José Mário Leite

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PARTIS - (Arte e Inclusão)

No próximo mês de Julho a Fundação Gulbenkian vai lançar mais uma edição do Programa PARTIS (Práticas Artísticas para a Inclusão Social). Este programa pretende promover e valorizar cidadãos socialmente excluídos ou em estado de vulnerabilidade social, recorrendo a práticas artísticas. Nas edições anteriores foram vários os projetos apoiados, alguns com relevância pela força que trazem e, sobretudo, pelo meio onde se inserem.

Nos vários projetos da primeira edição chamam a atenção, entre outros, a Ópera na Prisão que ocupou 50 jovens  dos 16 aos 25 anos da prisão escola e estabelecimento prisional de Leiria; Mãos que cantam que ousou integrar 25 alunos surdos num coro em Oeiras; Dormem mil gestos nos meus dedos para ajudar na aprendizagem da Língua Portuguesa, como forma de integrar refugiados apoiados pelo CPR (Conselho Prtuguês para os Refugiados);

Na segunda edição, a decorrer merecem relevo o Projeto Zéthoven – Plante um Músico destinado a crianças provenientes de famílias carenciadas das zonas da Covilhã, Fundão e  Guarda;  Fado Dançado que recupera, em bairros da região metroplitana de Lisboa, uma tradição do século XIX, com jovens provenientes dos PALOP; o projeto Tum, Tum, Tum coloca nas mãos de desempregados e de crianças e jovens em risco, de Gondomar, instrumentos musicais de percussão feitos de materiais reciclados e ainda  Dormem mil cores nos meus dedos igualmente com refugiados entre os 14 e os 18 anos, na sequência de um projeto da edição anterior.

Não querendo fazer quaisquer comparações valorativas, não posso deixar de relevar e chamar a atenção para o significado que tem para a nossa terra o projeto Há festa no Campo, da primeira edição e que fomentou o sentimento de pertença das populações envelhecidas das aldeias de Juncal do Campo e Freixial do Campo, em Castelo Branco.

 

Apesar do elevado número de apoios, as solicitações são muito mais. Na última edição “apenas” foram selecionados 16 das 160 candidaturas, pelo que a qualidade e adequação destas últimas é crucial para poder aceder ao financiamento. Tendo-se circunscrito às grandes áreas urbanas, nos anos anteriores, a Gulbenkian pretende estender os projetos ao interior do país. Para tal uma delegação da instituição da Avenida de Berna vai a Bragança brevemente. No próximo dia 12 de junho, entre as 10h00 e as 12h30 no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, com a colaboração, apoio e empenho do seu Diretor, Dr. Jorge Costa, será apresentada a próxima edição desta iniciativa.

As várias e boas instituições de solidariedade do distrito, as vereações com o pelouro do apoio social das Câmaras Municipais e a sociedade civil, em geral, terão tudo a ganhar se na terça, dia 12, rumarem à Rua Abílio Beça, nas imediações da Praça da Sé para escutarem e perceberem bem os objetivos e, sobretudo, a melhor forma de concorrerem a mais esta iniciativa. Independentemente dos resultados futuros, só pela apresentação com que serão brindados, já não darão o tempo por perdido.

 

INFEÇÕES HOSPITALARES

Na última viagem ao nordeste, estando bom tempo, fomos dar um passeio pela Vilariça e acabámos por encontrar e colher alguns espargos. Fomos logo à procura de mais. “Querida, vê além naquela espargueira grande, junto ao toro da oliveira” disse eu para a minha mulher. Por acaso não havia lá nenhum e, pelo contrário, encontrámos meia-dúzia deles por entre os seixos de uma velha parede. Não havia, mas era, seguramente grande a probabilidade que houvesse e por isso era correto procurá-los ali. Normalmente haverá mais espargos onde houver uma grande concentração de espargueiras.

O mesmo se passa com as infeções. Se alguém, por absurdo, pretendesse contrair uma infeção, o melhor lugar para a procurar seria, obviamente, num hospital. Porque é nos hospitais que se encontra o maior aglomerado de agentes patogénicos e, como tal, a probabilidade de ali se encontrar o “caldo” favorável e adequado para se ser infetado é enorme. A “auxiliar” este ambiente propício à contração de uma doença está o facto de os utentes destes espaços estarem, na sua generalidade, fragilizados por outras doenças e, muitas vezes, com o sistema imunitário debilitado. Paradoxalmente, os utentes procuram estas unidades com o objetivo oposto de melhorarem a saúde, debelarem moléstias e protegerem-se contra epidemias e demais riscos biológicos. Daí a importância do Projeto “STOP Infeção Hospitalar” idealizado, desenvolvido e implementado em 12 unidades hospitalares sob a direção da Fundação Gulbenkian e com o apoio da Direção-Geral de Saúde.

