Luís Ferreira

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Vendavais - Navalhas demasiado afiadas

Nunca fui muito adepto do uso de navalhas. Desde muito garoto, achava que quem usava uma navalha era mais importante, não sei dizer porquê. Talvez porque tinha algo mais do que o que era preciso e que eu não tinha.

O meu pai trazia sempre consigo uma navalhita prateada. Demasiado pequena, pensava eu, para servir para o que quer que fosse. Com o tempo, acabei por perceber que sempre havia uma ocasião em que ela era usada e acabava por ter o uso merecido. A minha mãe, sempre solícita e atarefada nas lides de cozinha, adorava fazer uso dos seus dotes quando íamos fazer um piquenique. Frequentemente íamos até à serra da Boa Viagem, na Figueira da Foz. A minha mãe lá fazia um arroz de ervilhas, uns bifes panados e uns bolinhos de bacalhau, prato essencial para mitigar a fome no alto da serra e para dispor bem para o resto da tarde. O meu pai então lá puxava pela navalhita e fazia dela o uso a que estava habituado. Picava o bife para o prato e depois lá o cortava aos bocados como se deve fazer. Eu questionava-o porque é que não usava a faca. Ele logo respondia que assim era mais prático e era mais pequena fazendo o mesmo trabalho. Compreendi então a utilidade certa para a navalhita que o meu pai usava.

A partir dessa altura e com um pouco mais de idade, resolvi que também eu deveria usar uma navalha daquelas. Bonita, prateada, pequena e que cabia perfeitamente num bolso de umas calças de criança. Experimentei, mas não me habituei pela simples razão de que eu não ia a piqueniques a não ser uma ou duas vezes por ano e comia sempre à mesa, onde o talher habitual marcava sempre presença por ordem da minha mãe.

Hoje, passados tantos anos, ainda não sou capaz de usar tal instrumento, embora traga uma Palaçoulo no cofre do carro para uma dessas eventualidades em que temos de petiscar alguma coisa ao ar livre ou na adega de um amigo. Um naco de presunto cortado com uma Palaçoulo, sabe sempre bem. Mesmo assim, esqueço-me quase sempre dela no carro e quando vejo os outros puxarem pela navalhita, pareço que estou despido e não consigo comer nada de jeito, socorrendo-me de um amigo mais próximo. Nesses momentos as navalhas têm utilidade e dão imenso jeito. Fora disso, não lhes vejo outra utilidade tão vantajosa.

Porém, hoje é frequente ouvir notícias de agressões e assassinatos com arma branca. Quando era garoto nunca me passou pela cabeça que a navalhita do meu pai, fosse considerada uma arma! Parece-me que é a arma mais usada por todos hoje em dia e não será só para cortar presunto porque este, já morto e salgado, não precisa de nenhuma arma para o atacar, mas sim a gentileza de um expert para retirar uma pequena fatia e juntá-la ao pão caseiro que quase sempre o acompanha. Sem perigo algum.

O jovem cabo-verdiano que foi atacado por um grupo de outros jovens à saída de uma discoteca em Bragança e acabou por morrer passados dez dias em coma, não foi caso único e nem sei se foi usada alguma navalha. Penso que não. Mas o outro jovem a que a comunicação social deu ênfase de notícia, parece que foi vítima de uma facada numa perna. A estes juntam-se uma quantidade de exemplos tristes e macabros que infelizmente aumentam o número de mortes no país. São rapazes que agridem com facas as namoradas, os pais que agridem os filhos, as mães que esfaqueiam os filhos e os maridos, os pais que assassinam as filhas e os filhos e mais alguém que esteja na sua frente. A faca é a arma escolhida para agredir e matar. Isto não caso único em Portugal. Vimos o que aconteceu em Londres, em Paris e na Holanda e em outros países. Pessoas que esfaqueiam quem passa sem o mínimo pudor e sem triagem de alvo. Depois são apanhados ou mortos pela polícia, mas isso já é secundário. O objetivo foi atingido.

O uso de uma arma branca para estes propósitos leva a equacionar o que podemos usar para cortarmos um naco de presunto que não possa ser considerada arma branca. É que a navalha tão típica de Trás-os-Montes, a Palaçoulo, tão usual nos bolsos dos transmontanos, pode correr o risco de ser proibida por ser considerada arma branca. Contudo, há quem se apresse a justificar que para ser arma branca tem de ter mais de quatro dedos de folha, o que a remete para outro patamar, já que a maioria não tem a folha tão grande. Mão não deixa de ser igualmente perigosa nas mãos de quem tem instintos maléficos ou não sabe argumentar com palavras na altura de confrontos mais acérrimos. É mais fácil puxar pela navalha. Mete medo. Corta,

Afinal, a navalhita do meu pai, pequena, prateada e que ele usava nos piqueniques, nada tinha a ver com estas armas brancas e hoje eu compreendo perfeitamente porque razão eu nunca me habituei a usar algo parecido. Vou poucas vezes às adegas dos amigos e muito raramente participo em piqueniques. Para que preciso de uma navalha? Por mais rombuda que seja, ela pode até abrir-se no bolso e cortar o que não deve! Tudo tem a sua utilidade. Mas matar com uma faca ou navalha, é não ter noção de como é bom comer um naco de presunto na adega de um amigo, em vez de deambular nas ruas escuras a altas horas da noite.

