Luís Ferreira

PUB.

Vendavais: Um governo à procura de rumo

Esgota-se o mês de agosto e também as férias dos portugueses. O tempo de lazer chega ao fim e com ele regressam as preocupações do tempo da continuidade. O tempo não pára, os serviços também não e se as preocupações entram em stand by para uns, a verdade é que para outros elas continuam. Nada fica parado na sua totalidade. O país não pode parar, mas houve quem quisesse fazê-lo.
Sabemos que todos devem ter o seu tempo de férias e mesmo o governo tem o direito de o gozar como qualquer cidadão em repouso e sem grandes preocupações, contudo as coisas não são bem assim. Os membros do governo estão sempre em alerta e esse tempo de lazer é muitas vezes reduzido devido a percalços diversos como os fogos ou situações mais complexas que chamam os ministros à ribalta quase sem contarem, como foi o caso da greve dos motoristas de matérias perigosas. Neste caso, um sindicato conseguiu monopolizar ministros e até o Presidente da República, face a uma greve em tempo de férias, agravando toda a circulação no país e travando a normal fluência dos veraneantes, nacionais e estrangeiros, que pretendiam deslocar-se de um lado para o outro. Realmente foi uma greve cirúrgica que atentou contra a vida dos portugueses e não só. Foi uma greve que não se limitou a exigir direitos, mas a atingir a economia do país. Perante isto, o governo teria de intervir de um modo mais ou menos subtil já que não era o visado diretamente, mas cabia-lhe resolver a parte da economia e da saúde nacionais, que ficavam reféns de um sindicato de motoristas. Foi uma situação caricata e nunca antes vista. Um país amarrado a exigências de um sindicato!
Claro que o governo teria de tentar resolver a situação. A greve estava condenada ao fracasso pois o governo ao intervir, teria de usar os meios mais eficazes para evitar o pior e minorar as consequências terríveis que poderiam surgir. O governo teria de ter uma posição de força neste imbróglio, já que tinha muito em jogo e não poderia ficar muito mal. As eleições estão à porta e era preciso contabilizar a seu favor os desagrados da população. Saiu-se mal o sindicato devido ao timing escolhido e à atuação do governo. Na verdade, ganharam todos alguma coisa.
Todos têm direito à greve. Sabemos disso. É constitucional e todos os trabalhadores têm esse direito e devem usá-lo quando é necessário, mas esta greve não deu jeito nenhum ao sindicato, mas deu algum ao governo que conseguiu demonstrar a força necessária no momento certo e contabilizou votos certamente. Interromper as férias para tentar minimizar os efeitos desta greve como intermediário, foi um tempo ganho. Se todos pensavam que o governo estava todo de férias, enganaram-se e se lhe faltava algum rumo no meio da desorientação que preconizava, encontrou-o. 
Muitos criticaram o governo na forma como agiu, mas alguma coisa teria de ser feita para travar a arrogância de um pardalito qualquer que pensava que metia na gaiola todos os passarões, passaritos e cucos que andavam à sua volta. Enganou-se.
Contudo, o governo precisa de se afirmar no regresso de férias e não me parece que o decreto que acaba de sair sobre a necessidade de ter espaços próprios nas escolas para os alunos que se afirmam ter uma escolha diferente, diga-se género, não me soa muito bem e não dá certamente muitos votos ao executivo nem tão pouco afirmação. É tão prematuro como a falta de rumo que demonstra o governo. As coisas não se podem fazer de um momento para o outro, de um tempo de férias para um tempo de afirmação governativa. Não é por aí António Costa. Não sou contra a igualdade de género ou o que lhe queiram chamar, mas sempre haverá o género masculino e o feminino e as casas de banho serão sempre para quem as deve usar e nas escolas elas são diferenciadas. Sobre isto a Lei é explícita. Não vale a pena perder tempo. 
Assim, não resta muito tempo ao governo para encontrar o rumo certo se quer ganhar as eleições de outubro, até porque Rui Rio está a facilitar-lhe a vida o mais possível. Até consegue dividir o próprio partido ao demarcar-se de tudo durante as férias, até mesmo da greve que, pelos vistos, não o afetou muito.
Entretanto Costa foi de viagem pela nacional 2 de Chaves até ao Algarve. É preciso encontrar o rumo certo. Será este?

Vendavais Democracia em parte incerta

Quando do outro lado do Atlântico, doidos à sol ta, começam aos tiros e matam dezenas de ino- centes, é razão mais do que sufciente para nos questionarmos sobre como se deve conduzir esta sociedade do século XXI e para onde quer ir.

De facto, parece não bastar termos que morrer naturalmente como ainda termos de enfrentar a morte sem encomenda, desnorteada e dirigida para simples alvos em movimento que servem os desígnios de loucos atiradores, como se vivessem no mais fantástico flme de uma qualquer série negra americana. Para justifcar o que é democrático à moda de Hamurábi, “olho por olho, dente por dente”, Trump anuncia a possibilidade de pena de morte para quem pratique atos deste calibre. Dá-nos a impressão de ser tão vilão o criminoso como o juiz, já que ambos tiram a vida a seres humanos. Não sei se o contexto de democracia se aplica nestes caso, mas a verdade é que nos apetece dizer que quem mata deveria morrer da mesma forma, já que matar por prazer, parece ser um jogo de desfecho desconhecido e porque, na maior parte dos casos, o assassino é liquidado pela polícia. Perante isto e sabendo o assassino que o mais certo é ser morto, questionamo-nos sobre que prazer será esse já que não fcará vivo para se vangloriar seja do que for. Na verdade, estas americanices não têm comparação, nem justifcação, nem suporte democrático seja onde for.

O facto, contudo, que subjaz a estes episódios, é o de ser ou não democrático castigar com a mesma pena, quem comete determinados atos atentatórios à vida humana. A vida humana é um direito inalienável que ninguém pode tirar, seja sob que justifcação for. Os direitos humanos são para respeitar, é verdade, mas revoltados com estas atitudes, o que nos apetece fazer é castigar do mesmo modo quem pratica estes abomináveis crimes. Verdade?

