Henrique Pedro

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Até ao lavar dos cestos é vindima

O léxico político português está repleto de nome feios tais como aldrabão, farsante, chantagista e outros da mesma laia.

Todavia, rotular um político ganhador, que não é a mesma coisa que vencedor, com tais etiquetas é uma desnecessária necessidade porquanto o visado se ri dos adversários, interiormente

quando o não faz publicamente.

Poderá ser o caso de António Costa que acaba de alcançar alargado sucesso político com o desfecho da crise que ele próprio provocou a propósito da contagem integral do tempo de serviço dos professores e que lhe valeu adjectivos nada simpáticos dos seus opositores. Ainda mal a vitória se consumava já ele contra-atacava com o cinismo e a arrogância que são seu timbre.

Esta vitória política de António Costa é, de facto, marcante. Está na justa proporção da inépcia dos seus oponentes, incluídos os seus extremosos parceiros da Geringonça, desde a primeira hora transformada numa pandeireta dos festejos governamentais.

À Catarina Martins, António Costa, apagou-lhe as luzes da ribalta e pô-la a fazer teatro de rua. Ao Jerónimo de Sousa deixou-o só e triste, na travessa do Fala Só onde parece morar definitivamente o Partido Comunista português. Ao Rui Rio acordou-o, sarapantado, como se lhe tivesse estourado um pacote de farinha Amparo na cabeça. À Assunção Cristas mandou-a dar uma volta ao bilhar grande. Ao Mário Nogueira congelou-lhe não só o tempo de serviço mas também a ambição de ser o grande líder da extrema-esquerda revolucionária que, com o PCP e o Bloco de Esquerda, continua a ver em Cuba, na Coreia do Norte e mesmo na Venezuela, um modelo de sociedade. Até ao próprio Marcelo Rebelo de Sousa lhe meteu uma rolha na boca, faltando saber se o não terá definitivamente enfiado numa camisa-de-forças.

Esta não é, porém, a primeira vitória política em que António Costa se transfigurou no carrasco traiçoeiro dos seus adversários, não sendo necessário sequer recuar ao episódio em que defrontou o correligionário José Seguro. Mas é a primeira em que ameaçou demitir-se.

Nas demais situações perdeu estrondosamente mas foi suficientemente hábil para transformar a derrota em vitória. Deveria ter-se demitido quando perdeu as eleições para Passos Coelho mas não o fez e venceu. Deveria ter sido demitido na tragédia dos incêndios e no assalto a Tancos, mas não o foi e acabou por sair por cima. Só agora o fez porque sabia que os seus principais adversários são ineptos e pusilânimes e que seriam eles a demitirem-se primeiro dos seus propósitos.

Um grande equívoco, porém, subsiste nesta vitória passageira de António Costa e a que raros analistas deram o devido realce: o verdadeiro ganhador é Mário Centeno, a iminência parda do governo, ministro das finanças e presidente do Eurogrupo, que meteu os pés à parede e forçou o primeiro-ministro a montar o circo político que se viu.

Falta saber se a assistência gostou do espectáculo. A prova dos nove é já no próximo dia 26, data das eleições europeias. A prova real virá mais tarde, lá mais para o Outono. Só então se saberá quem ri melhor porque será o último a rir.

Até ao lavar dos cestos é vindima.

Ai se a estrelinha de Mário Centeno se apaga!

A estrela maior da Geringonça que, como se sabe, é uma coligação desconchavada, pouco fiável, embora funcional, constituída pelo Partido Socialista, de centro-direita e pelos seus satélites de extrema-esquerda (Partido Comunista, Bloco de Esquerda e Os Verdes), é Mário Centeno, ministro das finanças de Portugal que acumula com o cargo de presidente do Eurogrupo. Estrela que começou a luzir, pequenina, ao cair da tarde, quando o governo de Passos Coelho entrou no ocaso e foi aumentando de brilho até se transfigurar num pequeno sol.

