Henrique Pedro

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Partidos políticos ou associações de malfeitores?

Todos os portugueses que se prezam continuam a ter razões de peso e de sobra para se indignarem e picarem os maus governantes como quem pica mulas, não devendo limitar-se a dar um ar de sua graça apenas quando são convidados a votar. Só desta forma as coisas poderão mudar para melhor.

Que fique bem claro, porém e desde já, para que não haja lugar a más interpretações: conheço muitos distintos cidadãos e cidadãs e sou amigo preferencial de alguns, que militam em partidos políticos e desempenham cargos públicos com irrepreensível dignidade. E muitos mais haverá do que aqueles que eu conheço e de quem sou amigo. Esta não é a questão, portanto.

O problema reside no regime político que propicia tão graves desmandos e bafeja tantos artistas da corrupção porque confere aos partidos políticos o privilégio de serem apenas eles a governar. Donde resulta que a Democracia Liberal, ou Representativa, tal qual a conhecemos, todos os dias é maltratada pelos próprios partidos que açambarcam, estrangulam e viciam a função política, estando no poder ou na oposição.

Oposição que emudece, por regra, em matérias sensíveis como as que dizem respeito ao escandaloso descaminho do erário público por parte de caciques partidários e seus compinchas. Os partidos não se fiscalizam uns aos outros e antes tacitamente se congraçam e fazem valer como domínios imunes à Justiça.

Esta partidocracia opressiva é a verdadeira causa da imparável hemorragia financeira e moral do Estado, que agrava as desigualdades e abre caminho ao populismo subversivo e à ditadura, porque os partidos políticos trazem no ventre a tentação totalitária, o germe da corrupção e todos os apetites malignos que levam a democracia à ruína.

Partidos políticos que frequentemente dividem dramaticamente a Nação, entram em guerras intestinas, condicionam a Justiça, afugentam os cidadãos, manipulam a vontade dos eleitores, acoitam verdadeiros gangues no seu seio, privilegiam interesses privados em detrimento do interesse público, se alimentam do peculato dos organismos públicos que tutelam, provocam o endividamento incontrolado do Estado e vivem do nepotismo, do clientelismo e do tráfico de influências. E, o que não é menos grave, são incapazes de se unir em torno de projectos nacionais.

 É a vox populi, que assim fala!

É verdade que sem partidos políticos, por mais insignificantes que fossem, não haveria democracia verdadeiramente livre e representativa, o mesmo se dizendo de sindicatos ou de associações culturais, citados apenas como exemplos. Mas também é verdade que, quando como na situação vigente, apenas aos partidos é conferida a prerrogativa de governar, a democracia se transfigura na fraude monumental que se sabe. O mesmo aconteceria se, continuando com os exemplos, apenas os sindicatos pudessem eleger deputados à Assembleia da República.

Não basta, portanto, perante a gravíssima crise moral que o regime politico português atravessa, que uns tantos machuchos partidários (que só não sabem o que não querem), porque sentem o poder absoluto a fugir-lhes da mão em reflexo de casos perdidos na opinião pública, ou porque esgotaram todas as hipóteses de condicionar a Justiça, venham agora, tarde e a más horas, chorar lágrimas de crocodilo e proclamar-se envergonhados. Como também não tem sentido que a oposição, que desde a primeira hora guardou silêncio, só agora, na oportunidade, dê ares de indignação.

Gente desta categoria não sente vergonha, nem entende a dignidade, da mesma forma que o vulgar cidadão, pelo que terá outras inconfessas razões para tão estranho comportamento. Não é de espantar que também corra na opinião pública a ideia de que dinheiros manuseados na operação Marquês poderão ter beneficiado directamente o partido Socialista e que outros partidos, noutras circunstâncias, terão usufruído de dinheiros da mesma espécie. Estará agora a Justiça empenhada em investigar estas hipóteses por amor à democracia? Oxalá que assim seja.

A verdade é que a tudo continuar como está, os casos de corrupção vão continuar a acontecer, encobertos ou às escâncaras. Forçoso é, por isso, que os muitos militantes escorreitos dos actuais partidos se predisponham a refundar o Regime e a Reformar o Estado, abdicando do seu hegemonismo e, entre outras medidas fundamentais, abram o poder a instituições cívicas menos permeáveis à corrupção, designadamente às candidaturas independentes também à Assembleia da República e em pé de igualdade com as candidaturas partidárias.

Há mais e melhor democracia para lá dos partidos. E melhores governantes, também! De que têm medo os cabos partidários?

Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

O 25 de Abril ainda não passou à História

Três acontecimentos notáveis balizam a História de Portugal no século passado, dois dos quais são comemorados no mês de Abril: a batalha de La Lys, assim designada porque ocorreu no vale da ribeira de La Lys, na região da Flandres Francesa, no decurso da I Grande Guerra, com trágico fastígio no dia 9 de Abril de 1918 e, 56 anos mais tarde, o golpe de estado militar de 25 de Abril de 1974, que desencadeou a chamada Revolução dos Cravos.
Entrementes, mais precisamente a 18 de Dezembro de 1961, eclodiu outro inglório evento da História de Portugal - a Invasão de Goa, que as forças armadas indianas designaram por Operação Vijay, ou da Libertação de Goa, realizando-a por terra, mar e ar com forças esmagadoramente desproporcionadas, e pondo termo à presença portuguesa de quase 500 anos na chamada costa do Malabar, mais concretamente em Goa, Damão, Diu e outros locais menos conhecidos.
Todavia, é a batalha de La Lys, na qual o exército alemão infligiu uma derrota demolidora às tropas portuguesas que é considerada o maior insucesso militar depois da batalha de Alcácer-Quibir, que ocorreu em 1578.
O golpe militar de 1974 foi o derradeiro acto da vulgarmente designada Guerra Colonial, Guerra do Ultramar ou Guerra de África, que as forças opositoras preferiam chamar de Guerra de Libertação e que encerrou, definitivamente, o império português, o quinto império, o império místico de Pessoa e outros notáveis.
Três acontecimentos militares relevantes, portanto, que tiveram os seus próprios heróis e também, verdade seja dita, muitos mais de quem se costuma dizer que não reza a História.
Tenha-se em conta que “herói” é quem protagoniza ações de extrema coragem e abnegação, sem motivações egoístas, sempre em benefício de outrem e com respeito por princípios morais e éticos, podendo ser-se herói civil ou militar, na paz ou na guerra.
O herói mais celebrado de La Lys é sem dúvida o transmontano soldado Milhões, mas muitos outros houve que, muito embora não sejam assim tão conhecidos, também cometeram actos de insuperável coragem e abnegação, dos quais destaco os flavienses coronel Bento Roma e capitão Ribeiro de Carvalho que, entre outros feitos notáveis, efectuaram raides temerários às linhas inimigas fazendo prisioneiros.
Também na Invasão de Goa se cobriram de glória o comandante Cunha de Aragão que comandava o aviso Afonso de Albuquerque e que foi gravemente ferido, o segundo-tenente Oliveira e Carmo, comandante da Lancha Veja e o alferes Santiago de Carvalho, que morreram em combate.
Quanto ao 25 de Abril propriamente dito, não se poderá em rigor afirmar que teve heróis porquanto os riscos eram insignificantes face às reduzidas forças opositoras, para lá de que as motivações principais dos seus intervenientes foram fundamentalmente de natureza pessoal e corporativa e não patrióticas, na verdadeira acepção da palavra.
Poderá dizer-se, todavia, que o 25 de Abril ainda não passou à História, porquanto nem tudo já está escrito com a necessária isenção, justiça e rigor científico. Os factos estão consumados, é certo, as feridas do corpo saradas mas as mágoas da alma de muitos que no Ultramar viveram ou combateram, ainda não.
Uma coisa é certa, porém: quer em La Lys, quer em Goa ou em 25 de Abril, os militares portugueses foram os bodes expiatórios redentores das más políticas prevalecentes, devendo realçar-se que por três vezes as Forças Armada Portuguesas se assumiram como verdadeiras forças de libertação.
Assim foi em 25 de Abril com o golpe de estado que abriu as portas à democracia, assim foi em 25 de Novembro quando libertaram Portugal da barbárie anarco-comunista e assim foi anteriormente nas derradeiras guerras do Império, quando rasgaram estradas, edificaram escolas e hospitais, dispensaram cuidados médicos, promoveram desenvolvimento e harmonia racial e garantiram a paz em todas as povoações, grandes ou pequenas. Panorama esse que regrediu tragicamente quando a retirada se operou, dando lugar à fome e à miséria generalizadas e a guerras bem mais cruéis e devastadoras.
As Forças Armadas Portuguesas da Guerra do Ultramar foram, sem dúvida, o exército mais humano de que há memória, servido por milhares de heróis brancos, negros e amarelos, que merecem ser justamente glorificados e nunca aviltados. Pessoalmente sinto o maior orgulho em ter integrado as suas fileiras.
São estas Forças Armadas que, lamentavelmente, mais uma vez, os políticos de hoje, civis e militares, persistem em ostracizar, até ao dia em que, de novo, precisem de carne fresca para canhão.
Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

 

