PUB.

“Seremos sempre uma equipa com enorme sentido de compromisso com a vitória”

ESTA NOTÍCIA É EXCLUSIVA PARA ASSINANTES

 

Se já é Assinante, faça o seu Login

INFORMAÇÃO EXCLUSIVA, SEMPRE ACESSÍVEL

Qua, 21/09/2016 - 14:31


O Rebordelo prepara-se para a nova temporada na Divisão de Honra da A.F.Bragança. Nuno Loureiro mantém-se no comando técnico pela quarta temporada consecutiva e conseguiu segurar o núcleo dura da equipa.

Depois da tempestade a bonança

ESTA NOTÍCIA É EXCLUSIVA PARA ASSINANTES

 

Se já é Assinante, faça o seu Login

INFORMAÇÃO EXCLUSIVA, SEMPRE ACESSÍVEL

Qua, 21/09/2016 - 14:24


Jordão foi decisivo na vitória do S.C.Mirandela, a primeira da temporada e em casa. O extremo marcou ao minuto 53’ e sossegou os adeptos, que ansiavam por um triunfo.
A turma da casa entrou bem e tomou conta do encontro, mas golos nem vê-los.

GDB invicto no topo da tabela

ESTA NOTÍCIA É EXCLUSIVA PARA ASSINANTES

 

Se já é Assinante, faça o seu Login

INFORMAÇÃO EXCLUSIVA, SEMPRE ACESSÍVEL

Qua, 21/09/2016 - 14:22


Sem Jony no meio campo, que ficou de fora a cumprir o segundo e último jogo de castigo, Zé Gomes colou Lio, à semelhança do que já tinha acontecido frente ao Pedras Salgadas, como o homem com mais mobilidade no miolo do terreno.

Uma parra, muita uva

Ter, 20/09/2016 - 17:25


O Outono veio antecipado, a interromper o reinado do Verão nos dias 14 a 16 deste mês. Será que ele que entra já no dia 22, não vai ter mais verão também? Seja como for já caiu do céu mais vitamina para a terra. “Estes dias foram de licença sem vencimento para aqueles que trabalham na fábrica de empobrecer alegremente”, que é a agricultura na linguagem da família do tio João. A nossa gente disse que choveu ouro especialmente para as vinhas, castanheiros e oliveiras. Quero felicitar todos aqueles que fizemos mais uma caminhada até Terroso, à Santa Rita de Cássia. Fomos as centenas.

Testamento Vital expressa a vontade do utente

O Testamento Vital ou Diretiva Antecipada de Vontade existe legalmente há mais de um ano. Este documento permite aos utentes exercer um direito fundamental: decidir o que querem ou não em termos de tratamentos de saúde na fase final da sua vida.
A Unidade Local de Saúde (ULS) do Nordeste disponibiliza apoio ao nível do preenchimento do Testamento Vital e tem colaboradores com formação específica para esclarecer os utentes sobre este documento.

Falando de … Cartas reencontradas de Fernando Pessoa a Mário de Sá-Carneiro, de Pedro Eiras