 

Vendavais: As sombras que ficam

Está chegar ao fim mais uma década. A segunda do século XXI. Para a Europa, para Portugal e para o Mundo, ficam para trás momentos maus, muito maus e poucos bons. Esta década foi marcada essencialmente por uma crise que se estendeu ao mundo inteiro. Foi um “recado” dos EUA para todo o mundo. A sobrevivência trouxe à tona os males de que enfermam muitas das economias e o agrilhoamento a que ficaram sujeitas nas próximas décadas. É conveniente não esquecer isto. É uma realidade amarga, mas que se não pode descartar. Os vários países europeus, especialmente a França, viveu momentos bárbaros com o terrorismo demonstrado na discoteca Bataclain e o ataque ao periódico Charlie Hebdo. No primeiro, 129 mortos e 350 feridos. No segundo, entre 7 e 9 de Janeiro de 2015, mais dezanove mortos e uma série de feridos. Enfim. A Europa a servir de caixa de ressonância de uma barbárie imensa pertencente a espíritos menos esclarecidos, cujo som atingiu mesmo os que não gostavam de música! A caminho do fim da década, a Inglaterra desafia a união desta Europa atribulada e muito preocupada, não só com o terrorismo, mas com uma economia titubeante e com uma política de extrema-direita a assumir patamares incalculáveis, desafiando a democracia à qual teimam em pertencer. O Brexit levantou ondas de contestação e revolta, mas acabou por vencer depois de mais um ato eleitoral. A Inglaterra vai separar-se de uma União a que nunca quis pertencer “de facto”, mas com a qual contava para resolver alguns problemas, ou talvez não. Até quando? A violência contra a produtora brasileira “Porta dos Fundos” é censurável, como se pode imaginar, mas não basta ficar por aqui. É necessário dizer que o humorismo envolvendo personagens bíblicas é ofensivo para qualquer cristão. E apresentar um sketch onde Jesus aparece como homossexual, envolto numa charada insultuosa e ultrajante é simplesmente execrável. A liberdade de expressão não permite injuriar seja quem for, muito menos quando referenciando figuras bíblicas, se vai atingir quem tem a Fé como intrínseca e algo de seu. O humor também tem limites, tal como a liberdade. A Austrália despede-se da década em chamas. Milhões de hectares ardidos em mais de dois meses. A impotência do homem contra a força da Natureza! Famílias destruídas, casas desaparecidas no turbilhão das chamas imensas. O avanço formidável da ciência não chega para combater as chamas devastadoras. A sombra que fica depois de desaparecerem as árvores que a davam gratuitamente! Em Portugal, também as despedidas não são famosas. A política continua a mesma e o próximo orçamento não traz nada de novo. Críticas, ameaças, promessas e pouco mais. De um lado e do outro, o confronto verifica-se, mas nada adianta. Quem vai sofrer com esta guerra de palavras é o zé povinho, como sempre. E não será o SNS que vai curar as feridas. A realidade deste serviço é bem diferente do que se apregoa no governo. Os hospitais estão a rebentar pelas costuras. Não há médicos. Não há enfermeiros, mas há muitos doentes. Infelizmente. Rui Rio diz que a gestão do Serviço Nacional de Saúde foi catastrófica e possivelmente tem razão. O que o governo sabe arvorar como vitória é a gestão privada de alguns hospitais que tiveram algum lucro, mas quanto aos muitos outros, nada se diz. A luta dentro do PSD, é outra atividade ensombrada pelos próprios concorrentes. Todos querem ser presidentes, todos prometem ser diferentes, todos querem ser primeiros-ministros. Rui Rio vai recandidatar-se, obviamente. Nada teme. Como disse, se perder, sai da política e vai embora. Tem mais que fazer, claro. Em Janeiro logo se saberá. Até lá há sombras no ar. A Elsa e o Fabien, juntaram-se para fazer dançar o país, ao som de uma música inusitada e pouco frequente. De um momento para o outro, o centro e norte do país, viraram uma pista de dança imensa onde todos beberam demasiado. Depois de uma quase seca, o Douro pulou veredas e barreiras e o Mondego caiu para o lado e encharcou tudo na queda descontrolada. Coimbra quase se afundou no meio da ameaça. Foi o resmungar do rio depois da ressaca. Agora vem o governo dizer que algumas das aldeias atingidas, deverão ser mudadas de sítio. Mudadas de sítio? Sempre estiveram lá e nunca se queixaram. Que ameaça é esta? Ainda é pior que a que o próprio rio traz! Em nome de quê e de quem é que se pode dizer a um povo inteiro, “vão ter de siar daqui”? Erros de governos anteriores levaram a esta situação, erros onde o interesse económico esteve sempre em primeiro lugar e agora continua. E assim, vive ensombrada toda esta gente, à espera de uma mudança que não desejam de modo algum. Enfim! No meio de tudo isto, não podemos dizer que fosse improvável, o livro “As cem sombras de Grey”, ser o mais vendido nesta década! Tudo tem a sua razão de ser!

Vendavais - As caras e os caretos

Após 40 anos de tentativas finalmente veio de Bogotá na Colômbia, o anúncio da atribuição aos Caretos de Podence de Património Imaterial da Humanidade, pela Organização das Nações Unidas. Além do Cante Alentejano, do Fado e dos Bonecos de Estremoz, Portugal passava a ter mais um emblema patrimonial para mostrar ao mundo.

É de louvar e agradecer este atributo. Pena é que ele não inclua toda a região de Trás-os-Montes, pois há Caretos também em Varge, em Salsas e até em Bragança para além dos de Podence. Terá havido talvez uma falta de sintonia para que tal atributo pudesse ser ainda mais relevante.

Falar dos Caretos é falar de uma personagem masculina mascarada, que veste um fato de lã às riscas de cores garridas, chocalhos à cintura e um pau na mão em que se apoia nas suas correrias pelas ruas das aldeias. As máscaras são rudimentares de couro, latão ou madeira, pintadas com cores idênticas aos fatos, vermelho, amarelo, verde e preto.

As suas origens fazem parte de uma imensa nublosa que se estende até ao Neolítico, período em que o homem descobre a agricultura e a importância do seu desenvolvimento para garantir a sua sobrevivência. E porquê? Nesta época a agricultura era imberbe. Uma descoberta que iria manter o grupo num mesmo local à espera das colheitas que os iria alimentar. Era importante que houvesse produção. Festejar de alguma forma este tempo, fosse como fosse, era esperar que a sorte os bafejasse. Tempos de incerteza marcados por rituais que alimentavam a esperança. Depressa se transformaram em tradição milenar. Reforçaram-se nas comunidades célticas, no período pré-romano e nunca mais se perderam até aos dias de hoje.

Na Idade Média a tradição foi mais intensa. Tempos de crise profunda, de maus anos agrícolas, de pestes e epidemias terríveis, levavam o homem a temer o futuro e a sua sobrevivência. O medo apoderou-se essencialmente das comunidades agrícolas. O medo da morte impôs-se e arrastou o homem para atuações mais marginais e crenças mais estranhas.

