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Região Norte – Assimetrias Regionais e Política de Coesão (2)

Podemos tentar compreender a fragilidade do Interior Norte e de forma mais alargada a dos designados territórios de baixa densidade, a partir da análise da forma como a região reage na captação de ajudas da União Europeia, nomeadamente no sistema de incentivos às empresas.

A Região Norte, a 30 de setembro de 2019, absorve 33% dos fundos já aprovados no Portugal 2020 (17 192 575 milhões de euros), percentagem inferior ao peso da dotação do Programa no contexto dos sete programas regionais (36,4%). No Sistema de Incentivos às empresas, no âmbito do PO Norte 2020 e do Programa da Competitividade e Internacionalização, capta cerca de 42% do total, um bom desempenho que se explica pela sua base industrial exportadora.

O mesmo não pode ser dito relativamente a outros fundos de Coesão em que a região é penalizada no investimento público gerido centralmente (ex. dos grandes projetos de infraestruturas) e no FEADER/PDR, com mais investimento no Centro e Alentejo. No território de minifúndio que caracteriza o Norte, as pequenas explorações familiares estão esquecidas, apoiadas com pequenos subsídios que não visam prioritariamente assegurar a viabilidade económica das explorações agrícolas.

O quadro que se segue (PO Norte 2020 e CCDRN), identifica à data de 30 de junho de 2019, o fundo aprovado no âmbito dos programas da Política de Coesão, na Região Norte, por NUT III.

A questão está na compreensão da forma como reagem as NUT III no acesso ao sistema de incentivos às empresas e na relação entre o investimento da esfera municipal (16,1%) e outras entidades incluindo empresas (83,9%) e assim melhor compreender mudanças que é necessário empreender. A região do Ave, da totalidade das aprovações de fundos no âmbito da NUT III AVE, destina 15,6% ao investimento municipal e 84,4% a outras entidades e empresas, captando as empresas 50% desse valor. No extremo oposto temos o Alto Tâmega em que os fundos investidos na esfera municipal representam 38,7%, enquanto outras entidades e empresas representam 61,3%, captando as empresas 18,2%. Analisados os fundos captados (677,7 milhões de euros) pelo conjunto das 3 NUT III do Interior Norte, temos que os fundos aplicados na esfera municipal representam 50,6%, as empresas captam 18,9% e outras entidades 30,5%, o que nos dá uma ideia da fragilidade da dinâmica económica face a sub-regiões como a AMP, o AVE e o Cávado.

A análise pode ser alargada ao todo nacional e o resultado não é muito distinto. A nível nacional os fundos do sistema de incentivo às empresas são captados em 80% por PME e em 20% pelas não PME. Destes apoios a baixa densidade capta 20,6% do incentivo, outros territórios fora da baixa densidade captam 61,6%, sendo 17,8% não identificáveis pelo tipo de território, percebendo-se que incidirão quase na totalidade fora da baixa densidade. Ou seja quase 80% dos apoios ao investimento e modernização da atividade produtiva são concentrados numa estreita faixa do litoral, não se perspetivando assim um contributo para reduzir as assimetrias, antes pelo contrário.

Os fundos já aprovados no Portugal 2020, distribuem-se na Região norte em 13,8% para a esfera municipal e 86,2% para entidades privadas do sistema de incentivos e outras entidades. Importa analisar a distribuição do incentivo às empresas na perspetiva da Baixa Densidade (BD), que representa 79% da Região (16 833 Km2), integra 53 concelhos e algumas freguesias de outros concelhos, representa 21,6% da população (794 797 habitantes), e dos territórios Fora da Baixa Densidade (FBD), o litoral, que representa 21% da área e 78,4% da população, verifica-se que a BD capta 13,6% dos apoios, enquanto o litoral capta 77,8%, sendo 8,6% não distribuído, sendo que recairão sobre financiamento de projetos no litoral.

No quadro que se segue, temos o Fundo aprovado no âmbito dos programas da Política de Coesão, na Região do Norte, por tipo de entidade e por NUTS III, à data de 30 de junho de 2019.