No passado dia 7, no Auditório 2 daquela Fundação foram apresentados os resultados com a comclusão da primeira fase em cerimónia onde, para além da Presidente do Conselho de Administração da FCG, estiveram o Ministro da Saúde e o Presidente da República. Os resultados ultrapassaram as melhores expetativas do ambicioso objetivo de redução em 50% em quatro tipos de infeções hospitalares (as diminuições foram de 51% nas infeções associadas a cateter vesicular e nas pneumonias relacionadas com a intubação, 55% nas cirurgias de prótese da anca e joelho e 56% nas ligadas ao cateter vascular central). No final foi assinado um protocolo com o Governo para continuar,  e consolidar esta iniciativa e alargá-la a outras unidades de saúde. Tendo o mais alto magistrado da nação reconhecido a gravidade do problema em questão, foi o titular da pasta da Saúde que constatou que “Nunca Portugal tinha alcançado resultados tão positivos numa batalha como esta”.

Este foi um dos programas que, desde o início, atraíram a minha atenção, não só pela importância, pelos intervenientes, mas, sobretudo, por entre as unidades escolhidas estar, desde a fase de arranque,  o Hospital de Bragança. Tive o prazer de cumprimentar, nesse mesmo dia à entrada da Conferência, no átrio do foyer do Grande Auditório, Carlos Vaz, presidente da ULSNordeste, e Eugénia Parreira, Diretora Clínica da mesma unidade. No dia seguinte em conversa com Jorge Soares, coordenador do programa, soube, com enorme satisfação, que a Unidade Brigantina tinha tido um dos melhores desempenhos. Estou certo que, a partir de agora, nos hospitais nordestinos, os utentes e os profissionais estarão muito mais protegidos e seguros, também no que às infeções hospitalares diz respeito. 

LEGADO DO TIO SAM

A Base das Lajes traz-me de imediato à memória a célebre cimeira que carimbou a polémica e injustificada decisão de invadir o Iraque que fomentou e potenciou a escalada do radicalismo islâmico cujos efeitos nefastos estão ainda a atormentar-nos e a infernizar o dia a dia da atualidade. Dos participantes nessa reunião de má-memória, começa a ocupar-se o tempo, com o esquecimento que a história reserva a muitos dos seus menores atores e a irrelevância crescente dos que não souberam dar adequada dimensão às oportunidades que lhes foram disponibilizadas. Do terreiro ocupado pelas tropas americanas na Praia de Vitória, há agora que cuidar da contaminação ali perpetrada ao longos dos muitos anos de ocupação militar. E já não seria pouco para tão mitigadas “compensações”. Há, contudo, neste acordo de parceria com o outro lado do Atlântico, um “pequeno pormenor” em que o displicente interesse norte-americano pode, mais uma vez, representar um sério e grave prejuízo para os interesse lusitanos e para os superiores interesses nacionais.
Entre outros, um dos resultados das trapalhadas, incompetência e submissão ao poderoso loby das armas, do presidente Bush-filho, foi a infame prisão de Guantanamo, que o mesmo se encarregou de fazer ocupar por vários acusados, justa ou injustamente, de atos de terrorismo, fosse na sua execução, conceção ou cooperação. Não tenho pretensão de julgar quem quer que seja, muito menos, quem foi preso ilegalmente e mantido em cativeiro de forma desumana, mesmo que assumindo que possam ter cometido todos os crimes que lhe são imputados. Contudo tal não me pode impedir de ter as minhas convicções. Tenho para mim que a maioria dos ocupantes do presídio americano em solo cubano são radicais islâmicos ou porque já o eram quando ali foram retidos ou porque se radicalizaram fruto da revolta contra os seus captores e da convivência com muitos extremistas.
Barack Obama foi eleito a prometer encerrar a célebre prisão. O máximo que conseguiu foi dispersar parte dos prisioneiros por países amigos. Companheiros, desde o referido almoço da ilha Terceira em que o nosso primeiro-ministro de então resolveu ser anfitrião em nome e a mando do dirigente ianque, tocou-nos em sorte receber um dos encarcerados a quem foi concedida a “libertação”. Em agosto de 2009 foi acolhido em Portugal, Moammar Badawi Dokhan, capturado em 2002, sob a suspeita de pertencer à Al-Qaeda do Afeganistão. Desde então reside no nosso país, vigiado de perto pelas autoridades policiais portuguesas. Foi uma dor de cabeça para o DCIAP receoso que o sírio pudesse protagonizar alguma ação terrorista quando da visita do Papa a Portugal no ano passado levando em boa conta a revolta pela situação em que se encontra, revelada pelo próprio, numa entrevista ao Diário de Notícias.
Confio que o patrulhamento das autoridades policiais será eficaz, sem deixar de referir o custo acrescido da vigilância especial que lhe é dedicada. Não quero crer que possa haver um atentado no território português levado a cabo pelo ex-preso. O custo da possível perda de vidas é de um valor incomensurável, não havendo forma de o medir pelo que nem me atrevo a equacionar.
Contudo a simples existência de um possível gérmen de uma célula terrorista pode, só por ser possível, como esta é, configurar um prejuízo de uma dimensão enorme! Portugal atravessa uma fase positiva de desenvolvimento quer ao nível económico quer, sobretudo, ao nível de emprego. Um dos principais motores é, sem qualquer dúvida, o turismo. É verdade que temos bom tempo, simpatia, boa comida e bom acolhimento. Sempre tivémos. Não houve acréscimos significativos nem em termos absolutos, nem relativos. Aconteceu que muitos dos destinos tradicionais perderam ou viram diminuir drasticamente a segurança para pessoas e bens, enquanto que em Portugal se manteve. E esse sim é, provavelmente, o maior e mais precioso ativo lusitano. Perdê-lo ou diminui-lo teria consequências dramáticas!