Por cá como por lá, quando somos confrontados com os fogos que grassam um pouco por todo o lado e destroem propriedades, casas e haveres de toda a espécie e também vidas humanas, o que dizemos frequentemente é que quem ateia estes fogos deveria ser metido no meio deles para saber quanto custa morrer entre as chamas. Não vale a pena dizer que o não pensamos ou dizemos, por que seria mentira. A revolta é tão grande que não se compadece com atenuantes. Não buscamos a democracia para a impormos como panaceia a quem é criminoso desta estirpe.

Olhando para o horizonte político e democrático que entre nós vigora, constatamos que os criminosos que atearam fogos e que foram apanhados, mas não julgados, continuam à espera de benesses da justiça, do mesmo modo que aqueles que deveriam ajudar quem tudo perdeu, não o fez cometendo um crime tremendo e a quem nada acontece. Olhemos para Pedrógão Olhemos para Mação. Olhemos para o nosso horizonte democrático e julguemos. Peguemos na democracia e com ela, como se fosse a vara da justiça, chicotemos quem merece. O que acontece? Nada. Os criminosos andam à solta. Impunes.

Estou a lembrar-me de um episódio caricato que aconteceu no fnal do jogo da supertaça Cândido de Oliveira em que um diretor de departamento do Sporting foi espancado por cerca de quinze indivíduos benfquistas, sem que nada parecesse justifcá-lo. Não está em causa o clube, seja ele qual for, mas sim o atentado criminoso que teve lugar. Como se justifca tal atitude? Possivelmente ninguém reconhecerá os indivíduos que praticaram o atentado e eles fcarão impunes para se poderem vangloriar do vil e selvático crime. Neste caso, para castigar do mesmo modo os indivíduos em causa, seria muito mais difícil, já que seriam necessários trinta outros juízes que, de igual modo, exerceriam justiça hamurábica. E seria democrático? Mas apetecia fazer o mesmo? Possivelmente.

Claro que a revolta que nos invade em situações como as mencionadas, nos leva a repensar muitas atitudes e até a querer alterar a própria justiça e o modo como se aplica. Mas será que se o fzéssemos, o resultado seria outro? Na melhor das hipóteses, o medo que invadiria os que pensariam em fazer tais atentados, coibiria o seu modo de ação, resultando em menos atos extremistas, mas só isso. Nada impede um criminoso de praticar o seu crime. Ele não pensa na justiça, mas sim no resultado imediato da sua performance. E muito menos pensará na democracia que é um conceito que para ele não existe.

Neste tempo de férias, a nossa política democrática anda a banhos, porque também tem esse direito, intervalando com o futebol como já vimos. Também vimos que nem com a presença das altas individualidades da Nação, os criminosos deixaram de praticar atos horrendos. Ora a ser assim, o que fazer com a justiça, com a política e com a democracia? Nada disto mete medo aos assassinos porque eles não são nem cobardes nem democráticos. Infelizmente.

Deste modo não parece que a democracia seja a solução que justifque o castigo, mas se o fosse, também ela parece andar em parte incerta!
 

Vendavais - Eleições ao rubro… e as promessas queimam

Em período de férias, os portugueses vivem mais momentos de preocupação do que de relax. O suposto tempo de lazer e descanso que todos aguardam com alguma ansiedade, parece esvair-se em ameaças grevistas que causam um alvoroço tremendo no governo, que por sua vez, vê as eleições aproximarem-se a passas largos e não necessita deste cenário de incerteza onde o medo paira como machado prestes a cair sobre ele.

Não estando diretamente sob a tutela do governo, a ameaça de greve dos motoristas de matérias perigosas e transportes alimentares, não ajuda nada a estratégia do governo, seja ela qual for, em termos de visão eleitoral, num momento em que a maioria dos portugueses vão partir para as ansiadas férias, sendo o Algarve um destino por excelência. A acontecer, o governo sofre um duro revés e Costa arrisca, com toda a certeza, a suposta maioria com que parece estar a contar. Claro que para o BE, não sendo um objetivo a greve dos motoristas, ela é uma benesse nas suas ambições para a continuidade da geringonça. Uma vez mais, a muleta que o PS pode precisar para continuar a governar. Joga-se, portanto, nesta greve e em outras semelhantes, o futuro de uma possível maioria do PS, o que faz depender do governo e só dele, o resultado das eleições. O problema está em como resolver uma greve em que o governo pouco pode ajudar a não ser na requisição dos serviços mínimos. Ora estes também não foram além dos 25% o que é manifestamente pouco para as ambições que o ministro tinha. A continuar assim, a greve vai parar, uma vez mais, este pequeno país que parece andar a brincar às greves, quando o governo diz que tudo está bem e muito melhor do que se esperava. Então como se explicam tantas greves? Se tudo está bem, não se justificam tantas greves em tantos sectores como o dos motoristas, dos corticeiros, dos juízes, dos enfermeiros, dos médicos e mais alguns que todos sabemos. Afinal o que é que está bem?

Talvez por isso mesmo, todos os partidos estejam a preparar a sua rentrée com o maior cuidado e com mais certezas. Não sabem muito bem o que vão dizer e o que podem esperar, mas sabem que têm que que subir o seu score eleitoral. Aqui as sondagens desempenham um papel primordial, para o bem e para o mal, já que, como diz Rui Rio, se as sondagens fossem assim tão certas não seria preciso fazer eleições. Talvez tenha razão. Talvez. É que estas dão como certa, a falha de uma maioria do PSD na Madeira e por isso o PSD aposta mais no Chão da Lagoa. São 920 Km a separar a rentré habitual do partido. Segurar a Madeira é importantíssimo. Mas também na Madeira, na Fajã da Ovelha, o CDS aposta a sua rentrée e joga uma geringonça que poderá ser com o PSD. Mas o PSD/ Madeira, segundo parece, não se importa de arranjar uma geringonça com o PS. A ser assim, os interesses partidários sobrepõem-se novamente, aos interesses dos portugueses. Mas o que pode acontecer é a esquerda ganhar e o PS conseguir fazer a geringonça com ela. Desta feita perde o CDS e o PSD, pois podem não conseguir a maioria para governar a Pérola do Atlântico. Seria um desastre para o PSD ver o PS a governar a Madeira. Penso que seria o princípio do fim de Rui Rio.