Claro que a sua simbologia, nos dias de hoje, não tem o mesmo objetivo de há séculos. Hoje é a festa da aldeia e não está em causa a colheita que se quer abundante. É apenas uma Festa profana que, contudo, mantém um tempo, uma marca que a caracteriza: o início da Primavera e o Carnaval. É no domingo gordo e no dia de Carnaval que os caretos festejam e se fazem ouvir.

Parecem ter o diabo no corpo. Correm, saltam, dançam e perseguem as raparigas solteiras que se atravessam no seu caminho, além de intimidarem quem passa por perto. É uma alegria mágica, contagiante, eufórica, à mistura com receios variados. De pau na mão e chocalhos à cintura, envoltos num barulho ensurdecedor, eles correm sem tino e sem rumo certo, afastando os males e as gentes que se aproximam.

Até aos anos 60, as máscaras que fazem parte da indumentária dos caretos e mesmo os caretos, mantêm a sua importância, mas depois com a guerra colonial, deu-se a desertificação do mundo rural e os rapazes são mobilizados para a guerra colonial e deste modo, muitas das festividades deixaram de se realizar. Não havia rapazes para manter a tradição.

A revitalização destas festividades aldeãs deu-se depois do 25 de Abril. As aldeias reanimaram-se e tentaram fazer renascer as antigas tradições e transformá-las em Festas da Aldeia, marcando assim, um ritmo diferente nas comunidades rurais e ao mesmo tempo, marcando um momento que se pretende ser tradicionalizado. Podence é um desses exemplos.

Imortalizar estas tradições ancestrais, quer como um património da Humanidade, quer como uma tradição local ou uma festividade, é imprescindível para que essas aldeias atraiam gente e, se as não radicaliza, pelo menos no dia de Festa, a aldeia vive momentos gloriosos de fama e de revivência de uma tradição que não se quer apagar da memória de um povo.

Curioso é que sendo uma festa de rapazes, hoje já algumas raparigas se disfarçam de caretos e percorrem, mascaradas, as ruas da sua aldeia. Ninguém as conhece. Passam despercebidas, qual rapaz agressivo, chocalhando as garotas solteiras e os visitantes que se atravessam no caminho. As aldeias, desertificam-se, infelizmente. O mundo rural perde muito da dignidade que sempre teve. As razões são variadas e são elas que permitem que as raparigas se transformem em caretos e façam as delícias de quem se desloca a estas aldeias nordestinas para ver e se divertir com a festividade dos Caretos. É um modo de se manter a tradição.

Bem haja a Organização das Nações Unidas em atribuir este Património a Podence. Agora o tempo será diferente. A tradição será para manter.

Vendavais - Só coisas más acontecem

Portugal precisa acordar. Parece que tudo está a dormir e as notícias remetem-nos somente para o que se vai ouvindo sobre o caso Operação Marquês e Sócrates. O Ministério Pública acusa, Sócrates nega e Santos Silva não abre a boca com medo de errar e dizer o que não deve e incriminar o amigo, mas os 10% parece que recebeu! Ninguém é culpado e as culpas nunca ninguém as quis e não será agora que alguém as vai querer.

A par, temos vindo a assistir ao que se passa entre Joacine e o Livre. Estão em rota de colisão. Ela quer ser forte e manter-se como tal e não quer ter direito a receber recados da Direção do Partido. Parece-me que é uma franco-atiradora que está a falhar o alvo. Ainda por cima ela mesma afirma que é o desconforto para o partido. O seu, claro. Não se augura bom futuro para a deputada neófita.

Para agravar as notícias que nos chegam diariamente, parece que a emigração médica tem vindo a aumentar. Ministra quer explicações da Ordem. Para quê? Então ela não sabe? Com o serviço que temos nos hospitais e não só, não admira que eles se vão embora para onde os considerem como verdadeiros profissionais. A verdade é que há falta de médicos e mesmo assim, não são contratados mais e por isso é óbvio que ficar por cá à espera de migalhas, não dá alento a ninguém. No entanto, o governo continua a dizer que tudo está bem e controlado. Não sei o que se entende por “estar bem e controlado”, mas enfim. É o que temos.

E afinal, Aveiro não estaria bem com o que tem e com o que sempre foi? Uma cidade maravilhosa, bonita, boa gastronomia, à beira mar, com uma Ria de referência e uma Universidade conceituada, precisava de ter uma célula Jihadista com ligações ao Daesh? Francamente! Só nos faltava mais esta! Aveiro não merecia que isto acontecesse. Será que em Portugal há assim jovens com demasiado tempo livre para se dedicarem a estas actividades terroristas? Não seria melhor começarem a jogar ao pião ou à bilharda? Sempre seria mais saudável e menos perigoso. Portugal não precisa disto.

E por falar em terrorismo, como se explica que um terrorista já condenado, seja libertado e volte a atacar à facada em Londres e mate dois adolescentes? E de igual modo, outro em Haia que ataca também à facada quem lhe apareceu pela frente? Porquê? Não sei se se consegue explicar estas mentes destorcidas e o seu modo de funcionamento, sabendo que, no final vão ser liquidados e tudo acaba para eles. Será que acreditam que no outro mundo têm lá as tais sete virgens à sua disposição? Também morrer por isso, não será muito lisonjeiro e animador. Nada justifica estas atuações. Com virgens ou sem elas. Enfim!

Mas as coisas más e estúpidas não param de acontecer um pouco por todo o lado. À frente de alguns países estão governantes que mais parecem terroristas que os verdadeiros que vão sendo conhecidos. É o caso do indivíduo que governa a Coreia do Norte. Não tem qualificação plausível que o classifique como governante, até porque não se comporta como tal. O que leva este indivíduo a insultar o Primeiro Ministro japonês, dizendo que é o homem mais estúpido que a História já conheceu? Possivelmente enganou-se e queria referir-se a si próprio. Certamente.

E o que dizer do governante da Venezuela? Menos mau que o coreano, mas igualmente medíocre. É preciso ter atenção à América do Sul. Muitas coisas acontecem por lá e não são nada boas. Muita corrupção, muita miséria, muitas revoltas, muitas exigências, muitas demissões, demasiadas espectativas.