Celso Matias e a Partex

Ainda não se calaram todas as vozes que clamam que a alienação da empresa criada por Calouste Sarkis Gulbenkian representa um desvio inaceitável, ou pelo menos exagerado, da missão confiada à Fundação com o seu nome. É verdade que a Partex tem representado, ao longo dos últimos sessenta anos, não só uma das principais fontes de receita para o financiamento das suas atividades como, igualmente, um estabilizador no meio da instabilidade constante que envolve os restantes investimentos vulgarmente agrupados no que se convencionou chamar de "carteira". E se esta, ao que já é sabido, este ano teve um  bom desempenho, outros houve em que a "volatilidade" do mercado trouxe prejuízos consideráveis com reflexo imediato no valor total da fortuna. O Conselho de Administração já deu provas de ter o assunto muito bem estudado e estar a conduzi-lo com todo o cuidado e precaução. Não deve ser, pois, uma preocupação para mais ninguém. Não há nada escrito, no testamento do fundador sobre o destino futuro da petrolífera. O essencial do "caderno de encargos" do senhor Calouste pode ser traduzido em duas ideias base: a perpetuidade da Fundação e a prossecução de quatro fins estatutários: arte, educação, ciência e benemerência. Sendo essa uma preocupação constante do CA, não há, na alienação em curso, nada que possa colocar em causa a sua manutenção e execução total e completa.
Mesmo sendo certo que a importância relativa, na sociedade portuguesa, já foi muito superior à atual, também é verdade que a principal fundação lusitana continua, a ser brindada pela população com elevadíssimos índices de apreço e aprovação como o demonstram estudos recentes. A imagem da Gulbenkian nunca foi afetada pelas crises nem pelas opções de gestão, independentemente das polémicas que algumas tenham proporcionado. Porque no seu código genético, a "embrulhar" a marca de qualidade, competência, generosidade e disponibilidade, patentes desde o ato fundador, está a gratidão, gravada pelo seu patrono, logo à nascença. A Gulbenkian é generosa e grata para todos os que a servem com dedicação e lealdade e isso traduz-se na reciprocidade de todos os seus beneficiários sejam, utentes, parceiros ou colaboradores. Celso Matias é mais um exemplo recente, entre muitos outros, de alguém que, tendo-se reformado depois de largos anos de atividade profissional na Avenida de Berna, não hesitou em colocar toda a sua capacidade, tempo e outros recursos, ao serviço da antiga entidade patronal para levar ao melhor porto a preciosa ajuda no apoio às martirizadas populações vítimas dos incêndios de verão.
A generosidade e gratidão com todos aqueles com quem se relaciona, sejam colaboradores, parceiros ou beneficiários, que lhe foram legadas pelo seu instituidor, representam, tendo em vista o cumprimento da vontade testamentada, um ativo de valor muito superior ao da Partex ou do desempenho da carteira.

