Adriano Valadar

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Homenagem ao Dr. Eduardo Santos, Diretor do AE Emídio Garcia

A “A tua família, os teus amigos, os teus colegas, todos os que te conheceram e apreciaram, todos estamos presentes para te prestar esta última homenagem. Partes antes de nós, muito cedo, demasiado depressa … e o teu desaparecimento lembra-nos o quanto somos bem pouca coisa e que é preciso usufruir de cada segundo, de cada minuto enquanto estamos aqui por baixo. Por mim, fiquei muito feliz por me teres concedido alguns pedaços de vida. Tu, sabias fazer muito com pouca coisa, sabias cultivar a amizade. Como esquecer o amigo fiel e generoso, o colega apreciado, sempre fiel ao seu lugar, sempre positivo, otimista, e que trabalhador! Ser-nos-á necessário muito tempo antes de realizar que partiste, que não refaremos o mundo, nem a escola que era o teu “locus amoenus” e por quem deste tanto. Os nossos encontros mais banais, mas tão saborosos guardarão o ruído dos teus passos. Alguns testemunhos escolhidos arbitrariamente: “ Até sempre Eduardo…Não tenho palavras para expressar o pesar e a tristeza por esta súbita partida. Ficam as saudades do que passámos, do trabalho e da segurança que sentíamos, da confiança que transmitia, da superior humanidade e amizade que nunca regateava. Partiu um homem bom…”; “ Excelente diretor, grandíssimo amigo. Fica uma dor imensa. Mas há-de ser lembrado pelo seu companheirismo, disponibilidade, e alegria”; “ O Eduardo sem ser perfeito, era um ser humano bom. Muito humano, com uma capacidade de trabalho extraordinária, inteligente, disponível para ouvir, bom companheiro e amigo do seu amigo. Paz à sua alma” . Eu, como não tenho palavras, deixo uma citação da pequena bíblia que tenho na mesinha de cabeceira e que dispensa apresentação tal é a sua relevância e tantas são as suas polifonias: “ … As pessoas têm estrelas que não são as mesmas, Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. Tu porém, terás estrelas como ninguém… quero dizer: quando olhares para o céu de noite (porque habitarei uma delas e estarei a rir), então será como se todas as estrelas se rissem! E tu terás estrelas que sabem sorrir! Assim, sentir-te-ás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo (basta olhar para o céu e estarei lá). Terás vontade de rir comigo. E abrirá, às vezes, a janela à toa. Por gosto… e os teus amigos ficarão espantados ao ouvir-te rir olhando para o céu. Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!” Deixas um vazio enorme atrás de ti Eduardo. E é com muita tristeza e compaixão que apresentamos os nossos mais sinceros pêsames à tua esposa e colega Céu, aos teus filhos e familiares para lhes testemunhar o nosso apoio neste momento tão doloroso. Sem esquecer toda a comunidade educativa do Agrupamento de Escolas Emídio Garcia que ficam órfãos dum bom homem e dum excelente Diretor. Até sempre Dr. Eduardo.”

Falai com os vossos filhos!