Talvez por todas estas anomalias, também a elas se junta o governante do Brasil. Bolsonaro é outro medíocre que vai dizendo o que lhe apetece, ao sabor da corrente dos acontecimentos e ninguém lhe vai à mão. Há pouco tempo chegou a acusar DiCaprio de mandar incendiar a Amazónia. Isto é normal? Definitivamente, não é. Para não parecer tão mal, até acrescentou que as “queimadas” não vão acabar porque é uma questão cultural. Cultural? Afinal foi uma “questão cultural” que incendiou a Amazónia, ou foi o DiCaprio? Está confuso. Paciência!

Pois parece realmente que só coisas más andam a ser notícia. Não é só Portugal, mas também outros países dão uma achega a todo este emaranhado de acontecimentos que nos fazem reflectir, ou talvez não, sobre o que pelo mundo vai surgindo.

De bom, pouco acontece. Como não é notícia vendável, não se conhece, não é referenciada e não interessa para nada. É urgente descobrir o que de bom ainda acontece para se poder noticiar. Só se fala do que nos deprime e nos assusta. Basta já andarem todos a dizer que o Planeta precisa de ser salvo, porque se não, qualquer dia morremos todos e ninguém se salva. O que está mal é o homem, segundo parece. Chega! Sim, chega, mas não é o do André. É mesmo chega.

Como diria um amigo meu, “Valha-nos Jesus”. Sim, esse ainda é um herói… no Brasil!

Vendavais - Desmandos da ignorância

A questão bíblica sobejamente conhecida Quo Vadis Domine, Para onde vais Senhor, pode-se aplicar aqui perfeitamente, quando queremos saber para onde quer ir este governo com algumas medidas que pretende implementar. Impõe-se colocar de lado o Domine, já que este senhor do governo, nada tem de bíblico.

Numa sociedade que se diz moderna e onde o conhecimento se deve pautar como base de progresso, não se entende que se proponha passar os alunos até ao nono ano, mesmo não sabendo a matéria curricular que é dada saber e que promove a progressão normal do ensino básico. Todos sabemos que as bases são essenciais seja o que for que se queira construir. Se as bases forem fracas, toda a construção cairá mais facilmente. Uma casa sem bases sólidas, arrisca-se a cair ao menor vendaval.

Ora se queremos uma sociedade conhecedora, moderna, preparada para podermos falar dos homens de amanhã, desses que nos irão governar, como costumamos dizer, então teremos de os preparar convenientemente, caso contrário arriscamo-nos a construir uma sociedade onde predomina a ignorância e cujo futuro é inconsequente.

O governo até pode desculpar-se com as justificações que entender, mas isso jamais servirá para convencer a opinião pública da tremenda injustiça e irresponsabilidade dessa pretensão. Os alunos não podem ser joguetes de uma qualquer satisfação do governo, nem podem ser atirados para um mundo de trabalho onde predomina a ignorância e a irresponsabilidade. Um governo responsável prepara a sua juventude convenientemente e alerta-a para os perigos de um futuro cada vez mais incerto. Não podemos preparar uma sociedade do salve-se quem puder. Isso quase já nos toca pela porta com tanta corrupção, roubos e assassinatos diariamente.

Os professores têm a responsabilidade e obrigação de ensinar os seus alunos e, estes têm a obrigação de aprender o que lhes é ensinado para assim poderem progredir depois de avaliados convenientemente. Se os alunos souberem que podem passar mesmo sem saber e que não são retidos mesmo se não souberem a matéria, eles não se preocuparão em estudar e assistem às aulas como quem vai a uma sessão de cinema, ou seja, para passar tempo sem se preocuparem com mais nada. E os professores como sabem que não adianta insistir muito com os alunos para que aprendam, pois passam sempre, deixam simplesmente a turma ao sabor dos ventos, e esperam que o final de ciclo chegue para passar o atestado de incompetência aos alunos que pretendam seguir para o ensino secundário, mesmo pouco mais sabendo do que escrever o seu próprio nome.

Antigamente era imprescindível aprender a ler, escrever e contar correctamente e não me refiro a umas dezenas de anos atrás, refiro-me a alguns séculos, pois entendia-se que isso era a premissa indispensável para poder participar na vida pública com a responsabilidade que isso acarreta. Hoje, isso torna-se irrelevante e escrever mal, ler mal e dar erros no seu próprio nome, é coisa normal e quando vemos ministros a dar erros e a usar vocábulos desajustados, legendas nas televisões, cheias de erros e até alguns professores a dar erros, não podemos querer que isso continue a ser normal. Afinal que sociedade queremos nós formar?

O sistema de ensino está dividido em ciclos e um deles é chamado de Básico e vai até ao nono ano. Se queremos que seja básico, temos de o considerar realmente como a base de todo o restante sistema para não corrermos o risco de o ver desabar completamente. Não sei o que passa pela cabeça destes governantes ao pretender facilitar a passagem de alunos pouco preparados, ao longo de três anos e depois atirá-los às feras acreditando piamente que meia dúzia deles se conseguirá salvar. Não pode ser assim. Nem eles são peões de um tabuleiro de xadrez, nem os professores podem ser os palhaços de um circo irresponsável, onde nada faz rir e nada é consequente.

Felizmente há sempre alguns alunos que querem aprender e sabem bem o que querem ser e até têm pais que os motivam e lhes indicam o caminho da responsabilidade, do respeito e da educação como fatores vencedores das muitas barreiras que o futuro lhes reserva. Há bons alunos sim e poderão continuar a haver porque nem todos entrarão no saco desconfortável que o governo está a mostrar. A ignorância nunca foi causa vencedora e só apoia a ignorância quem quer promovê-la.

Espero sinceramente que esta medida agora em análise pelo governo, não siga para diante sob pena de entrarmos num sistema onde os desmandos, a irresponsabilidade, a falta de educação e o desconhecimento das coisas mais básica, passam a ser a marca da sociedade portuguesa.

De facto, as armas e os barões assinalados que daqui partiram e levaram a nossa língua para o mundo inteiro, não passam de uma História sobre a qual pouco se aprendeu. São os desmandos da ignorância!