O factor P

Um dos temas quentes da atualidade, prende-se com a forma como o Facebook foi usado pela empresa britânica Cambridge Analytica para ifluenciar as últimas eleições presidenciais americanas. A partir deste caso choveram críticas, gritos de revolta, sinais de alarme, declarações inflamadas, rasgamento de vestes e anúncios apocalíticos, sobre o risco de morte da democracia. À mistura com muita verdade, verdadeira reflexão sobre o papel das redes sociais e denúncia de metodologias desapropriadas veio igualmente muita demagogia, falsa indignação e hipocrisia, de politólogos, comentadores e, sobretudo, políticos. Estamos a falar de quê? Ao que parece uma empresa de marketing vendeu os seus serviços à campanha de Donald Trump tendo em vista contribuir para a vitória nas respetivas eleições. Esta, no âmbito do trabalho que lhe foi encomendado, estudou o universo eleitoral e preparou uma série de ações destinadas a influenciar o sentido de voto dos oponentes, sobretudo o dos indecisos. Um dos casos relatados tem a ver com a contratação de última hora de um anúncio na Google Ads para que uma notícia favorável ao magnata surgisse em primeiro lugar sempre que alguém pedisse ao motor de busca, informações sobre a guerra no Iraque (“Hilary votou a favor, Trump opôs-se-lhe”). Este anúncio só foi possível porque a campanha da senadora que tinha reservado o espaço na gigante tecnológica, desistiu do mesmo por estar confiante na vitória. Afinal o “crime” da consultora terá sido o de aproveitar uma oportunidade rejeitada pelos democratas. 
Não se limitou a esse aproveitamento fortuito e providencial. Terá igualmente cozinhado e divulgado notícias em que o papel do seu candidato era exageradamente exaltado por contrapartida da depreciação da sua oponente. Vejam só! E, pasme-se, para além disso, adequou a mensagem ao perfil conhecido dos destinatários. Essa agora! O que é que isto tem de inédito? Ah, já sei, tudo isto baseado num algoritmo científico! Bom, em boa verdade isso é novo! “So what”? 
Consta ainda que foram recolhidos dados de quase cinquenta milhões de utentes do Facebook para construir os vários perfis e, com base nisso, estratificar o público alvo de forma a melhor personalizar e dirigir a mensagem pretendida. A classe política entrou em pânico: estão a destruir a Democracia! Se estudar o universo eleitor (ou parte dele) e moldar o discurso ao que é esperado e suposto agradar aos ouvintes é a sentença de morte do regime democrático... então a condenação não é de agora!
Ah, mas a recolha de informação foi feita, recorrendo às redes sociais e sem o devido consentimento explícito. Pois. Sem o consentimento, mas não sem o conhecimento, a menos que fôssemos ingénuos! Quem quer que seja que navegue no ciberespaço não deve ignorar que a cada clique, a cada like, a cada comentário, a cada publicação, a cada partilha, a cada recusa, está a dar sinais claros do que é, do que gosta, do que detesta, do que o identifica, do que o diferencia e até do que pensa, apoia ou rejeita. Mas não é só quando “navega” nas redes sociais. Igualmente quando viaja com o GPS ligado, quando reserva um hotel ou uma viagem de avião, quando telefona de um telemóvel, quando paga a crédito, quando levanta dinheiro ou quando muda de canal de televisão. Quando usa a tecnologia atual ao seu dispôr (e que a pouco e pouco invade total e inevitavelmente a vida de cada um) está a definir um percurso e uma opção de vida, está a esculpir uma identidade. Que não haja qualquer ilusão: do outro lado do ecrã olhando para esta movimentação, recolhendo esta exposição, tratando-a em conjunto (e em particular se tal for adequado) estão, já há muito tempo, grandes corporações digitais desde a Google, à Apple, passando pela Amazon e Facebook. E é por isso que dominam o mercado e apresentam valores estratosféricos de Goodwill. 
O facto novo é apenas este: a possibilidade de conhecer, estratificar e manipular a opinião deixou de ser um exclusivo da classe política. Será talvez isso que tanto os perturba, mas não há nada a fazer. O velho caciquismo tem agora novas formas e novo paradigma: chama-se fator F. Amigos, familiares, apoiantes e seguidores (em inglês friends, family, fans and followers) são quem mais condiciona a opinião de cada um.
E, cada vez mais vai ser assim, já que é assumido que em 2025, mais de 90% da população mundial estará conectada, gratuitamente, à Internet. 