Conversando com as pessoas mais velhas, não é difícil descobrir que alguém, um parente direto mesmo; um avô, tio, tia, tiveram um passado perturbado, ou de órfão, ou que fora mais ou menos abandonado, e consigo hoje medir e sentir o peso do segredo, por vezes o poder da vergonha, as repercussões desta infelicidade sobre toda uma genealogia, quando tudo isso é silenciado. E digo para mim mesmo que se somente … essas crianças, esses adolescentes “assistidos”, esses jovens adultos tivessem tentado falar, ousado contar de donde vinham, o seu percurso, tudo aquilo que atravessaram, teria sido uma confissão, um diálogo aberto e um alívio para todos. E hoje sinto a vontade de dizer, a cada um de entre nós e quaisquer que sejam os passados, a família, o percurso, a cada um de entre nós apetece-me dizer: falai com os vossos filhos. Falai com os vossos filhos, dizei-lhes donde vêm, dizei-lhes que cada destino carrega a sua coragem, as suas feridas e a sua nobreza. Dizei-lhes que todos somos mais ou menos corcundas, que ninguém é verdadeiramente campeão, nem mesmo aquele que recebe medalhas, prémios, votos, não há ninguém sem as suas lutas nem derivas, toda a gente têm dúvidas e vacila, toda a gente um dia ou outro dança num só pé, perde o equilíbrio, toda a gente num momento da vida levanta os olhos para o céu e fica com vertigens, e treme e se agarra aos ramos, às convicções, ao apelo das sereias por vezes, aos falsos profetas e aos verdadeiros sábios. E seguidamente de tempos a tempos, também se escuta com alguma confiança, ouve os seus próprios murmúrios, as suas intuições e os seus desejos mais inesperados. E lança-se de corpo e alma na aventura duma vida. Falai com os vossos filhos, dizei-lhes que eles vêm de algures. Que desde sempre o homem viaja e passa e ultrapassa fronteiras, na alegria e na pena, legal ou ilegalmente, o homem procura sempre fugir para salvar a pele, reencontrar os seus ou descobrir o mundo, percorrer, escapar-se, evadir-se, quer-se e por vezes crê-se livre, e por vezes num instante de resplandecência e luz, é-o. Dizei-lhes que é o direito inalienável de cada ser humano de ser deste lugar e doutro mais, do mais distante dos traçados oficiais, das montanhas e dos mares, das pontes e das barragens, dizei- -lhes que somos todos de sangues misturados, todos o resultado de cruzamentos sucessivos e selvagens, incontroláveis, surpreendentes nesse aspecto, magníficos. Dizei-lhes que nenhum de entre nós nasce por acaso, mas sim pela surpresa, e que se alguns não foram desejados, a revolta é possível. Dizei-lhes que cada ser humano nasceu para nos surpreender, para nos mostrar algo diferente, e que com eles, construímos a fabulosa aposta da diferença. Dizei- -lhes que nasceram de relações apaixonadas ou aventurosas ou fugazes, ou brutais, arranjadas ou pouco razoáveis, mas que estão bem presentes, e que o mundo esperava por eles. Dizei-lhes que têm todo o direito de dançar nos passeios, de cantar à chuva, de seguir a sua própria melodia, a sua comédia musical mais íntima. Ensinai-lhes os contos, as fábulas, os mitos, e as lendas familiares também, contai-lhes, não são mentiras, são a trama do tecido duma família, dum grupo, dum casal, duma aliança. Sede generosos! Contai-lhes as epopeias, histórias de coragem e valentia. Contai-lhes os livros que vos transformaram, cantai-lhes as canções que ouvistes aos vossos pais, e antes aos pais deles, fazei- -os ouvir música, as narrações das quais são feitos os vossos sonhos, as utopias que nunca abandonastes, tudo o que vos embalava na vossa infância e adolescência, todos os possíveis, lembrai-o, encontrai o poder da exaltação. E depois dizei-lhes que são bonitos. Que não esperáveis tanto, que não esperáveis nada, mas que os esperáveis a eles. Dizei-lhes para não ter medo. Dizei-lhes que as contradições e reviravoltas da vida não são erros, que as hesitações não são fracassos, e que é preciso de tudo um pouco para fazer um mundo; solitários e chefes de fila, líderes e sonhadores, desertores e entusiastas, derrotistas e perfeccionistas, contemplativos, hipersensíveis, homens e mulheres de acção, maratonistas e apaixonados pelo vagar. Dizei-lhes que os amais. 

Desejos de primavera

Chegou desta vez no meio da chuva a que anuncia a epifania das cores; amarelas em primeiro lugar nas flores de forsítia, os pompons da mimosa e a trompete dos narcisos. Há já alguns dias, a primavera pinta de cor- -de-rosa as bochechas envergonhadas dos transeuntes. Agudiza o grito das crianças, assim como o passo mais largo dos que passeiam e acalma o passo dos namorados. A primavera, finalmente! A primavera, como uma embriaguez. Este ano mais do que nunca, sentimos subir em nós a jovem seiva, pretendemos ficar aturdidos. Eis-nos objetos consentidores duma metamorfose que toca tudo o que vive, tudo o que cresce, tudo o que vibra. A primavera, deleita-nos vê-la em ação, no poder arrebatador das tonalidades verdes por todo o lado em fusão, e a explosão vegetal dos rebentos. Respira- -se o seu perfume de violeta. Ouve-se no bico dourado dos melros, e no canto de tantos passarinhos irrequietos e velozes. A brisa larga da primavera arremanga-nos a alma. A transparência dos céus de abril dá- -nos uma leveza, parecidos às bolas de praia. Eis-nos ligados a uma realidade mais alta – o renascimento para o qual nos sentimos todos convidados, e ao qual condescendemos todos a partir dum novo fôlego. É que tudo se torna noutra coisa que aquilo é – uma promessa, uma subida, um regenerar completo. A primavera lembra-nos que a beleza da vida renascente duplica-se sempre de outra beleza, a que cria o jogo profundo das correspondências com a natureza, com toda a criação. Sente-se mais profundamente a oposição entre a noite e o dia, a relva e o gelo, as brumas e o sol, a vida e a morte. Ah, a primavera! Quanta felicidade na sua celebração por fim, deixar-se intoxicar pelo seu vigor. A primavera, esperamo-la contagiante. Pedimos para que dê aos que partiram para o combate em guerras absurdas o desejo bem mais vivo de se alegrar perante a vida que lhes foi concedida. Sonhamos que toque, pela sua juventude, tão tenra, dos soldados russos e que abandonem então, como quem deixa os sapatos à beira mar, as armas, os uniformes, que desobedeçam às ordens que recebem. Que a primavera lhes traga com a sua brisa leve algo da sua força, que perturbe os suspiros das namoradas tão longe no seu país. Que os contamine com a doçura dos sonhos, com as agitações da longa espera e do fogo do desejo de serem livres e felizes. Alguns de entre eles, pretende-se que já teriam sido atingidos, que se demarcaram da solidariedade com Putine. Apelam ao fim da guerra. Segundo um responsável da defesa, dois ou três batalhões “ teriam deliberadamente furado” os reservatórios dos veículos para evitar ir combater. Outros teriam sabotado os tanques. Outros teriam fugido das suas unidades para não disparar contra as melícias, prontas a defender até à morte a proximidade das maiores cidades da Ucrânia. Satisfaz-me dizer que no ressurgimento da primavera, na carícia dos seus mornos raios de sol, perante o trigo em erva ainda, outros soldados serão tentados a desertar e correr para a vida. Penso para mim próprio que foi por esta razão – convencer os soldados de que a primavera só pode ser a estação em que tudo é amor – que se apresentou este ano um dia mais cedo. O equinócio não aconteceu dia 21 de março como o anunciam os nossos calendários, mas sim dia 20 de março, às 16 h 33 exatamente. Foi nesse dia, a essa hora precisa, que o Sol se alinhou com o equador, com a perfeição que exige o equinócio. Mas porquê este desvio no calendário? A Terra gira à volta do Sol como um aro colorido à volta da cintura duma menina. E como acontece com o aro, a Terra escorrega por vezes um pouco mais e desvia-se da elipse perfeita do seu eixo. Estas fantasias giratórias perturbam as estações. “Temos de nos habituar. O fenómeno deverá durar muito tempo; a próxima vez que a primavera cairá dia 21de março, será em 2102, e tendo sido inventados os anos bissextos para corrigir estas diferenças horárias astronómicas, estes não poderão fazer nada”, dizem os astrónomos. 2102 ! Dentro de noventa anos! Terão ouvido bem os soldados que vivem e lutam hoje, a injunção de Vladimir Jankélévitch : « Não percais a vossa única manhã de primavera”.

