior peso demográfico (votos), a preguiça tecnologia do ar condicionado, as loas paisagísticas do interior a convidarem ao ripanço escoram a debilidade (não aludo a virilidade) no fazer/fazendo todos os esforços tendentes a minorar rapidamente as lacunas populacionais existentes sem estarmos à espera incerta dos migrantes e discretos para não acoimar de secretos os investidores cartão Gold e eclatante Platina.

Estátuas

Na edição do dia seis de Julho do ano em curso o Sr. Henrique Pedro publicou neste (nosso) jornal um ferino artigo a denunciar e a criticar o serôdio sectarismo e nefanda ortodoxia de grupos minoritários (para nossa salvação) esperemos que assim continuem, fanáticos ao modo dos talibans especializados no escarafunchar o nosso devir histórico através de lentes distorcidas, vesgas, na esteira do Zé dos bigodes, «pai» dos povos inimigo da Persona, daí preferir as estatísticas, à sua custa terá proferido sentenças condenando à morte mais de vinte milhões de mulheres e homens não sem antes ter ordenado a sua prisão, tortura e vilezas monstruosas. A sanha contra a civilização ocidental não é de agora os agentes da barbárie envernizada em chavões reputados de progressistas numa modernidade claramente analfabeta não nasceram ontem, na esmagadora maioria nados e formados em nações desprovidas daquilo a que chamamos cultura versus civilização destilam ódio contra o Homem branco porque tem inventado, criado, concebido, teorizado e especulado aquilo que uma investigadora chamou Padrões de Cultura. Nos Estados Unidos a opressão racial produziu monstruosidades brutais, todos os Homens sensatos e providos de descernimento têm o dever de condenar e lutar pelo mútuo respeito independentemente da raça, da cor da pele, da religião, pois os homens livres o merecem totalmente. Ninguém pode varrer para o entulho da História os crimes cometidos em nome da fé ou do expansionismo, no entanto, é absurdo assacar aos brancos de hoje culpas pelos deploráveis usos e hábitos dos nossos antepassados. Por ser assim e, é, condeno com veemência as estúpidas façanhas dos vândalos (no antecedente eram bárbaros) destruidores de tudo quanto representa o cordão histórico dos povos. Nós por cá já tivemos representações desse vandalismo, pensemos na estátua do Padre António Vieira e/ ou no abjecto artigo do deputado socialista Ascenso eleito pelo círculo de Vila Real. Segundo jornais estrangeiro a fúria contra as estátuas continua selvagem em países que não são, nem nunca foram modelo de boa governação como é exemplo a Colômbia. Pois bem, na Pátria do célebre Garcia Marquez, multidões de gente raivosa profere chufas escatológicas e derruba estátuas do Navegador que originou a designação daquela Nação. O renomado Gabo de Cem Anos de Solidão dará voltas na tumba ao tomar conhecimento da ortodoxia e crimes na sociedade colombiana, nós por cá assistimos pesarosos e silenciosamente revoltados contra todas as infelizes e iracundas representações do retrocesso social que tal como a Covid.19 e a ventania vão varrendo os povos e Nações, acerca da decadência, teorizou entre outros Splenger, já Ingmar Bergman filmou o perturbante Ovo da Serpente a antever o nazismo e outros ismos de recorte contemporâneo. É o que pretendemos? Claro que não, mas quando os Deuses enlouquecem os homens tudo pode suceder. Esperemos que não!