De facto, é a estrela Mário Centeno que ilumina o governo da Geringonça desde que anunciou a boa nova do fim da austeridade, na alvorada duma inédita governança de esquerda. Só outra estrela, composta de ininterruptos flashes de selfies, que cintila nos céus de Belém, se lhe compara.

Ao invés a estrela meã do primeiro-ministro António Costa foi-se desvanecendo nas trevas de sucessivas tragédias, escândalos e crises, entrando em eclipse total com a recente interposição dum buraco negro partidário centrado na deslumbrada família socialista governamental.

Não admira, portanto, que assalariados, pensionistas e demais bafejados pela sorte inesperada, cedo tenham começado a incensar o ministro Centeno, a tal ponto que a maioria absoluta do partido Socialista foi, durante longos e luminosos dias, um dado adquirido.

O talentoso e sortudo ministro Mário Centeno teve o condão e o mérito de esmagar sistematicamente os melhores argumentos da inteligência financeira, economicista e política nacional e internacional, para gáudio do próprio primeiro-ministro António Costa que esfregava as mãos de contente e impava de vanglória.

Enquanto Rui Rio, seu principal opositor (ou parceiro, mais tarde se verá!) arengava aos peixes no deserto, a inefável Assunção Cristas se diluía em bravatas com António Costa e Jerónimo de Sousa e Catarina Martins, famintos de poder, se lambuzavam sofregamente com as migalhas da mesa do orçamento.

E assim foi que o taumaturgo Mário Centeno, à luz da doutrina oficial que estabelece que tudo o que de bom tem acontecido à economia nacional nos últimos tempos se lhe deve, se converteu num herói (como há poucos), num Salazar democrático (update do original).

Mário Centeno que, espicaçado pelos fariseus do PCP e do BE, com o seu sorriso afável abençoa o pão e os peixes e os multiplica para saciar as multidões esfaimadas, num ágape alucinogénio à base de pescadinhas de rabo na boca e arroz malandrinho.

É com estupefacção, portanto, que os portugueses constatam que a economia nacional não vai assim tão bem quanto Costa e Centeno fazem crer, agora que as condicionantes conjunturais externas dão sinais de não serem as mais favoráveis.

A austeridade aliviou, mas poucochinho, a dívida pública continua a ser uma bomba em potência, a economia faz que anda mas desanda e a governança socialista é um regalo. Ponto final.

Mário Centeno, hábil a baralhar e a tornar a dar, vê agora a sua estrelinha empalidecer. Resta aos portugueses fazer figas e manguitos para que não se apague de todo.

 

Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

Portuguesas e portugueses, indignai-vos!

O calendário eleitoral de 2019 contempla eleições para o Parlamento Europeu, a 26 de Maio e para a Assembleia da República a 6 de Outubro. Entrementes acontecerão as regionais da Madeira, a 22 de Setembro.

De acordo com a lei em vigor os actos eleitorais são precedidos por vistosas campanhas preambulares com datas e durações estabelecidas para que os partidos concorrentes possam mostrar a bondade dos seus programas e dissimular as suas maldades. Tal não obsta, porém, a que os portugueses sejam permanentemente massacrados por campanhas extemporâneas, conduzidas, sobretudo, pelas forças no poder.

E não é por acaso que o conhecido adágio “em tempo de guerra, mentiras por mar, mentiras por terra”, foi entretanto adaptado pelo povo para “em tempo de eleições as mentiras são aos montões”. Isto muito diz dos governantes e afins, vulgo “políticos”, que sobranceiramente servem a Nação com mentiras e mais mentiras.

Os políticos, porém, não se ficam pelos discursos. Não se limitam a mentir, portanto. Vão mais além. Também competem, destemidos, nos campeonatos nacionais do compadrio, do nepotismo, do peculato, da promiscuidade com banqueiros e capitalistas e da corrupção genericamente entendida, que parece não mais ter fim (*).

Na ordem do dia estão as excessivas e injustificadas nomeações de familiares e amigos para bem remunerados cargos públicos, com Portugal a ser objecto da chacota internacional, embora o fenómeno só agora tenha sido tornado público. É quando se zangam as comadres que se descobrem as verdades. Dessas coisas percebe o povo.