Se é verdade que são muitos o estudioso de Pessoa que, desde há vários anos, produzem obra e a publicam, dando a conhecer a maior figura da poesia portuguesa contemporânea, não é difícil imaginar que tudo está dito e escrito.
É sempre com redobrado interesse que um texto versando Fernando Pessoa alimenta a nossa curiosidade
Para além da obra produzida por Teresa Rita Lopes, investigadora de referência e a de Cleonice Berardinelli, alma-mater de Pessoa em terras brasileiras, vão aparecendo a cada momento nas livrarias, trabalhos que não sendo de estudiosos considerados consagrados, acrescem sempre algo ao que já foi divulgado.
Fernando Pessoa, uma quase autobiografia, de José Paulo Cavalcanti Filho, obra que suscitou críticas severas dos chamados especialistas, chegou ao grande público, e foi ofertada às Escolas Secundárias de todo o país. Lá, a vida de Pessoa, nas suas mais variadas facetas, não esquecendo a relação pormenorizada com Ofélia Queirós, que o queria burguês, tributável, de companhia, e a quem ofereceu a sua fotografia em “flagrante delitro”, depois de um namoro interrompido. Coube a Carlos Queirós, sobrinho de Ofélia, a entrega de tão famoso retrato.
Recentemente, Sónia Louro, romanceou um Fernando Pessoa, onde a ficção se contamina com a realidade. Um prazer de texto a não perder.
Vivendo no recato da sua existência, dominado, quantas vezes, pela solidão e pelo álcool, sem que alguém o tenha visto bêbado, pouco se deu a conhecer.
       Refugiado na sua obra imensa, é Fernando Pessoa, conhecido por aquilo que se publicou e pelo que ficou por publicar numa arca que faz as delícias dos pessoanos.
Mas como conhecer e entrar nos bastidores da existência deste homem que é uma atracção para filólogos, poetas e amantes da língua portuguesa? A epistolografia que tem sido objecto de estudo em Portugal e que serviu a confidencialidade dos intervenientes, é um instrumento importante e essencial no estudo de Fernando Pessoa. Sabemo-lo interlocutor de escritores da época. Conhecemos os seus comentários acerca das cartas de amor, consideradas ridículas, é oportuno regressar às que não eram conhecidas e não foram publicadas aquando da edição das cartas de Mário de Sá-Carneiro a Fernando Pessoa.
Sabemos que Mário de Sá-Carneiro, amigo íntimo de Fernando Pessoa, viveu em Paris, em vários momentos da sua vida. De 1912 a 1913 cursou Direito na Sorbonne. De Junho a Setembro de 1914, viveu em Paris, voltando em 1915, aí permanecendo até 26 de Abril de 1916, dia em que se suicidou.
Aquando da sua permanência em Paris, Mário de Sá-Carneiro carteou-se com Fernando Pessoa. Muita da correspondência foi publicada, escasseando, contudo, as cartas de Fernando Pessoa.
Pedro Eiras, professor da Universidade do Porto, aproveitando a ida a Paris em Outubro de 2015, a fim de participar num Colóquio, deslocou-se ao Hôtel de Nice, hoje Hôtel des Artistes, onde Mário de Sá-Carneiro viveu os últimos meses e se suicidou, na zona do Pigalle.
Durante as últimas obras do hotel, encontraram nas águas furtadas, uns papéis, depois amarrados, por um cordel, que constituíam a correspondência que Fernando Pessoa dirigiu a Mário de Sá-Carneiro, entre Julho de 1915 e Abril de 1916. Eram 40 cartas, 30 postais e 1 telegrama.
Pedro Eiras perguntou se podia levar as cartas. Na ausência do gerente, que se encontrava de viagem, a autorização não lhe foi concedida, limitando-se a lê-las durante vários dias, além de as ter copiado, para o computador. Dada a impossibilidade de trazer as cartas, por empréstimo, fotografou uma, com o telemóvel, quando o empregado, Monsieur Lange, se ausentou. Talvez correspondendo ao seu estado de espírito, a fotografia ficou tremida e desfocada, o que só verificou mais tarde; não obstante este facto, é-nos apresentada de forma bastante imperceptível. Quanto ao conjunto, informa-nos Pedro Eiras, que algumas cartas se encontram bastante danificadas, apresentando rasgões ou manchas de humidade e bolor.