A TORRE DE TATLIN

A que ficou conhecida como Torre de Tatlin não passou de um projeto do arquiteto e pintor russo Vladimir Tatlin. Nunca foi construída.  Era um monumento revolucionário em ambos os significados do termo, seja o real, seja o figurado. Por um lado era composto por elementos que rodavam sobre si mesmos em movimentos cíclicos de diferentes velocidades, que a seguir descreverei, e, por outro lado, pretendia celebrar a Revolução de Outubro de 1917 e as alterações sociais em curso, na terra dos sovietes. Deveria servir de sede à Terceira Internacional que, no entender dos intelectuais e revolucionários russos, haveria de estabelecer uma nova ordem em todo o mundo, a partir das margens do rio Neva em Petrogrado.
A projetada construção era constituída por uma dupla espiral metálica, antecipando a forma adotada pelo DNA de todos os seres vivos, recordando a escada espiralada do castelo Chambord, projetada por Leonardo da Vinci e assemelhando-se ao minarete da Grande Mesquita de Samarra que, por sua vez, se terá inspirado na bíblica Torre de Babel.
Segundo o projeto do seu autor, integrado no movimento construtivista (que viria a ser perseguido pela corrente do realismo socialista, imposta por Estaline), no interior da formação helicoidal seriam construídas quatro estruturas diferente, que rodariam, continuamente e a velocidades diferentes. A maior de todas, na base, um cubo, rodaria de forma a perfazer uma volta completa num ano. Logo a seguir, uma pirâmide, demoraria um mês a rodar sobre si própria. Um cilindro iria consumir um dia para fazer uma rotação. Mais rápida seria a esfera do topo cujo tempo de rotação era de apenas uma hora. Estes espaços cinéticos teriam funções diferentes sendo o primeiro dedicado às atividades legislativas, o segundo às executivas e o terceiro à informação. A última iria servir para albergar um ecrã de projeção de onde emergiriam a antena duma estação radiofónica. Elevadores elétricas estariam encarregados de ligar todos estes corpos e, também eles, com velocidades diferenciadas, asseguravam o funcionamento de todo o edifício e facilitavam as intercomunicações.

Há quem ainda veja no magnífico projeto uma alegoria ao grande relógio cósmico que replicava, nas suas diversas revoluções, os movimentos terrestres e a cadência dos signos do zodíaco. Outros relevam a harmonia dos movimentos de rotação dos sólidos interiores semelhante ao novo processo revolucionário em curso no reino dos antigos czares.

No seu livro “Reinventar a Democracia”, Manuel de Arriaga,  propõe uma outra analogia. O economista, gestor e professor na Universidade de Nova Iorque, aponta a edificação como um ícone figurativo da realidade política dos nossos tempos: o interesse público terá de identificar e incorporar o reconhecimento de que a realidade comporta em si diferentes ritmos e diferentes temporalidades. Tal como a movimentação dos elementos móveis está relacionada entre si igualmente o sucesso prático das decisões políticas passa pelo entendimento que os interesses a curto prazo têm de se encadear e basear nos de longo prazo. Ora o maior problema dos nossos políticos e decisores públicos passa, precisamente, pelo foco no imediato esquecendo as opções estruturais de visão mais alargada e de horizonte mais longíquo. Trepam até à esfera da Torre e, uma vez ali chegados, esquecem todo o resto do sistema preocupados em manterem a sua posição junto do centro emissor, independentemente da necessidade de conceber, produzir, aprimorar e operacionalizar as decisões e ações necessárias ao efetivo benefício público.
Esta atitude, embora errada, nem sequer nos é estranha. Afinal mais facilmente tentamos evitar um cumprimento de alguém constipado, com receio de contágio no imediato, do que deixamos de fumar, sabendo que os riscos de cancro de pulmão, a longo prazo, são reais e muito mais graves.

O LEMA DO HOMEM ARANHA

O Homem Aranha apareceu, pela primeira vez na revista Amazing Fantasy publicada nos Estados Unidos a 15 de agosto de 1962. Logo no primeiro episódio enunciava o seu lema: “with great power there must also come great responsibility” (Com um grande poder vem também uma grande responsabilidade). Essa sua divisa levou-o a altos voos. Seguramente maiores que os proporcionados pelos tirantes que lhe saltavam dos punhos após um leve do dedo anelar. As correias elásticas e super-resistentes permitiram-lhe saltar entre o topo dos arranha-céus dos locais onde exercia a sua atividade em prol da justiça. A máxima que o lidera permitiu-lhe o reconhecimento público, o apreço dos leitores e a glorificação entre os míticos heróis da Marvel com consagração nos estúdios de Hollywood
Altos voos requerem altos compromissos. É natural. Foi assim com o Homem Aranha e nada de relevante, a este nível, mudou, mais de meio-século depois. Numa altura em que tanto se fala de ética seria bom olhar para este “exemplo” que vários gurus e manuais sobre moralidade referem e apontam como um pilar do ideário normativo de todos os que devem, pela sua atividade ou poder, reger a sua vida por principios de elevado valor deontológicos.