Vendavais - Galinha gorda por… muito dinheiro

Conversávamos despretenciosamente um com o outro, ele dizendo que nem por isso e eu teimando que seria demasiado. Levantámo-nos e iniciámos uma marcha lenta onde a conversa continuou sobre o mesmo tema. Ele na sua e eu na minha, sem desviarmos a certeza inicial que cada um tinha sobre o tema versado. Caminhámos sem destino pelo passeio que a cada passo se estreitava e causava os incómodos de pisar o alcatrão onde os automóveis passavam sem a preocupação de distinguir se a passadeira existia por ali ou não. Apesar de tudo, o assunto em debate continuava a ser o mesmo. O meu amigo fazia valer as suas visões sobre o que se passava e eu contrapunha com as minhas. Nenhum desmarcava. Passou talvez mais de uma hora. Resolvemos parar e sentarmo-nos novamente ocupando uma mesa de esplanada que recebia o Sol do fim de tarde. Era tempo para um café, ou talvez não.

Retomámos o assunto em debate depois de saborearmos o apetitoso e bem cheiroso café. Agora, reconfortados, talvez pudéssemos desviar o assunto para margens mais calmas. Não. O meu amigo não estava satisfeito com a minha posição e tentou convencer-me de que tinha toda a razão. Eu achava que não e tinha o meu direito de o defender. Teimava eu convictamente que o novo governo era demasiado grande para um país tão pequeno e ele continuou a rebater o contrário, aduzindo que a necessidade assim o impunha. Mas que necessidade? Pedi-lhe que me dissesse que necessidade impunha a um país como o nosso, um governo com tantos ministérios. Ele adiantou uns poucos, sem coerência política o que me facilitou a contradição imediata que ele continuou a não aceitar. Continuámos o debate.

Afinal, que não quer galinha gorda por pouco dinheiro, questionei. Todos, respondeu ele. Finalmente tínhamos chegado a um consenso. Claro que sim. Mas era um consenso que não servia para explicar o que estava em debate e me permitiu rebater. Então o que temos no governo é uma galinha gorda, mas por muito dinheiro, ou não será? Ele apressou-se a responder que não, que isso nada tinha a ver com o governo, que era só um modo de falar. Pois é. Falar, falar é o que todos fazem, disse eu. Este governo é uma galinha gorda, primeiro ponto. Ele pediu que eu justificasse e aduzi o facto dos dezanove ministérios e quase cinquenta secretarias de estado. Não gostou, nem ficou satisfeito. Sentiu-se incomodado. Aproveitei para reforçar a ideia das cinquenta secretarias de estado e questionei que razão justificava a existência de uma secretaria para o Cinema, Audiovisual e Média ou para a Internacionalização ou até para a Integração e para as Migrações se, no fundo, isto já estava atribuído a outros serviços e funcionavam adequadamente. É uma necessidade, respondeu. Assim funciona tudo melhor. Pois, se calhar não, respondi, mas mesmo que fosse mais funcional era com toda a certeza mais caro, muito mais caro. Continuei com a minha visão mais minimalista e pedi para me justificar a razão de uma secretaria para a Transição Digital. Transição Digital? O que é isto? Não me soube dizer. Talvez a necessidade de engordar a galinha, disse eu. Olhou-me de soslaio e o esgar do rosto disse tudo o que ele pensava.

O tempo ia passando sem nos apercebermos. Contudo o tema de conversa continuava o mesmo. Ele defendendo a sua dama e eu a minha. Os dois aduzíamos razões plausíveis que sustentavam minimamente as nossas visões egocêntricas. Talvez fosse uma questão de cidadania e igualdade, tal como a nova secretaria de estado à qual eu não achava graça nenhuma por não lhe encontrar justificação. Afinal todos somos cidadãos e a igualdade já é assim considerada desde a Grécia antiga e reforçada ao longo dos séculos e foi uma das causas das revoluções liberais mais recentemente. Refutou a minha justificação, mas não acrescentou mais nada. No intervalo em que ele nada disse, eu chamei-lhe a atenção para o facto da existência da secretaria para o Desenvolvimento Regional e outra para a Valorização do Interior. Então não chegava uma só? É uma necessidade e é mais funcional, retorquiu. Não, não é. Se queremos desenvolver e valorizar o interior ao mesmo tempo que as regiões, não é preciso duplicar, a não ser para engordar a galinha. E ainda acrescentar outra para a Descentralização e Administração Local, piora tudo. Assim é quase triplicar o mesmo serviço. Não é, respondeu ele. E eu que sim e ele que não. Mas afinal o interior não é sempre interior? A região não é sempre a região? Então a administração local não é na região? Na região não está o objetivo do desenvolvimento? Então para quê a descentralização se o interesse é desenvolver o interior e as regiões? Não conseguiu responder. Baralhou-se. Então? Não dizes nada, perguntei. Esta conversa não leva a lado nenhum, disse. Pois não, concordei. Afinal sempre tenho razão, disse eu. Isto não é mais do que uma galinha gorda, mas por muito dinheiro. Mais do que o que temos para o que mais necessitamos. Galinhas destas, ninguém compra.

Vendavais - Rio sem margens

As margens condicionam os rios para que saibam por onde correr até se poderem espraiar no oceano imenso que se abre à sua frente. Todos os rios têm margens. É o GPS indispensável para que o caminho não se altere demasiado.

Ora acontece que as últimas eleições deixaram Rio quase sem leito e sem margens. Desgovernado e sem orientação, Rio tenta agora encontrar a segurança das margens e voltar ao leito original. Não será fácil. Este Rio tem demasiados afluentes, mas parece que nem todos correm na mesma direcção, muito embora queiram desaguar no mesmo oceano.

Faz-me lembrar este cenário o de Boris Johnson no Reino Unido, que parece estar cada vez mais desunido e sem rumo certo. As margens já as perdeu e o leito por onde corre é cada vez mais estreito. As verdadeiras margens estão a orientar outros interesses, que são obviamente contrários aos dele. Os objectivos são completamente diferentes. Ele quer sair da EU e os outros querem ficar. Aqui, a segurança parece estar no leito e nas margens da União Europeia que, pelos vistos, não é o que interessa a Johnson. Difícil a solução quer para o Reino Unido, quer para a União Europeia que não quer mais adiamentos. Parece-me que somente um novo referendo resolverá o que realmente quer a União Europeia e se assim for, a escolha será certamente a permanência. Acaba-se o Brexit e ainda bem.