A intensidade do apoio per capita para investimento na esfera municipal é na NUT III Terras de Trás-os-Montes o mais elevado, 2,6 vezes superior à média regional, quando a prioridade seria a de fazer aumentar o apoio ao investimento privado, situação que voltará a ser abordada na presente reflexão.

Analisados os dados relativos aos fundos aprovados no Programa Operacional do Norte 2020, por NUT III, a distribuição é de 32,4% para a esfera municipal e de 67,6% para entidades privadas do sistema de incentivos e outras entidades, o que evidenciam que com os apoios do Programa Regional se procura através do investimento público assegurar alguma equidade no território. Evoluindo um pouco mais, constata-se que os fundos aprovados para a Região Norte, são dirigidos 44% ao setor público e outro tipo de entidades e 56% para entidades privadas.

Constata-se que três NUT III que formam o bloco da Área Metropolitana do Porto, do Ave e do Cávado, que no conjunto representam 71% da população e 77% da economia, absorvem 73,9% da totalidade dos fundos. Se a análise for feita só para o investimento público, as referidas NUT III captam 54% dos fundos, o que volta a colocar em evidência o peso das decisões onde também pesa a equidade.

Focando-nos um pouco mais sobre Trás-os-Montes, o conjunto das três NUT III do Interior, que representam 58,71% do território da região norte, 10% da população e 8% das empresas, constatamos estar em rota de divergência em termos de coesão regional, avaliada pelo PIB per capita e pela produtividade. Em ambos os indicadores, Terras de Trás-os-Montes, Douro e Alto Tâmega, ocupam três dos últimos cinco lugares no conjunto das 25 regiões NUT III. O Interior Norte está com uma grave debilidade do lado do crescimento da economia comparando com o potencial de recursos e dimensão territorial.

Situação que é preocupante, tem na sua origem o isolamento e abandono de décadas, a emigração intensa ao longo de décadas, hoje traduzida pelo dramático despovoamento que atinge todos os concelhos, com elevados índices de envelhecimento e baixa natalidade, com consequências negativas nos serviços, na presença do estado no território, na fragilização social, na debilidade económica, no emprego, na produtividade e consequentemente no rendimento das famílias. No ano de 2018, o rendimento médio mensal no distrito de Bragança (910,81 euros), é o mais baixo do país, 45% inferior ao do distrito de Lisboa (1447,81 euros).

Alguns investimentos públicos essenciais chegaram tarde à Região, outros ainda necessários à coesão e competitividade estão por concretizar, não se compreendendo que o discurso político não esteja alinhado com as necessidades deste território, continuando o Plano Nacional de Investimentos a esquecê-lo. Refere-se a título de exemplo, investimentos no setor dos transportes e mobilidade como, a finalização de ligações fronteiriças como o IP2 e o IC5 para desencravar o Nordeste Transmontano; vias estruturantes como o IC 26, para desencravar concelhos no Douro; a expansão da rede ferroviária para o Interior Norte e ligação à rede espanhola; investimentos na rede secundária aeroportuária regional, em Bragança e Vila Real, abrindo novas portas à economia; investimento no ordenamento florestal e agrícola, mobilizando terrenos incultos com aptidão agrícola e florestal, acompanhado de um plano de investimentos, nomeadamente de pequenas barragens e de regadios eficazmente estruturados apoiando a viabilidade e sustentabilidade das pequenas explorações familiares.

Há falta de apoio direto ao investimento privado, essencial para reverter o declínio económico e populacional. Há falta de medidas específicas de apoio à atividade económica e ao emprego, envolvendo as empresas existentes, a criação de novas empresas e a captação investimentos de fora da Região.

Algumas medidas tem vindo a ser tomadas, como a redução do IRC, numa percentagem baixa e mesmo assim, logo abandonada, também no âmbito da discriminação positiva dos territórios de baixa densidade nas ajudas da União Europeia, no sistema de incentivos e noutras tipologias, com avisos e dotações específicas dirigidas a estes territórios, mas não chega. Podendo parecer significativas elas não se traduzem numa efetiva mudança. A dimensão do problema exige outra abordagem com medidas de maior robustez política e económica.