O capital não tem pátria e a corrupção não tem partido

Tudo que de relevante acontece no Brasil é acompanhado em Portugal como se de uma telenovela se tratasse. E não é só porque os meios de comunicação social internacionais, e os portugueses em especial, lhe dão particular importância mas também por um visível fenómeno de afectividade histórica.
Para lá de que o Brasil continua a ser o maior país onde se fala a universal língua de Camões, ainda que desgraçadamente adulterada, e também porque as relações familiares ancestrais entre portugueses e brasileiros continuam a ter forte peso social e económico. E político, naturalmente.
Não é de estranhar, portanto, que os monumentais casos de corrupção que ocorrem no Brasil tenham especial relevância para os portugueses, até porque o Regime reinante em Portugal também se encontra atolado em escândalos que parecem não ter fim.
A prisão de Lula da Silva como corolário de um demorado processo judicial conduzido por alargado número de investigadores e tratado por vários tribunais qualificados, representa um sério aviso, mais um, para todos aqueles que se julgam acima da lei ou se sentem protegidos pelo sistema. E também constitui uma lição exemplar para a classe política portuguesa que continua a menosprezar o papel da Justiça na democracia.
Não é preciso ser-se conhecedor de ciências políticas e jurídicas para justamente se compreender que o Regime político português está mais próximo das pseudodemocracias russa, chinesa e latino-americanas em que a corrupção e o nepotismo são lei, do que das verdadeiras democracias do mundo livre.
Em Portugal os processos judiciais que envolvem rufiões políticos e financeiros são quase sempre inconclusivos ou postergados indefinidamente, enquanto políticos e magistrados do topo da hierarquia fazem discursos eloquentes em actos solenes, por mero exercício intelectual ou evidente hipocrisia política, já que a reforma da Justiça continua a marcar passo e a moralização da vida pública não passa de letra morta. Em matéria de corrupção Portugal e Brasil são, sem dúvida, países irmãos.
O povo português, porém, já não vai em cantigas e sabe muito bem que o capital não tem pátria e a corrupção não tem partido. Por isso exige a todos os governantes indiscriminadamente que não se limitem a bem governar mas que igualmente o façam com honestidade. Santo que seja quando peca deixa de o ser.
Não é de admirar, portanto, que a opinião pública prevalecente em Portugal seja que, na democracia portuguesa, o crime político e a corrupção de Estado continuam impunes e a compensar. É de esperar, por tudo isso, que a actuação corajosa e pertinaz do juiz Sérgio Moro também se repercuta positivamente do lado de cá do Atlântico.
Sobretudo agora que já vai adiantado o processo Marquês, cujas semelhanças com o processo Lava Jato são mais do que evidentes, ainda que a opinião pública não esteja tão dividida em Portugal como no Brasil.
Cá como lá, é de lastimar que governantes destacados quando acossados pela Justiça lancem mão, em desespero de causa, de argumentos e artifícios políticos e populistas à falta de outros melhores. É o caso de Lula da Silva e do seu partido que pretenderam anular a Justiça com uma estrondosa golpada que não teve, até ver, o sucesso esperado mas que, tudo leva a crer, vai prosseguir.
Também o processo Marquês se prefigura como a verdadeira prova de fogo da Justiça portuguesa. Esperemos que em Portugal não haja lugar a golpadas políticas, públicas ou sub-reptícias, e que deixem a Justiça funcionar plenamente sem constrangimentos ideológicos e partidários.

Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

Um caixão de surpresas

Uma destacada militante do Partido Social Democrata, que também já foi sua líder mor, disse que o seu partido não era nenhum saco de gatos. Lamentavelmente muitos críticos entenderam exactamente o contrário, ou seja, que o PSD seria isso mesmo, sem apelo e com agravo.
Pessoalmente também entendo que não, que é por demais óbvio que não há gatos e muito menos ratos no PSD ou em qualquer partido que se preze. Tal seria um contra-senso, de resto, dado que gatos e ratos não se dão lá muito bem.
Quanto a mim o PSD é, isso sim, uma grande caixa de surpresas. Um caixão, melhor dizendo, tantas, tão grandes e tão surpreendentes elas são e tendo em conta também que o seu destino poderá ser a cova política. Ao fim e ao cabo o PSD é o espelho do Regime.
Já para os presunçosos partidos de esquerda o PSD é uma verdadeira caixa de Pandora, um jarro mais precisamente, dado que esse foi de facto o artefacto oferecido a essa primeira mulher da mitologia grega, no qual todos os males do mundo se acoitavam.
Jarro de vidro ou de barro, não importa, que Passos Coelho entreabriu e agora Rui Rio fragorosamente partiu, libertando inesperados infortúnios e malefícios, sem que se possa imaginar quando e como a tormenta irá terminar. Afinal o diabo de Passos Coelho morava dentro do próprio PSD, somos levados a concluir.
Tudo isto está a ser particularmente triste e frustrante para muitos portugueses, militantes ou simplesmente simpatizantes do PSD que, como agora se constata, depositavam infundadas esperanças em Rui Rio, a quem tinham como um político pragmático, um paladino da ética política e um acérrimo defensor das tão ansiadas reformas do Regime e do Estado e que, por isso mesmo acreditavam que ele iria acordar muitos abstencionistas, com efeitos salutares na deprimida democracia portuguesa.
Foi esta auréola de Rui Rio que se esfumou ruidosamente dando lugar à imagem de um líder titubeante, que dificilmente encontra pessoas credíveis que com ele queiram trabalhar e que ainda não mostrou saber lá muito bem o que quer e muito menos para onde vai.
Rui Rio, até mais ver, por azar ou inabilidade, apenas conseguiu transformar a esperança, que também estava aprisionada no jarro de Pandora do PSD, no pior dos malefícios.  
Porque o mais provável, agora, é mesmo que António Costa alcance a maioria absoluta nas próximas legislativas, que a Geringonça se desconjunte, que o presidente da república fique refém do PS e que o CDS de Assunção Cristas acolha a multidão de desiludidos do PSD, uma vez que Rui Rio não será capaz de fazer o pleno no seu próprio partido.
Contudo, manda o bom senso que se diga que ninguém pode prever com rigor o comportamento do PSD nos próximos tempos e muito menos se António Costa será capaz de corrigir e fazer esquecer os fragorosos fracassos da sua administração, por mais que os ventos económicos continuem de feição.
Em qualquer caso a maioria absoluta do Partido Socialista seria um mal maior que o próprio monstro do Bloco Central, só mesmo comparável à de um governo do PS com o BE. A má memória da governança de José Sócrates, que ainda queima, aí está para o sugerir.
Uma coisa é certa: a democracia portuguesa precisa de ser reformada ou mesmo refundada. Portugal não pode continuar a sofrer eternamente as injúrias sistemáticas de um Regime imoral, por mais legítimo que ele seja.
Bem pode o PSD, portanto, tratar de arranjar uma nova imagem, um novo líder, uma nova direcção e um novo rumo, enquanto é tempo. Para bem de Portugal e da democracia.
 
Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

O Regime e seus acólitos

Mal comparadas Lisboa é Roma, não a Roma do império mas a Roma de Berlusconi, e São Bento o Vaticano. E, se assim for entendido, o presidente da república Marcelo será o papa Francisco português que, como é sabido, não é bem quisto por muitos cardeais da cúria republicana embora seja idolatrado pela maioria dos fiéis.
Ainda nesta alegoria, que não pretende ser uma parábola, os partidos pouco mais são que seitas, os líderes partidários bispos e os deputados seus acólitos, coadjuvados por legiões de anjinhos que prometem levar os portugueses para o céu dos pardais, voando graciosamente na atmosfera rarefeita do Regime, lado a lado com os milhafres da desigualdade e da corrupção.
Tudo terá mais sentido se olharmos o Regime sem dó nem piedade, preferencialmente a partir da província de Trás-os-Montes que os políticos persistem em considerar uma colónia pobre e longínqua, habitada por nativos rudes e ignorantes e que ainda não comungam plenamente da religião democrática esotérica de confissão lusitana.
Claro que os transmontanos descrentes duvidam da apregoada infalibilidade dos profetas Costa, Jerónimo e Catarina escaldados que estão com os demiurgos que os antecederam. Para eles Lisboa será mais parecida com Brasília e São Bento com o Olimpo da mitologia grega, morada celeste de deputados vitalícios e de outros que tais e onde muitos dos fiéis militantes partidários sonham, um dia, montar barraca para o resto da vida.
Crentes e não crentes num ponto parecem, todavia, estar de acordo: os deputados da nação, no actual quadro constitucional bem como os autarcas mais categorizados, não passam disso mesmo: de acólitos, que o mesmo é dizer, em linguagem mais terra a terra, de sacristães e sacristãs do Regime que lhes garante prebendas e sinecuras e apenas resmungam ou se revoltam contra os bispos quando sentem ameaçadas as suas mordomias.
Quando tal não acontece, porém, cumprem exemplarmente as tarefas que lhe estão acometidas: tocam o sino, recolhem as esmolas, acendem e apagam velas, servem a água e o vinho, tratam da palamenta e da ferramenta do ofício, batem com a mão no peito, a tudo dizem amém e sobem ao altar para as leituras litúrgicas.
Tanto assim é que apesar das muitas vozes de revolta, profanas e populares, que se fizeram ouvir recentemente, quando o cardeal primaz António Costa veio em visita pastoral à diocese de Bragança abençoar o TGV castelhano e amansar os transmontanos, nenhum acólito do Regime, deputado ou autarca melhor dizendo, ousou erguer-se em defesa da região.
Mais grave ainda: uma semana depois o mesmo cardeal primaz benzia a ferrovia Évora-Elvas que, pelos vistos, pretende ressuscitar o TGV de seu correligionário José Sócrates e que não será mais rentável nem terá maior impacto nacional e regional que uma eventual via Porto-Zamora, cruzando Trás-os-Montes de lés-a-lés.
Mais grave ainda: enquanto que no Alentejo o monumental empreendimento do Alqueva é uma positiva realidade, o velho sonho transmontano de ligar os rios Tuela e Rabaçal num sistema de rega que beneficie a vasta e fértil Terra Quente continua a ser uma quimera que esturrica os campos pelo Estio. Segundo o evangelho do governo da Geringonça meia dúzia de charcas bastarão para que as rãs continuem a coaxar a seu contento. A tudo isto os acólitos do Regime, deputados e autarcas melhor dizendo, dizem nada.
E depois queixam-se que os transmontanos não vão à missa.
Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