Avô

O que é isso, um avô, uma avó? É um simples facto. Alguém teve um filho que teve um filho. Lógico, Biológico, em francês diz-se “ Grand- père”, grande, que não tem nada de grandioso. Porém, este acontecimento não tem nada de anedótico. Porquê que o Pai Natal, ou o S. Nicolau, e Deus mesmo no teto da capela Sistina, têm traços de avós? O quê é que nos tranquiliza tanto na figura dos avós? A Heidi teria sido tão popular sem ter ao seu lado, a presença ao mesmo tempo rude e doce do avô? Se, para viver a sua vida ano após ano, basta amá-la tanto para não a interromper, consentir a tornar-se pai supõe um amor mais profundo: ama-se a vida ao ponto de, não somente a conservar, mas de a dar a alguém. O avô foi mais longe, sem mesmo se dar conta: amou tanto a vida a ponto de a conservar até aos velhos ossos. Seguidamente para a dar, enfim, ô milagre, para gerar no filho a vontade de a dar por sua vez. O avô, somente pela sua presença, deu a bênção à vida três vezes. A minha esposa conta que passava horas com o seu avô materno, no campo, ou somente a olhar para ele. A sua avó, diferente, nas suas tarefas domésticas e a cozinhar os pratos que ainda continuam a ser as suas/nossas madalenas. A sua presença, a sua existência, bastavam para recordar que a vida é boa. Deus o Pai, quando cria o homem e a mulher, e através deles todas as gerações, não diz somente que isso é bom, mas sim “muito bom”, “ Deus o Avô” portanto, que se apraz a viver e a dar a vida, a criar filhos que farão filhos! Vitor Hugo teve ao seu encargo os netos, cujo pai acabara de morrer. Retirou desse acontecimento uma coletânia de poesia: A arte de ser avô. É a arte de ceder face à inocência infantil, encantar-se pelo seu encanto. Esta arte não é uma técnica da qual qualquer pessoa poderia apropriar-se. Se há por vezes avós de substituição, não existe avô profissional. O seu lugar é indicado pela história familiar. Mas é um lugar que deve ser tomado. Do mesmo modo que não basta ter um filho para ser pai, pode-se passar ao lado da vocação de avô. Lugar a ser conquistado, portanto, mas também a deixar. Lugar para sustentar … e com que força! Tendo educado um filho que se tornou pai ou mãe, os avós já representaram o seu papel. A sua parte está feita. Não servem para mais nada, a não ser amar. Efectivamente, acolher os netos supõe que se ergam limites e isso ocasionará, aqui ou ali, alguns alertas ou avisos. Porém a educação depende sobretudo dos pais e da avó, apesar de esta constatar dolorosamente a inexperiência da sua nora ou filha; contem-se muitas vezes e não intervém … Quando o pai se torna avô, o que cresce é a sua aptidão para diminuir. Estar presente nas suas leituras, tricotar, jardinar, e basta. Isso vale por todas as lições de vida. Mas isso não é dado. Supõe que os pais confiem o filho aos avôs e que os mesmos tenham com ele tempo a perder, a tomar, a dar. Ser, e simplesmente ser, usufruir tranquilamente da vida sob o olhar atento dum neto, como sob o olhar de Deus benevolente, é por vezes o mais difícil.