O que também explica que os escândalos maiores apenas sejam conhecidos, por norma, em tempo de campanha eleitoral quando os políticos lutam pela sua sobrevivência. Fora dela optam por ser politicamente correctos e encobrirem-se uns aos outros. Aqui o adágio deve ser lido ao contrário: quem mama não chora.

Entretanto, o Presidente da República declarou, sem pompa nem circunstância, que a ética poderá não bastar (haverá vergonha maior?!) para evitar tais delitos, mas que a lei pode ser facilmente atamancada. Já o Primeiro-ministro tentou tapar o sol com uma peneira defendendo uma urgente e peripatética revisão da mesma lei (o golpe está a doer-lhe fundo, como se vê).

 Mais fácil seria pôr um polícia atrás de cada político para lhe cobrir as costas e lhe encobrir a face já que a alma, essa, ninguém sabe em que águas de ética se banha. Presidente da República e Primeiro-ministro, desde sempre em tolerante cumplicidade, procuram apenas salvar a face e bendizer o Regime com discursos de oportunidade, inconsequentes.

Lamentável é que os portugueses apenas reclamem melhores salários e mais dias de férias quando deveriam, isso sim, aproveitar os actos eleitorais para dar um murro na mesa de voto e exigir que os políticos, de uma vez por todas, ganhem vergonha na cara e parem de desgraçar o Estado e de defraudar a Nação. Quem não se indigna nem se sente não é filho de boa gente.

Portuguesas e portugueses, indignai-vos, porra!

 

(*) O meu respeito para aqueles a quem não serve o barrete.

 

Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

 

Transmontano vota em Trás-os-Montes!

Com a constituição e ascensão da Geringonça ao poder, que tudo leva a crer se irá manter, a democracia portuguesa transfigurou-se no protótipo duma autocracia socialista, dissimulada, pervertida e, até ver, divertida.

O governo da Nação é agora dominado por uma oligarquia de famílias e compinchas, pretensa elite do partido dominante. Já nem é sequer o cartão partidário que conta mas o laço de sangue e a amizade comprometida. Igualmente sintomático é terem definitivamente congelado todas as reformas tendentes a corrigir os vícios maiores do Regime.

Entretanto, com a conivência dos partidos satélites e os delíquios epilépticos da oposição, a corrupção continua a minar a Administração Pública, a Justiça é uma bomba que ameaça implodir a democracia, a economia faz que anda mas não anda, os serviços públicos, com excepção do Fisco, andam ao deus-dará, as assimetrias regionais continuam a agravar-se e, maior de todas as desgraças, a raça portuguesa caminha inexoravelmente para a extinção.

Perigos que ameaçam a democracia mais do que os movimentos populistas genuínos que tardam a aparecer para resgate do Regime tido por patriótico, liberal e representativo. Liberal será, em demasia até, patriótico está mais que visto que o não é e representativo nunca o foi verdadeiramente.

Senão, veja-se o caso da lei eleitoral vigente que estabelece para Trás-os-Montes dois círculos eleitorais a saber: Vila Real que com cerca de 230 000 eleitores elege 5 deputados (2,17%) e Bragança que com cerca de 150 000 elege apenas 3 (1,30 %), enquanto Lisboa, Porto, Braga, Setúbal e Aveiro, por si sós, elegem mais de metade dos 230 que a Assembleia comporta.

Dizem os mais reacionários que Salazar não precisou de deputados para dotar o Interior de escolas, hospitais e fontanários. Contrapõem os situacionistas que Trás-os-Montes não tem representantes porque não tem eleitores. Certo é que todos os dias se dá pela sua falta.

Os transmontanos não são milhões mas são gente. E não são assim tão poucos quanto a actual lei eleitoral considera. Não se compreende, por isso, que a Região continue a não ter o peso político que democraticamente lhe compete.

Reformem a lei, promovam o pleno recenseamento e o voto dos transmontanos emigrados directamente nas freguesias de origem, recorrendo às novas tecnologias, claro está, e verão que o panorama muda de figura.

