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Cultivo de cereais na gestão da caça – o segredo

Nas Zonas de Caça (ZC) da nossa região poderemos ter mais perdizes, lebres e coelhos, tal como acontece na maior parte das ZC da Beira Baixa, Alentejo e Algarve? Claro que sim! Bastará que se juntem interesses e vontades. Certamente que já todos olhámos para alguns dos nossos terrenos percebendo a impossibilidade de cultivo, com solos delgados e pedras a seguir a fragas, pedregulhos e pedregulhos num caos telúrico, de xisto ou granito, vegetação raquítica ou uma imensidão de giestas e estevas, declives que não permitem a mecanização… em tempos de miséria e fome, quando as famílias rurais tinham “ranchos” de filhos, eram cultivados com centeio, cavados “à unha” ou com recurso a tração animal! Agora, aparentemente, estes terrenos são improduti- vos e inúteis! Não é verdade – além da beleza cénica, gratuita e ao dispor de todos, também podem produzir caça e gerar riqueza! Como? Pois… e agora como se explica isto? Vejamos! Antes de mais, é necessário compreender a ocupação cultural do território, conjugando-a com os fatores limitantes de cada espécie, para se avaliarem as potencialidades em termos de gestão cinegética. É por demais evidente que se uma zona está ocupada com manchas contínuas de culturas arbóreas, como olivais, amendoais, soutos ou povoamentos florestais, naturalmente não terá aptidão para perdizes e codornizes. Pelo contrário, se o espaço apresenta um mosaico diversificado de vegetação com diferentes estratos, então terá capacidade de suporte para essas aves galiformes. Já para a caça maior, o habitat deverá ter um coberto vegetal suficientemente fechado. Ou seja, as características biofísicas do território são determinantes para o sucesso biológico dos diferentes organismos em presença. O “segredo” da gestão de ZC, quanto à caça menor, é tão simples que até parece mentira…! Resume-se a uma coisa muito fácil – atividade humana que mantenha o mo- saico típico do sistema tradicional de rotação de sequeiro cereal-pousio-pousio-cereal [“fórmula” bem conhecida de quem tenha usado as sebentas de Culturas Arvenses do ensino agrícola!] … mas, atenção, também será preci- so considerar que mudanças, mesmo subtis, nos ecossistemas provocam flutuações naturais nas populações das espécies que pretendemos fomentar… Mas o que terá assim de tão especial o cultivo de cereais para a caça menor? Pois bem, aquilo é um “mundo” de biodiversidade, desde sementes e plantas adventícias, até à enorme parafernália de insetos fitófagos e não só, rastejantes, voadores e saltadores, que é como quem diz: formigas, gafanhotos, moscas, mosquitos, traças, aranhas e muitos mais…! E tudo isto constitui alimento de excelência para os juvenis e adultos da avifauna, em geral, e dos leporídeos, como o coelho e a lebre. Além disso, as culturas arvenses proporcionam uma excelente cortina de proteção visual relativamente a predadores mamíferos e alados, daí a extraordinária apetência da codorniz em desenvolver o seu ciclo de vida, especialmente a nidificação e reprodução, no interior da densa vegetação duma seara. Pode afirmar-se que os ciclos longos dos cereais de pragana (centeio, trigo, cevada e outros) estão profundamente ligados ao esquema de vida da perdiz e da codorniz. O mesmo não se dirá dos cereais de ciclo curto, como o da aveia, que poderão ser mais prejudiciais do que benéficos, visto que, normalmente, são colhidos para forragem por volta de maio, época de plena nidificação das espécies referidas. Então, o que oferece uma seara com culturas de Outono-Inverno? Quando se “mexe” na terra, com uma lavoura ligeira, aparecem sementes de plantas espontâneas que atraem as galiformes bravias; de seguida, a própria semente do que vamos cultivar é também apetecível para essas aves; quando o cereal nasce, as plântulas são “pastadas”, preferencialmente na orla desses campos cultivados; à medida que vai ganhando altura e a primavera avança, surgem os insetos, especialmente formigas e gafanhotos, e fica o abrigo; no final, temos as espigas com semente. Portanto, um campo de cereal não serve apenas para fornecer grão, mas sim alimento diverso e abrigo ao longo dos nove ou dez meses em que ocupa o solo e até quando fica o restolho… se, entretanto, não for cortado e colhido, tanto melhor! [Por esta razão, veja-se como é redutor e limitado pensar resolver o “problema” das perdizes com a colocação de alimentadores, que apenas disponibilizam grão…!] Tudo isto deverá ser com- plementado com culturas de Primavera-Verão, leguminosas como o feijão-frade, e/ou milho, sorgo, painço, etc. … interessa cultivar parcelas, de preferência com forma retan- gular (com recortes e reentrâncias), já que, das diferentes figuras geométricas possíveis, o retângulo (sobre o comprido) é a que consegue maior perímetro e, por isso, maior efeito de orla. Por outro lado, estas parcelas também constituem faixas de gestão da biomassa combustível, con- tribuindo para diminuição da intensidade ou da progressão de eventuais incêndios rurais. Naturalmente, será sempre nas imediações desses cam- pos cultivados que as perdizes se irão fixar no momento da dispersão para acasalamento e a presença de codornizes no terreno irá depender da existência da maior ou menor área cerealífera; acontecerá ainda a fixação das rolas, que “sentirão” a existência de grão no tempo próprio e também os coelhos e lebres revelam especial gosto pelo consumo, em verde, destas gramíneas. Em síntese: • As potencialidades da região transmontana são inquestionáveis; se tivermos cereais no terreno certamente os resultados aparecem! • O nosso património genético, natural e bravio, merece ser preservado, por ser único e já raro nalgumas regiões da Península Ibérica. • A Gestão Cinegética ra- cional e sustentada favorece a biodiversidade, potenciando o conservacionismo e o turismo de natureza. [Ora muito bem… guarde- mos absoluto segredo disto, não vão os malandros dos caçadores perceber como podem fazer boa gestão do território e conseguirem mais perdizes, coelhos e lebres para abaterem…!]

Agostinho Beça

V Congresso Regional. Para quê e como?

No dia 28 de outubro de 2023, a casa de Trás-os-Montes e Alto Douro deu em Mogadouro o primeiro passo para a eventual realização do V Congresso Transmontano, com a ideia de debater a regionalização. Uma preocupação inicial é a da representatividade para a realização de um congresso que se deve agregar de forma representativa toda a região, sabendo-se que a união faz a força! Temos de compreender qual a razão de ser da realização de um congresso regional, clarificar o caminho a percorrer e como fazê-lo. A concretização de um congresso regional é complexa e exigente, caso se pretenda transformá-lo num momento de união, de atores regionais dos setores de atividade mais representativos, e mobilizar a região para novos desafios. Sempre foi difícil a realização dos congressos regionais, por razões de conjuntura socio-política, económica, pessoais ou políticas. Vejamos o que aconteceu nos anteriores congressos e façamos um esforço de aprendizagem para superar dificuldades de cooperação, num momento em que a antiga Província de Trás-os-Montes e Alto Douro se encontra mais desgregada. O I Congresso Transmontano realizou-se de 7 a 16 de setembro de 1920, sob a responsabilidade do Clube Transmontano. A primeira iniciativa para realização do I Congresso Transmontano, ocorreu no ano de 1916, pelo Dr. Nuno Simões, na altura um jovem de 22 anos e governador civil de Vila Real. Dificuldades relacionadas com a falta de adesão, escassez de recursos e à entrada de Portugal na I Grande Guerra, levaram ao adiamento do Congresso. O ambiente deste congresso foi marcado pelo