Para complicar tudo isto, parece que o próprio PSD, por ordem de Rio, não está a fazer o trabalho bem feito. As listas que estão a surgir todos os dias, trazem novidades extraordinárias. Rui Rio está apostado em renovar e muito, estas listas de candidatos a deputados e o resultado é uma debandada enorme de nomes que não vão fazer parte do hemiciclo. São mais de 60 os que se vão embora. Será que é razão para dizer “quem não está comigo, está contra mim”? Temos aqui então uma ditadura parlamentar, que pouco terá de democrática. Certamente vamos ter uma Assembleia constituída por nomes completamente desconhecidos e com muito poucas referências políticas. Será um meio para acabar com a cedência de favorecimentos que levam a voos muito mais arrojados e perigosos. Talvez Rio tenha razão. Ele lá saberá para onde quer correr.

E para onde correm os outros partidos? Parecem estar todos à espera de coligações e geringonças. Não há afirmações que nos conduzam a outras conclusões. Tudo são suposições. Os líderes avançam com promessas fantásticas se ganharem as eleições. Rui Rio promete reduzir os impostos, aumentar salários, aumentar a economia, enfim, um pacote extraordinário, na esperança de que todos sejamos ingénuos e acreditemos em tudo isso. Mas Costa não fica atrás nas promessas. Não interessa o que se promete ou o que se vai fazer. Se der para o torto, quem ganhar que resolva os problemas. É sempre assim que se faz. O PS deixa o país de pantanas. Dá tudo o que pode e o que não pode. Depois se perder, o PSD e os outros que solucionem as asneiras e que fiquem com o ónus do resultado, que nunca é bom. Como os portugueses acreditam que tudo vai correr bem com o PS, voltam a dar-lhe certamente, a possibilidade de ganhar. Depois e como não se pode dar continuadamente o que se não tem, nas próximas eleições, o PS perde e o PSD e o CDS que voltem a tentar tapar o buraco e que fiquem mal novamente na fotografia. Claro.

Vendavais - Pontes sem margens

Em tudo na vida procuramos os meios para suplantar os problemas que se nos deparam no dia-a-dia. Procuramos pontes que nos permitam passar para outras margens, eventualmente mais calmas. Umas vezes conseguimos encontrá-las, outras não.
A alguns meses das legislativas, os partidos políticos começam a movimentar as suas estruturas com o objetivo de arrastar as multidões que lhes darão os votos necessários para passar as pontes que têm pela frente. É um trabalho insano. Meses de trabalho, de procura de estratégias, de slogans convincentes, de promessas exequíveis que agradem às maiorias e o mais importante, de compromissos que façam esquecer os erros e as asneiras que alguns cometem numa governação desregrada em nome de quem não tem culpa nenhuma a não ser o facto de os ter elegido. Mas as culpas ninguém as aceita.
O Partido Socialista terminou agora a sua agenda política imediata, assim como a Assembleia da República. Tempo de férias. E as férias servem de ponte para outra margem bem mais complicada. E todos eles sabem disso. É altura de equacionar estratégias, preparar o novo ciclo político que vai incluir as eleições legislativas, claro.
Os partidos de centro direita estão em crise. Não se veem grandes alternativas ao que têm sido as estratégias da governação e as da oposição e a continuar assim, as vantagens são do Partido Socialista que, sem nada a impedir a sua progressão, passa facilmente a ponte para a outra margem, continuando a governar o país como quer. O único óbice a tal constatação será, por ventura, a falta de uma maioria absoluta. Costa bem tenta, mas não será fácil lá chegar e ainda bem. As maiorias absolutas são ninhos de malfazer. São geradoras de governos surdos e prepotentes que só agem em nome próprio, no seu próprio interesse, satisfazendo todos os que esvoaçam à sua volta. 
Para que não aconteça tal ninhada, compete à oposição aprumar a sua postura política, dignificar as estruturas, dar ouvidos aos pares e aplicar as estratégias adequadas a um salutar sucesso que impeça a maioria absoluta. 
As estratégias de Rui Rio não têm sido as melhores e a sua postura política interna também não. Acusado de prepotente e ditador dentro do seu partido, leva a concluir que fora dele será ainda pior se tiver poder de decisão política. Ora isto não serve de ponte ao que ele pretende. Pelo contrário. Esta ponte não leva a margem alguma que interesse ou descanse os portugueses. E por mais que ele negue esse rótulo, certo é que ele já vincula um propósito que não augura nada de bom. Felizmente que não será o PSD a ter a maioria absoluta. Penso que seria um desastre para Portugal considerando a atual conjuntura.
Mas se isto acontece com o PSD, com o CDS as coisas não são muito diferentes. Cristas mesmo afirmando que é a única oposição com alguma dinâmica e talvez isso seja inquestionável, é facto que não desmarca dos valores dos scores obtidos nos últimos anos. A percentagem das europeias não foi famosa e a continuar com esses valores não pode ambicionar outros voos e outras margens. Falta-lhe a ponte ou, quiçá, uma margem segura. Claro que nem todos os partidos podem ter as mesmas percentagens de votos e os portugueses já se efectivaram politicamente. Como não cresce a população, também poucos são os jovens que podem fazer a diferença ao contribuir para um aumento percentual de resultados.
O que marca esta situação é descredibilização dos políticos no que confere às suas atuações enquanto detentores de cargos importantes. Num país pobre como o nosso, com um rendimento económico muito abaixo do necessário, com uma dívida pública de mais de duzentos e vinte mil milhões de euros, será que é admissível que se tenham gastado, por exemplo, em 2018, 1,3 milhões de euros em subsídios de deslocação de deputados da Assembleia da República? E a quantidade de milhões desviados em nome de boas atitudes e que vão dar bom nome à corrupção que grassa em todas as esquinas? Estas pontes levaram a outras margens quem não devia passar por elas. Mas levaram.
Parece-me, pois, que há muitas pontes em Portugal, mas infelizmente faltam margens credíveis que possam descansar os portugueses e os políticos mais sérios, porque também os há. Mal estaríamos se não os houvesse. As legislativas estão aí. Os partidos que se aprumem para que Costa não tenha o prazer de esfregar na cara dos outros que conseguiu a maioria porque a oposição não teve mérito algum nem fez o seu papel. O BE e o PCP estão expectantes. Costa sabe disso. Eles serão sempre a ponte que falta ao PS. E a margem? Qual será?