À falta de melhores dados, Barroso da Fonte refere que em 1984, só no grande Porto residiam cerca de 500 000 transmontanos. Acrescente-se outro tanto, no mínimo, para a grande Lisboa e muitos mais para a Europa e o Resto do Mundo (que alienígena círculo eleitoral é este?!), realçando que se trata de portugueses que continuam interessados no progresso da sua terra e, quiçá, no seu regresso.

Se assim for, os círculos eleitorais de Vila Real e de Bragança aumentarão largamente os seus eleitores e, com os deputados redistribuídos tendo em conta esta nova realidade, Trás-os-Montes ganhará mais substancial peso político, Portugal tornar-se-á mais coeso e o Regime mais representativo.

Transmontano vota em Trás-os-Montes!

 

Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

Caciquismo ao mais alto nível. O voto de cabresto

Muito badalada foi a visita triunfal do presidente Marcelo a Angola, apenas maculada pela omissão de um elementar laivo de respeito, uma palavra que fosse, para com os soldados de Portugal lá sepultados: negros, brancos e amarelos.

Nenhum político da era colonial teve recepção tão empolgante, o que só prova que a secular simpatia que liga os povos de Angola e de Portugal continua viva e que o colonialismo português não foi assim tão mau como certos vende pátrias maldizentes pretendem fazer crer, muito embora em nenhuma circunstância se deva silenciar factos históricos desfavoráveis.

O futuro das relações entre estes dois países irmãos mostra-se assim altamente prometedor. Oxalá os políticos saibam e queiram valorizar os laços históricos e culturais agora evidenciados em ambiente de independência e fraternidade.

Outros acontecimentos não mereceram, todavia, a devida atenção, apesar da importância que inegavelmente têm, com destaque para as já célebres listas eleitorais de António Costa e de Rui Rio, um tema recorrente que bole com a própria essência da democracia.

Listas que dariam fitas emocionantes se um qualquer Spielberg ousasse levar tais histórias à cena, parodiando A Lista de Schindler que, como se sabe, é um filme norte-americano de 1993 sobre Oskar Schindler, um empresário alemão que salvou a vida a centenas de judeus vítimas do Holocausto, com o argumento de que seriam mais úteis nas suas fábricas.

É por demais óbvio que António Costa e Rui Rio não elaboram listas para salvar judeus das câmaras de gás. Bem pelo contrário, escolhem, a dedo, os mais fiéis servidores para terem a certeza de que o partido os não ejecta a eles, seguros que estão de que o crédulo e pacato povo português não se amotina no campo de concentração em que o mantêm encurralado, fustigado pela corrupção e pela falsidade política. Nada lhes garante, todavia, que a bomba da Justiça não lhes estoure nas mãos quando menos se espera e que o Regime não entre em parafuso.

Quanto ao PCP nada se sabe, o secretismo é total. As suas listas são atiradas para a opinião pública prontinhas a ser impressas nos boletins de voto, depreendendo-se que são elaboradas em paz e harmonia, com inspiração do espirito santo marxista-leninista. O BE e o CDS também não têm dado nas vistas pelas mesmas ou por outras razões. Não é o caso do PS e do PSD, pedras de amolar da democracia, em que os amuos, as desforras e traições são públicas e notórias.

O problema fundamental, porém, não está na batalha campal em que os machuchos de PS e do PSD se engalfinham. Reside no facto das listas serem cozinhadas pelos directórios respectivos nas costas dos eleitores em geral e dos militantes em particular, o que constitui uma verdadeira afronta aos mais elementares princípios democráticos.

A isto os brasileiros chamam, ironicamente, voto de cabresto porque, à partida, os caciques partidários amarram os eleitores a quem eles muito bem entendem. Trata-se duma forma de caciquismo ao mais alto nível, portanto.

Esta a principal razão pela qual a maioria se abstém.

 

Este texto não se conforma com o novo

Acordo Ortográfico.