Qualquer um que se proponha governar, em nome da comunidade que pretende representar, direitos e recursos comuns tem de elevar a fasquia comportamental ao nível correspondente e mantê-la lá, de forma estável e não permitir a sua flutuação ao sabor das conveniências.
É conhecido e reconhecido (porque muitas vezes lembrado e repetido, tantas quantas as oportunas) o lema de que o que é feito ao nível local é melhor, mais eficaz e com menores custos. É esse o racional que está por trás da reclamada (e justa, diga-se) descentralização do poder público. É esse o preceito que suporta princípio da subsidiariedade que garante que só deve passar para um nível superior o que não puder ser feito bem a um inferior. Vem isto a propósito da recente determinação impositiva, como deve ser, de obrigar à limpeza das matas que circundam as povoações e que são, sem qualquer margem para dúvida, o melhor anel de defesa contra os terríveis fogos de verão, cada vez mais perigosos e fatais. Ora aí está uma atividade que facilmente se credita ao poder local, no balanço do deve e haver da subsidiariedade. E contudo assistimos, perplexos, a uma reação unânime de recusa dos autarcas para esta tarefa. Que não há tempo e que não têm meios. A perplexidade começa pela unanimidade. Haverá certamente casos mais difíceis e complexos. Mas não há a menor dúvida que os há simples e óbvios. Então porquê a recusa imediata e sindicalizada? É perfeitamente credível que os custos da operação sejam elevados. Cuidado portanto com o efeito bumerangue: todos estão lembrados de ouvir os eleitos municipais garantir que os empreendimentos, localmente são feitos melhor, mais rapidamente a a mais baixo preço. Portanto se os mesmos garantem que esta tarefa, se autárquica, é complexa, morosa e cara... imagine-se como será, feita centralmente! E contudo é algo que TEM DE SER FEITO!

É certo que o ministro ao recomendar o corte nas festas e romarias estava a ser demagógico e populista. Mas isso não se combate com mais do mesmo. Não basta “denunciar” o ministro. Não chega dizer que não existem meios. Se os programas das festas e das feiras da moda, continuarem sem qualquer corte significativo, desaparece toda a moralidade para acusar o ministro!

 

 

QUAL FACEBOOK?

Passado o túnel do Marão é num ápice que se ultrapassa Vila Real e começa a haver condições para sintonizar as rádios locais do Nordeste. Motiva-me a curiosidade sobre as notícias locais, ditas em primeira mão, com entrevistas no local com os protagonistas. É uma forma de continuar a alimentar as raízes, sedentas da cultura materna, seja pela revisita das tradições, seja pelo doce sabor do som do linguajar local. Mas não só. Entre os vários programas radiofónicos que preenchem o espaço hertziano há os que, diferençando-se entre si por alguns pormenores e estilos, obedecem a um padrão que me remete para os meus tempos de infância – o dos discos pedidos. Nessa altura ouvia com atenção e curiosidade as preferências de ouvintes distantes, tão anónimos como o próprio locutor, mas com que, naturalmente, mais me identificava. Os que hoje nos são oferecidos pelas diferentes Rádios Locais são muito mais que isso e vão mais longe. Sem grandes exceções os participantes são repetentes, usuários habituais deste espaço público, conhecem o locutor (mesmo que se adivinhe um conhecimento especial, sobretudo baseado na voz) e conhecem-se igualmente entre si.
– Então como está? Já melhorou da gripe? Tenha cuidado que o frio anda por aí e se apanha um resfriado ainda acaba com uma pneumonia e isso pode ser-lhe fatal.
– Ai credo, nem me diga tal coisa. Mas olhe que eu agasalho-me bem. Você já sabe que comigo o frio não quer nada.
– Sei, sei. E qual é a música para hoje?
– Hoje a escolha é sua. É a que você quiser...
– Ai eu é que escolho? E como sabe que é essa que quer? Bom, mas diga lá então a quem é dedicada.
Lá vem um enorme rol de amigos, conhecidos, familiares e outros. Não raramente termina com “ e para todos os ouvintes” fechando o círculo universal e que, aparentemente, inutilizaria a anterior “indispensável descrição”. Mas também há lugar a ralhetes, recados e acusações.
– Olhe, também quero mandar uma saudação para o senhor Zeferino. Ele falou há pouco para aí e não disse nada para mim. Não me nomeou e eu nunca me esqueço de falar nele.
E ainda, frequentemente, por parte do locutor, uma “necessária” separação de águas.
– Olhe ti’António...
– António, só. Trate-me apenas por António. Isso dos tios é de outro programa e de outra rádio e eu não quero confusões!
Não posso deixar de estabelecer um paralelo com as redes sociais tanto em voga agora e usadas preferencialmente pelas camadas mais jovens embora haja uma participação, cada vez maior, de outras faixas etárias. No caso destes programas, pressente-se pela voz, discurso e conteúdo, uma pirâmide de forma invertida à anterior. Mas no resto são mais as semelhanças que as diferenças. É verdade que uma se baseia na escrita e na imagem e a outra é exclusivamente baseada na palavra. Mas em tudo o resto são semelhantes: Uma lista grande de amigos, alguns encontrados e conhecidos neste espaço restrito; a frequência da plataforma com regularidade; o convite para a partilha de pensamentos, de estados de alma; a descrição com ou sem pormenores da última ou da próxima refeição. Numa das edições recentes uma belíssima voz feminina entoou, à capela, um hino à sua aldeia. Encantador. O facebook não faria melhor. Merecedora, sem dúvida de um “like”! Gesto que no caso da rádio passa pela vontade a concretizar de ouvir o programa, de novo, que as vicissitudes da vida me permitam regressar ao Nordeste e logo que ultrapasse a luz ao fundo do túnel do Marão ou que comece a descer da Guarda para Celorico. Os próprios modelos de negócio são semelhantes. Quer um quer outro têm o seu sustentáculo económico na publicidade associada que vendem e que é proporcional ao número de pessoas que os vêm ou ouvem.
De regresso a Lisboa e pensando já nesta crónica para o Jornal Nordeste interrogava-me como seria a audiodescrição das interações entre os utentes do Facebook. Fazendo as necessárias alterações e que passam pela substituição óbvias das fotografias pessoais, recolhidas na internet ou pedidas emprestadas a amigos, pelas canções dos artistas preferidos, gravações de um grupo regional ou mesmo executando-a pessoalmente e em direto e substituindo o acesso à internet e à respetiva plataforma, pelo telefonema para o locutor de serviço,  não encontraria melhor exemplo que o destes encantadores e úteis programas característicos das nossas rádios locais.