Escritas num período em que a 1ª Guerra Mundial é preocupação quotidiana de toda a população, as cartas passam ao lado dos acontecimentos, aludindo à guerra, unicamente, como justificação para o atraso na correspondência.
Terminando invariavelmente com um abraço, é uma constante na escrita de Fernando Pessoa o recurso a temas em torno da literatura e da produção literária. Para além do lançamento do Orpheu na Europa, para cuja tradução Fernando Pessoa se encontra disponível, é seu desejo a publicação urgente do Orpheu 3.
Mário de Sá-Carneiro, consagrado ao seu isolamento, não divulgando o seu endereço aos amigos, queixa-se, por vezes, de não receber mais correspondência de Lisboa. Fernando Pessoa tentando desanuviar alguma melancolia dominante no seu interlocutor, não deixa de acrescentar que “cartas são papéis escritos com tinta a não valem a sua presença nem a minha”.
Da leitura das cartas de Fernando Pessoa, verificamos que Mário de Sá-Carneiro é o receptor privilegiado da produção pessoana. É a ele que Pessoa dá conta que tem escrito muitos poemas em português e inglês, muitos em seu nome, e outros sob assinatura que Sá-Carneiro conhece bem: Campos, Caeiro e Reis, “figuras reais que o habitam para existir”. Com o Futurismo de Marinetti a inundar o Modernismo português, sabemos que Álvaro de Campos, sozinho, tem trabalhado um livro inteiro de Odes que envergonha toda a escola de Marinetti.
Em tom confessional, afirma que sente uma constelação de vozes que não convocou, que surgiram, não sentindo qualquer merecimento por isso.
A descrença de Mário de Sá-Carneiro na sua valia é do conhecimento geral. José Régio, que ao teatro dedicou muito do seu talento, escreveu a propósito, “Mário ou eu próprio”, Fernando Pessoa, utilizando o “você”, como forma de tratamento, incita o amigo a ser optimista, convidando-o a não se preocupar com comentários gerados à volta do entendimento da sua obra. Fernando Pessoa, por seu turno, receia que nem dez leitores percebam o que eles escrevem.
Problemas de dinheiro, gerados pela prodigalidade de Sá-Carneiro, buscam em Pessoa uma solução que pode passar pela penhora de objectos estimados. A falta de dinheiro, também, toma conta de Pessoa. A aquisição de um livro mau subtraiu-lhe o que tinha, ficando privado do jantar.
A aversão a Júlio Dantas não escapa aos interlocutores, que culminará com a publicação do Manifesto Anti-Dantas por Almada Negreiros, alvo dos elogios de Fernando Pessoa.
A vida de Lisboa e a sua intelectualidade espelham-se nestas cartas que dão a conhecer e a confirmar algo que era do conhecimento dos estudiosos. As traduções fazem parte da sua existência e subsistência, que vive apavorada com as trovoadas. A teosofia entusiasma-o e o Fausto começa a aparecer, dedicando-lhe muito do seu tempo.
Ponderando estabelecer-se em Lisboa como astrólogo, escrever é corrigir e esquecer. A poesia é o único farol em que ainda acredita por entre todas as coisas imaginárias, numa angústia intelectual que Sá-Carneiro não imagina.
A crise de Sá-Carneiro, que não compreende inteiramente, perturba-o. Lamentando-se da sua orfandade por não ter casa nem família, refugia-se no trabalho que exige quase todo o seu tempo.
A última correspondência, datada de 25, 26 e 27 de Abril de 1916, já não será lida por Mário de Sá-Carneiro. Como se fosse o último dia da sua existência escreve no postal de 27 de Abril de 1916 “E nem sei o que o amanhã me trará”, antecipando a frase escrita no Hospital de São Luís dos Franceses, em 30 de Novembro de 1935
“I know not what tomorrow will bring”.
Um livro a ler. Uma realidade descoberta por alguém que imaginou que ainda havia Pessoa para além dos circuitos tradicionais dos estudiosos pessoanos, a acrescentar saber aos que o procuram.
Pessoa, em pessoa, longe do fingimento, na confidencialidade do texto, em conversa com o amigo que os deuses levaram ainda tão jovem, num livro de 159 páginas editado pela Assírio & Alvim.