A barrela

Ao longo dos anos tenho neste jornal e em outros dedicado atenção ao predador de negócios Joe Berardo porque na minha opinião é um cuco sempre à espreita da oportunidade de vazar os olhos a empresários e empreendedores competentes recorrendo a múltiplos estratagemas e truques sejam de alto coturno ou ao estilo dos vendedores e compradores de recheios de casas no momento de angustiantes aflições dos seus proprietários. Em Bragança amassaram-se fortunas provenientes de empréstimos a juros onde a escandalosa usura era a prática habitual. O «capitalista» Berardo teve êxito no despudorado ataque a várias empresas, resistiu a Sogrape porque a família sua proprietária soube resistir já que dinheiro para tais maquinações nunca faltou ao madeirense dado a ser o porta-estandarte de furiosas investidas financeiras muito ao modo do senhor Mário Conde o famigerado banqueiro espanhol máximo actor do golpe filibusteiro contra o banco Banesto. Em Espanha na época do pelotazo até um governador do Banco de Espanha entrou no baile do golpe ao sistema financeiro inspirando portugueses de colorações partidárias diferentes (BANIF, BPN, etc.) inspirando os aprendizes de feiticeiro como é o senhor da centenária Quinta da Bacalhoa. Um cientista escreveu Deus não joga aos dados, só que dados relativos a negociatas de tomo colocaram em risco o sistema financeiro, sendo conhecedor das teias de interesses que levaram à concessão de vultuosos créditos a revelarem a possibilidade a uma os mais que uma mão invisível tivesse inventado uma estratégia da aranha a recordar o celebrado filme de Bertolucci com o mesmo título cujo tema central é a conquista do poder. Ora, a conquista do poder provocou feridas ainda a sangrar (Jardim Gonçalves, Filipe Pinhal, etc.), alinhamentos e alianças impensáveis, intrigas próprias dos filmes de acção, traições á la carte, conflitos familiares ainda em curso (Ricciardi e o dono disto tudo) num novelo emaranhado que temos (pagamos) direito a conhecer. Esse desejo de sabermos onde a meada se inicia e até onde vai só é passível de total revelação caso se leve a cabo uma enorme barrela, tal e qual eram as barrelas da roupa de cama das pensões brigantinas dos anos cinquenta do século antecedente. Ora, se não for seguida a frase lapidar do senhor de Lampedusa podemos aquilatar a esperança da dita roupa suja ser lavada e corada a pontos dos contribuintes perceberem as artes e manhas utilizadas no sumiço dos milhares de milhões vindos uma determinada banca capturada na opacidade dos gabinetes e restaurantes dotados de salas privadas e acolchoadas, não vá o Mafarrico gravar e filmar comparsas e palavras proferidas. Se quisermos ser miméticos pois abundam situações semelhantes em Itália, os pagantes (nós) aplaudiriam uma operação ‘Mãos Limpas», mesmo limpas de ambições desmedidas e espúrias. O pior é o Senhor de Lampedusa