fervor regionalista. Na imprensa encontramos títulos como “Transmontanos, todos de pé e por Trás-os-Montes!”, ou “o congresso transmontano foi um verdadeiro trabalho de civilização e progresso … Quando há que tratar e estudar no interesse de todos! Precisamos de procurar na vida regional uma correção aos desmandos do organismo central.” O II Congresso, realizou-se 21 anos depois, do I Congresso, após duas tentativas falhadas no meio de lutas partidárias, a que se referiu Carlos Sá Alves, nos seguintes termos “Será desta vez? (…) não pode haver dúvidas que desta vez é. E se é, também nós seremos, porque somos bons portugueses e bons transmontanos.” A terceira tentativa de realização do II Congresso, ocorreu a 6 de fevereiro de 1941, em Lisboa, na Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro, em reunião presidida pelo bragançano Domingos Ferreira Deusdado, Ferreira Deusdado presidiu ao Congresso, afirmando que deveria ser de todos os transmontanos e que tinha como objetivo “… estudar em várias teses as necessidades vitais e urgentes da província para que os seus governadores consigam do poder central a sua imediata realização, aproveitando os trabalhos já apresentados no I Congresso.” Numa das sessões de propaganda do congresso realizada no Porto, o freixenista, Adriano Rodrigues, catedrático da FEUP, foi vice-reitor e reitor da Universidade do Porto, referiu “… é preciso cuidar das províncias, animar a vida municipal e regional, descentralizar a administração, criar responsabilidades e orgulhos, estimular iniciativas fecundas, não confiando a Lisboa a resolução de tudo.” A realização do III Congresso foi antecedida de sete tentativas. A primeira ocor- reu no ano de 1981, por iniciativa da CTMAD de Lisboa, reuniu em Carrazeda de Ansiães os governadores civis de Bragança, Vila Real e Guarda, a Comissão de Coordenação Regional, as Comissões Regionais de Turismo e outras entidades. A sétima tentativa decorreu em 2000, previa a realização do Congresso em Mirandela, e também fracassou, foram duas décadas, em que o esforço da cidadania foi contaminado pela ambição pessoal e pela interferência político partidária. No ano de 2002, sob a liderança política, administrativa e financeira da Associação de Municípios de Trás-os-Montes e Alto Douro (AMTAD), decorreu o III Congresso, realizado de 26 a 28 de setembro de 2002, passados 61 anos sobre a realização do II. A Assembleia Intermunicipal votou por unanimidade todas as orientações necessárias à realização do Congresso, que decorreu na cidade de Bragança, local escolhido mediante concurso aberto a todos os 36 municípios asso- ciados. “Rumo à Modernidade” foi o lema do Congresso. Referi, na sessão de abertura, “… trata-se de um congresso vol- tado para o futuro, e não de um congresso voltado para o passado (…) um congresso de afirmação da cidadania dos transmontanos, a luta pela afirmação e modernidade da região, assente numa estratégia de desenvolvimento sustentado e na convergência de boas vontades pessoais e institucionais” Amadeu Ferreira na comunicação com o título “Quem Somos”, disse, “Um congresso para que? Para dizer que existimos, certamente, mas sobretudo para dizer que não nos resignamos (…) e este congresso deve ser um grito e não um muro de lamentações.” (…) É altura de o Estado cumprir com Trás-os-Montes e Alto Douro e saldar a sua dívida. Estamos a falar de direitos, não estamos a falar de esmolas. E os direitos exigem-se, não se pedem.” O extrato destas duas intervenções pode muito bem sintetizar a orientação do Congresso. O IV Congresso Transmontano decorreu nos dias 25 a 27 de maio de 2018, no pavilhão do Conhecimento em Lisboa, sob o lema “Agir no presente, alcançar o futuro”. Foi organizado pela Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro, sem nenhuma entida- de da região ligada à organização. Foi também o primeiro que decorreu