Por cá, já Rio não pode navegar da mesma forma. A escolha de avançar pelo leito que ainda tem, parece ser o mais sensato, mas as margens são demasiado baixas e terá sempre de ter atenção aos afluentes. Alguns têm caudal volumoso e podem causar inundações perigosas.

O oceano para onde correm uns e outros é e será sempre o PSD. Disso ninguém duvida, ao que parece. No entanto, as margens extremam-se e a segurança deste Rio é pouco fiável. A verdade é que este desaguar de interesses pode ser conflituoso, o que não é nada bom para o grande oceano que os espera receber de braços abertos.

Entre montes, serras e rios, erguem-se outras barreiras difíceis de ultrapassar. Montenegro é um afluente que vai correndo em margens diferentes, mas com algumas margens seguras. Maria Luís pode ser uma dessas margens de Montenegro e a outra até pode ser a de Cavaco Silva que parece amparar Maria Luís Albuquerque. Montenegro é assim, o afluente que parece querer encher com a última chuvada e avançar destemido para o oceano tenebroso que o espera. Chegará lá?

Por outro lado, Rio permanece em sossego, no leito estreito, sem nada fazer a não ser, envolver-se na manta de silêncio que o cobre, sem sair da estreita margem que o sustem, deixando adivinhar que quer seguir o seu caminho até ao final.

Para o PSD isto não é vantajoso. Todos sabem que a mudança é necessária, embora isso não signifique uma nova liderança. O líder actual tem mais dois ou três meses para fazer alguma coisa de novo. Talvez uma nova estratégia a partir dos novos deputados dos quais ele faz parte e da composição da nova Assembleia onde haverá muita inexperiência. A sustentabilidade do governo de Costa vai depender muito dessa nova agremiação e do modo como ele vai gerir os interesses do governo e do país. Catarina não parece querer dar tudo de mão beijada, até porque ela não se dá muito bem com esse tipo de cumprimentos. Já o afirmou e continua a dizer que o relacionamento entre o BE e o PS nunca foi fácil e só existiu como um comprometimento nacional cujos interesses abarcavam o país inteiro. Agora, que o espectro político é um pouco diferente e apesar de Costa ter outra sustentabilidade, não lhe dá a certeza de chegar ao fim da legislatura. Aqui, as margens também são estreitas. Na margem esquerda tem a Catarina, na direita tem Rio. Quem o vai amparar? Muito embora o caudal seja maior, não significa que o leito de Costa o consiga segurar até ao desembocar final. Certamente não transbordará.

O que esperar então deste Rio? Sem leito seguro, sem margens que o amparem devidamente e com rumo débil, que caminho seguirá? Avança até às diretas ou até ao Congresso? Fica pelo caminho? Deixa-se ultrapassar pelos afluentes?

Pois a incógnita das margens por onde correm os rios do PSD não parecem nada seguras para impedir que eles percam caudal. Estreitecem à medida que eles avançam e nenhum parece receber mais enxurradas de modo a chamar as margens ao seu dever obrigatório de os amparar do descalabro final. O PSD está à espera que eles cheguem à foz ou que, pelo menos um deles, chegue com o caudal necessário para se afirmar no oceano imenso onde se irão espraiar.

Contudo, o que parece estar a acontecer é que todos os rios estão bem pouco caudalosos e o oceano que por eles espera não se engrandecerá tão depressa. Desafios das correntes.

Vendavais - A quinta avenida

Ir a Nova Iorque e não ir à 5.ª avenida é como ir a Roma e não ver o Papa. É obrigatório. É um ritual que todos fazemos com gosto, seja em Nova Iorque seja em Roma. Mesmo assim todos esperamos ver o que nos leva lá realmente. Deslumbramo-nos com a grandiosidade, com as luzes, com as montras e com o que por lá se vende, ainda que não possamos comprar o que mais nos cativa. Ficamos somente pela superficialidade e vamos navegando docemente, sem nos cansarmos para não corrermos o risco de nos afogarmos. Mas afinal esta avenida é somente uma entre muitas outras, não nos deixemos enganar pelas aparências. O que há nesta também existe nas outras, só que a outros custos. Temos que escolher bem o que queremos. Os nossos bolsos não assim tão fundos!

Pois este fim-de-semana não fomos nem a Roma ver a sagração de Tolentino nem a Nova Iorque ouvir as asneiras de Trump. Ficámos por cá, a refletir para escolher qual a avenida onde iriamos comprar o que mais nos poderia cativar e se estaria de acordo com a fundura dos nossos bolsos. Mas muitos, demasiados, não escolheram nem foram à avenida mais próxima de casa ver o Sol brilhante que poderia iluminar e esclarecer as mentes mais fechadas.

Pois é. Por vontade de alguns acabava-se o leitão da Bairrada, a posta Mirandesa, a feijoada à Transmontana, os bifinhos com champinhons e outros pratos quejandos. Não podemos matar os animais! Comer mesmo, só sardinha, carapau, camarão, vieiras, berbigão, gambas e gambão, ostras, amêijoas, lagosta e lagostim, santolas e percebes. Enfim. Somos ricos e já que ficamos sem poder saborear a bela carne que criamos, vamos à pesca. Saímos do prado e vamos ao mar que é largo e tem muito peixe. Bem, afinal parece que não vai ser bem assim.