A queda e o riso são indispensáveis e humanos

É uma questão infantil, os joelhos esfolados, as palmas das mãos arranhadas. Uma questão que me surgiu estranhamente duma grande atualidade. Acaba de cair e despois dos choros, quer saber. Porquê que te ris? Sim, sim, riste-te - percebo eu na sua expressão- por me ver cair. É verdade e lamento-o desde logo por tê-lo feito, mas é uma situação irresistível. Como as quedas de Charlot no cinema. Cair, é a talvez a prova mais simples, mais nua, da nossa humanidade. Na mais pequena infância quando ainda mal nos mantínhamos em pé. Na plena noite do Princípio quando o dia cai. Na imensa noite do universo. Antes da gravidade. Antes das maçãs e das pedras que nos caiem em cima. Em qualquer queda, ao mínimo falso passo, é um pedacinho do nosso fim que se desenha, que nos lembra algo. Digo à criança que também eu, caio muitas vezes, e que todos nós, caímos. E se me rio quando vejo alguém cair é porque a pessoa atingiu um limite, o meu, o nosso. Junta-se brutalmente a qualquer coisa que tem a ver com a nossa fragilidade, com a nossa mortalidade. Quando caio, aproximo-me, nem que seja por alguns segundos, do nosso próprio fim, do fim de todos nós: cair no túmulo. Cair é aproximar- -se do solo, da terra, do pó. É recordar-se de repente que somos feitos para cair. A terra torna-se o lugar donde levantamos o olhar para o céu imaginando que caímos aqui, entre tantos outros. E porque te riste? Repete-me a criança. Quando vejo alguém cair vejo a sua pequena sombra desajeitada atrás do seu elã de homem direito. Respondo-lhe: não tenhas medo de rir. A maior parte dos corpos caiem quando os largamos! Mas responde a criança, o fumo que sobe a partir do fogo não cai! Nem o pedaço de madeira que flutua na ribeira. Respondo: imagina o mundo em que as pessoas nunca caíssem. Parecer-nos-íamos todos com estranhos cosmonautas flutuantes, largados no espaço negro e estrelado. E nada seria igual, sem graça nenhuma. Nunca mais a vida seria um lugar onde cair. Uma vez a criança consolada, reconheço voluntariamente: preferíamos levantar-nos, erguer-nos, pelo menos ficar direitos, mas a verdade é que caímos! O riso nasce a partir desta angústia. Alguém afirmava que o riso é essencialmente contraditório, ou seja, que é ao mesmo tempo duma grandeza infinita e duma miséria infinita. Ser humano é aprender a conjugar os dois: grandeza e miséria. Só no céu angélico é que os seres estão seguros de não cair. Há assim para nós a necessidade de cair para nos podermos levantar ou levantarmo-nos novamente. É o que se designa empirismo, ou a experiência. Fazer a experiência do nosso equilíbrio na terra, é a nossa tarefa humana, a nossa condição. Daí a indispensável presença entre nós dessas figuras trémulas, vacilantes e únicas. Para aprender a tornar-se alguém benevolente perante o que resta do fardo na ligeireza geral, como se a gravidade fosse uma graça, um dom, como se a graça tivesse de repente a densidade específica duma criança que tropeça. E o nosso riso faz a experiência dos nossos limites, entre o céu e a terra. A terra torna-se então o lugar a partir do qual podemos contemplar o céu mas na condição também de saber rir da nossa falta de jeito. Através do riso conseguimos libertar-nos das forças do medo que nos habitam e que estão sempre prontas para acordar os nossos moinhos, os nossos fantasmas. O riso torna- -se dessa forma a única expressão aprazível da nossa soberania.

 

Geração baralhada

Se conhecem alguns, certamente não lhes escapou despercebida esta situação inquietante: os nossos jovens não estão bem. Todos os estudos mostram que os jovens com menos de 30 anos, pelo menos uma grande parte deles, são as primeiras vítimas da agravação das desigualdades a partir da pandemia de ovid. No ensino superior essencialmente, torna-se cada vez mais difícil fazer um percurso coerente, com aulas e seminários que saltam, com intermináveis túneis de aulas em videoconferência, com exames mais ou menos assegurados e a ausência de qualquer
atividade coletiva. Stress, ansiedade, depressão, solidão: há mais dum ano que o ensino superior vem alertando para a saúde psíquica dos estudantes. No que diz respeito aos que estão no mercado de trabalho, a situação não para de se degradar; entre a dificuldade de inserção profissional, precarização dos empregos e disparidade das desigualdades. Nas empresas, se contratar era difícil, é-o agora ainda mais.

Os estágios e os contratos a termo, que permitiam adquirir uma primeira experiência tornaram-se raros, as empresas cada vez menos inclinadas a aumentar os seus efetivos pois a pandemia
de covid complica especialmente a gestão dos recursos humanos … Além do desaparecimento dos pequenos empregos na restauração, entre outros, algo que foi desastroso para estes jovens.
Salários muito baixos, contratos precários e altas taxas de desemprego: hoje, mais dum jovem em dez encontra-se em situação de pobreza… As consequências são inúmeras: mal alojados,
isolamento social e, também aqui, repercussão na saúde psíquica. Safam-se alguns que podem contar com uma família sólida, presente, unida. E os outros?