Deus (Esquerda), Pátria (Partido), Família (Clã)

Contrariamente ao que muitos possam pensar a tríade Deus, Pátria, Família, divisa do chamado Estado Novo, não é da autoria de Oliveira Salazar mas de Afonso Pena, político brasileiro filho de pai português, que foi o 6.º presidente do Brasil, entre 1906 e 1909, muito tempo antes, portanto.

Diga-se, em abono da verdade, que Afonso Pena, contrariamente a Oliveira Salazar, não se limitava à trilogia Deus, Pátria e Família. Acrescentava-lhe um quarto elemento: Liberdade.

Com a implantação da democracia liberal em 25 de Abril de 1974, que é tudo menos representativa (os transmontanos que o digam), aquela fórmula ideológica foi definitivamente posta de parte, como se sabe, passando a reinar a regra 3D: Democratizar, Descolonizar, Desenvolver, sendo que, até ver, apenas a descolonização, se cumpriu, bem que mal, continuando em aberto a verdadeira democratização e o pleno desenvolvimento.

O primeiro-ministro António Costa, que teve suficiente engenho e arte para pôr a Geringonça a voar qual caranguejola e fazer valer um governo excêntrico, é senhor dum estilo peculiar e dum pensamento político próprio que faz lembrar Afonso Pena, inspirador do Integralismo do também brasileiro Plínio Salgado e onde Oliveira Salazar também foi beber, mais liberdade menos liberdade, a célebre divisa Deus, Pátria, Família.

Para António Costa, Deus é a Esquerda, com todos os seus credos e seitas, a Pátria é o Partido Socialista, tout court, e a Família o Clã de que é tutor e que os melhores dicionários definem como o conjunto de famílias que pertencem à mesma tribo, ou à mesma casta, se nos valermos do hinduísmo.

Este ideário político de António Costa ganhou mais força com a recente remodelação governamental, em que o peso das famílias, dos amigos e dos amigos dos amigos no aparelho de Estado passou a ser determinante, como se os problemas do país pudessem ser resolvidos lá em casa, à hora do jantar.

Não se contesta a licitude de um ou mais governantes possuírem laços de parentesco sejam eles quais forem. Reprovável será, em qualquer caso, se for o nepotismo a determinar a nomeação para cargos governamentais. É aqui que justas interrogações se levantam porque, lamentavelmente, a governança de António Costa está recheada de amigos e correligionários cuja competência nunca antes foi posta à prova e que acabaram por fazer tristes figuras nas situações mais dramáticas.

É óbvio que ninguém é competente só porque é amigo do primeiro-ministro, que não há uma casta superior, bramânica, no partido socialista e muito menos famílias superdotadas.

Talvez o primeiro-ministro, nas actuais circunstâncias, só tenha encontrado pessoas disponíveis para integrar o governo, com plena responsabilidade, no seu círculo mais íntimo de fiéis. Preocupante, mesmo assim, será pensar que, caso Antónia Costa ganhe as próximas legislativas, com ou sem maioria absoluta, inevitavelmente irá aprofundar o lema Esquerda, Partido, Clã, com as consequências desastrosas que já se adivinham.

É por estas e por outras que o primeiro-ministro António Costa, que andou a semear ventos e ilusões, colhe agora tempestades e frustrações.

 

Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

O ilusório projecto do Vale do Tua

O empreendimento hidroeléctrico da foz do Tua não foi projectado para servir as populações e a região mas para que uma poderosa companhia privada dele pudesse retirar o máximo proveito.

Não é de estranhar, portanto, que decorrida mais de uma década desde que a mítica linha de comboio foi desativada, o projecto marginal de desenvolvimento do vale do Tua, que os políticos penduraram na barragem, continue a marcar passo. Isto significa que estamos perante um reiterado fracasso, por mais que os poderes envolvidos tentem fazer crer o contrário.

As derradeiras esperanças empurram-nas agora para a Mystic Tua, a novíssima empresa do conhecido empresário Mário Ferreira que se propõe trazer milhares de turistas qualificados e salvar tão peregrino projecto.