fora da região, com a justificação de se tratar de terreno neutro sob o ponto de vista político, quebrando a regra dos anteriores: o de ser feito na região e todos foram realizados no mês de setembro. Foi presidido pelo presidente da CTMAD, Dr. Hirondino Isaías. V Congresso, para quê e como? a reflexão necessária, para o que faço duas considerações prévias, uma sugestão e um apelo, no sentido de serem feitos aperfeiçoamentos à iniciativa da Casa de Trás-os-Montes, no sentido de a iniciativa não fracassar, ou ter pouco interesse para a região. A primeira, é a de destacar a enorme evolução da região ao longo de um século, em particular após o 25 de Abril de 1974. Hoje dispomos de uma moderna rede de estradas; um bom sistema de saúde pú- blica; instituições de ensino superior, centros de investigação e de tecnologia que são uma âncora do desenvolvimento; uma rede social com respostas em todas as valências; melhores serviços; uma boa rede de equipamentos culturais. Ativos poderosos na luta por um futuro melhor. A segunda, é a de que, apesar do muito que foi conquistado, nos confrontamos com novas grandes fragilidades e desafios, destaco três: i) Abalo demográfico, em que, desde a década de sessenta se regista a perda de cerca de 50% da população, com impacto na força de trabalho, na produtividade, na criação de riqueza e na desigualdade intergeracional; ii) O Centralismo que enfraquece a qualidade das lideranças regionais, nas instituições públicas, nas empresas, no movimento associativo. Acentua assimetrias, o abandono do território, o despovoamento, e o empobrecimento do Interior, que tem perdido representação e voz, no governo, no parlamento e nos partidos, sendo urgente reconquistar o poder da palavra; iii) A crise climática que nos confronta com a urgência da transição para a economia verde e do conhecimento, na qual devemos ganhar maior atratividade e competitividade. É necessário acelerar em particular no investimento industrial e agrícola, para a economia do futuro, de mãos dadas com centros de conhecimento, de inovação e de tecnologia, mais avançados e alinhados no combate às alterações climáticas. Neste contexto, a sugestão é a de que, o V Congresso, possa ter como foco: “Desafios e soluções contra o despovoamento e as alterações climáticas”. O foco da regionalização, no presente não une a região, ainda que o tema deve ser debatido. Nesta nova perspetiva podem caber temas que agreguem todos os atores regionais, como: Reversão do abalo demográfico em TM; Agricultura do futuro e os recursos hídricos na região; Centros de conhecimento e de Tecnologia; Desafios para a descarbonização da economia e a industrialização; A criação da NUT II Trás-os-Montes e Alto Douro e investimentos territoriais integrados; Regiões Administrativas. Portugal é no conjunto dos países da OCDE, um dos mais centralistas, o que tem menor despesa pública e menor emprego a nível subnacional. O apelo é de união, à volta de uma iniciativa na qual a região se reveja na preparação, organização, realização e conclusões do Congresso, envolvendo todos os eleitos em particular os presidentes de Câmara Municipal que devem ter uma iniciativa pró-ativa, envolvendo o sistema de ensino e de saúde, a rede social, o setor associativo e empresarial, o setor agrícola e florestal, imprensa e cidadãos, juntos numa Comissão Promotora, que tomará as principais orientações, sendo a execução assegurada por uma Comissão Executiva, seguindo o que foi a solução de organização do III Congresso. São grandes os desafios, muita a esperança. Caminhamos em frente, no caminho traçado por gerações que nele inscreveram as suas pegadas, aperfeiçoando-o no seu traçado e construção, rumo a um futuro mais seguro e melhor para as gerações vindouras. É oportuno citar um antigo pro- vérbio “Se queres ir depressa vai sozinho, se queres ir longe vai com companhia”.