Os sociólogos falam duma “geração covid”, baralhada e inquieta, para caraterizar estes estudantes ou estes jovens ativos cujos projetos foram claramente imobilizados pelas restrições ligadas
à crise sanitária.

Por fim, temos também o teletrabalho. Não é intenção contestar aqui as medidas tomadas ainda hoje que visam travar a circulação do vírus, mas, mesmo neste campo as principais vítimas
são os jovens trabalhadores. Isolados muitas vezes, porque são solteiros na sua grande parte, têm de passar oito horas sozinhos frente ao ecrã, e por vezes só lhes resta regressar a casa
dos pais para não se encontrarem esmagados pela solidão. As empresas não deveriam apressar-se a este ponto no desejo de querer generalizar o famoso teletrabalho,
com o pretexto de favorecer a flexibilidade - suave eufemismo para poderem  ganhar as despesas fixas - de superfície afixada e de produtividade. Porque, que geração de novos
assalariados estamos nós a fabricar? Que espírito de empresa pretendemos favorecer quando se toma o hábito de ziguezaguear nos open-spaces meio cheios?
Com é possível formar uma comunidade de indivíduos a partir dum projeto quando se ignora tudo a partir daqueles com quem é suposto trabalhar?
Gostaríamos de lhes mostrar o significado de tudo isto, que a única coisa que interessa, é a sua força de trabalho, que a relação e a colaboração com o outro
não passam duma perda de tempo, que tudo não pode ser visto doutra forma.
Nada espanta em relação ao que estamos a assistir, com muitos dos jovens em questão, seja pondo em causa a sua orientação profissional, seja as suas opções de
vida remetidas para a sua satisfação individual, o trabalho não passando assim duma variável de ajustamento.
Fala-se de esforços do governo em relação a estes jovens em grandes dificuldades. Mas não deve ser unicamente o governo.
Neste momento em que se fala de “empresa cidadã”, não podemos esquecer que o trabalho, a empresa é um lugar de socialização. E que também é seu dever preparar as novas gerações para
os compromissos do futuro.

Por que vieste incomodar-nos?

Nestes tempos de campanha eleitoral verdadeiramente, ando com a cabeça à roda. Até me dói o coração. Sim, sinto-me como enjoado com a propaganda das pessoas e viaturas que passam. De todo este clima estranho acordo assim todas as manhãs. Alguns títulos de jornais como exemplo também não ajudam, com frases já deslavadas: o Expresso: “ Rui Rio espera ter vitória na humanidade”; “ António Costa: acredito pela primeira vez na maioria absoluta”. DN: “Jerónimo fora pode acelerar mudança, mas não tira votos ao PCP”; “ Deus, pátria, família e trabalho” (André Ventura no estado novo): “André Ventura chama “cobardolas” a Ricardo Araújo”; Expresso “ BE assusta-se com sondagens e quer nova geringonça”; “ Rui Rio não tem medo das sondagens”; “ Comandante Ventura vestido de camuflado e de mão ao peito”; “ Cotrim diz que André ventura lhe faz lembrar Catarina Martins”; (e ainda, deixo o Karcher na garagem …) Então, como sempre quando não estou bem e me sinto algo desorientado, tento respirar um pouco mais alto e volto-me para a literatura. Acabo de reler, no livro de Dostoievski Os irmãos Karamazov, a lenda do grande inquisidor. É um conto filosófico, um poema, uma parábola … uma obra-prima que é difícil de reduzir a uma pequena apresentação. Trata-se do diálogo entre dois dos três irmãos Karamazov: Aliócha, um jovem monge, e o seu irmão mais velho, Ivan, poeta niilista, que lhe vai ler o poema que escrevera (a famosa Lenda …, portanto). Estamos em Sevilha, no século XVI, em plena Inquisição. Jesus decide descer à terra , “ visitar os seus filhos”, que o reconhecem de imediato: “ Deus aparece; não fala, só está de passagem. (…) atraído por uma força irresistível, o povo apressa-se a segui-lo.” Estende-lhes os braços, bendi-los e ressuscita uma criança. “No mesmo momento passa o cardeal grande inquisidor. (…) e pede aos guardas para o apanhar. (…) O povo está tão habituado a submeter-se, a obedecer, que a multidão afasta-se para permitir aos guardas prendê- -lo.”te O inquisidor vai visitar Cristo à prisão, e pergunta- -lhe: “ por que vieste incomodar-nos?” Porque enquanto Cristo propusera aos homens: “ Uma liberdade que, segundo o grande inquisidor, lhes metia medo”, ele, anulou essa liberdade, para que fossem felizes, porque, perguntou ele: “ Será que as pessoas revoltadas podem ser felizes?” Mais tarde, e quando Cristo o fixa em silêncio “ com o seu olhar meigo e penetrante”, acrescenta: “ será que te esqueceste de que o homem prefere a paz e mesmo a morte à liberdade de discernir o bem e o mal? Não há nada mais sedutor para o homem do que o livre-arbítrio, mas também não há nada mais doloroso. (…) há três forças (…): o milagre, o mistério e a autoridade! (…) e o homem inclinar-se-á perante os prodígios dum mágico, os sortilégios duma bruxa (…) provar-lhes-emos que são loucos, que não passam de míseras crianças.” Para Ivan Karamazov, os ensinamentos de Jesus são demasiado subversivos. Tentado três vezes por satanás no deserto, não recusou também transformar a pedra em pão, lançar-se da montanha e ajoelhar-se frente ao demónio? Estas tentações de Cristo no deserto são as tentações da humanidade, mas para resistir, o que exige como coragem moral é impossível ao homem normal. O grande inquisidor procura portanto substituir a crença pela liberdade, uma crença pelo constrangimento, e à liberdade da fé, uma fé imposta pelo medo. Hoje os políticos agitam essas bandeiras, as deste medo, lançam-nos a ameaça à cara para nos forçar, num reflexo defensivo, a fechar os olhos, e a segui-los como cegos. Tentar pensar livremente por si-mesmo é uma exigência esgotante e que a preguiça pode claramente substituir. Mas recusar o nosso livrearbítrio, é fazer parte do grande rebanho medroso, e ter, como quando éramos crianças, angústias irracionais, colocadas aos pés dos nossos pais, figuras de autoridade, do saber absoluto e da segurança encontrada. Esperando encontrar alguma paz, entramos na submissão, condenámo-nos à ignorância e passamos ao lado da nossa própria transcendência. Não abdicar, preferir as questões às respostas, acreditar na nossa força moral, na dos outros também, pode ajudar-nos a ignorar os títulos e frases medonhas duma campanha eleitoral que oferece, aliás, tão pouca esperança ao cidadão.