Por João Cabrita

Não foi adoptado o Novo Acordo Ortográfico

NÓS TRASMONTANOS, SEFARDITAS E MARRANOS - José (Abraham) Henriques Nunes Raba (1728 – c. 1808)

O filho primogénito de Francisco Raba e Luísa Maria nasceu em Bragança em 11 de Dezembro de 1728 e foi batizado na igreja de Santa Maria, com o nome de José Henriques Nunes. Com o falecimento do pai, em 1742, ficou investido nas funções de chefe da família. Foi apresentado  em  29 Julho de 1749  confessou e foi mandado para Bragança. Em 9 Agosto de 1751 foi notificado para se apresentar e faz denúncias. Uma delas consta do processo de sua prima Brites Pereira. Saiu penitenciado no auto de fé de 22.8.1751. (1) Com a mãe e os irmãos fugiu para França, chegando a Bordéus em Junho de 1763. Com eles viajou também a prima Catarina Ferreira,(2)  que iria já desposada com José Henriques. Catarina era filha de Gabriel Rodrigues Ferreira e sua mulher Branca Maria Bernarda, esta irmã de Luísa Maria, a matriarca da família Raba.
Chegados a Bordéus, todos os membros da família Raba aderiram abertamente ao judaísmo, fazendo-se circuncidar e tomando nomes hebreus. Assim, o José passou a chamar-se Abraham e Catarina, que era filha de Gabriel Rodrigues Ferreira e Branca Maria Bernarda, tomou o nome de Ester. O casamento de Abraham e Ester celebrou-se em 1768.
A essa altura já os Raba estavam completamente integrados na comunidade judaica de Bordéus. A ponto de, em 15 de Março do dito ano de 1768, Abraham Raba ser eleito “síndico da nação”- o principal dirigente da administração da comuna. (3)
A respeito do seu casamento começaram a circular uns boatos de que ele não pagou o imposto devido sobre o dote recebido da parte da noiva. Então ele requereu ao síndico que então era a convocação de uma reunião do conselho dos anciãos, a qual se realizou em 8 de Julho de 1772. Nela apresentou Abraham Raba uma defesa bem vigorosa. Vejam um extrato da ata da reunião, por nós traduzida da língua francesa:
- Ao fim de 4 anos, chegou a altura de pôr fim aos boatos e desmentidos inúteis, a respeito dos direitos do meu casamento. Cedendo às vossas pretensões, consenti mesmo que o Sr. Rodrigues, nosso síndico visse o meu contrato, julgando-o digno de tal confiança e com a promessa do natural segredo. Ele poderá certificar o que eu vos repeti vezes sem conta: que eu não tenho obrigação de pagar qualquer direito, não tendo recebido nada da minha mulher, nada a tributar, nada a esperar. E nada prometido na realidade. Eu pensava que acreditassem na minha palavra e vós fostes injustos para comigo (…) Hoje que me encontro justificado e satisfiz todas as vossas exigências, resta-me ainda uma justificação a mim mesmo e ao público que tem sido enganado; e não encontro melhor resposta do que entregar nas mãos do nosso síndico as 90 libras em questão, como uma oferta voluntária para ser aplicada conforme as vossas indicações aos nossos pobres. Provando o meu desinteresse, ficais obrigados a render-me estima e a melhor julgar os meus sentimentos. Quanto ao público, se ele for corretamente informado, ele me renderá justiça. (3)
A ata está assinada pelos 11 membros do Conselho de Anciãos, que aceitaram a oferta, certamente com as orelhas bem quentes, depois desta magistral lição de honradez, consciência cívica e respeito pelas instituições. Sobre a maneira de estar em sociedade, cumprirá referir que foi o síndico Abraham Raba que, em 21 de Maio de 1776, apresentou no conselho dos anciãos o primeiro plano concreto para a construção de um complexo que incluiria “une boucherie, une fabrique pour le pain d´assime et une chambre d´assemblées”. (4)