Uma democracia de moscas e de mel

Contrariamente ao que muitas vezes ouço dizer, nós portugueses somos um povo dócil, ordeiro, trabalhador, inteligente, solidário, destemido e universalista.
Há milhares de provas e exemplos em todos os domínios de actividade a confirmar que assim é. E não só em Portugal! Por esse mundo fora, o que é mais relevante. É certo que os portugueses também têm alguns defeitos mas que não são para aqui chamados.
Já o mito de que portugueses são iguaizinhos aos lusitanos do tempo de Viriato, que não mais se livraram da má fama que lhes terá sido lançada pelo romano Galba, no longínquo século III antes de Cristo, quando escreveu «Há, na parte mais ocidental da Ibéria, um povo muito estranho: não se governa nem se deixa governar!», não passa disso mesmo, duma grande estória.
Talvez o maior defeito dos portugueses de hoje, que não é bem defeito mas feitio, seja mesmo deixarem-se governar com leviana credulidade, que é como quem diz intrujar, explorar, manipular, contrariamente aos lusitanos daquele tempo, com os quais temos pouco ou mesmo nada a ver.
Então nós, os transmontanos, valha-nos Deus! Somos mais crédulos que São Tomás que acreditou que um boi poderia voar. Agora até já nos comprazemos com o TGV espanhol que o primeiro-ministro António Costa nos veio impingir e que passa a voar a dezenas de quilómetros de Bragança.
Eu teria perguntado, se me tivessem dado voz para tanto: e porque não um TGV do Porto a Zamora, passando por Vila Real, Mirandela e Bragança, senhor primeiro-ministro?
Também são por demais conhecidas as desgraças em que os portugueses se deixaram envolver, sem tugir nem mugir, ao longo da sua História gloriosa, não se contestando, como é óbvio, a epopeia a que generosamente aderiram de corpo e alma.
Mais frescas estão, ainda assim, as vergonhas e misérias dos quarenta anos da República Democrática de Portugal provocadas por governos que, verdade seja dita, apenas representavam a vontade de uma minoria de eleitores já que a maioria sistematicamente se refugia na abstenção.
A classe política de topo, que apenas é portuguesa no cartão de cidadão e no idioma em que se expressa, mas que em boa verdade pertence a outra nação e vive num país exterior, desde o primeiro dia de democracia que dela se aproveita para habilmente explorar, iludir, espoliar, massacrar os portugueses. Sobretudo os que resistem nos intestinos da pátria a que os políticos do país exterior chamam interior.
Senão, atente-se nas vezes em que os Estado português foi levado à ruína, na Justiça que marca passo, na desigualdade social que prevalece, nas assimetrias regionais, no rosário interminável de escândalos e assaltos ao erário público, para não citar outros exemplos.
Podemos concluir, portanto, que a classe política portuguesa de topo essa sim é a herdeira natural dessa histórica virtude dos lusitanos de que falava o romano Galba: governam mal, não deixam ninguém governar, mas sabem muito bem governar-se e andam sempre zangados uns com os outros. Assim como as comadres e os compadres da Geringonça que, apesar de tudo, lá vão baptizando os filhos, atirando os foguetes e apanhando as canas. Os meus sinceros agradecimentos.
Outro exemplo elucidativo é o que presentemente se passa no PSD no qual ferve o ódio e a afronta. PSD que já foi comparado a um saco de gatos e que corre o risco de que alguém lhe ate a boca, com consequências imprevisíveis para a democracia.
No fundo é o que se passa em todos os partidos e entre todos eles entre si. Que não se riam os socialistas, os bloquistas, os comunistas ou os centristas porque, lá diz o ditado: gaba-te cesto roto que logo vais à vindima.
Outro mito perigoso que se instalou no bom censo comum é que só as moscas mudam. Puro engano. É verdade que o Regime político que tantas moscas atrai permanece inalterável desde há décadas, mas é igualmente verdade que as moscas, sobretudo as varejeiras, também são sempre as mesmas. Mudam é de tacho.
E enquanto o Regime for o que é, um apetitoso prato de mel de que as moscas se alimentam e tanto gostam, nada vai mudar. Nem as moscas nem o mel.
Eu o garanto.
Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

 

O que querem os transmontanos, afinal?