Amor pelos livros

“ É possível que o livro seja o último refúgio do homem livre” escreveu André Suarès. Que profecia nestes tempos de confinamento! Neste momento em que muitos de nós nos encontramos fechados em casa, o livro mantém a porta escancarada para o mundo. Oferece-nos a chave para nos evadirmos em direção a outros lugares, empreender verdadeiras viagens, contar aos filhos e netos deliciosas histórias e inocular-lhes o único vírus do qual esperamos nunca curar – a leitura. “ Ler, é beber e comer. O espírito que não lê emagrece como o corpo que não come”, proclamou Vítor Hugo. Além dum alimento, nunca como hoje em dia o livro se revelou como um tão poderoso ato de liberdade. É já uma aquela que oferecemos às livrarias quando compramos um livro. Confortam-se assim estes aventureiros na sua paixãoporque é sempre por paixão que eles investem na criação duma livraria, que procuram dar-lhe a atmosfera dum lar e um tom inimitável na escolha do fundo e dos conselhos aos leitores. É- -lhes deste modo oferecida a possibilidade não somente de poder viver do livro, mas também de comunicar esta paixão aos curiosos que, um dia, atraídos por uma capa, exposta na montra, um título, um excerto dum poema que eles terão escolhido, empurrarão a porta da sua caverna de Ali Baba. Há também a liberdade oferecida aos autores, nos quais pensamos raramente. É que estes não desfilam quando as reformas do seu estatuto mordiscam um pouco mais os seus direitos de autor ou quando, por causa da pandemia, os ofícios vão passando de mão em mão sem que as suas obras sejam publicadas. Solitários no seu trabalho, cada vez menos protegidos como artistas, e pouco escutados na extrema singularidade das suas vozes, é de liberdade que os escritores precisam eles também – daquela, única, que lhe promete o círculo dos seus leitores fiéis e atentos, e generosos. No marasmo geral, continuam a erguer a sua pena bem alta e direita, esperando que o seu livro belisque o curioso que, um dia, vai empurrar a porta da livraria, pedirá conselho, e ver-se-á designado por este cúmplice de sempre como o autor capaz de comover ou reconfortar este desconhecido tão só, tão tristemente confinado, que entrou por acaso naquele “ comércio” de extrema necessidade, que não se compara a nenhum outro pois aí está em jogo o futuro da cultura. Hoje, temos mais do que nunca o privilégio de oferecer esta liberdade aos escritores comprando os seus livros e, evidentemente, falar deles à nossa volta. E depois, que felicidade poder partilhar com os amigos o entusiasmo dum texto, dum romance, de receber assim esta prenda rara e inesgotável dum autor que, por sua vez, sem que ele mesmo o saiba ou que nós o saibamos ainda, se tornará o nosso amigo íntimo. Conheço poucas expressões tão ricas em promessas como a que evoca os “livros de cabeceira”. Sugere as presenças tácitas e amadas de autores, de histórias. Estende-se a mão a partir do travesseiro, e eis que um poeta nos murmura ao ouvido, ou um versículo qualquer sempre luminoso do evangelho, ou um excerto daqueles escritores que nos fazem voltar sempre atrás – segundo as suas afinidades, as suas espectativas. Pegamos no livro, folheamo-lo, que perfume, que regalo, poder retomar o fio do romance começado alguns dias antes. As paredes do quarto caiem. A noite desaparece, sentimos olhares, conversas que retemos, que nos falam e nos protegem contra as tentativas de desmoralização aguda que a atualidade prazerosa planeia contra nós. Por fim, há a liberdade que lendo oferecemos à criança que permanece em nós, e que não queremos desmerecer. A criança que sonhava com mundos maravilhosos e forçosamente melhores, devorando este alimento vital - a leitura. Temos todos um livro que a desperta, e que traz ao adulto que nos tornámos a deliciosa inocência, o Supercalifragilisticexpialidocious que, em qualquer circunstância, nos devolve a admirável leveza dos nevões de antigamente. Recordemo-nos: “ Era uma vez …” Que fórmula, que sésamo! Que momentos cheios de tremores deliciosos para quem alcançou ou pretende encontrar talvez -como eu- através deste incipit, sem dúvida o mais conhecido de toda a literatura, um vigor mesmo para - ler, escrever, ler mais ainda. O mesmo que dizer ser livre, como exige de nós o livro, e o nosso destino.