Arrancados da Terra

Por toda a sorte de travejamentos históricos, antropológicos, teleológicos e filosóficos presto atenção e estudo à civilização judaica, mesmo correndo o risco de desproporcionado e bazófia a empregar o vocábulo civilização. Não sendo judeu, julgo possuir algumas gotas de sangue a correr nas veias dos sefarditas vindos para a Península Ibérica após a destruição do Templo de Jerusalém, num percurso eriçado de cardos, abrolhos, silvas, sarças e pedras dos tortuosos caminhos cruzados e atravessados por mil armadilhas de caça aos judeus. Os itinerários da diáspora até chegarem à Península são conhecidos estando publicados em Atlas a possibilitarem-nos a real/realidade de com rigor formularmos o viver aperreado até chegarem a terras nas quais podiam esticar os braços, as mãos modelarem utensílios e artefactos, conceber comeres e beberes conforme os preceitos dietéticos consagrados no Talmude. Os agora raros e famosos cuscos foram concebidos no deserto em fogões portáteis de cerâmica pelos fugitivos judeus a par dos berberes, outras preparações culinárias tiveram a mesma génese (os renitentes em aceitarem a paternidade judaica consultem os receituários da religião mosaica), bem como o precioso beijinho da farinha do qual emanavam os ditos cuscos que ao contrário do propalado por gente inimiga de ler crónicas, cronicões e documentação de letra esgroviada requerem imensa oficina caseira, dias solarengos, colchões adequados e destreza manual. Judeus em Bragança? Não vou citar a bibliografia existente bebedouro sempre ao dispor, refiro Mendes dos Remédios, o Abade de Baçal e os processos perpetrados pela sinistra Inquisição, prefiro lembrar acção feia e involucrada na catequese de baixo do olhar do Senhor da Cana Verde, os claustros da Sé que me levou a correr ao lado dos demais meninos a estudarem e receberem o sacramento do Crisma, até à oficina de um sapateiro avô do António Eugénio e gritarmos JUDEU. O homem sentado na tripeça esboçou o gesto de se levantar, nós fugimos, no entanto fui travado pela senhora Dra. Margarida Machado, farmacêutica muito respeitada a qual censurou asperamente a nossa conduta. Dada a influência da Mãe do Tony, logo pensei na mão pesada do meu progenitor, logo esqueci a ganga da catequista a nomear malefícios atribuídos aos marranos e restantes judeus. Na rua Direita existiam marcas e métricas de cunho judaico, a Sinagoga, os próprios crentes a demandavam nos dias de culto. Na Bragança dos anos cinquenta do século passado existia o acentuado atavismo tolerante, do vive e deixa viver, daí o anti- -semitismo ser subterrâneo ou desprovido de significado social e político, no entanto, os termos judeu e acusa Cristos, eram casquinhados em tons jocosos depreciativos, porque ao fim e ao cabo judeus éramos «todos», por isso irmãos em Cristo. Na semana passada chegou à minha mesa de leitura e cogitação a obra Arrancados da Terra, do investigador brasileiro Lira Neto, no qual em escrita fluente escorada em fontes documentais rigorosas dá ênfase a um grupo de judeus sefarditas de peregrinação em peregrinação, 23 deles estão na génese de Nova Iorque. Os sefarditas da Península Ibérica correram Mundo, os nascidos e obrigados a abandonarem a vetusta Bragança muito contribuíram para tal, na sinagoga de Amesterdão o bragançano Oróbio de Castro terçou argumentos doutrinais com o, igualmente famoso Spinoza, ali repousam os seus restos mortais. No Arrancados da Terra, o autor descreve com minúcia o sistema totalitário da Inquisição, a cupidez dos seus membros, a resistência e angústia das suas vítimas, o crapuloso duplo jogo das Cortes as quais no «tapa-destapa» da utilização de cristãos-novos nunca existiu uma réstia de bondade relativamente aos seus financiadores, sim a ânsia pelo dinheiro destinado a suportar extravagâncias, pulsões militares e comerciais da nobreza de sangue azul, hereditária e perdulária. Os sefarditas ibéricos lograram levar a bom porto os seus objectivos apesar das tentativas do abafamento de pensamento e ideias provindas do seu labor, importa nos dias correntes não desperdiçarem energias nas bagatelas do quotidiano, continuarem fiéis a si próprios e orgulhosos do seu passado dos dias de dor, também dos momentos de regozijo e glória.

Anestesiados

Vezes se conta, na feliz infância impressionista de ouvir homens e mulheres em Lagarelhos, falarem de actos a extravasarem furor anti-opressão da ditadura salazarista a perdurar no meu imaginário é o do empertigamento toado em uníssono pelas mulheres concentradas no lavadouro situado na entrada, logo saída da aldeia. E, que cantaram devotadamente ao modo de hino em honra do orago protector da localidade? Cantaram já não há homens em Edral, já não há homens em Edral, já… A triste e indignada toada protestava contra a anomia varonil por ausência de audácia enérgica contra uma patrulha da GNR ocupada na prisão e retirada de um conterrâneo para Vinhais. Os gritos femininos das mães, esposas e irmãs, quais émulas de Antígona obrigaram os timoratos jecos de Edral depois do toque dos sinos a rebate a desarmarem a patrulha da canhota repressora jungindo-a e obrigando-a a lavrar durante algum tempo. A reacção salazarista foi impiedosa, porém ficou para a História o inusitado feito. Ora, nos dias correntes prevalece o tédio anestesiante a manietar a generalidade dos portugueses ante as extravagâncias e dislates governamentais onde se mistura o amiguismo, o forrobodó partidário, a prevalência da mulher de César em detrimento do ser em vez do ter, do sentido da decência nas nomeações a estilo da Porca de Rafael Bordalo Pinheiro, do respeito de forma a manter-se o, orgulho por nós próprios. Não defendo, nem aprecio o desforço estúpido da violência, defendo e aprecio o protesto cívico dos cidadãos a clamarem através da palavra, da escrita, do castigo nas urnas de um governo eivado de protecção aos detentores do cartão partidário. Ora, o conformismo reina no reino do outrora incisivo senão, não, porque o não exige esforço indignado de quem fica agoniado com o triunfo dos beneficiados com as grossas migalhas da mesa do Orçamento já a ser negociado ao ritmo da pataca «a mim, pataca a ti». As sondagens são sondagens dirão os membros da Confraria do badalo, no entanto, demonstram quão enorme é a vantagem socialista nas intenções de voto a conceder-me argumentos justificativos da amargura contida nesta crónica. Vou continuar a criticar a sonolência do eleitorado independente, dos votantes verdadeiramente livres na real/realidade pois ao longo dos anos de democracia sempre assim procedi ao vislumbrar sinais de desleixo, deixa andar, de Maria vai com as outras, a amofinarem a Democracia com o consequente engordar do bicho-carpinteiro das Instituições. A preguiça é má conselheira e provoca maus resultados! Os músicos da filarmónica socialista tem executado primorosamente as canções de embalar o povo português, agora ambiciona mudar de estatuto, ser considerada orquestra de cruzeiros de viagens de esquecimento, só que o hino dorme, dorme meu menino, que a Mãezinha logo vem, foi lavar os cueirinhos à fontinha de Belém, transformou-se em monumental lençol de caca devido ao oferecimento da Câmara de Lisboa à embaixada russa de dados de opositores de Putin. As desculpas proferidas por Medina acentuam o grotesco da insólita oferta. Depois admira-se do aproveitamento político. Queria o quê?