Vendavais - Sem tempo para ter tempo

A corrida às legislativas já começou há muito tempo. Trabalhando na sombra, os partidos têm desenvolvido estratégias no sentido de constituir as suas listas, mas até agora pouco se sabe, a não ser que o PSD já tem alguns dos seus cabeças de lista divulgados na comunicação social.

A reunião com o PS para viabilizar um acordo que aprovasse a Lei de Bases da Saúde não deu frutos. Depois da nega do BE e do PCP às pretensões de Costa, este virou-se para o PSD, mas Rui Rio acabou por desistir das exigências de Costa e veio a terreiro dizer que não queria ser a muleta da geringonça. Claro, mas não se importava de o ser do PS se a negociação desse certo. Mas não deu. Como Costa não tem tempo a perder virou-se novamente para a esquerda e pediu ajuda. Catarina já estava à espera desta deixa e prontificou-se a viabilizar o SNS. Nenhum deles tem tempo a perder. Resta agora saber qual o acordo que vai ser aprovado e quem vai perder ou ganhar com esse acordo. Estão todos numa corrida desenfreada.

Enquanto Rui Rio supostamente trabalhava no sentido de se entender com o PS e apresentar um acordo positivo que lhe desse votos e aprovasse a nova Lei de Bases da Saúde, o PSD, na sombra, andava a constituir as suas listas, mas com indicações claras de Rui Rio e que iriam surpreender o país e o próprio PSD. Rui Rio não será cabeça de lista às legislativas! Surpresa? Talvez, mas o objetivo é claro. Promover alguns rostos desconhecidos que serão eleitos deputados certamente, enquanto os mais conhecidos vão em segundo ou terceiro lugar e que serão igualmente eleitos para deputados. O que mudou? Nada a não ser a ordem dos nomes nas listas. O que ganha o PSD? Talvez elogios ao apresentar listas onde os cabeças são desconhecidos e alguns são mulheres, o que é de louvar. É tempo de mudança, mas não muita. Há quem diga que é uma revolução nas listas do partido. É demasiado forte o termo porque não há nenhuma alteração tão grande que o justifique. A inversão da ordem nas listas nem sequer promove o risco porque este é assegurado pelos segundos e terceiros nomes. O que deixamos de ver é os candidatos habituais e mais velhos e experientes a assumirem os primeiros lugares e por isso mesmo a serem criticados por serem sempre os mesmos. Aqui é que a jogada é meritosa.

Esta jogada de Rui Rio faz-lhe ganhar algum tempo nesta corrida em que não quer chegar atrasado. Falta-lhe tempo para poder estar em todas as frentes e portanto não pode perder tempo algum. Faz lembrar Trump na cimeira do G20 a querer falar com todos os líderes incluindo Kim Yong Un da Coreia do Norte mesmo sem ter agenda marcada e a querer ficar bem na fotografia também ao fazer as pazes com a China. Enfim. O mesmo fez Bolsonaro ao cancelar a reunião com o Presidente da China por este estar atrasado vinte minutos. Claro. Tempo é dinheiro. O que é preciso é ganhar tempo e não perdê-lo.

Vendo esta corrida pelo prisma da esquerda, quem vai acabar por ganhar pontos é o BE, já que Catarina ao não desmarcar da sua posição em termos de acordos com o PS, vê este aproximar-se novamente e volta a espreitar o acordo do SNS aprovado com a sua prestimosa ajuda, ajuda que Costa terá de pagar, seja como for. Ninguém dá nada sem esperar algo em troca. Quem não está a gostar muito desta negociação é o PCP que vê cada vez mais longe ser necessário para a geringonça ser realidade. Como também não quer perder tempo, atira-se ao PS e não só, criticando tudo e todos, para que seja olhado como coerente nas suas posições e assim ir buscar os votos que lhe fugiram nas europeias, embora adiante que o resultado será bem diferente para melhor. Talvez tenha razão.

Se nestas andanças o PSD quer ganhar algum tempo mostrando trabalhado já feito, Catarina parece estar a perder tempo já que nada veio à praça pública sobre o projeto de listas para as legislativas. Será que Catarina também não quer ir em primeiro em nenhuma delas? Pode ser que copie Rui Rio e dê lugar aos mais novos. Ela tem lutado contra o PS porque vê Costa a olhar para o PSD, mas esta perda de tempo não serve a ninguém e muito menos a ela se quer marcar pontos nesta corrida. Não vai querer chegar em último certamente.

Também o CDS anda a tentar ganhar tempo, mas as listas ainda não estão prontas e muito menos divulgadas. Cristas, para não perder tempo, lança o seu livro como estratégia inicial e com o objetivo firme de ganhar votos e tempo para chegar a tempo à meta das legislativas. É uma estratégia louvável. Dará frutos? Faltam os cabeças de lista! E aqui eles têm de ser conhecidos sob pena de se perder tempo e dinheiro. Não há tempo para perder tempo!