PERFEITO PRETÉRITO IMPERFEIRO

Sob um título aparentemente paradoxal (é perfeito ao declarar-se imperfeito), António Pinelo Tiza brindou-nos com um livro de contos notável. Em “Pretérito Imperfeito” o autor cumpre, na perfeição, o objetivo anunciado na contracapa e, com a qualidade, conhecimento e rigor que lhe são conhecidos e justamente creditados, descreve um passado que, sendo recente, é igualmente milenar e se projeta para o futuro onde se pretende que mantenha a riqueza das tradições que marcam a nossa natureza. São conhecidos os vários trabalhos do António Tiza nos quais tem vindo a verter o seu vasto conhecimento, profundo, sério e fundado numa pesquisa sã e competente dos largos anos que leva de estudo das tradições nordestinas e das suas ramificações do lado de lá da raia. Em todos ficou a marca de qualidade que o autor de Varge não dispensa. Nesta coletânea, mantendo a sua “marca de água”, brinda-nos com um périplo por todo o Nordeste descrevendo, pormenorizadamente as regras ancestrais das várias, variadas e ricas tradições de cada uma das micro-regiões que constituem o mosaico nordestino, recorrendo ao profundo conhecimento recolhido nos seus múltiplos trabalhos de campo. A importância desta publicação vai muito para além do inquestionável valor literário. Trata-se de um documento, para memória futura, de variados usos, costumes, crenças, festas e ritos que povoam o imaginário da nossa gente, que lhes ocupam e condicionam a vida, sobretudo nos períodos de mudança, seja de estação, de ciclo anual ou de condição de vida, sobretudo os festejos da chegada à vida adulta em que o autor é um reconhecido especialista. Ao relato competente e, não raro, visto do interior do grupo pelos olhos quer dos mais conhecedores e experientes, quer dos novos e iniciados, acresce a ficção, em dose adequada, enriquecendo o relato, tornando a sua leitura mais agradável e, inevitavelmente, alargando o público leitor. Com esta obra, o conhecido etnólogo, estabelece uma marca de consulta obrigatório para quantos pretendam conhecer com profundidade os costumes ancestrais, as suas regras, as suas raízes e a forma como, ao longo dos séculos, as diferentes comunidades souberam preservá-las e, sobretudo, adaptá-las e compatibilizá-las com a grande e profunda religiosidade que igualmente as marca e condiciona. O leitor é ainda brindado com a ficção com que o autor embrulha, com mestria, o legado etnográfico, à mistura com receitas tradicionais tão secretas e laboriosas como a da Amêndoa Coberta de Moncorvo, às mais conhecidas e populares como o galo estufado no pote, da D. Maria e outras que ainda hoje fazem parte da mesa nordestina quotidiana, seja nas casas particulares seja em qualquer dos vários restaurantes regionais, razão, mais que suficiente para entregar ao competente e sabedor gastrónomo Virgílio Gomes, a apresentação da obra, na capital. Como beneficiário, não só na qualidade de leitor mas também de escritor, deixo público agradecimento ao escritor cuja amizade, contando já mais de meio-século, começou no Seminário Maior de S. José, onde o Tiza se dedicava aos estudos teológicos enquanto eu apenas me iniciava no das humanidades.