Não me alongo ao Alto Douro, para tanto. Fico-me por Trás-os-Montes, por agora.
Trás-os-Montes que no presente é irrelevante no contexto nacional porque, politicamente falando, não existe. O que não deixa de ser surpreendente porquanto se trata de um espaço geográfico diversificado mas coerente, com múltiplos recursos a que os tempos modernos dão importância acrescida em cada dia que passa.
E, se Trás-os-Montes não existe politicamente, também não existe administrativamente, pelo que nenhuma entidade o representa e defende enquanto tal.
Ninguém está formalmente habilitado, portanto, a traçar-lhe um rumo, a definir-lhe uma estratégia de desenvolvimento coerente e consequente, preservando e dignificando os seus usos e costumes e promovendo a cultura transmontana no seu todo.
Não passa de uma região teórica portanto, que é administrada a esmo, a granel, fragmentada, segundo o conhecido lema “dividir para reinar”, como convém ao Governo central que assim pode livremente privilegiar o quê mais lhe interessa, a começar pelos poleiros em que toma assento.
Os transmontanos, esses, existem, mas só o são quando se afirmam como tal, porque, se assim não for, também ninguém dará conta deles.
E tempos houve em que sabiam bem o que queriam porque nada tinham, embora tivessem tudo que era seu: serras, rios, vales, hortas, searas, olivais, vinhedos, caminhos para caminhar, braços para trabalhar e o suor do rosto.
Nem sequer tinham quem pensasse por eles, como hoje têm. Nem precisavam porque as suas carências eram por demais evidentes de tão elementares que eram: chafarizes, escolas, hospitais, esgotos, telefones, electricidade, estradas e pontes.
Porém, com o advento da democracia, os transmontanos passaram a ter milhares de cérebros a reflectir e a decidir por eles: demagogos, ex-governantes em processo de expiação dos seus fracassos governativos, deputados e autarcas que supostamente os representam mas que em boa verdade obedecem a outros interesses e muitos doutores e mestres, intelectuais e especialistas em todas as áreas, a quem o poder não dá ouvidos.
Não se compreende, por isso, que Trás-os-Montes esteja cada vez mais despovoado e deprimido. O Regime já pôs a hipótese de regionalizar e de descentralizar, já criou comissões regionais e unidades de missão, distribuiu subsídios a rodos, rasgou uma autoestrada, ainda que tardega, furou o Marão, vendeu rios, edificou universidades e centros culturais, mas os transmontanos não dão mostras de abandonar a saga emigrante e muito menos de retornar à pátria, o que parece ser, hoje mais do que nunca, um estigma maior.
O que querem os transmontanos, então?
Será que querem ser independentes, como os escoceses, os catalães ou os corsos? Ser uma região autónoma como a Madeira ou os Açores? Ter uma Autoeuropa instalada em Vimioso e um Google em Vinhais? Casas da Música como o Porto tem? Estádios de futebol como a Nova Luz ou o Dragão? Milhares de turistas endinheirados que animem o comércio, a hotelaria e as hospedarias rurais? Ou apenas que o azeite, o vinho e a castanha sejam pagos ao preço da prata?
Talvez os transmontanos não queiram nada disso ou talvez até queiram muito mais. O Regime é que parece não saber o que os transmontanos querem nem estar habilitado a responder.
Por isso, o que falta à região transmontana é cérebro para pensar por ela própria e ser bem governada. Como um todo e não como uma colecção de municípios e freguesias, a jeito de capelas e sacristias, em que os vigários (Honi soit qui mal y pense) se limitam a dizer amém à Roma dos partidos.
O que os transmontanos querem, afinal, é políticas, projectos e investimentos de âmbito regional que tenham impacto nacional. E vice-versa.
Começando, por exemplo, por uma profícua defesa do meio ambiente e o aproveitamento integrado e racional das suas águas, enquanto é tempo.
Que é o mais urgente, para começar.
Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