Em Junho de 1782 a nação judaica portuguesa e espanhola de Bordéus resolveu oferecer um barco ao Rei de França para a sua marinha mercante e para isso abriu uma subscrição no valor de 60 140 libras. Acima de 3000 libras houve apenas 3 contribuintes: David Gradis e filho – 12 000; Irmãos Raba – 7 000 e António da Costa e filho – 6 000. Esta será a prova do sucesso empresarial desta família trasmontana que, 19 anos antes, chegara pobre a Bordéus. (5)
Os Raba são geralmente apresentados como exemplo das enormes fortunas que os judeus de Bordéus acumularam nas colónias francesas, dividindo a sua vida entre Bordéus e as Caraíbas. Abraham, contudo, nunca sairia de França e gastou a sua vida em Bordéus, na gestão da empresa constituída em rede familiar de negócios. Sem filhos e viúvo, fez o seu testamento em 30 de Março de 1808, quando as tropas napoleónicas ocupavam Portugal e a autoridade estabelecida em Lisboa era a de “El-Rei Junot”.
O testamento de Abraham é de muito interesse, a vários níveis. Desde logo por nos falar das grandezas e misérias da família, com empréstimos de recuperação duvidosa e bancarrotas do marido de uma sobrinha. E se deixa em herança ao irmão mais novo, o Raba Junior, “o usufruto das rendas vitalícias e rendas perpétuas sobre o Estado”, as propriedades todas, “qualquer que seja a sua natureza” aos três irmãos, Jacob, Aaron e Gabriel, em partes iguais.
E agora vejam as cláusulas seguintes que nos mostram como ele se ligava à terra que lhe foi tão madrasta e de onde teve de fugir:
16 000 francos para os primos pobres de Portugal, descendentes do primo em primeiro grau, para ser dividido entre eles, de acordo com o estado de indigência em que se encontram.
16 500 francos para as 50 famílias dos primos ou sobrinhos em linha direta da descendência de primos-coirmãos do meu pai ou da minha mãe, o que perfaz 50 mil réis a cada.
Seguem-se doações para os criados e pessoas amigas e a terminar:
2 400 francos para as 100 famílias israelitas mais pobres.
1 200 francos para 24 famílias dos mesmos pobres, conhecidos como pobres virtuosos, o que significa um Luís de ouro para cada um e dois para os outros.
O restante dos 60 900 francos testados para os pobres deve ser distribuído entre os pobres da cidade, sem distinção da religião, fazendo a distribuição pela paróquia ou nos seus arredores, de acordo com a população.(6)
A preocupação com os parentes de Bragança é comum a todos os irmãos. Veja-se, por exemplo, o testamento de Aron João) Henriques Raba:
-Deixo como herança a soma de 3000 francos para ser distribuída pelos meus parentes pobres de Portugal, quantia que deve ser remetida no prazo de 3 anos.
- Também deixo 4000 francos às famílias de judeus que não sejam da nossa família.
Idênticos legados se encontram no testamento de Jacob (André) Henriques Raba:
- Deixo de herança a soma de 3 000 francos para serem distribuídos entre os meus parentes pobres que vivem em Portugal…
- Deixo mais a soma de 4 000 francos às famílias judias de Bragança que não sejam nossos parentes.
Fantástico: em Bordéus, os irmãos Raba (e certamente a comunidade trasmontana ali refugiada) sabiam que em Bragança continuava a haver judeus clandestinos!...