Por entre pântanos e pantanais

Portugal é um país es- tagnado, atolado em graves e variados pro- blemas, por mais que António Costa e Fernando Medina es- bracejem. Tanto que o governo dá mostras de não saber como salvar o Serviço Nacional de Saúde, resolver a crise habitacional, ultrapassar a falta de médicos e de professores, aplicar os dinheiros dos Pla- nos de Recuperação e Resi- liência, vender ou não vender a TAP, construir o novo aero- porto de Lisboa a sul ou norte do Tejo, etc., etc., etc. Problemas que configuram um verdadeiro pantanal polí- tico e governativo em que António Costa afundou Portugal. Mais ainda do que quando o então primeiro ministro António Guterres se demitiu do cargo, em 2001, na sequência dos maus resultados obtidos pelo seu partido nas eleições autárquicas desse mesmo ano. Demissão que o desafor- tunado secretário geral das ONU, que então acumulava o cargo de primeiro-ministro do XIV Governo Constitucio- nal com o de secretário-geral do PS, justificou dizendo que seria para evitar que o país caísse, inevitavelmente, num “pântano político”, donde se inferia que ele próprio admi- tia ser fautor da crise. Gesto nobre, em qualquer caso, esse, de António Guter- res. Ainda assim, mal sonhava ele, por certo, que fugia de um pântano para mais tarde se ver a braços com outro ainda maior, que é a actual situação mundial, relativamente ao qual a política nacional pouco mais é que um charco onde continuam a cantar e a bailar, alegremente, cobras, sapos e outros répteis menores. Acresce que se António Gu- terres, com essa sua lendária demissão, não conseguiu sanar, como terá pretendido, o pântano português de então, que acabaria por se transfor- mar, com António Costa, num verdadeiro pantanal, muito menos tem ousado aclarar o pântano mundial que, até certo ponto, ainda mais tem aprofundado, como se tem visto a propósito do conflito entre o famigerado Hamas e Israel. Isto porque o mais lógico seria que, logo no início do conflito, tivesse o secretário geral das ONU voado para Tel Aviv, Teerão, Cairo, Catar e para onde mais interesse houvesse, para tentar acalmar os ânimos e encontrar possíveis soluções para o problema. Mas não: optou por ir lamentar-se para as portas de Gaza, reduzindo a ONU ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e arvorar-se, posteriormente, em injusto justiceiro, ao atribuir o pecado original a Israel o que, de certa forma, representou a absolvição do Hamas. Tratou-se, por certo de um lamentável acto falhado, quando o papel de secretario geral da ONU é eminente- mente político e diplomático. Tudo indicia, de facto, que o prestígio de António Guterres nas altas esferas é fraco, como consta e que ele próprio as- sumiu, à partida, que os actores principais do conflito não respeitariam minimamente o que ele viesse a dizer ou a fazer. Triste sina a de António Guterres. Talvez agora sim, se justifique que, face ao que acontece em Gaza e na Ucrânia, António Guterres repita o seu nobre gesto de 2001 em Portugal, e apresente a sua demissão de secretário geral das ONU. Talvez tal gesto leve os donos do mundo a pensar mais seriamente nas maldades que estão a causar à Humanidade e dos perigos a que eles próprios se expõem. Mas, voltando ao pequeno Portugal, havemos de concluir que o pântano a que António Guterres se referiu em 2001, tudo tem a ver com o pantanal em que António Costa está a atolar Portugal, porquanto o actual primeiro- -ministro foi ministro da Justiça e ministro dos Assuntos Parlamentares de António Guterres, e os dossiers de então continuam em aberto. Muito embora se trate de personalidades completamente distintas, justiça seja feita. De verdadeiramente novo apenas, é que no pantanal de António Costa, para lá das habituais cobras e sapos também proliferam agora ratos e baratas. Parece ridículo, mas é verdade. É o que se deduz de uma nota em que o diretor do Laboratório Nacional do Medicamento, cito o semanário Expresso, dá conta da interrupção das ações de desbaratização e desratização, porque deixou de ter gente suficiente para proceder às desinfestações preventivas de pragas de insectos e ratos. Enfim. Por entre pântanos e pantanais lá vai Portugal so- brevivendo. Até quando nin- guém sabe. Não é para rir. É para chorar.