Não admira, portanto, que em vésperas de eleições europeias, Pedro Marques, ministro do Planeamento e cabeça de lista do partido no poder já em pré-campanha eleitoral, tenha vindo a Vila Flor e Mirandela abrilhantar a assinatura dos papéis relativos a tão vistoso empreendimento.

É de prever que, lá mais para o Verão, agora já em vésperas de eleições legislativas, o primeiro-ministro, ou alguém por ele, também venha a Mirandela cortar a fita do primeiro comboio turístico que alegremente assobiará melodias aos eleitores.

Mais uma vez, acenando agora com milhares de turistas que poderão vir, ou não, de barco, de comboio, de autocarro, por terra, por mar ou pelo ar para animar hotéis, empresas e mercados inexistentes, se tentará esconder que o desenvolvimento de toda a região transmontana continua a ser um fiasco intencional.

Todos desejamos que, o mais breve possível, se conclua que são necessários mais barcos rabelo a navegar na albufeira, mais carruagens a corrupiar na linha e não apenas nos meses de Verão e que uma onda de progresso irradie de Mirandela para todo o Trás-os-Montes.

Até ver, porém, a barragem da foz do Tua não passa de um espinho cravado na garganta dos ambientalistas que, impotentes, viram as suas mais justas reclamações inexoravelmente afogadas no vale que, na sua pureza virginal, possuía por certo, potencialidades geomorfológicas, biológicas, agrícolas, ambientais e turísticas tão ou mais valiosas do que aquelas que agora prometem.

Mais grave, contudo, será se as populações ribeirinhas que já viram os seus habitats ancestrais cerceados e desvirtuados e a suas economias familiares prejudicadas continuarem a ser desrespeitadas o que porá em causa a competência e a utilidade da Agência de Desenvolvimento Regional do Vale do Tua e das instituições públicas e privadas responsáveis por tamanho imbróglio e que são mais de dez.

Ainda assim, o pior do projecto em apreço está no desastroso condicionamento que provoca ao tão sonhado aproveitamento global e integrado das águas e campos, não só do vale do Tua, mas de toda a sua vasta e fértil bacia hidrográfica, considerando os afluentes Tuela e Rabaçal e inúmeros tributários menores, que constituem a coluna vertebral da chamada Terra Quente.

De palpável, até ver, apenas há papeis assinados e um comboio que faz que anda mas não anda.

E, já agora, um emblemático edifício arruinado, bem no coração de Mirandela, à espera dos turistas que, ao que parece, só eles o poderão salvar do colapso.

 

Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

Trás-os-Montes fora do Plano e do Mapa

Importa saber o que é que os políticos pensam de Trás-os-Montes para se compreender o desprezo a que votam esta região ancestral que muito embora não tenha petróleo nem praias, nem seja viveiro de votos, tem muito mais que isso.

Regra geral todos eles parecem ter chouriças no lugar das circunvoluções cerebrais pois estão convencidos de que nada mais se aproveita em Trás-os-Montes para lá do fumeiro, em particular da alheira de Mirandela, do presunto fumado de Montalegre ou o do salpicão de Vinhais.

A direita mais azeiteira valoriza, naturalmente, o azeite da Terra Quente com que se tempera o bacalhau muito embora este não seja, até ver, pescado nos rios transmontanos. Digo até ver porque é certo e sabido que os chineses, que já são donos de grande parte do território desde que compraram as barragens ao preço da uva mijona, mais dia, menos dia acabarão por montar viveiros do “fiel amigo” nas albufeiras de Miranda ou de Picote. Vislumbro aqui uma réstia de esperança, perdão, de alhos, queria eu dizer.

Já a esquerda democrática mais matarruana entende que o folar de Valpaços e os pastéis de Chaves, regados com vinhos de Murça e de Favaios, geram maiores ganhos eleitorais em festas e romarias, pelo que devem ser estes produtos privilegiados.