Deste modo e tal como a juventude atual, os partidos estão sem tempo para ter tempo. O melhor é não desperdiçar nada.

Vendavais - Entre a cadeia e o compromisso

A corrida para as legislativas já começou. Ninguém pense que os partidos estão à espera do momento certo para iniciar o torneio. O que nós conseguimos perceber apenas, é que as estratégias não estão à vista de todos e que este início é bastante confuso, sem delineamentos corretos e com muitos receios do que está para vir. Resumindo, nada se aposta por enquanto.

A verdade com que se debatem alguns partidos é pretender inverter os resultados das europeias ou manter ou alargar esses mesmos resultados, o que não é fácil. Não é linear que se mantenham, mas não será igualmente assumível que alguns se mantenham. Daí que despegar dos scores obtidos é um objetivo para todos eles. Vejamos: o PS quer manter ou aumentar, o que lhe daria a tão almejada vitória e a possibilidade de controlar novamente o governo da Nação. O BE, ao manter o score obtido, poderia impor ao PS normas de governo e controlar, não só o PS como até exigir lugares no próprio governo. O PAN, ufano do resultado que amealhou, gostaria de fazer parte de uma qualquer geringonça e poder arvorar-se como parte de uma solução governativa. O PCP não está conformado com o escasso resultado obtido e quer aumentar para não ser colocado na prateleira sem fazer parte da próxima geringonça. O PSD quer aumentar o magro resultado para poder bipolarizar politicamente o país e fazer parte da solução governativa com o PS, arrumando a influência da esquerda e a geringonça. Para o CDS não interessa manter os resultados obtidos já que não lhe conferem qualquer autoridade para se impor a um próximo governo. Assim, todos querem mudar os resultados das europeias e curiosamente, para melhor. Falta fazer as apostas.

Visto isto, podemos dizer efetivamente que a corrida para as legislativas está na estrada e Costa está a tentar liderar sem que tenha grande oposição dos outros partidos. Os motores estão a aquecer. Costa lançou o primeiro trunfo. Disse que quer aumentar os funcionários públicos. Uma jogada de mestre, tanto mais que os restantes partidos pouco disseram a respeito. O único que se pronunciou foi o CDS, dizendo que o principal seria aumentar o investimento e a produtividade e não só uma classe de trabalhadores. Quase parece o Bloco a falar ao tentar igualar todos os trabalhadores. Claro que é necessário investir e produzir, mas se Costa quer aumentar os funcionários públicos, pois que aumente e não se esqueça que para além destes há outros trabalhadores, mas pertencem a empresas privadas. Falar em aumento de vencimentos é sempre um bom trunfo e dá votos com toda a certeza.

Sobre o assunto, o BE ainda não se pronunciou, pois não se quer comprometer com a promessa dos outros e se for governo, pode ter de dar o dito por não dito e sofrer dissabores. Posição igual tem o PCP até agora. Aumentar os trabalhadores é sempre bom para os comunistas, mas há sempre gatos escondidos com o rabo de fora e eles ainda não os descobriram.

E o PSD? Pois o partido que se quer arvorar em oposição e até obter um resultado muito superior ao das europeias e até quer formar governo com o PS, se este quiser, acabando com a geringonça, até agora nada disse a respeito das afirmações de Costa. Mas também nada disse a propósito do autarca Álvaro Amaro ter sido constituído em arguido. Será esta a razão principal para não se ter ainda pronunciado? Não é fácil tomar posições sem estar seguro e ver um seu autarca na eminência de ir parar à cadeia. Como se pode comprometer com alguma coisa quando pode ser vexado pelas atitudes dos seus correligionários? Para não dizerem que nada faz, vai adiantando a possibilidade de alguns acordos de regime com o PS o que lhe dá a sensação de estar a fazer a cama para o próximo governo. Mas não.

As eleições estão a ser comandadas pelo PS. Os restantes partidos estudam lances e jogadas para não perderem a corrida. O que surpreende é o facto de Rui Rio querer alterar o panorama interno do partido e querer subir o score e nada fazer para o conseguir. Está preso entre a cadeia de uns e o compromisso de si próprio que não quer assumir! Só que, a ser assim, Rio não só não consegue os votos que pretende, como não será a oposição que quer fazer crer aos apoiantes. Se quer realmente ser oposição e afirmar o PSD como partido concorrente do PS, tem de fazer muito mais. Tem de sair da sombra e deixar o medo de lado. E se a cadeia estiver à espreita de alguém, que sirva de exemplo ao que ele afirma sobre a honestidade e as qualidades dos governantes. Agora é tempo de compromissos. Sem medo. Sem medo para todos. Quem quer ser governo, tem de apostar e seguir em frente. Se ninguém fizer frente a Costa, não só ele vai ganhar, como a Catarina será a segunda dama de ferro e todos os outros não passarão de amas-secas. Os acordos de regime fazem-se depois. Acordem todos.

Vendavais - Aquilo que o povo não disse

Como facilmente nos apercebemos, as eleições para o Parlamento Europeu, caracterizaram-se por um demasiado desinteresse, não só em Portugal como em todo o espaço da União Europeia. É lamentável que tal aconteça, especialmente quando nos referimos tantas vezes com ênfase crítico ao que por lá se faz e que acaba por nos afetar a todos.

Não vale a pena queixarmo-nos de que a Direita e Extrema-direita cresce e ganha lugares no Parlamento Europeu e em alguns países desta União, pois isso acontece porque os que se desinteressam pelas eleições, permitem que tal se verifique, já que os eleitores de extrema-direita não se inibem de dizer “presente” no dia de ir às urnas.

Que moralidade podem ter as pessoas que não votaram, para criticar os que são eleitos pelos poucos que os elegeram? Quem não participa, não pode criticar já que não elegeu ninguém. Os que elegeram têm toda a prioridade para criticarem, pois se atuarem diferentemente do que prometeram ou não fazem o que se espera que façam, também não podem esperar elogios de ninguém.