A realidade destas eleições não é muito diferente do que estamos habituados. Ganhou o PS e já contávamos com isso. Costa talvez quisesse mais, embora não o pedisse diretamente, mas cada um tem o que merece. O PSD cresceu depois de lhe terem dado inicialmente 19 a 20% nas sondagens. Se cresceu, teve uma vitória ainda que pequena. O BE manteve o seu score, mas possivelmente não lhe vai servir de nada. A geringonça a que estava habituada não vai funcionar. A CDU não atingiu os seus objetivos e não conseguiu manter os seus deputados. Pior está o CDS que vê baixar muito o seu grupo parlamentar e a sua líder demitir-se com a dignidade a que ela nos habituou. Enfim. Enquanto uns crescem, outros baixam e hoje são uns, amanhã serão outros. É a política e a vontade dos portugueses a funcionar. As vitórias e as derrotas são sempre momentâneas. Nem sempre se ganha e nem sempre se perde. Sabe bem ao PS ganhar hoje, mas há quatro anos não teve essa sensação e sabe o que é perder. Curioso é os partidos mais pequenos e que não ganham qualquer expressão de nota, terem recebido cerca de 8 ou 9% dos votos dos eleitores quando a abstenção rondou os 48% dos portugueses. Isto é que é muito mau. Se nos questionarmos sobre isto e virmos que metade da população portuguesa ficou em casa e não votou, será lógico perguntarmos quem ganhou de facto estas eleições.

Agora que dá a impressão de estarmos na quinta avenida onde tudo é luminosidade, brilho, grandiosidade e enriquecimento, resta não nos ofuscarmos com essa luz fictícia, pois o custo de vida aí é demasiado caro e alguém terá de pagar e pagam sempre os mesmos. Dos nossos bolsos tem saído demasiado dinheiro para pagar as dívidas de quem anda pela 5.ª Avenida e isso não pode continuar. Ainda agora se noticiou que teremos de pagar 30 milhões pela dívida à Caixa da clínica Maló. E perguntamos porquê? Porque este governo vai deixar que assim seja.

Assim sendo e uma vez que o PS não vai precisar de fazer uma geringonça visto ter maioria e ser indigitado a formar governo, restar-lhe-á simplesmente fazer alguns acordos pontuais sobre matérias mais sensíveis com os partidos que estiverem disponíveis e de acordo com ele. Claro que tanto o BE como a CDU estão à espera dessa altura e mesmo até o PSD como afirmou o seu líder, a bem de Portugal, claro. Não interessa tanto saber que a Catarina Martins diz que o BE vai exercer o seu mandato, arvorando a sua vitória e crescimento, como dizer que a direita foi a grande derrotada. Não interessa nada. Quem vai governar vai ser o PS e quando precisar de algum voto vai beber um café à esquina com o Jerónimo ou com o Rio e os outros ficam todos invejosos. É assim na política. E a Catarina, possivelmente, vai ficar calada e cheia de inveja. Pois é natural. Mas nem o governo socialista vai ser a 5.ª avenida, nem o Vaticano. Não se enganem. Nem vai haver o deslumbramento da 5.ª avenida nem a paz de espírito do Vaticano. Se pensam que os salários vão aumentar, enganam-se. Se pensam que os sete anos que roubaram aos professores para pagar as dívidas aos bancos, lhes vão ser retribuídos, enganam-se. Se pensam que as pensões vão aumentar, enganam-se. Se pensam que as greves vão acabar, enganam-se. O deslumbramento da 5.ª avenida vai acabar e depressa. Fica-nos somente a sombra das árvores da avenida da Liberdade. E daqui a quatro anos, usem novamente a liberdade para eleger novo governo.

Vendavais - As golas do enforcamento

Normalmente quando alguém se quer enforcar, não compra qualquer tipo de golas e nem sei sequer se as há para esse efeito. Possivelmente não há. O método de enforcamento é completamente diferente e também ninguém vai pedir instruções seja a quem for, para se enforcar. Quando alguém quer cometer esse tipo de atrocidade individual, fá-lo sozinho e em completo silêncio. Só os condenados à morte por crimes cometidos subiam ao cadafalso perante a multidão silenciosa e estupefacta, que assistia quase incrédula, à execução do criminoso a quem colocavam previamente, uma grossa corda à volta do pescoço.

Podemos dizer então que havia dois tipos de enforcamento: um por crime e outro por iniciativa própria. Infelizmente, este último ainda subsiste em grande escala, mesmo em Portugal e com alguma preponderância no Alentejo. Talvez a cobardia esteja na base de tal iniciativa. A fuga a responsabilidades e o medo de encarar consequências, leva a este tipo de atitudes inqualificáveis e desnecessárias.

Mas a verdade é que há casos em que não sendo a cobardia a mover situações destas, elas acontecem quase sem querer ou sem se esperar e até sem se saber quem vai sofrer as consequências ou ser enforcado. E que motivos estarão na base de tal castigo.

Ficámos bastante admirados quando no início da época dos incêndios surgiram notícias a referir a aquisição por parte do governo, de golas antifumo ou antiígnias ou anti qualquer coisa, que as pessoas deveriam colocar no pescoço para evitar morrerem asfixiadas ou mesmo queimadas e que foram distribuídas pela população mais em risco de enfrentar situações em presença de incêndios. Lembramo-nos bem do que então se divulgou e da importância que isso teria para as populações. O governo enalteceu a sua própria ação que seria de louvar se por trás dela não houvessem rabos-de-palha para atiçar mais os incêndios no futuro.

As investigações que se seguiram sobre o processo de aquisição dessas golas antifumo que foram financiadas pela União Europeia em cerca de dois milhões de euros, levaram à descoberta de um contrato de três milhões de euros onde os intervenientes estavam comprometidos, de alguma forma, com elementos do governo, indiciando atos ilícitos e favorecimento em negócio por quem não deveria. Suspeita de crime, logo castigo dos criminosos.

O que ninguém estaria à espera era do desfecho que tal investigação e relatório final suscitaram. De facto, o ministro da tutela e o secretário de estado, demitiram-se do cargo a semana passada, já que por eles passou o contrato assinado com as cerca de treze empresas fornecedoras das golas e do material que com elas vinha para o mesmo efeito. Mas aconteceu. Enforcaram-se sem contar e com golas que aparentemente serviriam para salvar pessoas. Coisas do destino! Crime e castigo. Li há muitos anos um livro com este título, mas não tinha golas, nem ministros.