Quanto à esquerda pseudodemocrática, a tal que apenas respeita a democracia quando e enquanto lhe convier, agastada com o carácter positivamente reacionário dos transmontanos, cedo se desapegou de Trás-os-Montes, sobretudo desde que deixou de haver searas a ondular ao vento e ceifeiras a cantar.

Finalmente, para os deputados e autarcas locais Trás-os-Montes não passa duma coutada na qual caçam votos com fidelidade canina, (sem ofensa já que tenho o maior afecto e respeito pelos meus cães), a mando dos donos que lhes assobiam desde Lisboa.

Vem isto a propósito da notícia de que Trás-os-Montes ficou fora do Plano Nacional de Investimento 2030. Quer dizer: até 2030 os transmontanos vão continuar a espreitar o futuro por um canudo. Melhor dizendo: o povo transmontano, ordeiro e pacato, está condenado a cavar hortas e a pastar sonhos e carneiros durante mais uma longa e obscura década.

Surpreendentemente foram os autarcas da Comunidade Intermunicipal de Trás-os-Montes que levantaram a lebre. Honra lhes seja feita.

Congraçaram-se, tiraram fotografias, expressaram o seu descontentamento politicamente correcto mas, não tarda, voltarão a vestir os pijaminhas laranja e cor-de-rosa e continuar a dormir à sombra das frutuosas árvores partidárias. Melhor fora que tivessem ficado quietos e calados.

Entretanto o primeiro-ministro, com o cinismo que é público, declarava no acto de assinatura da empreitada para a requalificação do IP3 que o “país não se pode lembrar do Interior apenas no Verão, quando há incêndios”. É preciso ter lata!

E diz ele que anda obcecado com Portugal do qual, como se vê, arredou definitivamente Trás-os-Montes, que nem Interior considera sequer, porque ele mesmo o tirou do plano e do mapa.

Será que o move um sentimento de racismo para com os transmontanos!?

 

Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

A Queda dum Anjo

Entre Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa, eclético alfacinha com fundas raízes em Terras de Basto, e Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas, transmontano dos quatro costados que saiu de Caçarelhos, já em mil oitocentos e picos, para assumir o papel de deputado em Lisboa, onde se deixou corromper por luxos e prazeres, não há a mais ínfima semelhança, note-se bem.

Marcelo Rebelo de Sousa continua a merecer a imagem de homem impoluto, sóbrio, nada dado a vaidades e devotado às grandes questões sociais dos nossos dias. Mas é aqui que a porca torce o rabo.

A Lisboa actual conserva aspectos idênticos, sobretudo no que ao abandalhamento da democracia diz respeito, aos versados em 1866 pelo genial Camilo no seu romance satírico “A queda dum Anjo”, que caricatura a vida social e política portuguesa daquele tempo. Hoje até nem lá faltam transmontanos finórios, mal-afamados, que deixaram a pureza das berças para aprimorar as suas competências na desnorteada capital.

Para muitos compatriotas que o elegeram Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa continua a ser um verdadeiro anjo, se bem que esteja em queda acentuada, como as sondagens o demonstram, desde que se consolidou como uma figura popularucha, beijoqueira, verdadeiro papa beijos.

O homem exagera, é voz corrente, como ainda aconteceu recentemente com o telefonema de viva voz que teve o desplante de fazer a uma conhecida e astuta figura mediática.

O problema não está tanto na excessiva exposição mediática ou na matéria foleira que alimenta programas televisivos e revistas cor-de-rosa. Está, sobretudo, na consequente perda de autoridade política e no aligeirar da dignidade institucional a que um Presidente da República jamais se deve arriscar.

Não se contesta que Marcelo Rebelo de Sousa procure ser amado pelo seu povo. Em nenhuma circunstância, porém, deve ser objecto de chacota pública, deixar de se fazer respeitar, sobretudo pela classe política que, como se sabe, tem especial apetência pelos cínicos jogos de poder.

Marcelo Rebelo de Sousa pode até pretender ser, o que só lhe fica bem, um émulo do bondoso padre Cruz que calcorreava as ruas de Lisboa para valer aos mais pobres e infelizes. (Pena é que atitudes idênticas não as tenham o Cardeal Patriarca, por exemplo, e todos os clérigos, mais votados que andam, ao que parece, a discutir o sexo dos anjos, ou diabos, sabe-se lá).