A supremacia das cartas de Natal

Recebi o primeiro postal de Natal deste ano. Senti um arrepio pelo prazer cada vez mais raro de encontrar na caixa do correio um envelope manuscrito, coberto por uma caligrafia que parece dançar mais aos olhos do que os carateres de imprensa das cartas administrativas que têm pés de chumbo e poucos carateres. Não resisti à tentação ou à necessidade de cheirar o perfume da tinta antes de a abrir delicadamente para não a rasgar, incapaz de esperar até poder usar o corta-papel. É uma das inúmeras felicidades de dezembro, estas prendas de cartas e postais “escritos à mão”, dirigidas pelos correios com tudo o que este envio supõe: o tempo oferecido, o cuidado tomado na escrita, a intimidade deste diálogo único e tão particular que inicia uma correspondência. As cartas de Boas-festas permitem manter o contacto com pessoas que não queremos perder de vista (costumo dizer que cada encontro releva do milagre) ou afeições por momentos negligenciadas. Poder-se-á sempre acusar estas cartas por versar no elíptico, no maquinal das nossas existências. Isso não tem qualquer implicação. Estas dão-nos a oportunidade de ressuscitar um modo de conversação delicado- a relação epistolar, graças à qual tomamos o tempo para escrever o que realmente pensamos e para pensar o que realmente escrevemos. Há já alguns anos, tive uma cadeira de literatura cujo título era: “O texto epistolar” (incluía o romance mais sério do séc. XVIII, Júlia ou A Nova Heloísa, de J.J. Rousseau e o romance mais libertino, as Ligações Perigosas de Laclos), tema que permitiu encontrar outras intertextualidades, como por exemplo encontrar Hermann Hesse ou conhecer melhor o texto ambíguo de Guillerages, Cartas amorosas de uma religiosa portuguesa ou Stefan Zweig que já em 1927, consignava: “ Há uma arte nobre e preciosa: a arte da correspondência. O que a tornava tão maravilhosa e lhe conferia uma vida tão universal, uma riqueza era que, contrariamente a todas as outras formas de arte, esta não ficava ligada aos únicos artistas: era possível a cada pessoa restituir nas suas cartas essas brechas de ânimo interior e de movimentos de alma simplesmente transitórios. Nasceram assim no passado inúmeras pequenas maravilhas de verdade num mundo tranquilo onde a carta tinha ainda um valor de envolvimento, e a mensagem de pessoa para pessoa uma força tranquilamente evocadora.” Escrever, escrever-se abre um território à intimidade, talvez o último que esta conheça, de tal forma a correspondência epistolar torna as coisas do espírito no tom de diálogo próprio à intimidade das almas. Certos escritores maravilham- -nos nesse terreno e tocam- -nos tanto como através das suas obras literárias. Quem não se emociono um dia com uma carta? A maior parte do tempo, a relação epistolar é tanto melhor quando não é destinada a ser lida por outros que não o destinatário. Murmuram- -se segredos, conselhos que têm acentos de confidências e o tom inimitável da sinceridade. Revela-se aí o rosto do autor, e no plano da retaguarda o retrato da época: “ O génio quando se tem a tua idade, escreve o poeta Armel Guerne que conheceu a guerra, a um dos seus jovens admiradores, é chegar a desconfiar profundamente das suas ideias, de se convencer, seja qual for o pensamento, que não será possível verdadeiramente encontrar o desejado a não ser mais tarde, não somente após as experiências que tenhamos feito e desejado, mas sobretudo depois das mais altas provas que tenhamos merecido. O problema, é manter a confiança, amar tudo o que está fora de si para avançar, respeitosamente, com a esperança de se juntar si- -mesmo à empreitada, um dia. Desde que descobri o texto epistolar tento manter- -me ao corrente e adquirir mesmo algo da correspondência de alguns autores que conheço. Desta forma não hesitei – como o carteiro de Neruda- em fazer minhas as cartas que Hermann Hesse enviava aos seus admiradores que lhe escreviam – às centenas por ano depois de ter recebido o prémio Nobel. Comecei por folhear estes inéditos. Uma frase cativou o meu olhar. “ Aceito o apelo que a hora presente lança aos pensadores, como um chamamento de Deus aos que dormem.” Seguidamente outra: “ pode ser decerto discutido infinitamente, discutir para saber se “adaptar-se” não é efetivamente baixeza, se não seria mais bonito e mais corajoso sofrer e sombrear do que adaptar-se à maledicência do mundo.” Sentei-me e li duma só vez o conjunto generoso destas missivas que abraçam as duas guerras mundiais. A correspondência começa há alguns cento e vinte anos, e consegue o milagre de nos falar como se fosse murmurada ao ouvido nos tempos presentes. Hermann Hesse alerta- -nos para os perigos dos quais nos protegemos tão pouco- a radicalidade odiosa das posições políticas, as incertezas económicas, as tragédias devidas à violência. Além de nos impressionar pela sua lucidez acerca do curso dos acontecimentos e de nos tocar pelos conselhos, (“ sede fiéis aos poemas, não para negar a “realidade” mas para resistir, com uma força inspirada, aos absurdos, colocando-vos aos serviço do que tem sentido”), ensina-nos e mostra-nos as delícias da arte epistolar. Bem, vou-me despachar para poder escrever as minhas cartas de Boas-festas.