O nível de abstenção que nestas eleições se verificou, não são, de modo algum, a aferição de uma votação futura, como muitos querem fazer crer. Votou-se para a Europa. Ponto. E é isto que temos de agendar como prioritário em qualquer conclusão. Claro que houve vencedores e vencidos, como em todos os atos eleitorais, independentemente do número de votantes. Mas quando quase 70% da população não expressou o seu sentido de voto, ficamos com a impressão de que o resultado é apenas uma amostragem e nada mais do que isso. A verdade é que a população europeia não expressou a sua vontade e o seu sentido de voto. A população europeia não quis escolher os seus governantes. Podemos aduzir razões de vária ordem, mas nenhuma nos responderá ao problema que se levantou perante o facto de só cerca de 30% da população ter comparecido às urnas.

Face a estes resultados, o que nos apraz dizer é que o povo europeu anda desanimado com os que o governam e que não acredita já nesta união. Há um desinteresse absoluto. Mas será isso que o povo quis dizer? Ou será que o povo ainda não disse o que deveria dizer?

Quando a Europa atravessou crises económicas e sociais profundas e os governos não conseguiram resolvê-las satisfatoriamente, o povo quando foi chamado a eleições, elegeu quem lhe prometeu o que os outros não prometiam. Assim, a Europa confrontou-se com um Hitler e com um Mussolini que acabaram por levar à destruição completa da Europa. Para trás ficavam alguns governos das chamadas democracias liberais, que tanto tempo levou a colocar à frente dos países europeus. Aos poucos caía a democracia liberal e foi preciso uma guerra mundial para resolver o desnorte dos ditadores. Agora, passados quase setenta anos, não queira a Europa viver de novo as agruras de uma guerra suicida, somente porque 70% da população se alheou de uma decisão que os restantes 30% aproveitaram para marcar pontos.

Diz-se frequentemente que o tempo é bom conselheiro, mas parece que não foi o caso que se verificou nestas eleições. Se o conselho chegasse a tempo de o tempo influenciar alguém, a abstenção teria sido de 30% e não o inverso.

Desta feita, o povo talvez não dissesse o que deveria, porque a maioria não se expressou devidamente. O que ficou por dizer é que assusta. Ficamos sempre na dúvida se o que faltou dizer foi que não se quer mais uma Europa unida, se o que se quer é não enviar para o Parlamento deputados que só vão encher os bolsos e não representar ninguém a não ser a si próprios ou se quer acabar com este sistema de representação parlamentar. Afinal o que quer a Europa?

A Europa não existe sem países e se queremos uma união, os países têm de comungar na maioria das decisões e estas têm de agradar à maioria e não a 30%. Alguma coisa está mal. É preciso coragem para o afirmar, mas para decidir é preciso votar. Todos têm de votar. A democracia é isso mesmo. Todos podem votar, mas devem obrigatoriamente expressar o seu sentido de voto e não deixar em mãos alheias o que a eles cabe por direito. A Europa não pode ficar refém de uma Marine Le Pen. E já há muitas Le Pen na Europa! Porquê?

Pois muito foi o que o povo não disse, mas o que ficou por dizer deve assustar-nos. Qual seria o resultado destas eleições se a maioria da população tivesse votado? Qual seria o sentido político dos votos? A extrema-direita teria este resultado? Era bom que o povo europeu se tivesse expressado condignamente para tirar as dúvidas dos que ainda pensam como os britânicos do Brexit. Afinal, o que terá ficado por dizer?

Vendavais - Bom leite, bom rebanho

As crias bem alimentadas suportam muito melhor as agressividades do crescimento de que os vírus viajantes, são causa principal, interferindo constantemente e deitando por terra toda a esperança de sobrevivência dos novos reixelos. Esta constatação, nada tem de novo.

Sabemos bem que em tempos de magros recursos em que as colheitas estavam sujeitas às intempéries de um clima inconstante e a um fraco desenvolvimento agrícola, a fome sobrevinha e os mais atingidos eram os mais indefesos. As mães, mal alimentadas e mal nutridas, pouco podiam dar aos filhos que apenas tinham o leite materno para se manterem vivos. Contudo, se esse leite era fraco e não lhes dava os nutrientes e vitaminas necessárias para debelarem os males que andavam pela Europa, adivinhamos facilmente qual o desfecho destas criaturas. Foi preciso melhorar todas as técnicas agrícolas e introduzir novos desenvolvimentos para que a qualidade da alimentação fosse substancialmente melhor e proporcionasse às crianças condições para enfrentar as maleitas que atacam quando se tem uma idade bem tenra. Nessa altura, a demografia europeia sofreu uma autêntica revolução. Houve um crescimento fantástico, ao ponto de alguns analistas dizerem que a Europa tinha atingido “um Mundo pleno”. Estavamos então no século XVIII. Já lá vai muito tempo!

Hoje a Europa continua aos sobressaltos e passa por problemas demasiado sérios em termos demográficos e económicos. Em 1951, em Paris, tentou-se criar algumas defesas, mais económicas que sociais e juntaram alguns países à volta do interesse que tinha o carvão e o aço. A partir de 1957, alargou-se a comunidade de países com interesses mais diversificados, o que chamou mais nações para essa comunhão. Daí até à União Europeia, foi um salto fantástico. Faltava simplesmente limar arestas e dar a quem fosse eleito para representar cada país e decidir em nome da União o que lhe interessava, condições de sustentabilidade. O leite de que necessitam os que fazem parte deste imenso rebanho, para poderem sobreviver. Sobreviver bem, claro, que isto dá muito trabalho e é preciso ser bem alimentado.

Pois é verdade, parece que o leite não é mau já que todo o rebanho não desiste e quer continuar a fazer o seu trabalho e a alimentar-se com o melhor leite que lhes é distribuído.