As medidas de discriminação positiva para a resolução dos problemas da interioridade deveriam ocorrer de forma articulada em dois âmbitos de ação, o das ajudas da política regional da União Europeia para a coesão e a competitividade e o das decisões de política nacional incidentes nas regiões deprimidas do Interior.

No que respeita às ajudas comunitárias, é necessária uma maior proximidade aos cidadãos e aos territórios, apostando na territorialização e na contratualização, assegurando maior dotação financeira para o investimento público e privado, tendo em conta a realidade e especificidade regional e as distintas realidades e especificidades sub-regionais, assegurando o contributo de todos para aumentar a coesão, a competitividade e a convergência económica.

Cada Sub-Região NUT III deveria à partida poder contratualizar um envelope financeiro indicativo, negociado ao nível da Região (incluído verbas do PO Regional e dos Programas Temáticos e do PDR), para execução de projetos correspondentes às prioridades de desenvolvimento de cada uma das sub-regiões, dos seus projetos estruturantes, capazes de fazer a mudança, apoiando a economia, o conhecimento, a qualificação dos recursos humanos, os serviços de proximidade, com metas bem definidas, específicas e alinhadas pelas prioridades regionais e sub-regionais. 

No âmbito do sistema de incentivos às empresas do Interior, deveria a título indicativo ser atribuído pelo menos um terço da totalidade dos apoios previstos. O apoio não reembolsável deveria ser aumentado em pelo menos 20%, face ao regime geral, para as empresas com atividade no Interior, existentes, a criar ou a captar, estruturado em dois patamares, um 1.º dirigido à inovação e à competitividade, em regime aberto e mais competitivo e um 2.º nível de acesso mais simplificado, de apoio ao micro empreendedorismo e às pequenas empresas em concursos dirigidos às empresas de territórios específicos, abrangendo todos os projetos alinhados com a estratégia de cada uma das NUT III, puxando pelo potencial de recursos de cada um dos territórios, tão vastos, ricos e diversos.

No âmbito de políticas nacionais visando o combate ao despovoamento do Interior e ao seu desenvolvimento, importava apostar em três a quatro medidas estruturais capazes de assegurar uma mudança de ciclo. Refiro quatro, que se adotadas poderiam fazer a diferença e mudar o futuro do Interior e do país para melhor:

i) - Decidir a Interioridade como estatuto jurídico, obrigando a que cada decisão relevante com impacto político e administrativo no território, nomeadamente normas legais, garantisse impacto positivo para a coesão territorial, pelo menos a sua neutralidade, e impedir que decisões setoriais pudessem contrariar orientações favoráveis à resolução dos problemas do Interior;

ii) - Política de incentivos fiscais à interioridade,  visando a captação de investimento externo para o Interior, o apoio ao investimento interno, ambas as medidas apoiadas num pacote de incentivos fiscais à Interioridade, envolvendo impostos nacionais e locais, suficientemente diferenciador que permitam às empresas e quadros jovens qualificados fazer uma opção de fixação no Interior, com redução na ordem dos 50% no IRC para as empresas com sede e atividade principal no Interior, podendo a redução ser majorada para atividades associados à economia verde e do conhecimento e à criação de postos de trabalho altamente qualificado; não aplicação de derrama às empresas; redução de 50% no IRS dos trabalhadores residentes, medidas a manter por NUT III, até que o rendimento médio nessa NUT atingisse um determinado valor do PIB per capita da média nacional;

iii) – Ensino Superior, Sistema de Inovação e de Interface devem ter um papel central no combate às assimetrias e ao despovoamento, apostando na qualidade e no crescimento das instituições de ensino superior do Interior, no crescimento do número de alunos, na qualidade da formação e no desenvolvimento de competências, da empregabilidade e da ligação às empresas. Apoiando o desenvolvimento de centros de investigação, de inovação e de interface tecnológico. O Estado não pode deixar o sistema funcionar por si próprio, sob pena de os desequilíbrios se agravarem;

iv) – Desconcentrar Serviços da Administração Central para o Interior, com instalação nas cidades capitais de distrito de serviços públicos de âmbito nacional, desconcentrando o excesso de emprego público existente na capital.