O novíssimo fado lusitano

A canção nacional por excelência é o fado muito embora haja quem considere que o dito cujo, que também é sinónimo de pândega e de farra, apenas merece o epíteto de canção de Lisboa.
É verdade que em Coimbra e no Porto também se canta fado regularmente e por tradição mas o de Lisboa é, sem dúvida, o mais escutado e popularmente consagrado.
Lisboa é, portanto, a verdadeira capital do fado, com casa de maior solenidade e tradição no palácio de S. Bento, sede da Assembleia da República, paredes meias com a morada oficial do primeiro-ministro.
Desta boa, ou má, vizinhança advém uma vantagem de grande significado: o fado que o primeiro-ministro Costa concerta e canta é prontamente acompanhado ao vivo pelo seu grupo de guitarristas privativo, em que pontifica o desafinado naipe de cordas da Geringonça.
Cujos acordes são perfeitamente audíveis, ali perto, nos jardins suspensos do palácio de Belém, onde o presidente Marcelo, embevecido, os escuta e aplaude com muito afecto.
Até há pouco tempo, o fado tradicional, menor e vadio, feito de desgraça, crime, ciúme, mentira e traição, que muitos maldosamente baptizaram de fado democrático, era o mais cantado por ministros, deputados e jornalistas na sala dos Passos Perdidos do palácio de S. Bento.
O fado da moda, porém, embora dê continuidade à tradição do vira o disco e toca o mesmo, é o novíssimo fado lusitano que tem superior desempenho do fadista Mário Centeno e primoroso acompanhamento à guitarra portuguesa de seis pares de cordas e um sem número de cordelinhos, do mestre guitarrista António Costa.
Este novo paradigma do fadário português que agora é tocado em ré maior, tonalidade mais alegre e viva, ignora os réus maiores, os escândalos, as tragédias, os muitos casos de personalidades de topo do Regime que andam emaranhados nas malhas da Justiça.
O próprio primeiro-ministro António Costa mais uma vez deu o lamiré deste novo fado, com a sobranceria que se lhe conhece, quando afirmou, a propósito da investigação de que o titular da pasta das Finanças está a ser alvo, que este “em circunstância, alguma sairá do Governo, mesmo que venha a ser constituído arguido”. Que é como quem diz: alto e para o baile, que quem manda aqui sou eu e a justiça sou eu que a faço!
É o Regime no seu máximo esplendor!
Posto isto, que ninguém se espante se um grupo de deputados, ad hoc e à socapa, incapazes de se entenderem quanto à transparência, decretar que os titulares de cargos políticos passam a gozar de impunidade criminal, total e vitalícia.
Na práctica, foi o que aconteceu, até há pouco tempo, por longos e felizes anos de democracia, em que o regabofe partidário levou o Estado à falência e os “donos disto tudo” sub-repticiamente fizeram valer a sua lei.
Estamos, agora, perante um fado novo, sem dúvida. Que não evoca desgraças e tristezas passadas e antes canta fortunas e sucessos presentes e futuros, mas continua a predispor os portugueses, como convém, para dar de beber à dor, se embriagarem com futebol e telenovelas e a remetê-los para a abstenção eleitoral.
Assim é que, a ajuizar pelas letras deste novo fado, que é como quem diz discursos governamentais, não haverá mais incêndios florestais no verão que se avizinha. Deus queira que não. E secas, se chover, também não.
Igualmente foi concedido ao povo saber que não houve assalto nenhum ao quartel de Tancos como o ministro da Defesa previra e que tudo se ficou a dever à irresponsabilidade de magalas infelizes.
E mais! A dívida pública nacional, que é das pesadas do mundo está garantidamente controlada, a carga tributária aumentou mas as famílias vão pagar menos (será?!), muito em breve alcançaremos o pleno emprego e os emigrantes vão regressar em massa, agora que as multinacionais tecnológicas, como a Google e Amazon, se aprestam a montar tenda em Lisboa e no Porto. E em que outras terras haveria de ser se a competência e prestígio dos nossos governantes não dá para mais?!
Quanto ao nosso querido Trás-os-Montes espera-se que continue a ser a reserva natural que sempre foi, espécie de jardim zoológico, com raros indígenas pasmados a ver passar os comboios e os navios do Tua.
Muito felizes serão os transmontanos se os seus autarcas e deputados deixarem de se dar ao desfrute de alienar e deixar estragar o muito de bom que ainda lhes resta.

Bem-falantes, fala-baratos e vendedores de banha da cobra.

Na política portuguesa pululam os bem-falantes altifalantes. Sobretudo nos estratos mais altos da governação como sejam a Assembleia da República e o Governo.
Bem-falantes porque fluentes nas ideias e nas palavras. Altifalantes porque dado os postos elevados que ocupam lhes é facultado falar alto e bom som sempre que lhes apetece, na certeza de que serão ouvidos. Sobretudo quando se dão ao desfrute de bolsar os milhões, as boas intenções e as presunções com que ateiam o inferno da má governação.
Acresce que muitos dos políticos portugueses de topo a quem estão atribuídas as maiores responsabilidades públicas não se limitam a ser bem-falantes mas primam igualmente por serem fala-baratos e mesmo vendedores de banha da cobra, faculdades que deveriam ser apenas homologadas a certos profissionais animadores de feiras e romarias e nunca a dignatários do Estado que aos feirantes fazem concorrência desleal.
Mesmo assim havemos de reconhecer que é um regalo ouvir certos artistas da palavra exibirem as suas prodigiosas verves e verborreias nos plenários da Assembleia da República. É caso para se dizer que cantam e encantam. Tanto que, mesmo quando se não percebe nada do que dizem, quem os ouve sempre fica com a percepção de que falaram bem. O que nos leva a pensar que falar bem sem nada dizer e mal fazer parece ser apanágio dos políticos portugueses em particular e dos latinos em geral.
A questão é mais séria do que se imagina, porém. Porque, muitos políticos portugueses, quando não falam só por falar, não poucas vezes lançam mão de discursos redondos, isto é, que não têm ponta por onde se lhe pegue, para esconder erros, omissões e mesmo crimes.
Senão, atentemos em três factos relevantes que agitaram a opinião pública a semana passada, começando pelos discursos que douraram a conspiração dos deputados que se mancomunaram para, à sorrelfa, gizar uma nova lei de financiamento dos partidos. Uma barracada sem pés nem cabeça, que prefigura um atentado à democracia, sobretudo grave porque foi cometido por quem foi e da forma como foi.
A que se seguiu a polémica em torno da ministra da Justiça que com despropositado e obscuro propósito publicamente fez saber que o Governo não irá reconduzir no cargo a Procuradora-Geral da República, Joana Marques Vidal, que tão bom recado tem dado de si e que tem entre mãos processos judiciais da mais alta gravidade envolvendo gradas figuras públicas de Portugal e de Angola.
O burburinho que se gerou na comunicação social e no seio do próprio partido governamental, culminou com a Oposição, tonitruante, a insinuar que o Governo pretende condicionar a Justiça para favorecer criminosos de alto coturno já indiciados pelo Ministério Público. Tudo isto faz com que muitos portugueses andem compreensivelmente desconfiados e suspeitem que o crime governa Portugal.
Entretanto, o PCP e o BE, com a violência oral que os caracteriza, mais uma vez invectivaram o primeiro-ministro acerca dos impostos que, (pasme-se!), a EDP e a GALP se recusam a pagar. E mais uma vez houve quem admitisse que era desta que a Geringonça estourava.
Mas não. O primeiro-ministro, como é seu timbre, mais uma vez falou firme e grosso e prontamente frustrou o ímpeto populista dos seus parceiros esquerdinos que, mais uma vez, meteram o rabo entre as pernas.
Falta saber se, nesta como em tantas outras situações, pese embora a veemência oratória do primeiro-ministro, não irá ficar tudo em águas de bacalhau, com a EDP e a Galp a coçarem a barriga de tanto rir à socapa.
Esta a democracia que diariamente é servida aos portugueses na bandeja da demagogia. Uma permanente peixeirada de bem-falantes, fala-baratos e vendedores de banha da cobra, quais deles os piores.
Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