Que bonitos os cemitérios nestes dias

Aqueles de entre nós que receberam uma verdadeira educação católica, identificam-se de imediato nos primeiros dias de novembro. Sabem a quem são dedicados, sabem dessa vocação bem específica. Para os outros, estes dias são marcados por reuniões em família, pelo halloween dos filhos e uma volta pelo cemitério por vezes. Os cemitérios nunca estão tão bonitos como nestes dias. Ao longo do ano, quando uma campa resplandece, submersa pelas coroas, pelos feixes de ramos, marca a chegada dum novo inquilino, duma nova residente. Através das flores escolhidas, das fitas que serpenteiam ainda sobre o papel transparente, não é difícil adivinhar quem veio juntar-se aos eternos. Um homem ou uma senhora, demasiado jovem, ou já não muito jovem, tendo deixado ou não o cônjuge, os pais, filhos, netos, colegas de trabalho, colegas de associação, de club. Mas o dia um de novembro, dia Santo, é um feriado que facilita os encontros à volta das campas da família, é o cemitério na sua totalidade que resplandece, e no brilho dos crisântemos, todos os mortos pertencem à mesma vasta morada, às mesmas unidades de medida. Mortos de ontem ou de outrora, estão ali todos, onde nos conduz qualquer que seja a vida que tenhamos. A sua companhia faz-nos bem, eleva-nos. O tempo deste encontro, largamente partilhado, nada que tenha a ver com o frenesim terrestre nos vem perturbar ou cansar. As vozes ajustam-se ao silêncio do lugar, apesar de haver sempre gente nos corredores. O ruído dos passos nos paralelos ou na gravilha, a água nos regadores, crianças que circulam e saltitam ou os vasos colocados sobre a pedra tumbal, não fazem barulho, ou pouco mais do que o amassar das folhas quando uma brisa de vento se levanta ou a canção duma mãe que embala uma criança. Os mortos nesse dia guiam os nossos passos e os nossos pensamentos. Efetivamente são eles que tratam de nós. Quando se aproximam estes primeiros dias de novembro, digo-me por vezes “nunca mais chega o dia”, sei que no cemitério posso contar com a aprazível e exigente vizinhança dos defuntos para enviar a uma espécie de insignificância tudo aquilo que me ocupa nos outros dias, mesmo aquilo que dá todo o sentido à minha vida. Perto dos túmulos, o mundo pode esperar. A administração, a casa, as compras, o email, os passeios, claramente. E a leitura, os amigos, a família, até as crianças. No dia dos mortos, ou digamos, no dia do cemitério, nada é urgente. Não quer dizer que nada mais conte para nós, ou a vida perderia todo o seu sentido! Quer dizer que nos recordamos, que esse dia, sabemos, que esse dia, a nossa vida é eterna. Que o amor é eterno. Que os que com carinho nos chamam frente a esta campa onde os depositámos, não nos abandonarão nunca. É mais fácil dizê-lo, mais fácil vivê-lo, quando são muitos os primeiros dias de novembro que nos levaram perto deles. Apesar de continuar viva a surpresa; um mês depois, um ano depois, dez anos depois, vinte anos depois. Olha- mos para os nomes, para as datas. Por vezes, há tão poucos anos – há tão poucos meses, dias mesmo!- entre a data de nascimento e a da partida, que os números nos apertam o coração. Como é possível, como é que continuámos a viver depois de nos termos afastado pela primeira vez desse cemitério ao qual, habitados por dores profundas e silêncios infinitos, confiámos alguns que tinham nascido para nos enterrar a nós mes- mos. Mas, quando foi há mui- to tempo, coabitávamos com estes mistérios, e aceitamos que os mesmos sejam demasiado grandes e complexos para nós. Quando foi ontem, por outro lado, quando a pedra está gravada de fresco, quando qualquer coisa em nós nos pergunta o que fazemos ali, ou seja, perto daqueles que estavam perto de nós, em todo o lado, o tempo todo… O dia, o momento que nessas primeiras horas de novembro queremos e o pode- mos organizar à volta duma visita ao cemitério é, no en- tanto, um momento precioso. É como uma festa de família alargada aos ausentes, sendo o poder que convida e que sabem poder contar com a nossa presença. No cemitério, estamos com eles, sabemos que nos amam e se, somente pudéssemos fazê-lo, dar-lhes-íamos muitos beijinhos.