Dentro de dias temos aí as eleições para decidir quais os elementos do rebanho que permanecem ou os que, não conseguindo sobreviver às intempéries, têm de abandonar os companheiros. Não porque o leite seja mau. Nada disso. Somente porque sendo demasiado bom, é preciso alimentar os que dão mais garantias de sobrevivência. Só assim se consegue manter o rebanho em crescimento e muito forte.

Metáforas à parte, é bem verdade que os eleitos, são bem remunerados e têm regalias que, numa Europa em que existem carências de toda a ordem, não se compreendem. Não se trabalha por amor à camisola, que é como quem diz, em defesa do país que os elegeu, mas somente em defesa dos interesses de cada um. É uma constatação. É caso para se questionar se o leite que os alimenta fosse mau, se eles iriam para longe das famílias e se dariam a “tanto trabalho”!?

Claro que nem todos os deputados europeus estão no mesmo patamar de avaliação. Os que passam neste crivo, são poucos e estou a lembra-me, por exemplo, dos deputados dos países nórdicos, onde as mordomias, são menores e até escassas, e eles sobrevivem. O leite é muito forte! Não necessitam de tanto para enfrentar as intempéries! Mas não desistem.

A campanha está na rua. Campanha para as eleições europeias. Portugal, este ano, tem de se expressar duas vezes nas urnas e dizer o que realmente quer e quem quer colocar nos lugares disponíveis. Quase parece haver só uma eleição já que todos falam de tudo, e de todos e deixam a Europa um pouco de lado. Porque será? Afinal ela é a mãe de todo o rebanho!

Perante tais factos, corre-se o risco de haver cada vez mais desinteresse pela Europa e entrarmos num túnel demasiado escuro e sem conseguirmos ver a tal luz ao fundo que traga novamente a esperança que tinham os que pensaram numa Europa unida há quarenta anos atrás.

Agora não é uma questão de haver muito ou pouco leite. É uma questão diferente. Há leite a mais para um rebanho que tem interesses muito específicos e que vai esquecendo o país que lhes deu o ser. Encontraram uma mãe com melhor leite. Uma madrasta que os pode castigar quando menos esperarem.

Cuidado com as intempéries. Elas vêm aí. Andam por aí. O bom leite, faz o bom rebanho, mas é só enquanto se vai crescendo! Depois o leite acaba-se.

Vendavais - A palhaçada

Embora todos gostemos de nos rir com boas anedotas e piadas jocosas, não é nada fácil ser palhaço. Contudo, algumas pessoas sem qualquer propensão para serem palhaços, comportam-se como tais e não fazem rir ninguém. E desta feita, o ser palhaço é sinónimo de ser tonto e não saber bem o que anda a fazer. Autênticas baratas tontas. Correm de um lado para o outro afirmando aqui uma coisa e ali outra, numa incoerência absurda.

Quando há alguns meses atrás o governo concordou em descongelar as carreiras dos professores e retribuir todo o tempo de serviço que lhes tinha sido congelado, tudo parecia claro. Os sindicatos acalmaram, os professores também e tudo parecia caminhar na direção certa. Os professores iriam recuperar o tempo que lhes tinha sido roubado. Quase dez anos!

Depois de uma série de reuniões com os sindicatos completamente falhadas, começou a ficar cada vez mais distante a concretização de tudo o que se acordara. Os sindicatos movimentaram-se e deu-se início a uma série de manifestações e greves tendentes a levar o governo a retomar o diálogo e a ceder no que tinha acordado. O Ministro da Educação parecia um palhaço, pois dava o dito por não dito, adiantava promessas e recusava entendimentos, marcava reuniões e não aparecia. Uma palhaçada sem sentido algum.

Estava na hora de comprometer os partidos políticos e levá-los a pronunciarem-se sobre o assunto. E foi o que fizeram, com a dignidade que o assunto merecia, diga-se. Analisada a situação, concordaram em obrigar o governo a cumprir o que estava aprovado e orçamentado. Mas o governo recuou e secundado pelo Ministro das Finanças, veio a terreiro dizer que era impossível despender tantos milhões, mesmo sabendo que essa verba estava aprovada em sede de orçamento.

Se conseguíssemos todos saber as voltas que o dinheiro dá nas mãos dos ministérios e dos ministros, veríamos que ele anda numa roda-viva, e vai parar sempre onde menos se espera e para tapar os buracos que nós desconhecemos. Mas ninguém referiu que os milhões que foram roubados aos professores durante quase dez anos, foram para tapar os buracos dos bancos que foram à falência. Isto para não falar em muitos outros milhões que o governo enterrou nos bancos e que todos estamos a pagar. Outra palhaçada enorme.

Perante toda esta sarabanda, os sindicatos resolveram apoiar-se na Assembleia da República e nos partidos que apoiavam, não só o descongelamento das carreiras, como também a contagem imediata do tempo de serviço e o natural posicionamento nos escalões respetivos. E aqui enfrentaram, de algum modo, outra palhaçada, já que alguns partidos começaram a titubear na sua posição, entre eles o PSD. Rui Rio não se conseguiu assumir como um defensor e apoiante do que estava aprovado anteriormente. Colocou-se praticamente ao lado do Ministro das Finanças ao dizer que era necessário avaliar a possibilidade do cumprimento do orçamento, já que eram muitos milhões que o governo teria de pagar e causava problemas de solvência, entre outras desculpas. Não se queria comprometer. O líder do maior partido da oposição não se quis comprometer! Mas deve querer votos nas eleições ou será que os portugueses também não se vão querer comprometer?

De louvar a posição do BE e do PCP, que não tendo nada a perder, se afirmaram peremptoriamente pela positiva, encurralando o governo e a Assembleia. E a Assembleia da República aprovou, com os votos de todos os partidos, menos o PS, sobre a recuperação de todo o tempo de serviço dos professores e não só dos quase três anos que estavam já aprovados.

Perante tal situação, Costa resolveu lançar uma bomba atómica e, depois de reunir com Marcelo, veio dizer que se fosse definitivamente aprovado este processo, o governo se demitiria. Chantagem? Desistência? Só os cobardes é que desistem. Que palhaçada é esta?