O afã e cordialidade com que Marcelo Rebelo de Sousa se devota à causa pública são deslumbrantes. Tanto que ele parece nem se dar conta de que está a pisar o risco que separa o populismo mais saudável da perigosa subversão do principal órgão de soberania, que a sua verborreia e mediatismo doentio estão a entorpecer a opinião pública, a encobrir os males do Regime, a postergar reformas urgentes, a branquear as falhas graves do governo e a desacreditar, ainda mais, o discurso político.

A queda do anjo Calisto deveu-se aos luxos e prazeres. A do anjo Celito ao populismo bacoco e risível. Que se cuide.

 

Este texto não se conforma com o novo

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Mundanidade e Mundialização

As passagens de ano, mesmo se olhadas como simples mudanças de calendário e ainda que motivem estrondosos divertimentos, propiciam boas oportunidades de reflexão. Queiram fazer o favor de reflectir, pois então.

O leitmotiv fundamental da Humanidade foi, até hoje, a procura de um cabal entendimento do mundo e da vida, angústia que se projecta num Criador, inato, que os crentes pressentem que existe mas que os ateus categoricamente descartam e os agnósticos enjeitam por estenderem que tais fenómenos metafísicos não estão ao alcance da Razão.

Em qualquer caso é ambição inconfessa do homem converter-se um dia, por força da ciência ou do espírito… sabe-se lá… já não no dono da Terra mas no senhor do Universo, nesse Ente Todo-poderoso que, caso não exista, passará ele próprio a sê-lo.

Certo é que a Humanidade tem vindo a progredir pela positiva, empurrada por forças que lhe são estranhas ou puxada por algo que lhe é superior. Esta será, no entendimento de Teilhard de Chardin, a questão essencial.

Também se diz que só os místicos chegam a Deus por via da Iluminação, no silêncio contemplativo e com práticas piedosas. Já os cientistas, os empreendedores e sobretudo os políticos, esses, ao que consta, por mais que inovem, empreendam e governem nunca até hoje Lhe viram a face. Bem pelo contrário: amiúde soltam o diabo como a História sobejamente ilustra.

É esta já longa aventura que agora parece abeirar-se do paroxismo. A ciência, a tecnologia e a indústria todos os dias nos brindam com feitos retumbantes, mas a Humanidade, paradoxalmente, mais se afunda num pântano caótico sem precedentes, composto de guerras, misérias e crises sociais e ambientais incontroláveis que, na visão mais pessimista, poderão descambar na devastação total do planeta e no extermínio do próprio homem.

Em curso estará uma imparável catástrofe planetária, que não será apenas ambiental mas é sobretudo moral e humanitária. O homem de hoje anda, por isso, ensandecido, ao sabor das modas e das redes de comunicação sem que saiba quem verdadeiramente mexe os cordelinhos e com que propósitos. Cada dia se torna mais difícil distinguir a verdade da mentira e separar o bem do mal já que a verdade passou a ser tudo que em determinado momento se mostrar útil e o bem apenas aquilo que no imediato dá prazer, ainda que a prazo traga dor e miséria. Os vícios passam por virtudes e a violência é pão nosso de cada dia.

A emergente nova Humanidade será, por certo, amoral, amestrada, robotizada e dominada por ditadores sinistros que controlam tenebrosas máquinas de guerra ou manuseiam sub-reptícios tentáculos financeiros.

O ser humano deixou de ter na procura de Deus, arquétipo do Bem, a sua motivação principal e passou a promover o diabo por todos os meios e formas.

Entrámos definitivamente na era da Mundanidade, funesta deformação da Mundialização, sem que saibamos quando e como dela nos vamos libertar.

Resta-nos a esperança de que entre mortos e feridos alguém se há-de salvar.

 

Este texto não se conforma com o novo

Acordo Ortográfico.