ESTOU CERTO OU ESTOU ERRADO?

Na novela “Roque Santeiro” da segunda metado dos anos oitenta do século passado, Sinhozinho Malta, interpretado por Lima Duarte, tinha um bordão que ficou célebre: com um pequeno abanão, puxava o relógio e algumas pulseiras de ouro para o pulso que erguia, agitando os adereços perguntava enfaticamente – Estou certo ou estou errado? Embora a resposta induzida e por ele esperada fosse obviamente de concordância, o certo é que, precisamente, na maioria dos casos a resposta correcta e fundamentada deveria ser: – Está errado!
Assim acontece tantas vezes não só porque a simples resposta pode ser redutora como ainda porque, muitas vezes, a análise detalhada dos componentes que a enformam pode, com alguma facilidade, induzir precisamente o caminho oposto. Enquanto que o certo traduz uma situação de total conformidade já o errado pode encerrar vários graus de divergência pelo que a sua simples evocação ou aplicação não evidencia os vários graus de divergência com distâncias distintas à solução acertada. Se não vejamos. Se for pedido a alguém que soletre a “chave” e a resposta for c-h-a-v-e será obviamente classificada como estando certa. Qualquer outra resposta estará errada. Não só a resposta d-i-b-x-f como e-j-c-y-g e também x-a-b-e. Contudo o erro não é, seguramente, o mesmo pois apesar de estar errada esta última parece mais próxima da resposta verdadeira. Porque a fonética das duas palavras “chave” e “xabe” são muito parecidas, podendo inclusivé ser facilmente confundidas ao ouvi-las. E, contudo, numa ótica de mera codificação, qualquer uma das outras facilmente se converte na solução esperada já que no primeiro caso basta procurar, para cada letra, a letra anterior no alfabeto e no segundo a segunda letra anterior. De qualquer forma apenas uma resposta é verdadeira e todas as restantes são falsas.
Vejamos agora uma pequena história onde se pode igualmente procurar algum ensinamento adicional sobre este mesmo tema.
O Presidente da Câmara, nesse dia, resolveu ir visitar as obras municipais e fez-se acompanhar do vice e de dois estagiários que o IEFP tinha colocado no município. Um deles deveria ser selecionado para integrar o quadro no departamento de Obras e Projetos. Fizeram uma paragem na Praça Central onde se ultimavam os trabalho da nova torre. – Agora só falta colocar, no topo, um pára-raios que servirá de antena. É preciso encomendá-la. – Pois. Mas é preciso determinar o seu tamanho. – Ah, isso é fácil. A distância da ponta ao solo tem de ser oito metros. Basta subtrair a esse valor o da altura atual da torre. Algum dos dois estagiários me saberá dizer quanto é é que mede?
Foi tomar um café com o vice e, no regresso indagou junto dos dois jovens qual a opinião deles sobre a real dimensão da torre. – Sete metros – diz um deles, o Manuel – mais ou menos! – Seis metros e oitenta – diz o outro, o João.
De volta aos Paços do Concelho perguntou ao vice: – Então o que achas? – O João acertou em cheio! – Pois acertou, mas quem fica com o lugar é o Manuel.
E com razão. Efetivamente o valor correto é o apontado pelo João que o obteve, do projetista da Câmara de quem é amigo e a quem perguntou por SMS. O Presidente observou isso sentado na esplanada e também viu que o número avançado pelo Manuel resultou da medida da sombra da torre, medida em passos e que depois comparou com a sua própria sombra. Não estando certo estava seguro de que o valor teria aquela ordem de grandeza e que se fosse necessário chegaria, pelos seus próprios meios ao valor exato se tivesse acesso aos meios de medida adequados.
Neste caso especial, andou bem o autarca!