Apesar de tudo, parece que não contava com a posição firme dos parceiros de coligação e ficou sozinho e pendurado com a bomba na mão. Mas atenção. O Rui Rio ainda não se pronunciou depois de lançada a bomba de Costa. Vai recuar novamente? Terá medo de se assumir uma vez mais? Outra palhaçada. Que tristeza! Como é possível assistirmos a toda esta encenação, repleta de falsidades, pensando que enganam o povo português? Agora jogam-se os votos das eleições legislativas. A campanha já começou e Rui Rio está a tentar contabilizar as perdas e os ganhos da sua posição face a este problema. É bom que tome uma posição séria sobre o assunto e não fuja com o rabo à seringa. Seja digno como os restantes partidos se quer que o levem em conta no futuro. E Costa também. É tempo de acabarem com as palhaçadas.

 

Vendavais - Sob um mesmo Deus

Nesta viagem interplanetária em que a Terra serve de base a todos quantos aqui habitam, todos ou quase todos, acreditam que um ser superior administra a relação do cosmos e dos homens e, de algum modo, criou tudo o que nos rodeia.

Desde as civilizações mais antigas que se tem isso como certo e por isso mesmo, foram todos levados a acreditar em vários deuses, porque um deveria ser pouco, ou num ser supremo que tivesse em si mesmo concentrados todos os poderes para governar todo o universo. Aos deuses deram nomes variados de acordo com os seus receios e os poderes que deles esperavam para governar as suas vidas. Desde o vento ao Sol e à Lua, passando pelo mar profundo, todos foram protagonistas de uma governação poderosa em que todos acreditavam. Séculos passados, os deuses foram ultrapassados por um só Deus, omnisciente e omnipresente, sem ter um nome específico ligado aos seus poderes. Simplesmente Deus. Muito embora acabe por ter um nome que identifica o povo que n’Ele acredita como Jeová, Alá ou até Buda, certo é que o Deus é o mesmo. Um ser superior que tudo e todos governa, não só na Terra como no Universo. E certamente haverá outros planetas e outros povos e raças que habitam neste imenso Universo. Não teremos certamente o privilégio de sermos únicos. Por que razão o seríamos?

Deste modo e pensando que este acreditar em algo pressupõe um modo de estar na vida, um modo de comportamento, um modo de interacção e um modo de convivência onde devem existir regras, é natural que essas mesmas regras sejam ensinadas aos mais novos para que, enquanto crescem as conheçam, as saibam aplicar e desenvolver corretamente. São normas de moral e ética, além de qualquer religiosidade a que se possam ligar, mas também. Afinal somos todos dirigidos por algo superior.

Deste modo, nas escolas há uma disciplina de Moral e Religião que é ministrada aos alunos para que eles tomem nota das regras de moral, de ética e também de uma certa religiosidade de que não se podem desprender. O que não se entende é a razão ou razões que levam os alunos a partir de uma idade mais madura, não quererem ter aulas de Moral e Religião. Antigamente havia esta disciplina até ao 12.º. Ano. Hoje muitos dos nossos alunos deixam de querer ter esta disciplina a partir do oitavo e nono ano e, as razões poderão ser várias. O furo das aulas que lhes dá a liberdade de privarem com outros colegas ou até saírem do espaço escolar, o desinteresse pela disciplina e pelos temas que se abordam, pela importância da Religião e o peso dela na disciplina ou até simplesmente por não quererem aulas, sejam elas quais forem. Caberá aqui à Escola e até ao Ministério, decidirem o que querem fazer para interessar os alunos por estas matérias. E quando resolvem incluir a disciplina de Cidadania para supostamente, formar alunos incutindo-lhes regras de moral e ética comportamental, ficamos sem saber realmente o que representa a disciplina de Moral e Religião! Porquê? Afinal o que se pretende não é a mesma coisa? Religiões à parte, o modo como todos se devem comportar pode e deve ser administrado por quem ensina a Moral e as suas regras. Isto é cidadania. Ser cidadão é ter moral comportamental e ética para poder desempenhar os papéis sociais a que tem direito e ocupar com dignidade os lugares que a sociedade dispõe. Ser cidadão é ser correto, honesto, é ser digno e fiel a um compromisso. Na antiga Grécia, os que eram considerados persona non grata, eram votados ao ostracismo por dez anos. Expulsos da cidade onde moravam. Fazia parte da moral e ética democrática, muito embora esta não fosse perfeita. Mas isto também se ensina hoje. Isto é Moral. São regras que a todos obrigam.

Se a disciplina de Moral e Religião Católica foi durante anos e anos a disciplina da Igreja Católica com o fundamento de que a sociedade portuguesa era essencialmente católica e esta a religião oficial do Estado Novo e assim permaneceu, não significa que deixou de ter importância a religião, porque é uma forma de crer, mas a moral, que é cada vez menos na nossa sociedade, deverá ser ministrada cada vez com maior rigor e obrigatoriedade. Não será esta Cidadania que o Ministério vem agora apregoar, que resolverá a questão dos desmandos sociais e humanos que estamos a viver presentemente. Que moralidade tem o filho que mata o pai? Que moralidade tem o marido que castiga e maltrata a esposa? Que moralidade tem o namorado que assassina a namorada por despeito ou ciúme? Que moralidade terá o governante que rouba o erário público ou que usa a corrupção para servir os seus interesses? São estes os cidadãos que queremos para o nosso país? Não. Decididamente, não.

Vivemos todos sob o mesmo céu, mas nem todos temos os mesmos horizontes. É verdade. Mas vivemos todos sob um mesmo Deus, tenha Ele o nome que tiver. E a isso obriga termos todos uma elevada Moral e uma Ética irrepreensível se queremos ser verdadeiros cidadãos. E isto, meus amigos, aprende-se desde pequenos. Até a celebração da Páscoa.