 

NOTAS E BIBLIOGRAFIA:

1-ANTT, inq. Lisboa, pº 2450, de Beatriz Pereira. ALVES, Francisco Manuel - Memórias Arqueológico-Históricas  do Distrito de Bragança, Tomo V , p. 50
2. ANTT, inq. Coimbra, pº 5873, de  Catarina Ferreira ou Catarina Perpétua Ferreira. 
3-SCHWARZFUCHS, Simon – Le Registre des Deliberations de la Nation Juive Portugaise de Bordeaux (1711-1787), pp. 420-421, ed. Fundação Calouste Gulbenkian, Paris, 1881.
4-IDEM. p. 380.
5-IDEM, pp. 532-534.
(6)- The National Archives – Record Offi Will of Abraham Henriques Raba  dated 30th March  1808 .

Por António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães

O REGRESSO

Regressaram, estão todos aí. Nas grandes cidades os autocarros a rebentar, as estradas e ruas impossíveis, os corredores dos hospitais. As salas de espera sofrem o assalto geral, a Segurança Social, as Finanças. Nos Correios e no Centro de Emprego, as filas de espera alongam-se inexoravelmente. Para onde tinham ido todos? Durante os grandes dias de calor do verão, tinham-se espalhado pelas praias dos nossos mares, pelos campos do nosso país, pelos caminhos e montes das nossas terras ou, simplesmente, algures, nos longínquos do exotismo, onde ainda se pensa ir sem receio de encontrar algum terrorista cheio de bombas.   
É como se tivessem nascido durante as férias, esperando o nosso regresso para se instalar nas nossas paragens, para nos sugar o ar. Quando se reencontra a casa ou o apartamento, depois das férias, depois duma longa ausência, somos agarrados pelas coisas que havíamos deixado, à espera de serem resolvidas. Papéis diversos em micas, desafiam-nos desde o primeiro olhar. Alguns livros que tínhamos deixado adormecer tranquilamente, tendo negligenciado extrair as “leituras de férias” estão exatamente no mesmo lugar. E os manuais das editoras dos professores, ainda embalados, o que fazer?  Todas estas obras perderam uma estação na ordem das nossas prioridades. Lê-las-emos um dia? Talvez nunca mais, mas como separar-se delas ? Um livro guarda-se sempre. 
A atualidade, pelo menos, deveria reservar-nos algumas novidades, algumas « notícias ». No entanto, patavina! Sopram-nos aos ouvidos os mesmos nomes, os mesmos dossiês insolúveis, as mesmas e vãs polémicas sobre tudo e nada. Tínhamos sonhado, ao partir, nunca mais ouvir falar dum tal fulano, desembaraçarmo-nos definitivamente das coisas dum tal sicrano, das mentiras da Coisa.
Mas é mais forte do que nós, este regresso de férias, como das anteriores, torna-se no momento de encontro com o que não desejávamos. Não temos nada, por exemplo, contra Durão Barroso, e pronto, acabadinhos de chegar das alegrias do silêncio da aldeia, aí está o ator novamente instalado à nossa frente. Estes especialistas da ambiguidade do mundo da finança, servem-nos novas explicações acerca das mentiras e das dissimulações que nós ignoramos completamente.
A mesma coisa, francamente, em relação aos gritos de outros políticos como a águia marinha, Assunção Cristas, que vê incompetências, dificuldades e becos sem saída por todo o lado. Ou o seu chefe, na sua forma de se enlear incessantemente numa dignidade forçada, como um imperador romano das feiras medievais, suscita uma forma de cómico e de repetição. Acusar incessantemente para destabilizar o governo é exasperante de denegação o que cansa os cidadãos descansados que pensamos estar. Tudo isso é de nível inferior aquele em que se deve situar um desesperado candidato a primeiro-ministro. Algures, a atitude como sentimento não é mais brilhante, o dejá vu, e ouvido. Catarina Martins continua firme nas suas posturas: “ Não deixarei dizer que” isto ou aquilo, “ o BE não tolerará que se faça …” isto ou aquilo. O chefe do governo, com a sua atitude imperturbável, habitado por uma convicção exagerada, é como uma planta lisa e tenaz que se encontra no vaso, algumas semanas de abstinência depois, sem se ter pensado nela em todo o verão. Está sempre presente, quase tanto como o Presidente da República que parece sofrer de claustrofobia.  
O (re)moinho dos atores da atualidade não aproveitou o verão para renovar o seu stock de bobines. Reencontramos as mesmas figuras, os mesmos papéis, em cena como na sala, com jornalistas que, por falta de renovar o interesse dos debates que nos narram, simulam a novidade mudando de tribuna, de estúdio ou horário. O dueto cantante do jornalismo e do político tenta encontrar o caminho das nossas paixões mas verdadeiramente já não consegue. 
Por enquanto, temos ainda a cabecinha atrás, os olhos na retaguarda, à beira dos riachos e dos campos onde estivemos tranquilos, na verdura fresca onde o silêncio nos protegia, nas casas onde dormem as recordações e os rostos daqueles que amávamos. Podem agitar-se como quiserem como se nada tivesse acontecido nas nossas vidas complicadas. Nada poderão fazer que possa captar a nossa atenção além dum vago franzir de sobrancelha ou dum morder de lábios de desgosto. Por todo o mundo, o homem sofre e sangra das actividades do homem; ditadores que se prendem ao poder com armas em punho, migrantes que continuam a arriscar a vida pretendendo atravessar o mar para se juntar ao nosso paraíso terrestre. Paraíso, verdadeiramente? Paraíso das aparências, certamente.
Está um tempo fantástico, e se voltássemos para férias?!