QUEM CABRAS NÃO TEM (Evite matar a galinha)

O título desta minha crónica parece ser um nonsense, contudo há uma lógica para o mesmo que a seguir demosntrarei. O provérbio “quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem” ficou famoso como justificação de uma decisão judicial no processo Sócrates, no caso, se a memória não me atraiçoa, para a manutenção da prisão preventiva em Évora. Não havendo naquela data provas sobre a sua culpa, havia, segundo o ministério público, indícios suficientes, que sustentavam a sua tese. Contudo, essa “regra” de tempos idos, começa a perder razão e força, nos tempos modernos. Em crónica recente dei conta que quem mais alojamentos “vende” na internet é a AirBnB que não tem nenhuma casa. E é a Uber, que não tem nenhum carro, quem mais fatura no serviço de transporte individual. Poderia citar outros exemplos mas o que hoje importa referir é o caso da energia em que esta situação é ainda mais evidente e peculiar. Há, inclusivamente um novo termo para caracterizar o novo cliente energético: o prosumer. O vocábulo, de origem britânica junta os dois conceitos de produtor (prodicer) e consumidor (consumer). A atual tecnologia permite inclusivamente que seja possível vender energia, sem a produzir. Vejamos como:
Tomemos para exemplo um cliente de energia igualmente que seja também possuidor de um carro elétrico. Estas viaturas atualmente têm baterias que lhes permitem armazenar energia para viagens de distâncias consideráveis! Ora, como é sabido, a viatura particular é, no dia a dia, usada, essencialmente para ir até ao trabalho e regressar. Seguramente usará muito menos que um quarto da energia acumulada na ida e outro tanto no regresso, deixando assim disponível mais de meio depósito... que o feliz contemplado poder vender à empresa onde trabalha. E o que ganharia ele com isso? Ganha ele e a empresa. E todos nós!
A energia elétrica tem preços diferentes segundo as várias horas do dia. É mais barata à noite, mais cara durante o dia e ainda mais durante o período do meio dia que é quando há mais consumo. É mais cara porque a procura é maior e isso chegaria. Mas não só. A produção de base de energia está ajustada ao consumo médio. Os picos de procura são satisfeitos com importação, por um lado, e, por outro, recorrendo a centrais térmicas que usando hidrocarbonetos, produzem energia com um custo mais elevado e com muito maior poluição, libertando várias toneladas de CO2. Como a carga dos carros elétricos se faz durante a noite, quando a energia é barata, é possível entregá-la na hora de ponta a um valor mais elevado e, mesmo assim, menor que o cobrado pelas operadoras energéticas. Todos ganham e o ambiente também!
Vamos agora à galinha que, obviamente, se refere a outro refrão popular, nomeadamente a dos ovos de ouro. E porquê? Porque este novo negócio (em que já há várias empresas a iniciar a exploração) baseia-se na realidade de que a há uma diferença de preço por causa das exigências de consumo. A exploração desse diferencial vem, precisamente, diminuir essa diferença. Em última análise se este negócio for muito bem sucedido e toda a necessidade de energia adicional for compensada por energia armazenada a baixo custo... deixa de fazer sentido pagá-la mais cara pois a situação passa a ser uniforme. Ou seja, quanto maior for o sucesso deste novo negócio, maior é a ameaça que sobre ele paira!
Mas o caminho é esse. Um caminho estreito, pois necessita de um elevado grau de equilíbrio: tal como a galinha que, enquanto enriquecia o seu dono, tinha de recear pela sua vida por causa da possível ganância do mesmo.