Concluo com uma apontamento adicional de esperança, mesmo sabendo que, parte importante dos compromissos políticos, assumidos de boa-fé pelas lideranças partidárias, acabam em nada, seja porque o Interior tem cada dia menor peso eleitoral e por isso menos voz política, seja porque o sistema partidário e eleitoral não aproximam os eleitos dos eleitores, o melhor é os cidadãos residentes no Interior fazerem pelo menos o que está ao seu alcance, agarrando o futuro com as suas próprias mãos, assegurando pelo menos três princípios orientadores:

i) – Partilhar a visão de futuro para o território, decidir onde se pretende chegar e como fazê-lo e que caminho percorrer. Cidadãos, instituições e empresas devem partilhar esse desafio, com equidade e justiça na repartição dos benefícios e dos resultados alcançados. O que é essencial, o que diz respeito ao bem comum, deve ser partilhado e assumido por todos.

ii) – Garantir elevada qualidade no sistema de ensino e formação, do básico ao superior, melhorando a qualificação dos cidadãos. O mercado laboral está em forte mudança, é mais inovador, competitivo, tecnológico e de maior mobilidade global. Na resposta à economia do futuro, verde e do conhecimento são necessárias mais competências e melhor formação, maior produtividade, que por sua vez são a garantia de melhores remunerações, melhores condições sociais, de maior equidade e justiça social. A economia tem que segurar os jovens, os de mais elevadas qualificações e também os de qualificações mais baixas, ser capaz de competir com mercados externos mais atrativos.

iii) – Assegurar o Bom Governo das Instituições públicas e privadas, compromisso essencial ao desenvolvimento da Sociedade. Instituições bem geridas servem o bem comum, otimizam recursos de forma inteligente, sustentável e inclusiva. Instituições menos bem geridas hipotecam o futuro, quebram o esforço e o entusiasmo da comunidade.

A Região tem que se erguer, afirmar as fortes capacidade que a sabedoria e inteligência de gerações passadas nos legaram, bem vincadas nos valores, na história e identidade deste território. Em termos de futuro são cada dia mais valiosos os ativos muito relevantes de que dispõe, por isso temos convictamente que afirmar o nosso desígnio de construção de um futuro melhor, afirmando a esperança como sonho do Homem acordado, convictos de que o futuro o futuro de Trás-os-Montes será positivo e de oportunidade para as gerações vindouras. 

 

Dezembro de 2019

Alguns modismos

Alguém disse uma vez que a palavra cão não morde. Podíamos acrescentar que a palavra ébola não é contagiosa, bosta não cheira mal nem suja as solas dos sapatos, pobreza não faz um rico descer de classe, e assim por diante. As palavras referem-se àquilo a que chamamos a realidade. Como alguns aspetos dela evocam sentimentos desagradáveis, ou até penosos, transferimos esses sentimentos para as palavras que os designam, que ganham assim um valor emotivo para além do significado que têm no dicionário. Quando tal acontece podemos evitar pronunciá-las e ouvi-las, mas se isso não for possível reagimos a elas com as mesmas sensações de medo, desprezo, raiva, nojo, que teríamos na presença das próprias coisas.