Em altura de início de campanha para as eleições legislativas, este episódio não traz benefício algum a Costa e ao PS. Será tema de campanha, certamente. A demissão do ministro e do seu secretário de estado, leva a uma substituição desses elementos e consequentemente à alteração do governo o que significa colocar no governo pessoas a prazo, a muito curto prazo, e que possivelmente, também elas se queimarão, já que não têm golas salva-vidas! O tempo de vigência acaba em Outubro. Pode ser que tenham sorte e Costa possa chamá-los para o novo governo, ou talvez não.

Na verdade, o que se nos apresenta como possibilidade concreta é o PS ganhar as eleições com quase maioria absoluta e isso significa ter de constituir novo governo. Os apoios virão certamente de algum lado. Claro que se perfilam todos os partidos para tirar dividendos dessa oportunidade de completar a maioria necessária ao novo governo. Nele, podem entrar os novos elementos do executivo do Ministério da Administração Interna. Seria uma forma de fugir ao escaldão!

Seja como for e o que daqui para diante se nos apresentar, a campanha trará mais descuidos a público e quiçá, alguns laivos de corrupção acrescida, que é o que neste país mais se vai descobrindo em cada dia que passa. Infelizmente. Para alguma coisa servem as campanhas, quanto mais não seja para descobrir destas situações onde uns e outros se vão enforcando quase sem darem conta, mas que bem podiam contar com isso. Hoje todos são inspetores e investigadores e até acusam e condenam na praça pública os que bem entendem, mesmo sem que os tribunais e a justiça tenham funcionado previamente. Os visados são enforcados em público sem serem condenados. Rui Rio quer acabar com isto. Já o disse e prometeu, se for primeiro-ministro. A comunicação social terá de estar mais atenta a estes pressupostos e ao que escreve, sobrepondo-se aos tribunais e à justiça, sob pena de ser ela a enforcada. E como não tem destas golas, que deixam muito a desejar, talvez não se safe … ou talvez sim.

Vendavais A pele da cobra

Nesta opaca claridade em que tudo se quer ver e nada se vê, dá-se o arranque das eleições legislativas e os partidos tentam posicionar-se em duas vertentes essenciais, na sua e na dos eleitores e para isso agrupam promessas que não os comprometam e que interessem à maioria dos que vão votar. Infelizmente votam poucos!

Diríamos com um pouco de razoabilidade, que todos comungam dos mesmos objetivos, mas seguindo por caminhos diferentes. Na verdade, o que temos observado neste titubear inicial, é a abordagem de temas comuns, como o ambiente e os impostos. É evidente que é de bom-tom e pode ganhar votos, dizer que se quer baixar os impostos e defender o ambiente que tanta agressão tem sofrido e cuja pureza se nos escapa por entre os dedos.

Engenharia económica e proliferação de projetos todos têm e todos prometem cumprir. Claro que têm de prometer cumprir. Já vimos e sabemos que as promessas não são para cumprir, mas sim para prometer. Se nada se prometer, nada se pode cumprir. E como se ganham votos se nada se prometer? No que a isto concerne, o problema reside essencialmente no modo como se fazem as promessas e em que bases são sustentadas.

Temos vindo a assistir pelas televisões, a debates entre os líderes partidários, onde se esgrimem promessas, aparentemente realizáveis e necessárias para o avanço da economia e da melhoria da situação dos portugueses. Claro, mas isto sempre foi assim. Promete-se sempre o mesmo. Então porque é que não vemos os resultados?

O que temos de diferente neste início de campanha são as bases em que assentam os objetivos. Muito embora se tenha sempre referido o interior como algo a que se te de dar prioridade, a verdade é que as populações que por cá estão não têm visto as promessas cumpridas. Agora António Costa vem apostar em promessas para desenvolver o interior do país já que cá existem inúmeros recursos que têm de ser aproveitados e enaltecidos economicamente. É verdade, mas sempre cá estiveram! E se fizerem o que sempre têm feito, continuaremos na mesma, como sempre estivemos.

Eles sabem e nós também, que aqui o ar é mais puro, que o ambiente é saudável e que existem recursos, sejam hídricos, sejam minerais, sejam hidroeléctricos, sejam agrícolas ou sejam humanos. Afinal temos tudo. Que maravilha. E para que nos serve isso? Para sustentar as promessas que nunca são cumpridas.

Apostar pois no interior e nos seus recursos parece muito bem, mas depois das eleições, quem ganhar, despe a pele que tem e depressa muda de fato. É interessante falar de descarbonização da economia, como diz a Catarina Martins do Bloco. É um termo novo e deixa as pessoas a pensar no que será isso. E como muitos não percebem e ela também não explica, fica tudo muito mais interessante, já que deixa a ignorância predominar e na dúvida, ela falou muito bem, dirá o povo. E como se referia também ao interior, pensar-se-á que é coisa de muito interesse para o povo. É desta que o interior vai arrancar!

Em regiões de baixa densidade como o interior do país, as promessas custam muito dinheiro se forem cumpridas e é por isso que só se promete e não se cumpre quase nada do que se promete. Mas é bom que se saiba que as promessas do PSD custam mais do que as do PS, isto se fossem cumpridas, mas o medo da descapitalização leva a que se fique somente pelas promessas. Mas apesar de tudo Costa veio dizer que há cerca de 1.700 milhões para as empresas do interior no sentido de atrair as populações. Talvez não seja uma promessa, mas o que eu duvido é que as empresas lhe tenham acesso e consigam atrair seja quem for. Não é fácil.

O potencial do interior e a baixa densidade não se conjugam com o desenvolvimento da economia. O potencial existe, mas ninguém lhe toca e a população não cresce e portanto também não pode crescer a economia já que não há desenvolvimento. O interior está sempre em desvantagem.

A verdade é que até outubro o caminho terá de ser percorrido e quem chegar em primeiro terá de olhar para trás e analisar as promessas que foi fazendo. Depois e para que não pareça muito mal, terá de pegar na peneira e peneirar muito bem as promessas mais viáveis e necessárias, caso contrário poderá não chegar ao fim do mandato. Se o PS tiver maioria, o que parece ser possível, então o caso muda de figura. Já não interessa o que se prometeu. Vale tudo. Não será preciso mudar de pele, como a cobra. E mesmo que mude de pele, a cobra será sempre a mesma. Quem vier depois que pague as dívidas.