O maior sucesso de todos os tempos

Esta crónica não pretende ser uma prédica religiosa e muito menos uma lição de moral. Deverá ser entendida, tão-só, como uma inócua reflexão natalícia, mais apropositada depois que esmoreceu a alegria das festas familiares, se digeriram os acepipes de consoada e se silenciou o chinfrim dos festejos da passagem de ano.
Muito se fala, hoje em dia, de sucesso e de fracasso, de riqueza e de pobreza. Os meios de comunicação social bombardeiam-nos diariamente com notícias de humanos que alcançam feitos retumbantes no desporto, no espetáculo ou na política, a ponto de os converter em seres de outro mundo, deuses (com letra pequena) do nosso tempo.
Aureolados de fama sobrenadam em dinheiro, estravagâncias e luxúria porque multidões fascinadas os vitoriam, compram produtos a eles relativos e de alguma forma os procuram imitar.
Esta poderá não ser a grande marca da besta apocalíptica mas é, seguramente, um sinal dos tempos, um estigma da Civilização vigente que constrói vidas de sonho para meia dúzia e de tristeza, desilusão e desgraça para milhões.
Civilização que cada vez mais confunde a verdade com a mentira, tudo dependendo da força e arte com que a comunicação trata as notícias. Civilização que já não separa o bem, que reduziu ao prazer, do mal, que se apropriou da liberdade.
Não é de espantar, portanto, que a mensagem de verdade, de amor e de paz de Jesus Cristo, o expoente maior da História do Humanismo e da Humanidade seja, nos tempos que correm, sistematicamente ignorada ou adulterada.
O próprio Papa Francisco se enredou num lamentável equívoco quando, numa homilia proferida em Nova Iorque há dois anos atrás, afirmou referindo-se a Jesus Cristo: “a sua vida, humanamente falando, acabou com um fracasso: o fracasso da cruz". Isto levou a que, talvez injustamente, muitos e insuspeitos seguidores de Cristo tenham acusado o Papa Francisco de ser herético.
Até eu, que nutro pelo actual Papa especial admiração e simpatia, também estou em total desacordo com ele neste ponto. Porque, mesmo se não tivermos em conta o mistério insondável da Ressurreição, Jesus Cristo ao morrer na Cruz cumpriu, gloriosamente, a Sua missão, que no Seu próprio dizer, era essa mesma: morrer para nos salvar.
Por isso, nenhum crente poderá aceitar que o Papa ponha em causa este facto de ânimo leve e muito menos sugira que Jesus Cristo não nos salvou.
Apesar de não ter sido promovido a bispo ou sido eleito Papa, não ter batido recordes, ganho qualquer prémio, tão pouco o Nobel da paz, vendido milhões de discos ou enriquecido, a vida de Jesus Cristo constitui o maior sucesso de todos os tempos. Mesmo humanamente falando.
Tanto assim é que, volvidos mais dois mil anos, acima de mil milhões de almas continuam a seguir a Sua doutrina, considerando apenas a Igreja Católica, a maior organização global que alguma vez operou sobre a Terra.
Muito embora o mal e a dor não tenham desaparecido com a morte de Jesus Cristo crucificado no Calvário, a Sua missão salvífica continua a cumprir-se hora a hora no coração daqueles que seguem os Seus ensinamentos e que acreditam que se consumará apoteoticamente no final dos tempos.
Ninguém é fracassado só porque não é rico, líder político ou campeão numa qualquer modalidade e apenas é bem-sucedido quando ultrapassa as suas limitações e bem cumpre as suas missões.
A competição fundamental de cada um é consigo próprio. É a si mesmo que cada um se deve vencer. Humanamente falando.
Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.