O contrário também é verdadeiro. Há palavras que nos caem no goto porque de alguma forma se ligam a algo que desejamos ter ou ser. Usá-las pode ainda dar-nos a ilusão de participar ativamente no que está a acontecer à nossa volta, de não perder pitada. Há tempos uma adolescente dizia-me com o ar mais ressentido do mundo que tinha mudado de escola porque sofria “bullying” por parte dos colegas e da diretora de turma. Tadita, mas como poderia ela resistir a um estrangeirismo que não podia estar mais na berra? Por outro lado, sendo a linguagem socialização, usar certas palavras num grupo significa que queremos pertencer-lhe. Lembro-me bem do prazer que os jovens esquerdistas da minha geração experimentávamos entremeando as conversas políticas com “contexto” para aqui, “infraestrutura” para ali, entre milhentas novidades verbais que a revolução tinha trazido. Por essa altura tive um amigo que não conseguia dizer nada sem enfiar “pcebes, ptanto, pá?” na parte final das frases. De uma assentada juntava três bordões que, isolados, todos usávamos à farta por achar que davam um ar prá frentex, aquilo que na altura fazíamos questão de ser.

Os tempos mudaram. Mas continua a ser como forma de afirmar o desejo de ser reconhecida entre os pares e mostrar-se atual que a ganapada de hoje tem necessidade de saltear os discursos com aquele irritante “tipo” (irritante para quem, como eu, já se esqueceu do que dizia). É pela mesma razão que há quem ache proveitos e vantagens coisa ultrapassada, preferindo “mais-valias”, “valor acrescentado”, e se por acaso estes forem o produto de “um novo conceito”, então nem se fala. A propósito de novos conceitos, note-se que agora as notícias se tornam “virais” num piscar de olhos, a mesma rapidez com que “chocam” as pessoas, razão pela qual redes sociais e títulos noticiosos fervilham de gente “revoltada”, para quem “indignação” e “exigência” são sentimentos dominantes. E como nesses suportes informativos também todos “acusam” todos do que calha, pouco se faz também que não seja para “arrasar”.

É nessa mesma linha que quase já não se atribui a um evento, por mais insignificante, classificação inferior a “um espetáculo” e que perceções corriqueiras se obrigam a ser “espetaculares”. Há dias, nos dois segundos que passei num canal de tv falava-se de umas férias “brutais”. Fugi tão depressa quanto o polegar mo permitiu, mas fui-me esbarrar noutro, este de culinária, onde alguém referia o sabor “épico” de um bolo. Nada de estranhar, afinal, se tivermos em conta que o pessoal delira por se entregar a coisas “radicais”. E por falar nisso, haverá coisa mais radical do que uma maria qualquer ter milhares de “seguidores” que tanto lhe podem idolatrar o traseiro a poder de “likes” como atormentá-la porque numa das fotos “postadas” exibiu uma pontinha de celulite?

O que ressalta de muitas destas e outras modernas palermices é a vontade de exagerar sensações e emoções, dar a ideia de que se está em todas e se vive intensamente. O tempo atual já é frenético, assoberbados que estamos por essa fonte de inquietação – os media – que nos induz a ter e a parecer, mais do que a ser. Mas como inda há por aí calma, serenidade e reflexão quanto baste, estados de espírito que desencorajam grandes despesas, para incrementar os negócios torna-se necessário hollyhoodizar a realidade: criar ação e drama, suscitar empolgamento, excitação, ansieda­de, carência. No fundo, sentimentos que levam as pessoas a buscar algo que as preencha e acalme, quer dizer, a consumir mais. Não há crise, o mercado tem sempre um produto à medida de cada necessidade.

O exímio farejador

O notável coleccionador de êxitos literários, numa época de enormes taxas de analfabetismo, que foi o escritor Alexandre Dumas (e de outras asseguravam as boas línguas) autor de os Três Mosqueteiro entre muitos mais geradores de grandes vendas sem recorrer a encómios, muito menos a acepipes laudatórios da Confraria do umbigo, teve arte e engenho para parir um bem fundamentado Dicionário dedicado às artes culinárias e gastronomia recheado de gravuras explicativas e de caricaturas de bom gosto. O romancista se voltasse até nós e visse o modo como aprendizes de feiticeiros concebem dicionários nesta área seria acometido por uma apoplexia fulminante, fulminando-se de imediato.