Melancolia das rotundas

Gostava - e gosto ainda - de passear de carro sozinho, pequenas felicidades surgiam através das nossas terras, dos campos e florestas. E uma conversa com um cantoneiro? Emergiam os passeios secretos e aventurosos da minha infância. Cada um tem as aventuras que pode, mas recordo-me duma espécie de êxtase que me invadia quando, à saída duma aldeia, vila ou cidade, investia numa dessas estradas sinuosas ou direitas com as bermas cheias de flores, giestas, estevas e árvores bem perfumadas e vivas que me conduziam a um mundo novo, desconhecido e desejado, como uma espécie de linha de fuga, uma bela escapada e misteriosa. Há já alguns anos, e tudo mudou. Não há um concelho que não tenha a sua zona artesanal ou industrial como tantos tentáculos dum polvo monstruoso que o fecharia na sua fealdade. Não há um que não tenha as suas rotundas. Ah, as rotundas! No conselho de Bragança, conheço poucas aglomerações, até à mais pequena aldeia, que tenham conseguido fugir a uma pequena rotunda. Quantas rotundas existem em Portugal? Centenas, milhares? Ninguém sabe bem ao certo e não encontrei nenhuma referência ao tema! Mais do que um princípio, é uma mania, uma moda sombria, uma obsessão. Uma espécie de delirium tremens de alcoólico mal arrependido. Somos o país das rotundas. E pagámos certamente o preço, milhares de euros pelas mais modestas e milhões pelas mais imponentes e majestosas. Que importa que estejamos sobre- endividados. Dir-me-ão, isso faz funcionar os serviços das administrações territoriais, sem falar das empresas de trabalhos públicos. Os presidentes da câmara e outros presidentes de tudo (concelhos, regiões, comissões de urbanismo, enfim todas os vereadores locais), que no entanto passam a vida a dar lições de economia ao Estado, amam- -nas apaixonadamente como amariam o filho dos seus amores ilegítimos. É que a rotunda deu-lhes a ocasião única e inesperada de exprimir o seu génio artístico, toda esta criatividade reprimida que o mundo inteiro deveria invejar-lhes. Se, pelo menos, ficássemos pelas rotundas bucólicas plantadas com ervas, flores e árvores, contudo a maior parte transportam literalmente os fantasmas artísticos – ou a sua vacuidade como queiramos – dos seus vereadores. Há de tudo nas rotundas, há as literárias com bustos de grandes nomes ou mais imponentes no seu cavalo, há as futuristas, como a dos anzóis em Torres Vedras ou a das minhocas em Albufeira, ou tantas outras em ferro oxidado por esse Portugal fora, há sobretudo muitas etnográficas e são as mais engraçadas. Já não é preciso o guia Michelin. No caso de não saber qual é a atividade da terra onde se entra, é-nos anunciada a cor pelas esculturas das rotundas: sacos de batatas ou cantarias de Vila Pouca, cantarinhas de Bragança, barcas em Almada que anunciam o mar próximo, alegorias do mundo dos bombeiros, vacas como a lembrar que aí há leite e queijo, e passo pelas melhores. Estamos de alguma forma em Alice no país das maravilhas, ou na feira popular. Tudo isso respira a melancolia do vazio e da futilidade. Além do mais, as rotundas são no man’s land constrangedores onde só passamos. Abreviando, as rotundas por si sós, tema tão recorrente nas conversas, não passam dum sintoma da nossa esquizofrenia. Ficam muito caras, descaraterizam a paisagem e o país, podemos ver nelas a metáfora dum país que anda completam à roda.