Francisco Cepeda

Conheço o Professor Doutor Francisco Cepeda desde os bancos e carteiras da Escola Primária sita no então tamanino Bairro da Estação, da época das nevadas a paralisarem a circulação dos comboios cujos apitos imitavam os amoladores de tesouras, facas de cozinha e navalhas a anunciarem iminente zurvada ou chuva bem caída. Na Escola imperava a professora Dona Aninhas Castro, senhora que impunha respeito, bastava um olhar, e mesmo os repetentes do calibre do Herculano (Michelin) ou do Fernando (Calcada) metiam os queixos no pescoço e nem tugiam, nem mugiam. Pelos anos fora continuámos a estimá-la, a ouvir os seus conselhos, a temer os seus ralhetes. O «Xixo» Cepeda impunha-se através do seu comportamento conciliador e bem-humorado e, primacialmente, devido à sua pendularidade de bom aluno desprovido de espúria jactância. E, assim continuou, no secundário perdeu-se de amores, tendo sido correspondido por uma menina bragançana, o amor solidificou-se numa união que persiste, a qual costumo salientar a propósito de tudo, a propósito de banalidades quotidianas. Parabéns à Julieta, qual Penélope esposa amantíssima. Em 1967, sou colocado no Batalhão Caçadores Nº 10, em Chaves, ali roía o tempo «militar» o alferes Cepeda. O meu destino era bater com os ossos no então Ultramar, porém durante três meses o poiso era Chaves numa altura de angustiante desalento que uns papéis agora a repousarem na Torre do Tombo explicam a causa da provação. Pois bem, mal coloquei a mala no quartel, por um feliz acaso surgiram o Francisco Cepeda e o Mário Carneiro e logo me concederam todo o gasalho possível. A gratidão não se vende nas farmácias, exalto-a quando surge a ocasião. É o caso. Por nás e nefas tenho acompanhado o percurso académico e social do autor desta notável investigação referente ao modo como a imprensa da velha urbe acompanhou o palpitar daquela comunidade viveu e sobreviveu durante cem anos, o século XX, enfrentando o isolamento, a castração cultural, o advento e a plena fruição da democracia, as crises expressas em doenças, em sofrimento e morte das populações, os minguados tempos de alguma abastança, logo relativa prosperidade e o mais que adiante irei referir. Não se confinou ao ram-ram da docência no ensino secundário, muito menos ao adormecimento intelectual, do mesmo à letargia cívica no alvorecer da democracia. Por assim ter sido, foi tenaz, doutorou-se na prestigiada Universidade Técnica, acumulou trabalhos da sua autoria nas bibliotecas especializadas, correu Mundo, interveio na vida da cidade, do desempenho de funções profissionais das várias áreas do conhecimento, gastou energias na representação cultural e científica do terrunho brigantino com brilho e distinção. Tudo isto, no passado de há mais de meio século, estou convicto que assim irá continuar dado o seu resoluto ânimo. Este ingente e suado labor sem dificuldades, decepções e claro que não, serena e elegantemente colocou os energúmenos especialistas na inveja, nas raivosas ciumeiras, demonstrando de modo incisivo o ser um Homem bom, um Homem justo. Nos tempos correntes dos génios das bagatelas e especialistas na discussão do efémero, ter um amigo do Talante de Francisco Cepeda concede-me felicidade e fortaleza para aguentar a pandemia ética e moral a engordar no nosso País e, no tocante à pandemia cujo braço armado em punha a gadanha da morte (título de um livro de ilustre republicano anti-salazarista) tenho procurado e procuro fugir- -lhe. Está na altura de emitir opinião acerca do seu livro Bragança no Século XX. Que dizer depois do magnifico e desenvolvido artigo a ele referente do Engenheiro António Jorge Nunes? Muito pouco na justa medida de o nosso comum amigo ter dito tudo. O livro é um fino e acerado repositório das Instituições e figuras de várias matizes e mutações de ordem religiosa, científica e técnica, sem esquecer a sociedade, as comunidades das sucessivas gerações, nos dias quotidianos, nos dias de regozijo e farândula. Não andarei longe da real/ realidade ao escrever que nos vários capítulos deste livro existem lembranças de múltiplos tons e sons a recordarem o rolar dos seixos na calçada das dez décadas do burgo do Braganção, ora registados pelo Senhor Professor ousado capaz de no Inverno da produzir tão belo e brioso trabalho ao qual ouso colocar na estante dos trabalhos só possíveis a quem detém uma paciência de copista beneditino.