O autor de Vinte Anos Depois dedicou palavras de enorme apreço, elogiando-lhe uma faceta pouco desenvolvida entre nós, porque o odoroso e custoso produto farejado dado o superior olfacto do reco é pouco conhecido entre nós seja a nível da venda, seja na sua apreciação em volta da mesa, ou no decurso de delicada merenda campestre, certamente, o leitor já entendeu estar a referir-me às cobiçadas trufas, às vezes menorizadas pelos chefes distraídos de restaurantes da moda elogiados a tuba e caixa por críticos especialistas no jargão, falhos no conteúdo do analisado, provado e degustado. O tó (diminutivo de larego adulto) tem a ingrata tarefa de farejar as preciosas trufas e não as chega a apreciar, os caçadores afastam-no até de forma violenta pois a pérola negra é vendida a preços astronómicos aos nababos degustadores.

Os egípcios consideravam o porco animal nojento, se por acaso fossem tocados, mesmo de raspão, corriam a purificar-se, este preceito séculos mais tarde influenciou o famoso médico judeu Moisés Maimónides no sentido de acusar os suínos de hábitos nefandos quando esfaimados, esquecendo outras espécies do mesmo sentido de sobrevivência, se a falta de alimento os atenazar da mesma maneira, caso dos cães.

Os romanos elevaram o benfazejo animal à condição de iguaria das iguarias, preparavam-no de múltiplas formas, uma consistia em assá-los de um lado e cozinhá-los de outro, o grande historiador de «cousas» e modos de comer na Antiguidade, Ateneu, refere um cozinheiro especialista em preparar leitões sem os estripar fazendo-lhe um furo nos pernis, lavando-os cuidadosamente, recheando-os pela boca induzindo-lhe vinhos de alta qualidade, cozinheiros elaboravam recheios à base de figos, papa-figos, ostras e tordos, aspergidos com os melhores vinhos. A profusão de recheios de enorme espavento e custo levou o Senado a aprovar uma lei a proibir o excesso de gastos.

O grande aliado das Mestras cozinheiras de antanho povoa a história da alimentação da Europa, do Oriente Antigo, de África, Ásia e Oceânia, da América a partir das viagens iniciadas pelos portugueses e espanhóis, por isso mesmo os receituários lhe dedicam tantas receitas, no entanto, por cá, sim, em Portugal o afunilamento é quase totalitário, o leitão assado o modo da Bairrada triunfou em toda a linha, mercê de factores que já expliquei minuciosamente em artigos e trabalhos científicos. A Bairrada é a região do País que mais depende economicamente do leitoninho. Porque estamos em vésperas de Feira do Fumeiro mais antiga pós 25 de Abril, a de Vinhais, permito-me trazer à liça a receita de leitão ao modo de Vinhais. Atrevo-me a sugerir o registo da mesma a fim de ser certificada, preservada e promovida na categoria de receita emblemática da Terra Fria com explanação das suas singularidades, antes que um qualquer Lelo licenciado ou não faça o registo na esteira do sucedido há poucos anos com doces flavienses, isto só para citar um roubo de paternidade semelhante.

À Engenheira Carla Alves e à Dra. Alexandrina Fernandes também amigas do sápido Farrôpo peço o favor de apreciarem a sugestão. No próximo dia 8 de Fevereiro espero em Vinhais espero apreciar as representações culturais da entranhas porcinas.

 

PS. Nesta crónica deixei no gavetão da memória os pontos culturais centrados no generoso abastecedor das despensas.

 

São Julião de Palácios recebe prova de abertura Taça de XCM da Associação de Ciclismo de Bragança

Qui, 23/01/2020 - 08:55


Este ano, o calendário de XCM contempla dez provas e tem novidades com destaque para a 1ª edição da Maratona do Butelo e das Casulas, em Bragança, no dia 23 Fevereiro, a Maratona de Sendim (21 de Junho) e o regresso do Open da Vimont a 4 de Outubro na localidade de Vila do Monte, em Macedo de Cav