Lágrimas de crocodilo

Já li contos dedicados às crianças onde os crocodilos choravam, também soltei gargalhada estrídula quando ouvi a anedota referente a um crocodilo a voar baixinho autenticada pela boca de um agente do KGB, fora isso os crocodilos que vi em África e na América inspiravam receio e cautela, na Tailândia apreciei carne dos sáurios temperada com abrasiva mostarda. Crocodilos chorosos, lacrimejantes, envergando vestidos flamejantes, fatos e gravatas topo-os nas televisões ao torto e ao direito sempre que tudo quanto foi visto, sentido e ouvido durante anos e anos derruba barreiras e muros de opacidade transformando-se em opinião pública, escândalo informativo, chamativo da atenção da generalidade das populações. Neste momento as e os crocodilos derramam lágrimas que nem Marias Madalenas relativamente à triste sorte dos desprotegidos de tudo vindos da Ásia a fim de trabalharem de ver a ver nos campos agrícolas do Baixo Alentejo, fazendo reviver a nefanda saga dos portugueses vendidos ao molho através dos passadores (alguns ainda vivos) de Trás-os-Montes, Minho e Beiras retratados num livro a escorrer sangue pelo Padre Telmo Ferraz, o qual na esteira do Padre Abel Varzim dedicou a vida a defender e acarinhar os trabalhadores humilhados e ofendidos cá e lá, na Espanha, França, Luxemburgo e Alemanha, pois no «paraíso» salazarista da terra brotavam abrolhos, cardos, silvas e sarças. O governo de António Costa, a geringonça hipócrita a desprezar milhares de trabalhadores fora da coutada das periferias das cidades, os patrões quais sanguessugas sedentas nunca dedicaram uma migalha de interesse aos novos elementos (mulheres e homens) que são protagonistas de um novo e imaginário livro intitulado Sete palmos de terra e um caixão. O tristemente célebre ministro Eduardo Cabrita renomado génio da asneira permanente anunciou a intenção de resolver o problema da doença e morte lenta das desamparadas criaturas colocando-as em residências ocupadas coercivamente remetendo-nos para o passado dos kolkoses soviéticos da repressão leninista e estalinista. O país das conquistas de Abril, da União Europeia, membro dos tratados de defesa dos direitos humanos a envergar as vestes ditatoriais do regime chinês (opressor do Nepal) é o significante da hipocrisia de decisores políticos vesgos quando têm de conseguirem conceder gasalho aos mais desvalidos a Leste do Paraíso, entenda-se das ânforas dos votos e da propaganda política. Há lodo nas estrelas? Continua a haver e, muito. Cabe- -nos a tarefa de o extirpar? Cabe-nos o dever de o tornar campo de cultivo no qual a dignidade humana implique salários justos, alojamentos confortáveis e mantença a condizer.